Tendo conseguido se fixar em uma loja própria, estes primeiros imigrantes passaram a trazer os parentes que definem como sendo os mais próximos: irmãos e sobrinhos, para trabalharem junto de si. Os que vieram há mais tempo conseguiram garantir imóveis que hoje são praticamente impossíveis de adquirir, de modo a criar uma nítida diferença no resultado do projeto imigratório entre diferentes gerações. Se a parentela a quem recorre em Manaus goza, já no momento de chegada do novo migrante, de estabilidade e bons lucros, certamente seus pupilos terão boas chances de conseguir progressão financeira.
“Ele nasceu com o bumbum virado pra lua e com uma colher de ouro na boca”, foi o que ouvi do Sr. Fauzi quando inquirido sobre as diferenças entre os resultados dos projetos migratórios dos palestinos que conheci; eu me referia a Omar que vive uma expansão notável nos negócios. Em tese, os imigrantes palestinos de segunda geração deveriam ter tido possibilidades muito semelhantes no processo de acumulação de bens. Mas Sr. Fauzi revela que Omar gozava de condição invejável, pois recebeu ajuda do sogro, Osmar, que detém muitos bens. Importante destacar que Omar não revelou com clareza os nomes das pessoas ou os tipos de ajuda que recebeu quando chegou, na sua versão, ele destaca as qualidades pessoais que o fizeram ter sucesso, e não as ajudas com que contou. Já Fauzi, não hesita em contar que isso se deve ao apoio recebido do sogro milionário.
Duas questões surgem destas retóricas e que pretendo desenvolver nesta seção. Em primeiro lugar, estar na condição de “ajudado” não é motivo de orgulho, pois parece acusar uma situação passiva, de alguém ou de uma fortuna que dependeu do trabalho de outrem e que portanto, não deve ser dita, ou pelo menos não desta forma. Em segundo lugar, a explicitação da variável “ajuda” nesses casos pode advir de pessoas interessadas em disputar a genuinidade da fortuna, que tem maior valor quando conseguida pelas próprias mãos. Mesmo não tendo o mesmo sucesso de Omar, Fauzi não se deixa vencer, e aciona outras condições para que a trajetória seja reconhecida como de sucesso, condições estas verbalizadas pelo próprio Omar. As disputas em torno da “ajuda” também se caracterizam como uma das fontes de competitividade, que será desenvolvida na próxima seção deste capítulo.
Além de a retrospecção sobre a trajetória ser elaborada em termos de exaltação do trabalho em condições que serão expostas mais adiante, a “ajuda” implica numa relação de dádiva, que possui como característica a personalização dos recursos doados aos quais se atribui grande força ou efeito moral. Neste sentido, a “ajuda” é um grande penhor moral que coloca os receptores em situação de subserviência. Portanto, as declarações sobre as transações de bens entre parentes são difíceis, até porque são evitadas, o que corresponde a uma nítida diferença das relações com os locais e entre palestinos ou parentes, associadas aos diferentes tipos de regime de troca vigente em cada relação. Pretendo expor tais diferenças para demonstrar como as relações na colônia são permeadas pela economia da dádiva, bem exemplificada no processo de “puxar” parentes.
O processo de “puxar” parentes, expressão utilizada para dar sentido à convocação de parentes em Beni Naim para Manaus, ocorre com alguns critérios. Com exceção das primeiras migrações, os palestinos que deram continuidade ao deslocamento eram irmãos ou sobrinhos dos que já estavam aqui. Na medida em que foram casando e constituindo a própria prole, e também pelo aumento dos lucros que proporcionou a expansão do próprio comércio em redes de lojas, esta “ajuda” passou a atender critérios de parentesco consanguíneo ou por afinidades específicas, dentro de uma lógica própria. A seguir, represento as ligações entre parte dos interlocutores masculinos da pesquisa:
Figura 4 - Representação hierárquica do sistema de "ajuda".
As posições relacionalmente superiores indicam “transferência de ajuda”, enquanto que as relacionalmente inferiores indicam “recebimento”. A convocação de alguém para trabalhar consigo depende da necessidade dos negócios, e não do fato de estar desempregado ou ganhando pouco dinheiro na Palestina. Ainda que isso seja uma condição para quem está na Palestina aceitar o convite para migrar, muitos irmãos dos que em Manaus são donos de importantes lojas continuam trabalhando na agricultura ou em pequenos comércios em Beni Naim.
O início dos trabalhos junto aos parentes para um recém-chegado da Palestina é comunicado como tendo sido de muito trabalho. Nas décadas de 70 e 80, a segunda geração encontrou a parentela com um negócio próprio, pelo menos uma loja de confecções, que empregava os seus pupilos em alguma modalidade de venda. Um interlocutor de aproximadamente 70 anos, que chamarei de Nasser, expôs a sua impressão de como se dá a progressão de um recém-chegado:
Quando o irmão ou o sobrinho vem trabalhar eles trabalham de boca fechada, até que quem o trouxe diz ‘chega!’, e dá uma loja pra ele tomar conta, e diz ‘agora você me paga essa loja, e o que tem aí dentro’, e essa pessoa terá que fazer qualquer favor para aquele que o ajudou. Eu, quem me ajudou foi o Farid, eu devo a ele pelo resto da vida.
Osmar Cid Naim Jamal Faraj Odeh Omar Irmão 1 Irmão 2 Cunhado Farid Nasser Youssef Irmão 1 Irmão 2
Fauzi Fuad Haddad ...
Como bem exemplifica o discurso supracitado, a problemática das trocas é uma poderosa janela epistemológica para entender parte da dinâmica de reprodução social da elite da colônia palestina em Manaus. As pessoas constituintes da “colônia palestina” estão ligadas por certas dependências que criam relações muitas vezes tensas, a promoverem proximidades vigorosas ainda que por interesses nem sempre afetuosos. Neste sentido, considero que tais dependências indicam obrigações morais de longo prazo, que tem por efeito um sentimento de coesão pelo reconhecimento recíproco dos sentidos das “ajudas”.
A relação entre irmãos, pai e filho ou tio e sobrinho sócios em uma rede de lojas, está sujeita a situações de conflitos pelas dívidas ou créditos criados nas transações comerciais. Ao aceder ao chamado para trabalhar junto a um parente, o pequeno produtor palestino está contraindo dívidas. Ele é “ajudado” financeiramente, recebe abrigo na casa do tio ou irmão, se alimenta, dorme, recebe atenção e cuidado, além de tomar conhecimento de todo o minucioso esquema das relações comerciais que deve aprender com o máximo de aproveitamento para conseguir “tocar seu próprio barco”.
As “ajudas” no âmbito comercial são o mecanismo por excelência de produção de relações duráveis entre quem ajuda e quem é ajudado. São dívidas contraídas e que pedem um retorno equivalente. Embora alguns garantissem a despretensão daquele que ajuda, em algumas conversas obtive exatamente o inverso quanto a esse tipo de transação. Como protestou Youssef, se trata de um empréstimo:
Dinheiro dado ninguém dá! No começo se dava mercadoria e a ajuda do conhecimento, apresentar aos fornecedores para ‘avaliar’, como ‘avalistas moralmente’. E no começo todos moravam próximos, mas depois, é cada um por si. A viabilização dos acordos com os fornecedores de mercadorias é crucial nesse processo. Isso acontece porque, em geral, as compras para abastecer as lojas de confecção alcançam valores que requerem uma garantia, no caso, de um “avalista moral” que certifique a credibilidade do sujeito interessado no produto. A transferência de saberes neste setor é crucial para o conhecimento dos principais fornecedores para as mercadorias em alta no ramo, bem como de outras informações igualmente essenciais. Os parentes mais antigos são quem detém tais saberes, podendo indicar os caminhos que os levam às aquisições adequadas para um mercado muito volúvel, em que a informação é extremamente valorizada.
Neste aspecto, ocorre uma aproximação bastante pertinente com o que Clifford Geertz (1978) cunhou de “economia de bazar”, no seu estudo sobre o bazar marroquino, que considera como sendo uma instituição cultural fundamental do Oriente Médio. Nestes espaços, a
manipulação da informação “costura as relações sociais no seu interior, estabelecendo, por exemplo, graus de hierarquia, mapeando campos de disputa e redes de solidariedade, situando quem é quem no espaço do mercado, estimulando usos de retóricas eficientes nos processos de negociação sobretudo nos desempenhos de barganhas, etc.” (MELLO, s.d, p. 6). Neste contexto, os problemas do acesso à informação caracterizam os processos de circulação e intercâmbio de modo a dificultar a obtenção pelos atores de informação confiável sobre as pessoas ou as coisas.