1. Introduction
1.3. Educational Relevance of the Study
Um qualissigno é uma qualidade que funciona como signo, e será sempre icônico em relação a seu objeto. No todo da linguagem verbal, esse potencial encontra condições favoráveis para manifestar-se no sistema de escrita, através da exploração de suas qualidades, tais como formas, cores, diagramações.
“... um maior potencial para criar imagens existe no território das artes gráficas. Aí temos múltiplas possibilidades de utilizar letras e palavras de calibres, cores e disposições diferentes, de forma a criar constelações de correspondências com os objetos do mundo. A poesia concreta tem explorado, de forma mais sistemática, esse potencial da língua.” (NÖTH 1995: 98)
Quanto à palavra encarada como qualissigno, é preciso lembrar que seus atributos somente ganham corpo nos sinsignos, sendo notório como as formas29 em que se materializam se prestam a todos os tipos de expressividade, que encontramos nas mais diferentes artes ligadas à escrita, tais como tipografia, caligrafia, design gráfico, bem como a poesia concreta, a e-poetry (poesia em contexto digital), etc. A literatura e a propaganda também são pródigas em destacar esse aspecto autônomo do qualissigno que está encapsulado no legissigno e no sinsigno, criando efeitos de sentido a partir de suas qualidades materiais, que em princípio, nada tem a ver com a função representativa que o sistema da língua lhes atribui.
“Uma vez que o signo não é idêntico à coisa significada, mas dela difere sob alguns aspectos, ele deve claramente (plainly) possuir algumas características próprias, que nada tenham a ver com sua função representativa. Chamo estas características de qualidades materiais do
29 Ao contrário do que disse Saussure: “... o signo gráfico é arbitrário, sua forma importa pouco, ou melhor, só tem importância dentro dos limites impostos pelo sistema; ... o meio de produção do signo é totalmente indiferente, pois não importa ao sistema (...). Quer eu escreva as letras em branco ou em preto, em baixo ou alto relevo, com uma pena ou com um cinzel, isso não tem importância para a significação.” (CLG 138,139)
signo. Como exemplo dessas qualidades, tome-se, na palavra “homem”, ela consistir de cinco30 letras; numa foto, ela ser plana e sem relevo.” (CP 5.287)
As classificações peirceanas, como já vimos, não são estanques, e sua aplicação dependerá dos aspectos sígnicos que o observador quiser destacar, já que nenhum signo pertence exclusivamente a nenhum tipo.
“Como se pode ver, as tricotomias peirceanas devem ser usadas como ferramentas analíticas por meio das quais três aspectos diferentes da semiose podem ser distinguidos. Essas distinções são sempre aproximativas e dependentes do ponto de vista que o analista assume diante do signo. Nenhum signo pertence exclusivamente a apenas um desses tipos, assim como não há nenhum critério apriorístico que possa infalivelmente decidir como um dado signo realmente funcionará. Tudo depende do contexto de sua atualização e do aspecto pelo qual é observado e analisado.” (SANTAELLA 2000: 102)
Consideremos um exemplo onde o aspecto qualitativo encontra-se evidenciado na apresentação do signo, chegando mesmo a obliterar, em certa medida, o caráter de lei de um signo verbal, em virtude da semelhança entre duas letras “O” maiúsculas e o formato dos olhos, seu objeto:
“Observe-se esta seqüência:
Olho olhO OlhO
Temos aí três diferentes quali-signos atualizados em três ocorrências ou sin- signos que funcionam como réplicas de um mesmo legi-signo. Em que medida a exacerbação do aspecto qualitativo é capaz de obliterar o caráter de lei de um signo verbal é uma questão de grau, dependente das condições de apresentação do signo, apresentação esta que pode muitas vezes estar voltada tão só para a criação de um efeito de contemplação ou dilatação dos sentidos, numa demora perceptiva com vistas à regeneração da sensibilidade de quem percebe.” (SANTAELLA 2000: 102)
Multiplicam-se os exemplos onde a forma do signo ratifica o significado da palavra: eu am você, matemá
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ica, DOI2, QU4TRO, SE7E, OIT8, N9VE, infinit8, alf, entre muitos outros. Nestes casos, pode-se dizer que a palavra e o signo que está sendo sugerido pela sua forma possuem objetos dinâmicos equivalentes ou iguais.No entanto, se muitas vezes a forma que o sinsigno assume é usada para ratificar, encarnar o significado da palavra, aumentando seu poder expressivo, em outras esses trabalhos acrescentam mais uma camada sígnica, significante, à já complexa trama entretecida entre língua e escrita, adicionando aspectos que não estão representados no legissigno.
Vejamos o exemplo:
P ra você.
A substituição de uma letra “A” pela figura de um coração, não interfere na inteligibilidade da sentença (legissigno), no entanto, acrescenta uma camada significante, pois seja lá o que for que estiver sendo destinado àquela pessoa, está sendo com um sentimento, com algo que vem do coração, e que pode ser expresso numa frase como: “para você com amor”, ou ainda, “para você com carinho”. Neste caso, o objeto do signo icônico “coração” é totalmente diferente do objeto da palavra “para”.
Outro exemplo (e este se constitui também numa singela homenagem de minha parte) é o caso do nome próprio (patronímico) Peirce. Ele poderá designar qualquer membro da mesma família, seu pai, Benjamin Peirce, por exemplo, ou mesmo algum de seus irmãos. Mas pode ser grafado:
PEIRC3
onde a substituição de uma letra por um número três, em razão de sua semelhança na forma, novamente não prejudicará a inteligibilidade do signo lingüístico, adicionando, no entanto, um elemento que determinará, dentro de determinado contexto, é claro, a qual dos membros da família o nome se
refere, já que somente Charles Sanders Peirce concebeu três categorias universais, e era mesmo conhecido como “triadomaníaco”31. Mesmo aqueles
que não conhecessem esses detalhes, saberiam que uma certa pessoa cujo nome é Peirce, está ligada, mantém alguma relação com o número 3.
Essas camadas significantes permanecem embutidas no signo lingüístico na forma de múltiplos e sucessivos palimpsestos32, camadas
essas que, embora não se dêem a conhecer ao olhar apressado dos usuários da língua, sempre são exploradas por escritores, poetas e artistas os mais diversos, que buscam um acréscimo de sentido em suas obras, e nas quais a escrita encontra uma fonte quase inesgotável de riqueza expressiva, e onde signos se complexificam para condensar significados.
Uma última observação se faz necessária quanto à natureza da relação entre legissignos, sinsignos e qualissignos. Sendo que só sinsignos tem existência concreta, a diferença entre legissignos e qualissignos, já que nenhum deles tem individualidade, ou seja, nenhum deles é um singular, é que um legissigno tem uma identidade definida, apesar de admitir uma grande variedade de formas nas quais pode se materializar. O qualissigno, por sua vez, não tem identidade; “é um mero qualissigno de uma aparência, e não exatamente o mesmo do começo ao fim de um segundo. Em vez de identidade, ele tem grande semelhança, e não pode diferir muito sem ser chamado de um outro qualissigno.” (CP 8.334)
31 CP 1.568‐572.
32 Palimpsesto: “papiro ou pergaminho cujo texto primitivo foi raspado, para dar lugar a outro”
(Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa). No sentido figurado, camadas que se sobrepõem.