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A Magnânima Benevolência de V. Exa, me anima na Miserável consternação em que me vejo, de recorrer a sua grandeza a fim de se exercitar na remissão deste remoto degredo em que me acho, Obrigado a Mendigar o indispensável sustento da Vida.357

João Vasco Manoel de Braun, desembarcou na cidade de Belém do Grão- Pará em 06 de novembro de 1778, após “66 dias de trabalhosa viagem”. Neste Estado deveria permanecer até que a rainha, D. Maria I, ordenasse o contrário, ou seja, foi mandado para cumprir uma pena de degredo sem tempo estipulado.358

Cavaleiro da Ordem de Cristo e sargento-mor, com exercício de Engenheiro, na Praça de Setúbal, Braun assim que chegou requereu igual exercício na Capitania, “para que também o soldo lhe facilitasse o meio da sua Subsistência”; caso contrário, argumentou, “neste Novo Mundo fico fazendo a triste e desgraçada

figura (...) de um miserável, que se vê reduzido a Mendigar em um País tão remoto”.359

357 Resgate – AHU/PA. Doc. 6741 de 14 de março de 1779.

358 Resgate – AHU/PA, Doc. 6659 e 6660 de 06 e 07 de novembro de 1778.

359 ANTT/AC – HOC, Letra J, Maço 53, nº 12 e Resgate – AHU/PA, Docs. 6659 e 6660 de 06 e 07 de novembro

Depois de quatro meses na Amazônia portuguesa e não suportando ser “Obrigado a Mendigar o indispensável sustento da Vida”, recorreu ao secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, solicitando o alívio da pena de degredo em que se encontrava, para que pudesse voltar e fazer companhia a sua “pobre Mãe e Irmãs” ou ser empregado onde o secretário o achasse digno de desempenhar as suas determinações. Como justificativa para esse pedido, apresentou a sua folha de serviços:

o Serviço que fiz a S. Majestade 26 anos sem nota alguma, junto com a laboriosa aplicação que tive de Ensinar Recrutas 10 anos no Regimento de Infantaria, passando depois ao trabalhoso estudo de Engenheiro e Artilheiro mostrando o adiantamento nas diligências que me foram encarregadas, e nos rigorosos exames a que voluntariamente me ofereci.360

Esta rogativa não foi ouvida ou pelo menos não teve resposta; possivelmente porque Melo e Castro encontrou contradições no relato ao buscar informações a seu respeito e soube, pelo coronel Felipe Rodrigues de Oliveira, que o sargento -mor Manoel de Braun não havia sido discípulo da Academia Militar da Corte, o que sabia “aprendeu com seu pai: este sabia somente alguma prática da Fortificação e muito

pouco da especulação das Ciências fundamentais da Matemática”.361

Contudo, Manoel de Braun não desanimou e, ainda no mesmo ano, se fez ouvir através de sua mãe, D. Ana Maria de Braun. Em petição dirigida à rainha, D. Ana Braun não pediu mais do que um emprego para seu filho em qualquer “Serviço

Militar, para que ele tenha aptidão, e com que possa adquirir algum meio de Subsistência”. Para reforçar sua súplica, apresentou a conduta de seu filho durante

a penosa viagem que empreendeu em direção ao degredo. Comportamento que contribuiu para que todos chegassem com vida ao destino.

Desta petição materna originou-se um Auto de Justificação, no qual foram ouvidos, além de Manoel de Braun, os passageiros e a tripulação a propósito da desafortunada travessia atlântica. Todos os relatos convergiram para uma única versão, confirmando o que foi relatado por Manoel de Braun:

360 Resgate – AHU/PA, Doc. 6741 de 14 de março de 1779. 361 Resgate – AHU/PA, Doc. 6862 de 14 de novembro de 1779.

ele se transportou por Ordem de S. Majestade em o Ano de 1778 em a Corveta S. Ana, S. José e Almas de que era Mestre José Joaquim Maria.

Na dita Viagem estiveram perdidos por várias vezes, tanto no imediato e impróprio perigo de dar a Costa na Ilha do Ferro, com repetidas vezes no Mar, pela razão da alta Mareação, pior Construção, podre Armação, e diminuta e Ignorante Equipagem. Foram repetidas vezes obrigados de recorrer por meio de Preces, Missas, e Novenas à piedade de Deus N. S. para Ele abreviar a dita Viagem em que padeciam muitas fomes, vendo já com o pouco Mantimento que trazia a Corveta quase acabado e a água a diminuta Porção.

Foi o suplicante [Manoel de Braun] quem diariamente, sossegou as contínuas desordens que entre o Mestre e a Equipagem houve, lembrando-se esta até de proferirem o intento de Lançarem o dito Mestre ao Mar.

Por muitas vezes se viu obrigado a vigiar o quarto do dito Mestre, em que toda a Equipagem dormia, rogando nas noites de mais perigo ao Piloto quisesse dobrar a sua obrigação para evitar a eminente desgraça, que os ameaçava.

Se não foi por estas e outras manifestas razões tido a dita Corveta nesta Cidade pela mais insignificante e perigosa embarcação que passou a este Estado sendo até preciso obrigado por meios de prisão e rigorosos castigos a voltarem nela os Marinheiros que tinham vindo acertados, querendo antes perder a soldada que tornar a meter-se em semelhante perigo.

Ao resultado do Auto de Justificação, o sargento-mor anexou duas atestações. A primeira, assinada pelo coronel e demais oficiais superiores do Regimento da cidade de Santa Maria de Belém do Grão-Pará, confirmou a atitude de Manoel de Braun durante a viagem, cuja “Ciência, cuidado e providentes Cautelas,

foram a Coisa / abaixo de Deus / de chegarem a salvamento”, bem como o

“exemplar, e grave procedimento, com que se conduz (...) fazendo bem conhecer a

sua boa índole, Cristã, e Sábia instrução”. A segunda, do Juiz de Fora, Crime e

Órfãos, José Justiniano de Oliveira Peixoto, ratificou o seu ajustado procedimento na Capitania, com o qual adquiriu a “benevolência de todos, e particular estima das

pessoas da primeira nobreza”.362

Em suma, os serviços prestados aos súditos da Coroa portuguesa – a mediação dos conflitos, as vigílias e, conseqüentemente, o bom termo ao qual levou passageiros e tripulantes da comentada viagem – somados ao exemplar comportamento, comprovado por autoridades locais, propiciaram a João Vasco Manoel de Braun o alcance de uma real mercê. Em abril de 1780, Braun foi provido no posto de sargento-mor da Praça de São José do Macapá.

A provisão em Macapá foi só o inicio de sua ascensão na hierarquia colonial. Ainda em 1780, por se fazer “digno e benemérito”, por conta de seus diligentes serviços “nas obras do Macapá; na Edificação da Nova Fortaleza, cujo Plano ele

mesmo traçou, (...) e na revista, e reedificação de todas as mais Fortalezas do Estado”, foi encarregado pelo governador e capitão-general do Estado do Grão-Pará

e Rio Negro, José Nápoles Telo de Menezes, do Comando do Parque de Artilharia da cidade de Belém, “e suas Fortalezas, como dos mais Armazéns Reais, e Trem de

Munições de Guerra”.363

Ao final de 1782, lhe foi conferida a patente de Tenente Coronel de Artilharia, com seu soldo correspondente, permanecendo no comando do Parque de Artilheiros e encarregado da inspeção das fortalezas, obras públicas e demais funções respectivas.364

A despeito de ter ascendido em sua profissão e angariado o respeito e admiração das autoridades na colônia, Manoel de Braun ainda desejava retornar a metrópole. Em 1787, voltou a se reportar ao secretário de Estado; desta vez, valeu- se da “constante obediência e fervoroso zelo” com que se empregou nos serviços do Estado, sendo estes passíveis de serem comprovados pelo “Governador e Capitão

General dele, Ministros e mais pessoas condecoradas”, para “lembrar” a Martinho de

Melo e Castro o quanto o seu “resignado exílio excedia aos cinco anos do seu

termo”, e pedir que tivesse um fim quase “dez anos de teimosa desgraça”.365

A sentença de cinco anos de pena em nenhum momento foi aventada na documentação pesquisada, talvez Braun tenha calculado este tempo pelo delito que cometeu, do qual também não há registro. Degredado para o Grão-Pará até nova ordem régia, este havia se tornado em dez anos um súdito útil e confiável e não seria este o momento de perdoá-lo, portanto, a Coroa portuguesa ignorou a sua solicitação e o manteve na colônia. No ano seguinte, foi nomeado para o posto de governador da Praça de São José do Macapá. 366

Nos avistamos novamente com João Vasco Manoel de Braun em 1789, sendo esta a última vez. Neste ano, já empossado do cargo de governador, remeteu um bem elaborado “Mapa de todas as famílias, que existem na Freguesia de São José

363 Resgate – AHU/PA, Doc. 7087 de 27 de novembro de 1780. 364 Resgate – AHU/PA, Doc. 7240 de 18 de setembro de 1782. 365 Resgate – AHU/PA, Doc. 7627 de 02 de fevereiro de 1787. 366 Resgate – AHU/PA, Doc. 7778 de 10 de novembro de 1788.

do Macapá; da força das suas Lavouras e Serviços, e da quantidade e qualidade de Efeitos e Colheitas que elas produziram, em todo o ano de 1788”, além desse

Censo/Mapa, também é de sua autoria a Descripção Chorographica do Estado do

Gram-Pará.367

Não temos conhecimento se João Vasco Manoel de Braun realizou o seu desejo de voltar à metrópole ou se, assim como Manoel da Gama Lobo d’Almada, encerrou a sua vida na Amazônia portuguesa, mas, podemos assegurar que a prática de concessão de privilégios – as mercês régias – própria do Antigo Regime, permitiu a estes dois homens darem uma volta completa na montanha-russa da mobilidade social: de metropolitanos a infames degredados; de infames degredados a importantes autoridades coloniais.

367 Resgate – AHU/PA, Doc. 7852 de 28 de outubro de 1789. “Descripção Chorographica do Estado do Gram-

Pará que por ordem alphabetica descreveu João Vasco Manoel de Braum, Governador da Praça de Macapá em o ano de 1789”, pp. 269-322. Cf. também, “Roteiro Corographico da viagem que se costuma fazer da cidade de

Belém do Pará á Villa Bella de Mato Grosso. Tirado do Diário Astronômico, que ao rio Madeira fizeram os officiaes engenheiros e doutores mathematicos, mandados no anno de 1781 por Sua Magestade Fidelissima a demarcar a 1.ª divisão dos reaes limites. Seguido das pratica e theoricas indagações e combinações, que nos rios, e povoações interiores fez o sargento-mór de engenheiro João Vasco Manoel Braum”, pp. 439-493.