Ao realizarmos a revisão bibliográfica sobre os tipos de investigação em educação, deparámo-nos com uma grande riqueza vocabular e semântica sobre esta temática. Verificámos que alguns autores referenciam alguns conceitos como sendo sinónimos, assim, “estudo de caso” seria o mesmo que dizer “investigação qualitativa” ou “paradigma qualitativo”, ou ainda “paradigma interpretativo”. Optámos, no entanto, por usar o termo numa acepção mais restrita.
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Estudo de caso é segundo Dokrell e Hamilton (1990), uma demonstração de um exemplo em acção. E o estudo de situações e casos específicos, seleccionados com um avultado número de informação que permitirá ao investigador captar e reflectir sobre ela e atribuir-lhe significado. Estes autores referem que o estudo de caso é, ao enfocar uma série de implicações de natureza social, um produto social. Afirmam que os estudos de casos são documentos públicos que se referem a individuos e a acontecimentos com consequências para as vidas dos descritos assim como para os leitores. Daí enfatizarem a necessidade que existe, num estudo desta natureza, em determinar o “bordline” entre o que é público e o que é privado. Na opinião dos autores, os estudos desta natureza, por vezes, têm a particularidade de, ao não se reconhecerem as pessoas e as instituições, terem mesmo assim a capacidade de tecer retratos detalhados: « (...) los tipos de cuestiones, problemas, paradojas, conflictos, situaciones y hechos retratados parecen autênticos. De esta manera, los estúdios de caso pueden crear imágenes de la realidad que se tomen parte de la misma realidad(...)»( 1990:54).
Shulman (1992), questiona o que é “caso”. Teoriza que um “caso” enquanto unidade de estudo, pode ser qualquer coisa: um texto, uma história, um acontecimento, uma categoria. Afirma que a beleza dos “casos” é o seu potencial para a reinterpretação e para as múltiplas representações. Pode ser sempre mais qualquer coisa. O significado de CASO no Modemo dicionário de Língua Portuguesa Tomo I - refere que é «1. Acontecimento; facto; questão; sucesso; circunstância. 2. Hipótese, eventualidade. 3. Dificuldade (...)»(1985:544).
Nesta acepção também Merriam, (1988) cit. por Bogdan e Biklen (1999: 89), defende que «o estudo de caso consiste na observação detalhada de um contexto, ou indivíduo, de uma única fonte de documentos ou de um acontecimento específico». Estes autores afirmam que o plano geral do estudo de caso pode ser apresentado como um fuml e que num estudo qualitativo as perguntas nunca são muito especificas e não se estabelecem a partir de variáveis, tendo antes o objectivo de investigar num contexto natural. A preocupação central deste tipo de investigação, não é a de saber se os resultados são susceptíveis de generalização, mas sim a que contextos e sujeitos podem ser generalizados. Desta forma, o estudo de caso está intimamente ligado à investigação qualitativa e à conjuntura do paradigm a interpretativo, porque é utilizado por investigadores que têm como prioridade descrever e com preender em profundidade um determ inado contexto ou sujeito. À luz de Erickson (1986), o que pode ser
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entendido como o estudo de um ou mais dos três campos fulcrais na investigação interpretativa em educação.
1. a natureza da sala de aula com o um meio social e culturalm ente
organizado para a aprendizagem; 2. a natureza do ensino com o um, m as
somente um, aspecto do meio da aprendizagem: 3. a natureza (e o conteúdo) das “perspectivas-significativas” do docente e do discente com o com ponentes intrínsecos do processo educativo» cit. Hébert et al. (2005:42).
O estudo de caso é, para o autor Yin, um «(...) método de investigação que permite um estudo holístico e significativo de um fenómeno contemporâneo no seio.de um contexto real, quando as fronteiras entre o fenómeno e o contexto não são claramente evidentes e nos quais são utilizadas muitas fontes de informação»(l 987:23). Esta visão holística46, privilegia, na nossa opinião, as interacções sociais e centra-se mais no desenvolvimento de capacidades, a base de sustentação é compreender o todo para entender cada uma das partes.
Yin (1988) «põe em evidência que o estudo de caso constitui a estratégia preferida quando quer responder a questões de “como” e “porquê”; o investigador não pode exercer controlo sobre os acontecimentos e o estudo focaliza-se na investigação de um fenómeno actual no seu próprio contexto»( Carmo e Ferreira, 1998:216).
3.2. Estudo de caso - características
O estudo de caso, tem como principal característica, já enunciada por diversos autores, o estudo detalhado dum determinado contexto, ou indivíduo, ou dum acontecimento específico. Outra das características já descritas é que este tipo de método não tem como objectivo verdades universais passíveis de generalizações.
Para Merriam (1988) cit. Carmo e Ferreira o estudo de caso resume-se em cinco características: 1. Particular; 2. Descritivo; 3. Heurístico; 4. Indutivo e 5. Holístico.
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■“ «Princípio metodológico que define um método em Ciências Sociais, (...), em que, para explicar um fenóm eno particular ou individual, é sem pre preciso analisar esse fenóm eno como resultante de um conjunto de acções, de crenças ou de atitudes colectivas. (...), o holism o m etodológico não valoriza indivíduo na sua dimensão racional e psicológica, situando-o m ais com o um elem ento dentro de uma estrutura social que orienta e explica a sua acção. (...)» (Enciclopédia das C iências Sociais e Humanas, D iciopédia 2004).
Estas características foram já referenciadas no corpo do trabalho figurando como características do paradigma qualitativo, assim parece-nos oportuno referenciar que uma das características evidentes do estudo de caso é a de ser um método do estudo
qualitativo. Assumindo “as suas roupagens”, está destinado a responder às questões:
“como?” e “porquê?”. Nasce essencialmente da necessidade de se entender o fenómeno social complexo. Em síntese, o método estudo de caso não é uma técnica específica, é antes um meio de recolher, organizar e apresentação de dados sociais.
Yin (1989) apresenta quatro aplicações que confluem para a sua caracterização mais precisa, assim, Este método serve para explicar as ligações causais entre os interlocutores no contexto e “na vida real”, estas ligações sociais são muito complexas, há uma série de correlações que passariam despercebidas noutro tipo de investigação, é útil ainda para fazer uma avaliação da intervenção realizada, e serve para explorar situações em que as intervenções não obtêm resultados claros e específicos. Nestas quatro aplicações de Yin, são claras as correlações já focadas por outros autores. A primeira frase sublinhada corresponde àquilo que o autor chama de “aplicação” e o que outros autores apelidam de “intervenção naturalista”. Quanto à segunda referência sublinhada, o próprio autor também define que este contexto na vida real é um estudo holístico. A terceira referência sublinhada relaciona-se com a potencialidade que este método tem: o de permitir aquilo que apelidam de “orientação de caso único”, que permitirá ao investigador cruzar dados. Desta forma, estabelece-se o corolário da última situação sublinhada: conseguir aceder a situações que, se não fossem com este tipo de método, permaneceriam encerradas em paredes, sem visibilidade do exterior. Estas são sem dúvida algumas das vantagens dum estudo desta natureza.
O estudo de caso, como temos vindo a referir tem muitas vantagens, mas tudo o que é positivo tem também pólos negativos. Não há planos infalíveis, há sempre “coisas boas” e “coisas menos boas”.
Os argumentos mais utilizados na crítica negativa ao estudo de caso são: a falta de rigor, a influência do investigador - a sua subjectividade, o não ser passível de generalizações, porque fomece poucas bases para que tal ocorra e por último o facto de serem muito extensos e fundamentalmente porque levam muito tempo a ser concluídos. Será, questionamos nós, que se toma extemporânea a sua relevância? Pensámos que não, até porque não é premissa para este tipo de estudo, pensámos que o mais
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importante e vantajoso neste tipo de investigação são os múltiplos caminhos que deixa em aberto, tomando-se possível “reciclar”, “reutilizar” e dar “nova cara”.
Yin (1989), refere que este tipo de método não pode tomar-se numa generalização científica. Questiona como é que se pode generalizar um caso singular. Refere que é uma dura questão e que a resposta não é simples e que continuará a perdurar. O autor constata que geralmente os estudos científicos, raramente se baseiam em estudos específicos, são geralmente baseados em múltiplas séries de experiências, onde se testa o alvo de estudo em diferentes condições, sendo que desta forma eles são validados cientificamente.
O “laboratório” do investigador qualitativo é muitas vezes apenas um só contexto, único e irrepetível. As teorias que poderão ser levantadas, são meramente interpretativas, assentes em significados e sentidos, tal como já foi dito. Não é relevante numa investigação desta natureza agir com processos de controlo de variáveis apanágio das ciências experimentais. Nesta linha de pensamento, Silva afirma que «a ciência social repousa sobre premissas de valor, sobre escolhas e decisões subjectivas, mas mantém a validade universal dos processos de demonstração que emprega e das regras de demonstração a que obedece - nelas fundamenta a objectividade dos resultados que produz» (1988:61). A questão que se pode colocar é que objectividade se pode produzir? Weber refere que são precisos três procedimentos intelectuais:
« interpretar (deuten), com preender (verstehen), explicar (erklären) - quer dizer, dar conceptualm ente conta da acção, apreender o sentido, estabelecer relações de causa a efeito. A combinação destes procedim entos perm itirá - garantindo a unidade de uma análise da conduta humana atenta à especificidade que a marca - ultrapassar a antinom ia entre o positivismo e a indagação “ metafísica”» cit. Silva (id. ibid.).
Silva, refere e muito bem no nosso entender, que a construção de conceitos em investigações sociais, da qual a nossa faz parte, é uma busca de caminhos, é uma procura e entendimento de sentidos.
4. Estudo de Caso - Procedimentos de recolha e análise de dados - técnicas e