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Conforme discutido no primeiro capítulo, a formação de um campo implica, segundo Bourdieu (1983), em espaços delimitados de disputas inconscientes no interior da sociedade. No caso de um campo religioso, faz-se necessária a montagem de um quadro específico de relações sociais, no qual haja a diferenciação de um determinado grupo de especialistas - ditos eclesiásticos. Além disso, é preciso que se sistematizem um conjunto de práticas e representações religiosas. Tal esquema permite a construção de um capital religioso de que apenas agentes específicos do campo dispõem como instrumento de formação de habitus.

No caso estudado, padre Fábio é considerado agente do campo religioso voltado para conservar, como lembra Brandão (1977), uma posição de domínio no

27 Bauman (2001) define o conceito de “fluidez” como a qualidade de líquidos e gases, sendo distinguidos dos sólidos por não suportarem uma força tangencial ou deformante quando imóveis, de forma que sofrem uma constante mudança de forma quando submetidos a tal tensão. Os líquidos, por sua vez, uma variante dos fluídos, diferentemente dos sólidos, não mantém sua forma com facilidade: “os fluídos não fixam o espaço nem prendem o tempo” (BAUMAN, 2001, p. 08).

mesmo. Para tanto, a instituição católica precisa não somente tornar legítimo o seu monopólio sobre os bens de salvação, mas também se perpetuar socialmente como uma agência preferencial de produção, circulação e controle do consumo destes bens, por meio de um corpo clerical ativo e competente na missão de reunir, manter e formar agentes e fiéis. Nesse sentido, o campo se apresenta como um espaço onde se manifestam relações de poder, o que significa que ele se estrutura a partir da distribuição desigual de um capital social que determina a posição que um agente específico ocupa em seu seio.

Levando-se em conta o campo religioso católico, padre Fábio participa de tal distribuição como agente que ocupa lugar de destaque nas missões de disputa no interior do catolicismo e em relação às religiões cristãs e não cristãs. O padre mostra-se, assim, como formador de novos habitus, uma vez que, como lembra Martino (2003), o habitus é o elemento responsável pelo reconhecimento do mundo social, de forma que a ilusão da naturalidade da ação garante a reprodução das estruturas do campo. Bourdieu, ao comentar a estruturação do campo religioso, diz:

“A religião contribui para a imposição (dissimulada) dos princípios de estruturação da percepção e do pensamento do mundo e, em particular, do mundo social, na medida em que impõe um sistema de práticas e de representações cuja estrutura objetivamente fundada em um princípio de divisão política apresenta-se como a estrutura natural-sobrenatural do cosmos” (BOURDIEU, 2005, p. 33).

Desse modo, se observa que as instituições religiosas se legitimam em virtude das vantagens explícitas de se pertencer àquele grupo. Neste estudo, as disputas simbólicas no interior do campo católico colaboram para abarcar um maior número de fiéis ao apresentar, por meio de várias lideranças, as vantagens de se pertencer a esse grupo.

Diante da reflexão apresentada, cabe comentar em qual contexto a atual liderança de Fábio de Melo ganhou força e prestígio e, além disso, com quem ele disputou – simbolicamente – espaço e o tempo religioso midiático.

“Os movimentos da Igreja católica podem ser vistos atualmente oscilando entre os efeitos objetivos da secularização e as potencialidades subjetivas da sociedade de consumo. De um lado, com temor e tremor e perante a concorrência moral que supõe estilos de vida pautados pelo consumo, do outro lado, tentando deflagrar processos de reinstitucionalização que lhe permitam retomar a hegemonia sócio-cultural de antes” (DÁVILA, 2005, p. 26).

Como já comentado nos capítulos anteriores, foi justamente nesse contexto paradoxal de disputas no campo religioso brasileiro que o movimento carismático lançou raízes e se tornou ícone da retomada do campo por parte do catolicismo. Nesse sentido, foi fundamental a ascensão de lideranças – especialistas possuidores do capital religioso – que precisavam pautar seus discursos de maneira diferenciada, a fim de atender às expectativas de uma Igreja que se modernizava na mesma medida em que se reinstitucionalizava. No plano micro, os grupos de oração foram peças fundamentais da ascensão do movimento; no plano macro, a mídia e os padres cantores representaram a face desse novo momento do catolicismo, sendo Fábio de Melo um expoente desse processo.

As músicas e danças das lideranças sacerdotais passaram a angariar fiéis e, como comenta Souza (2005), tornaram-se o principal veículo da mensagem religiosa. Desde Padre Jonas Abib, passando pelo Padre Zezinho, Padre Joãozinho, Padre Zeca e Padre Marcelo, ser cantor – além de padre – passou a ser característica essencial no trato com os fiéis28. Diversos trabalhos na academia discutiram o papel dessas lideranças religiosas, mas é senso que Padre Marcelo Rossi foi o expoente de maior alcance nacional no período de 1998 a 2006, até surgir padre Fábio de Melo com um novo modo de falar aos fiéis.

28 Diante do avanço dos cléricos na mídia, vale comentar os problemas gerados por esse processo no interior das paróquias de bairros. A Igreja Católica, em conjunto com a mídia, ao focar a importância dos padres “artistas”, tende a deixar de dar voz ao trabalho cotidiano dos padres paroquianos, ou seja, aqueles que atendem aos fiéis diariamente, com proximidade e contato contínuo. Foi constatado pela pesquisa que muitos dos padres das paróquias discordam desse processo macro que tende a deixá-los em segundo plano, ou muitas vezes, a pressioná-los para uma atuação semelhante à dos padres famosos. Esse é mais um horizonte das disputas simbólicas do campo religioso católico que merece reflexão.

Conforme analisa Dávila (2005), Padre Marcelo, ordenado em 1994, chegou à mídia, em 1998, por intermédio de entrevistas concedidas a programas de televisão. Chamou atenção por causa do considerável número de fiéis presentes em suas celebrações “dançantes” na zona sul de São Paulo. Em seguida, conquistou espaço fixo em dois canais televisivos: na Rede Globo, aos domingos, com a missa no Santuário Bizantino às 6 horas e na Rede Vida, aos sábados, com a missa também no Santuário, às 15 horas. O espaço na rádio também foi conquistado, primeiramente através de programa diário na Rádio América, e depois, na Rádio Globo. Paralelamente aos programas, Padre Marcelo também foi sucesso discográfico, superando recordes de venda. Atuou até mesmo no cinema com a produção de “Maria, Mãe do Filho de Deus” (2003) e “Irmãos de Fé” (2004).

Dávila (2005) propõe em sua tese demonstrar o que denomina de uma “terceira onda de recatolização brasileira”, que considera ser constituída e liderada pela RCC, tendo como emblema desse processo o Padre Marcelo Rossi. Ao analisar sua ascensão, afirma:

“A explicação oficial, que justifica teologicamente essa maciça participação na mídia, tem sido freqüentemente invocada nos seguintes termos: “Se Jesus Cristo vivesse hoje estaria nos meios de comunicação. O Senhor usava parábolas, que eram o dia-a-dia das pessoas. Hoje é pelos meios de comunicação que se vai até o coração das pessoas” (Caras, 27. nov.98). Talvez seja essa a razão que permite ao sacerdote e seu bispo protetor, circularem sem culpa por todos os círculos midiáticos, certos de estarem cumprindo uma missão profética (DÁVILA, 2005, p. 34).

Souza (2005), por sua vez, afirma ser a popularização das missas do padre Marcelo a parte mais visível do fenômeno que extrapolou a Renovação Carismática. Em suas palavras: “Renovação popularizadora católica contra o afastamento de fiéis e o avanço religioso concorrente, sobretudo o neopentecostal” (SOUZA, 2005, p. 46).

O autor lembra que Marcelo Rossi se comunica bem, através de gestos e frases curtas de efeito, por exemplo, com o slogan propagado por ele “Sou Feliz Por

Ser Católico”. Apesar de seu discurso pouco elaborado ser alvo de crítica, isso não prejudica a comunicação com seus seguidores e fãs.

A Rede Vida de Televisão, canal que continua propagando o trabalho de Marcelo Rossi, detém cobertura em todo o território nacional através de afiliadas e tem como orientação e público-alvo os católicos29. Fundada pelo jornalista João

Monteiro de Barros Filho, teve suas primeiras transmissões em 1995, mas logo começou a sentir os custos operacionais da obra. A emissora conseguiu nova projeção com o surgimento da RCC, porque passou a transmitir semanalmente as missas do padre Marcelo Rossi.

Foto 17: Padre Marcelo Rossi

Fonte: www.padremarcelorrosi.org.br

Além das missas, o programa “Terço Bizantino” apresentado pelo padre Marcelo, angaria audiência para o canal. O cenário é bem simples, com vitrais azulados ao fundo, teto de madeira e em cujo centro há cruz grande com a medalha de São Bento. O apresentador, Padre Marcelo Rossi, permanece voltado para a cruz, durante todo o programa, contemplando-a ajoelhado, enquanto reza as jaculatórias, que, em geral, abordam um tema específico, a saber, perdão, amor, paz, entre outros. A abertura do programa também é muito simples, com a imagem

29 Vale lembrar que a grade de programação da Rede Vida é aberta, diferentemente da Rede Canção Nova, pois, além de missas e a reza do terço diariamente, apresenta jornalismo, musicais e filmes, não necessariamente católicos. O futebol também faz parte da grade e funciona como expressivo patrocinador. Ainda há os leilões de jóias e de tapetes persas que ocupam bastante espaço no canal.

de uma bíblia e de “santinhos” e, por último, a imagem do Padre Marcelo com o terço nas mãos. Uma das entrevistadas comenta:

“Gosto desse programa porque é apresentado por uma pessoa carismática, super conhecida e querida por todos. Além disso, é rápido, usa temas nas jaculatórias, e atende a ideia do terço bizantino, que não tem muito como mudar mesmo” (Cida, sócia da comunidade Canção Nova e ouvinte do programa do padre Marcelo).

A ideia do terço bizantino – frases curtas e diretas – atende bem à linha de atuação de padre Marcelo. Pode-se dizer que ele trabalha com um tipo de fé mais imediatista e individualista, características desenvolvidas pelo movimento carismático. Os fiéis tendem a procurar suas missas com o intuito de solucionarem problemas prementes, de maneira rápida e milagrosa. Para Dávila (2005), Padre Marcelo apareceu como expoente de um catolicismo sintonizado com as crenças contemporâneas, valorizando a experimentação do sagrado pela busca de experiências subjetivas e de cura, além de reconciliação pessoal. A valorização de uma religião privada, com base na figura de um padre, permitiu que o catolicismo reinterpretasse as tradições necessárias em favor da sintonia com os novos contextos religiosos.

O programa do padre Marcelo na rádio Globo também demonstra os argumentos supracitados. As falas com os fiéis sempre se direcionam aos problemas pessoais e às necessidades de graças urgentes e milagrosas. Nesse contexto, há uma tendência dessas ações banalizarem o milagre, tornando-o espetáculo e, consequentemente, rotina. Além disso, tornar o demônio responsável pelos problemas pessoais e sociais reforça a estratégia da mídia religiosa. O trecho abaixo, recolhido da tese de Dávila (2005), é tomado aqui como referência de perfil de atuação de Marcelo Rossi, uma vez que tal postura se repete nas observações da pesquisa:

“… Esta semana estamos quebrando toda praga (...) Eu vou fazer algo que nunca fiz, vou quebrar pragas no chat-show. Se programe que amanhã é o grande dia para quebrar todo mal- olhado (...) Senhor Jesus, que todos os que estão ouvindo e

todos os que sofrem de pragas e mal-olhados eu, em nome de Jesus, como sacerdote, como representante da Igreja, quebro toda praga (…) Exorcizai esta água (...) beba desta água santa…” (Momento de Fé, 16.dez.2002). (In DÁVILA, 2005, p. 356).

Padre Marcelo tende, portanto, a demonstrar seu poder no campo religioso tomando por fundamento a gestão dos bens de cura e salvação. Toda vez que cura um fiel via programação na rádio ou em suas missas no Santuário Bizantino, demonstra sua condição específica de comando e administração do campo religioso pelo reavivamento de habitus tradicionais de manifestação pública dos ritos de salvação e cura. E foi por essa perspectiva que ele angariou uma série de seguidores em suas missas e eventos, na década de 1990 e nos dez primeiros anos do século XXI. Com esse discurso, foi responsável por desbravar, segundo vários estudos, o cenário midiático, abrindo caminhos para a exposição das celebridades religiosas.

Em 2011, padre Marcelo permanece como um dos expoentes católicos, visto que seus programas televisivos e midiáticos permanecem, e a publicação de obras ainda recebem prestígio, como no caso recente do livro Ágape (2010) que alcançou, segundo a imprensa, a marca de venda de dois milhões de unidades. Em 2005, enquanto a exposição de Marcelo em programas religiosos e na TV diminuiu, padre Fábio de Melo ampliou seu trabalho com a Editora Paulinas e, com apoio e divulgação das comunidades de Vida e Aliança, cresceu no campo católico. Paralelamente às publicações de livros e CDs, padre Fábio assumiu a apresentação do programa “Direção Espiritual”, citado no capítulo 2, no lugar de padre Joãozinho. Tal exposição aumentou sua atuação e sua influência sobre os fiéis. Logo passou a se destacar pelo considerável número de CDs originais vendidos30, sendo rapidamente contratado pela Som Livre e, daí em diante, divulgado em todos os canais de televisão.

30 Importa acrescentar que com o aumento de vendas de CDs e DVDs piratas a partir do ano de 2000, alcançar um número significativo de cópias originais vendidas demonstra uma relação diferenciada do receptor com o artista, no caso, com padre Fábio de Melo.

De modo distinto de Padre Marcelo, que vinculou canto e performance de dança no palco, por meio de músicas como “Iê Iê Iê de Jesus”, formando a Aeróbica do Senhor, Padre Fábio de Melo, em suas canções, utiliza letras que empregam linguagem metafórica, muitas vezes difícil de ser compreendida, como afirmam os fiéis:

“As músicas tocam a alma... às vezes preciso ouvir duas, três vezes lendo a letra para compreender, mas faço, porque são lindas demais, tocam aquilo que de mais profundo vivemos!” (Vera, seguidora do padre Fábio de Melo).

Além disso, conforme se constatou nesta pesquisa, padre Fábio não opera na mídia lançando mão de técnicas corporais próprias de shows ou do que poderia ser chamado de “infantilização” dos discursos; mantém os fiéis por mais de três horas ininterruptas ouvindo sua pregação, utilizando-se, no máximo, de algumas piadas nas entrelinhas.

Vale ressaltar que, enquanto os livros de padre Marcelo Rossi focam mensagens curtas e propostas de oração, como no livro “Momentos de Fé” (2004) e “Sagrado Coração de Jesus: Devoções e Preces” (1998), padre Fábio opera com livros de caráter mais reflexivo e amplo, além de utilizar a língua portuguesa erudita.

Outro ponto fundamental a abordar é a forma como ambos ocuparam espaço na mídia: enquanto padre Marcelo foi guindado pela mídia comercial – especialmente pela Rede Globo de Televisão – padre Fábio foi levado à cena pela própria Canção Nova, particularmente pelo investimento em seu programa, em suas pregações e shows transmitidos pelo canal da comunidade.

Apesar de os dois ícones liderarem um período semelhante da história do catolicismo no Brasil, suas diferenças enquanto gestores do campo são visíveis. Em geral, as análises do expoente Marcelo Rossi tenderam a reduzir a diversidade religiosa à metáfora do mercado. Como propõe pensar Almeida e Montero (2001):

“Estaria subjacente a esse enquadramento do pluralismo a idéia de que a racionalização do sagrado no mundo moderno realizar-se-ia pela transformação

das crenças em mercadorias a serem consumidas pelos adeptos que, volúveis, escolheriam os produtos segundo suas necessidades imediatas. A redução do fenômeno do trânsito religioso ao processo de mercantilização dos bens de salvação acabou por deixar na sombra os mecanismos particulares de ressignificação das crenças religiosas” (ALMEIDA & MONTERO, 2001, p. 92).

Tal tendência é justificável, uma vez que os discursos de Rossi tendem para uma religião privada que atende às necessidades imediatas de consumo – de bens de salvação – dos fiéis. Além disso, ele representou a urgência de ampliação do já citado projeto Lúmen 2000, que previa um investimento da Igreja Católica nas mídias, para ampliar o relacionamento com os fiéis e as possibilidades de eles aderirem à Igreja Católica e lá permanecerem.

Fábio de Melo, por sua vez, apresenta nova vereda desse processo: suas atuações apresentam uma visão de marketing religioso que vai além da formação de habitus de consumo dos bens de salvação em ritmo acelerado. A programação de Fábio de Melo dirige-se para o habitus de reflexão e introspecção dos fiéis, representando um segmento da igreja Católica que se destina a ressignificar a crença e a forma de participação nos atos, ritos e práticas religiosas.

O acompanhamento das disputas no interior do campo católico permitiu identificar que Fábio de Melo abre nova vereda, sem deixar de atender também aos apelos do marketing religioso, dirigindo-se a um segmento cujo desejo é apropriar-se de uma reflexão mais erudita das interpretações sobre o sagrado. Pode-se falar aqui que tal processo apresenta para os ouvintes e leitores certa democratização do saber sobre os segredos da fé. Ou seja, observa-se a ocorrência de uma substituição da lógica do consumo material pela lógica do consumo de fé, associada ao consumo material daquilo que remete à ampliação e aprofundamento dessa fé.

É válido realçar que tanto Rossi quanto Melo são figuras relevantes do campo religioso católico na atualidade e reafirmar que a entrada de Melo não retirou Rossi desse campo, mas diversificou as possibilidades de formação de habitus no campo religioso católico, atingindo novos públicos.

Uma vez que vários trabalhos já versaram sobre o papel de Marcelo Rossi no cenário midiático religioso e que esta pesquisa constatou uma influência crescente de Fábio de Melo em tal cenário, optou-se por apresentar sua história e sua produção, no próximo item do capítulo, a fim de localizá-lo nesse contexto. Ao abordar a obra e a ação do padre Fábio, é objetivo pensar as repercussões de suas ações entre os fiéis que aceitam a sua proposta.

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