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Dronningberget

In document Naturverdier på Bygdøy (sider 15-21)

Em 1930 um grupo de armênios compram 23 chácaras uma ao lado da outra no município de Ferraz de Vasconcelos. Posteriormente o casal Kevok e Vitoria Apakarian doam parte de seu sítio para construção de uma igreja com a finalidade de preservação da armenidade neste local.35 Algumas dessas famílias tinham o seu sítio apenas para passeio, mas as que ali permaneceram desenvolveram a plantação de pêssegos, maçã, no bairro de Romanópolis, contando com a experiência que possuíam no cultivo da videira, em Marach na Armênia.

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Conforme a tradição bíblica, Noé após parar com a Arca no Monte Ararat, se dedicou ao cultivo da videira, abusou do vinho e amaldiçoou seu filho mais novo Cam por ter visto sua nudez após sua embriaguez (Gen. 9:20 e 21).

Da Armênia diz-se que a viticultura se espalhou por toda Ásia Menor, Trácia, Península Balcânica em direção ao sul do Egito, posteriormente chegando à Roma, Gália e Mediterrâneo, o que nos remete ao mito fundador armênio de que são descendentes de Noé. (FREITAS, 2000, pg. 91)

No Bairro Romanópolis há uma rua denominada Armênia em homenagem a estes primeiros habitantes. Segundo Freitas, em sua pesquisa de 2000, uma dessas famílias armenias tem a intenção de ceder o seu espaço para construção de um museu. (2000, pgs. 91 e 92)

A pesquisa sobre Ferraz tem como principal fonte as informações da Sra. Marlene Gazebdian que durante muitos anos foi a secretaria da igreja.

Fora isto, na participação de evento na ICEASP, esteve presente o Rev. Edivaldo Sales Costa, atual dirigente da igreja de Ferraz.

Em entrevista ele informa que hoje os cultos são ministrados somente em português e que na membresia apenas três famílias são armênias, os demais brasileiros.

Posteriormente o Rev. Roy nos informou que apesar de a igreja ser vinculada a ICEASP, a administração eclesiástica está sob a coordenação da Igreja Presbiteriana do Brasil, a qual indicou o atual dirigente da igreja. Esta igreja segue atualmente o rito em português com conteúdo do culto presbiteriano.

CAPÍTULO 5: A ARMENIDADE

Os debates sobre etnia sempre foram orientados para valorização de raça e semelhanças, num primeiro momento, e posteriormente para a cultura étnica.

Lesser diz que no caso brasileiro, o conceito de raça não se refere somente à cor, mas existe uma complexidade no caso dos estudiosos brasileiros que entendiam “raça” vinculado à biologia e ao meio ambiente. Para ele, esta foi a razão do esmagamento da população nativa e africana no Brasil, pois incorporava a visão de superioridade “branca” com a ajuda dos imigrantes europeus que eram brancos. (LESSER, 2001, pgs. 23-24)

Tempos depois, junto com o conceito de raça, acrescentou-se a “etnicidade”, que se resume na carga cultural prémigratória que os grupos trouxeram e colocaram em xeque diante da identidade nacional vigente. Quando do despertamento nacional para a questão de que a sua identidade étnica poderia estar ameaçada pelos grupos étnicos árabes, sírios, libaneses, turcos e judeus, passa a existir um movimento para a visibilidade destas colônias criando a idéia de uma aceitação da brasilidade, tendo mais êxito os sírios e libaneses que intensificaram a imagem de união dos dois grupos com os brasileiros.

Todas as estratégias possíveis de boa conduta e boa convivência foram utilizadas pelos sírios e libaneses para a sensibilização dos políticos e da nação brasileira para que a etnicidade libanesa fosse aceita como componente da nacionalidade brasileira.

“Os líderes da comunidade armênia, que contava com vinte e cinco mil membros, formados em fins do século XIX definiam seu lugar de forma ainda mais agressiva, tentando separar-se dos imigrantes “árabes”. Eles insistiam em que os armênios eram brancos , e “uma etnia legítima e heroicamente ocidental”. (LESSER, 2001, pg. 110; GRUN, 1992, pg. 32)

As propostas apresentadas sobre identidade cultural abordam concepções tanto antropológicas como sociológicas e uma definição única se torna muito difícil. Também para Ruth Cardoso, identidade étnica é uma forma de estabelecer contrastes que separa “nós” dos “outros”, mas a participação e modo de olhar as condições sociais do grupo étnico pode explicitar e desvendar relações desconhecidas. Ela diz: “O encontro com desconhecidos, com que se pode cultivar uma relação de alteridade, é que permite conhecer o modo de operar de sistemas simbólicos diversos que são postos em movimentos por esta interlocução”. (2004, pg. 103)

Nesse sentido podemos dizer que nossa convivência com o grupo, constituiu em experiências de aprendizado dos elementos que são compartilhados nas narrativas desse grupo evangélico.

A identidade desse grupo de armênios não é uma reprodução pura e simples da identidade presente no país de origem, mesmo porque o contexto urbano insere novos problemas gerando a necessidade de novas respostas, ficando claro quando da nossa participação na rotina dos cultos e da familiaridade com o grupo feminino.

Barth centraliza sua concepção como “referência de identidade” e que se completa com limites que esses grupos étnicos criam em torno da sua organização. Para ele apesar de movimentação e interação com a sociedade, não deixa mde existir fronteiras:

“a etnicidade não é um conjunto intemporal, imutável de “traços culturais (crenças, valores, símbolos, ritos, regras de conduta, língua, código de polidez, práticas de vestuário ou culinária, etc.), transmitidas de mesma forma de geração para geração na história do grupo, ela provoca ações e reações entre o grupo e os outros em uma organização social que não cessa de evoluir.” (BARTH, 1998, pg. 11)

Nossa percepção sobre o grupo pesquisado é que o papel da etnia serviu para mantê-los espiritualmente e materialmente unidos. Hoje a existência da comunidade se baseia nos interesses e preocupações em comum, mas é possível se encontrar os traços de sua identificação étnica.

Esta comunidade tem algumas características peculiares de isolamento, tanto que um dos poucos trabalhos realizado por um não armênio, foi o de Robert Grun cujo trabalho data de 1992, e que entre outras coisas fala da dificuldade de acesso para contrapor as informações e análises por ele realizadas. Outra consideração importante a fazer é que a colônia tem um número pequeno em relação às outras etnias que vieram do Oriente Próximo.

Esse processo pode ser explicado segundo o que Saito define como “uma faixa de segurança”. Para ele grupos minoritários com posturas muito diferenciadas do “mundo de fora” tendem a criar tais mecanismos a fim de garantir e preservar características que se prendem à sociedade materna. (SAITO, 1961, pg. 210-212)

Devido a essa bagagem cultural do armênio, a reorganização social é muito mais demorada principalmente pela língua que não tem nenhuma proximidade com o português. Dentro dessa perspectiva, em nossa pesquisa de campo, observamos uma reformulação cultica das igrejas tradicionais apostólica e católica realizando parte de sua liturgia em português, coisa impensável há alguns anos atrás.

Naquela oportunidade Grun verificava que o papel da igreja apostólica na comunidade é de supervisionamento em todos os setores. Na nossa pesquisa se

revelou que esta igreja possui o maior número de membros, tem o maior número de pessoas à frente das diversas organizações e também o maior número de descendentes e que portanto o seu capital social, além de maior visibilidade tem também maior poder de influência.

A Igreja Apostólica se fez presente em todas as colônias da diáspora, zelando pelos traços diferenciais de sua cultura, operando nos limites especiais que o governo lhe outorga.

Nossa linha de observação, no entanto, recai sobre o segmento eclesiástico de menor representatividade em termos numéricos.

Evidentemente que por ser uma igreja étnica a inclusão do “outro” no seu círculo social não se deu no primeiro momento. Mesmo porque a pesquisa se iniciou com observações, a princípio nas Igrejas Apostólica e Católica em São Paulo, a Igreja Apostólica em Osasco, a Igreja Evangélica Irmãos Armênios, finalizando com a Igreja Central Evangélica Armênia.

Para Stuart Hall o grupo diaspórico não emigrou de livre vontade, mas porque se viu impelido a fazê-lo por várias situações que podem vincular-se a uma decisão familiar, de mudança de trabalho ou a um grupo obrigado a refugiar-se por problemas de guerra ou por perseguição. Desta forma o grupo leva consigo toda sua bagagem cultural, com seus ritos,mitos, história, ídolos, que a princípio é contrastada com a mesma carga de cultura que o local no qual ele será inserido lhe impõe. Diante desta situação o grupo faz novas mudanças na sua identidade. (HALL, 2009, pgs. 25-50).

Assim como os outros teóricos, Hall menciona a dificuldade de conceituar a identidade por conter uma complexidade grande que é pouco compreendida na ciência social para que seja estabelecido como um critério fechado, pois os indivíduos são constituídos por identidades diferentes em momentos diferentes por sua história, e é ele quem diz:

“assim, a identidade é realmente algo formado ao longo do tempo, através de processos inconscientes e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo, “imaginado” ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre “em processo”, sempre “sendo formada”. (2006, pg. 38).

Ele ainda coloca que os grupos diaspóricos da América Latina tem uma tendência marcante ao processo de miscigenação, não havendo uma identidade pura, porque na medida em que os indivíduos se deslocam, novas identidades são formadas pelo choque das diferenças. Ele define a diáspora como uma “subversão dos modelos culturais tradicionais orientados para uma nação”. (2009, pg. 36).

Diante da discussão da natureza das minorias étnicas, existem alguns símbolos da identidade que fazem a distinção do seu grupo diante dos outros: a língua, religião, família, vestuário, cor da pele, etc.

Especificamente, para os Armênios, os traços identitários biológicos foram registrados por Oliveira Viana mencionados no livro de Grun:

“Os imigrantes turco-árabes formam uma colônia numerosissima... Do ponto de vista antropológico, esse grupo é muito heterogêneo. Nele, os elementos preponderantes são os Armênios. Ora, os Armênios (ao menos os armênios imigrantes, são indivíduos que Kossovitch descreve como de tipo acentuadamente braquicéfalo, de estatura abaixo da média (1,62), de pigmentação mate de pele, de cabelos brunos com reflexos amarelados ou avermelhados de olhos geralmente escuros e só muito raramente, azuis ou verdes. (1959, pgs. 640–611). (OLIVEIRA VIANA, apud GRUN, 1992, pgs. 32-33).

Vestimentas não podem ser utilizadas como referenciais de identidade para os armênios pois não configuram diferenciação no modo de se vestir como por exemplo os africanos ou os judeus ortodoxos. Cor da pele como vimos não estabelece uma característica, pois são brancos e mesmo tendo a pele “mate” como descrito anteriormente, isto não configura uma distinguível característica em relação aos brasileiros. Outros símbolos que estão diretamente ligados com a socialização do grupo se estabelecem, na nossa concepção, pelo sobrenome, pela língua, pela religiosidade, pelas memórias, mas tudo se inicia pelo casamento.

O casamento armênio se dá numa sociedade patriarcal em que as mulheres têm uma colocação de subordinação ao marido. Hall apresenta as identidades nacionais como fortemente generificadas. Em similaridade com os ingleses por ele analisados, a armenidade tem fortes associações masculinas, com as mulheres exercendo um papel secundário como guardiãs do lar e do clã, e como “mães” dos “filhos” (homens) da nação. (HALL, 2006, pg. 61)

No livro de Grun, há o relato que, diferentemente de outras colônias orientais, os armênios não concedem dotes ao novo casal e geralmente os filhos homens tem maiores privilégios em relação às filhas mulheres. Dentro do grupo estudado algumas senhoras são casadas com cônjuges escolhidos pela família e relataram também a importância de se ter um filho homem para a perpetuação do clã.

É dentro do casamento que se processa a proteção e reprodução da cultura armênia, transferindo os valores culturais de geração em geração. Sapsezian colabora com esta afirmação em meio ao registro de suas recordações sobre sua mãe:

[...] Piedosa, era também fervorosamente armênia. Seu amor a Deus era inseparável da devoção à herança de seu povo. Eu tinha apenas seis anos quando ela nos ensinou o alfabeto armênio. Antes mesmo de aprendermos a ler o português, nós, seus três filhos, já conseguíamos ler pequenas frases

em armênio. Menciono esses fatos aparentemente anódinos para indicar que, desde os anos que passamos no remoto interior brasileiro, nossa mãe tivera o zelo de plantar em nós, órfãos de pai, as sementes da confiança num Pai celeste, e órfãos de pátria, as do apego à memória de nossa origem nacional. (2008, pgs. 301-302).

Há que se notar que esta transferência só é possível em meio a casamentos endogâmicos onde a preservação dos valores culturais são praticamente impostos pelos descendentes da primeira geração.

No caso particular do grupo de senhoras apenas uma delas tem um casamento chamado “misto”, as demais concretizaram a tendência do grupo.

Continuando o relato de Sapsezian sobre sua mãe: [...] Todos os seus filhos tinham se casado com descendentes de armênios. Essa era a regra naquela primeira geração de imigrantes. (2008, pg. 304)

No trabalho realizado por Grun já havia a percepção da tendência para a exogamia e para as preocupações da segunda geração quanto as implicações que o casamento “misto” poderia causar a comunidade. Ele apontava que a terceira geração em contato com a sociedade brasileira, com a ascensão desses descendentes a cursos universitários e a novas perspectivas de trabalho transformariam e reestruturariam seus conceitos quanto ao casamento. (1992, pgs. 76-77).

Os relatos das senhoras da igreja (2ª. Geração) mostraram esta tendência pois aproximadamente 40% dos seus filhos fizeram seus casamentos fora da comunidade étnica.

Hoje o casamento misto não é encarado como desastroso, mas a maioria dos evangélicos armênios ainda preferem um casamento endogamico. Nos foi colocado que é desejável, mas não obrigatório, pois já aceitam com alguma naturalidade o casamento misto.

Um fator importante no caso brasileiro é a falta de renovação na colônia, pois cessaram os fluxos migratórios. Não havendo crescimento na colônia, não há renovação, e a tendência é de uma ruptura étnica.

Se pegarmos como exemplo os italianos que chegaram após a Segunda Guerra Mundial, vamos verificar que o grupo ganhou visibilidade em São Paulo com contato direto no plano social e cultural com os brasileiros numa aliança até mesmo matrimonial. Não significa que não houve inconsistências entre as duas nacionalidades que foram assimiladas, e hoje sentimos a presença italiana em vários níveis de nossa cultura. O importante do grupo de italianos é que não possuíam um etnocentrismo forte e por isso a transculturação foi fácil, o que não

ocorre com o grupo armênio que ainda hoje se revela etnocêntrico. (BORGES PEREIRA, 2000, pgs. 13-15)

A desinência do nome é uma marca de importância para os armênios. Qualquer que seja o sobrenome de uma pessoa cuja desinência seja “Ian”, seguramente trata-se de um armênio ou descendente, e este orgulho é sem dúvida uma marca de pertencimento a uma cultura e a uma história.

“Entz ou Antz” seriam sufixos armênios que também foram utilizados durante um breve período. (KHAZINEDIAN, 1987, pg. 41)

Em artigo da Folha de São Paulo de 200736, a Profa. Monica Nalbandián 37 explica melhor esta característica dos sobrenomes:

“Sarkisian, Nercessian, Gasparian, Agassian... Os sobrenomes armênios são facilmente identificáveis, pois a grande maioria termina com o sufixo "ian", que, em armênio, significa "filho de" ou "oriundo de". "Tudo depende do significado da primeira parte do sobrenome. O significado mais comum é o "filho de", pois a maioria dos sobrenomes fazem referência à profissão do patriarca da família”. Dessa forma, o sobrenome "Vosgueritchian", por exemplo, significa filho de ourives. Já "Najarian" quer dizer filho de carpinteiro.

O sobrenome também pode marcar o local de origem da família, como, por exemplo, em "Sivaslian": oriundo da cidade de Sivas.

Muitos armênios da diáspora mudaram o sobrenome para se adaptar mais facilmente ao país a que chegavam ou por medo de perseguição. Na Rússia, por exemplo, muitos trocaram o "ian" pelo "ov". Já na Turquia, o final foi trocado por "oglu".

Vemos que há um conjunto de comportamentos, interesses e marcas que interagem, dando força a essa identidade étnica, que creditam na sociedade brasileira um diferencial sem que sejam no entanto estereotipados e sem que haja uma comoção contra a comunidade.

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