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II. Abstract

5.2 What kind of institutional structures does the FCTR represent?

5.2.2 Developing conventions

Como vimos anteriormente, o inglês, o espanhol, o romeno e o PE fazem parte do conjunto de línguas que apresentam a chamada alternância dativa, pois possuem duas estruturas sintáticas para as suas sentenças ditransitivas - uma construção aplicativa (DOC) e outra preposicionada (PDC). Como discutido, na construção de objeto duplo em inglês, a preposição é nula. Já nas línguas românicas analisadas, a preposição que introduz o argumento indireto nas ditransitivas tem um estatuto funcional, pois a mesma é apenas marcadora de Caso dativo. Ademais, um fator fundamental para a argumentação da existência de um núcleo aplicativo nessas línguas é a presença do clítico dativo como núcleo da projeção aplicativa em espanhol e em romeno, e como alternativa ao argumento preposicionado em PE que se encontra, nessa variante, na posição de especificador do aplicativo. Dessa forma, assumo, com os respectivos autores, que o núcleo aplicativo nessas línguas tem necessariamente expressão morfológica através do seu respectivo clítico dativo (cf. Cuervo 2003; Diaconescu & Rivero 2006; Torres Morais 2007).

Como apontado na seção anterior, uma das bases de Armelin (2011) para a sua argumentação de que PB possui núcleo aplicativo baixo é o fato do argumento indireto com leitura semântica de alvo poder ser introduzido tanto pela preposição a como para. Além disso, nesses casos, a preposição pode ser nula na variante falada na zona da mata de Minas Gerais (cf. Scher 1996). Segundo Armelin (op. cit.), a preposição presente

53 nessas construções, seria apenas um marcador de Caso, como as preposições na outras línguas românicas mencionadas. Desse modo, a autora conclui que quando o argumento é introduzido por para, podendo alternar com a, em PB, um núcleo aplicativo é introduzido na sua estrutura argumental a fim de introduzir os dois argumentos da sentença ditransitiva, como mostrado anteriormente.

Assim, apesar da autora concordar que o PB não participa do fenômeno da alternância dativa, pois não possui dois tipos de estruturas ditransitivas em seu inventário – a DOC e a PDC – como as outras línguas apresentadas, discutirei com mais detalhes no último capítulo desta tese que a interpretação semântica das sentenças – fato também fundamental para que Armelin (op. cit.) assuma núcleos aplicativos em PB – pode ser depreendida através das preposições introdutoras de argumentos nessas sentenças, pois as mesmas são perfeitamente capazes de estabelecer a relação entre o OD e o OI presente nessas construções do PB.

Ademais, Armelin (op, cit.), não leva em consideração o fato do PB estar perdendo a expressão morfológica do núcleo aplicativo - o clítico dativo lhe(s). Como veremos no Capítulo 3, esta perda se confirma nos dados colhidos para esta tese. Assim, sabe-se que os falantes de PB vêm historicamente, como veremos com mais detalhes nos capítulos que se seguem, deixando de utilizar esse elemento como alternativa ao OI preposicionado. Novamente, esse fato assinala a perda das características morfológicas de caso dativo em PB (cf. Torres Morais & Berlinck 2006, Torres Morais 2007, Torres - Morais & Salles 2010, Torres - Morais 2012).

Além disso, em PB, ao contrário do PE, a preposição a deixou de ser ambígua entre marcadora de Caso dativo e preposição verdadeira, como veremos com mais detalhes ao analisar o corpus deste trabalho. Sendo assim, o OI em PB - independentemente da preposição que o introduz - é sempre um argumento preposicionado, expresso por meio de sintagmas preposicionais. Logo, essa variante perdeu todas as propriedades que caracterizam as construções aplicativas das outras línguas românicas, pois além perda do clítico dativo lhe, houve a perda da preposição dummy a. Em PB, portanto, tanto a preposição a como a preposição para podem denotar a mesma interpretação ao argumento indireto dos verbos de transferência, movimento e de criação, no caso, a interpretação de alvo/recipiente. Além disso, como bem notou Armelin (2011), a preposição para também pode denotar a interpretação ao OI de beneficiário. Assim, argumento no Capítulo 4 desta tese que é a própria

54 preposição - a ou para - que deve ser responsável por estabelecer a relação presente entre os dois argumentos internos das sentenças ditransitivas.

Por seu lado, em seu estudo sobre as ditransitivas do PB, Moretti (2010) afirma que os elementos preposicionados apresentam somente a semântica de recipiente / alvo e nunca de beneficiário, pois com base no trabalho de Scher (1996) sobre o PBM, afirma que verbos tais como desenhar, escrever e preparar não apresentam a ordem V NP NP com a omissão da preposição, pois o elemento preposicionado que acompanha esses verbos é um adjunto, logo não é previsto pela semântica desses verbos.

Esse fato para a autora seria uma evidência de que quando a preposição para em PB tem o mesmo estatuto de a em PE ela também seria marcadora de Caso dativo. Assim, os argumentos de sentenças como (87) seriam complementos dativos e não oblíquos15, que inclusive alternariam com o clítico dativo lhe(s), como podemos notar pelos exemplos da autora abaixo:

(87) O José atribuiu uma tarefa para os alunos / atribuiu-lhes uma tarefa. (88) O José devolveu o dinheiro para os clientes / devolveu-lhes o dinheiro.

(Moretti 2010:85) Como podemos perceber pelos exemplos, Moretti (op. cit.) afirma que a preposição para pode alternar com o clítico dativo de terceira pessoa em PB. Porém, como venho mostrando neste trabalho, essa alternância não faz mais parte da Língua-I dos brasileiros. Essa alternância ocorre somente em PE atual, bem como a posição enclítica ao verbo, pois, sabe-se que a colocação preferencial em PB é a próclise. As afirmações da autora, portanto, não se sustentam.

Os fatos abordados acima, portanto, me levam a afirmar que o PB não apresenta a alternância dativa postulada para o PE, logo a variante brasileira não possui DOC, nem núcleos aplicativos, somente construções ditransitivas preposicionadas com preposições plenas transitivas introduzindo o argumento indireto. Assim, os OI das ditransitivas do PB são objetos indiretos oblíquos introduzidos por preposições transitivas, não complementos dativos como defendo Moretti (2010).

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CAPÍTULO II

Variação e Mudança Linguística

Como explicitado até o momento, a introdução de argumentos indiretos em PB vem sofrendo uma reanálise em comparação aos dados do PE. Na variante europeia, os argumentos indiretos dos verbos ditransitivos de transferência, movimento e de criação são acompanhados pela preposição funcional a e sempre podem alternar com o clítico dativo lhe(s) – marca morfológica de caso dativo – esses argumentos são, portanto, introduzidos na estrutura do PE através de um núcleo aplicativo, como proposto por Torres Morais (2007). Já a realização do objeto indireto em PB é diferente do PE, pois as preposições introdutoras de argumentos indiretos em sentenças ditransitivas do PB possuem um caráter lexical e o objeto indireto não alterna com o clítico de 3ª pessoa. Dessa forma, argumentarei adiante que os objetos das estruturas ditransitivas do PB são introduzidos na sua estrutura argumental através de uma projeção pP, como será apresentado no Capítulo IV. Assim, o objetivo deste capítulo é discutir quais são os fatores que possibilitaram tanto essa mudança diacrônica no âmbito da introdução do argumento indireto em PB, como o desaparecimento da alternância entre os OIs e o clítico dativo de terceira pessoa lhe(s).

Nas seções a seguir, portanto, trarei o estado da arte a respeito dos conceitos de variação e mudança dentro do que vem sendo pensado a partir de Chomsky (2005), quando o autor ‘esvaziou’ a Gramática Universal (GU) em prol de um sistema segundo o qual a linguagem se desenvolve através da relação entre três fatores, como discutiremos adiante. Em seguida, argumentarei que as mudanças na realização do objeto indireto em PB podem ser explicadas através da variação microparamétrica, que surge da interação entre esses três fatores, nos moldes do que vem sendo proposto por diversos autores na literatura mais recente sobre o assunto (cf. Biberauer 2008 et seq., Baker 2008, Richards 2008, Roberts & Holmberg 2010, Roberts 2012).