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A contribuição tecnológica mais importante para o cinema de animação dos primórdios foi uma simples folha transparente, a folha de celulóide ou acetato. Com essa folha, os animadores puderam finalmente libertar os personagens do cenário e, assim, não precisavam mais redesenhá-lo em todos os desenhos.

Concebido em dezembro 1914, pelo animador Earl Hurd (1880-1940), o acetato foi uma das tecnologias mais importante para a animação 2D. Hurd patenteou o acetato e um mecanismo de montagem dos desenhos em camadas. Para isso, ele desenvolveu       

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Esse tipo de procedimento é chamado de “hold” que significa: segurar; agarrar; manter-se. Consiste em deixar o personagem parado por algum tempo, permitindo uma leitura melhor das ações de um movimento.

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SOLOMON, 1994, p. 16 (tradução livre).

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In BRUZZO, 1996, pp. 163-164.

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LUCENA JÚNIOR, 2002, p. 59.

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um suporte no qual se prendiam as folhas de acetato umas sobre as outras, como forma de registro, tornando possível animar com algumas camadas57. O acetato possibilitou não somente a separação do cenário dos personagens, como também a separação dos elementos estáticos de partes animadas de um personagem – por exemplo, corpo separado de braços e pernas ou a boca separada da cabeça (Fig. 2.11). Isso deu aos animadores uma grande economia de tempo e trabalho, pois não era mais necessário redesenhar todo o personagem a cada quadro, bastando animar apenas a parte que se queria mover. Hurd descreve seu processo da seguinte forma:

No meu processo um único cenário é usado para toda a série de desenhos necessários para compor uma cena. O fundo mostra todas as partes da cena que permanecem paradas e podem convenientemente ser desenhadas, impressas ou pintadas em uma cartolina ou outro suporte de papel. Eu prefiro pintar as figuras do fundo em fortes tons de preto e branco sobre um papel cinza médio e quando a folha transparente tem objetos moveis é posta sobre este cinza do fundo, o objeto na folha transparente aparece destacado em relevo, dando o que pode ser denominado um ‘efeito de pôster’.58

No filme The Sinking of the Lusitania (EUA – 1918), também do artista Winsor McCay, utilizou-se o acetato e percebe-se a liberdade proporcionada por esta simples invenção. Apesar de McCay ter levado dois anos para concluí-lo e feito mais de 25 mil desenhos nesse filme, ele trabalhou o cenário com muito mais detalhes e realismo, além da profundidade no cenário do mar, pois McCay pode animar as ondas do mar em perspectiva.59 Esse filme é um exemplo do quanto a tecnologia do acetato veio contribuir com a arte, expandindo ainda mais as possibilidades expressivas na animação. Tecnicamente, o filme supera os anteriores, mas não diminui o feito de McCay em Little Nemo e em Gertie, the Dinosaur.

      

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O acetato inventado por Hurd não era totalmente transparente, o que permitia o uso de, no máximo, três camadas sem que se percebesse um escurecimento do cenário (SOLOMON, 1994, p. 25 – tradução livre).

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CRAFTON, 1984, p.150 (tradução livre).

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Fig. 2.11 – Dispositivo desenvolvido por Eard Hurd para organizar os acetatos e imagem do filme The Sinking of

the Lusitania (EUA – 1918), de Winsor McCay. O navio está pintado em um acetato. Fonte: CRAFTON, 1984.

A questão do acetato vai além das habilidades artísticas dos animadores: realmente, quando a tecnologia está a favor da arte, tende a oferecer maiores possibilidades expressivas, bastando para isto que o artista utilize-a a seu favor e de forma criativa. Assim, o acetato, contribuiu para que a animação entrasse com mais força no mercado de cinema e tornou-a mais atraente para o mercado publicitário. Lucena Júnior (2002) fala da contribuição do acetato para a animação:

Com o acetato, as figuras animadas ganham completa independência dos cenários, com benefícios enormes para ambos. Aos cenários poderia agora ser dada maior atenção plástica, sem limitações expressivas. Dos mais simples aos mais complexos, a concepção, o desenho e a pintura dos cenários subordinavam-se agora unicamente a considerações artísticas, instituindo logo uma nova categoria profissional dentro da animação – os paisagistas, cenógrafos dos desenhos animados.60

Lucena Júnior comenta sobre o impacto dessa invenção que, além de inaugurar novas categorias profissionais na animação, também determinou o uso de novos materiais, como tintas especiais e tintas coloridas, quando do advento da cor no cinema.

Com esses avanços, a animação sofreu adaptações para atender as necessidades mercadológicas e surgiram os pequenos estúdios de animação com seus departamentos       

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para cada função do processo produtivo. No cinema de animação, esse tipo de divisão de tarefas foi concebido primeiramente por John Randolph Bray (1879-1978) que aplicou no seu estúdio de animação as práticas industriais de produção, a fim de obter o maior rendimento possível. Dentre elas, a eliminação ao máximo de detalhes em personagens e cenários para agilizar o processo de desenho; a divisão de funções como em uma linha de montagem, descartando o modo individual de animar – lembrando que, no início da carreira de Bray, ainda não havia sido inventada a tecnologia do acetato. Bray descreve essa divisão de tarefas da seguinte maneira:

O artista deve somente esboçar no lápis as partes que realmente mudam de posição ou expressão em sucessivas imagens enquanto as partes nas quais não se movem através da seqüência de vários desenhos deve ser traçada por um assistente ou copista.61

Quebrar a tradição de animadores como Winsor McCay e Émile Cohl de trabalhar praticamente sozinhos em um filme era essencial para que a animação conseguisse ter um alto rendimento e, desta forma, um maior número de filmes poderia ser produzido – lembrando que McCay já havia feito isso ao passar para um assistente a tarefa de retraçar o cenário. Porém, a questão principal defendida por Bray era dividir entre mais de uma pessoa a animação de um mesmo personagem. Mesmo que o assistente não estivesse envolvido na criação de poses que mudam de posição, Bray abria as portas para o surgimento da função de animador assistente62.

Bray também trabalhou com foto reprodução em jornalismo e desenvolveu para animação um processo de imprimir o cenário estático em várias folhas com uma placa de zinco (a mesma usada na impressão de jornais da época), deixando em branco ou apagando depois as partes onde houvesse elementos em movimento. Dessa maneira, o animador já disponibilizava na folha o cenário impresso e um espaço em branco para ser completado pelo desenho animado (Fig. 2.12).63

      

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CRAFTON, 1984, pp. 145-146 (tradução livre).

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Atualmente, uma das tarefas do animador assistente é a de fazer desenhos intermediários entre as poses principais previamente estabelecidas pelo animador principal. Sendo assim, o assistente também cria, pois ele desenha novas poses que se conectam às principais.

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Fig. 2.12 – Método patenteado por John Randolph Bray. Fonte: CRAFTON, 1984.

Apesar de ter sido uma solução técnica muito prática, esse processo de impressão não durou muito quando o acetato apareceu, mas foi uma importante forma de aliviar o árduo trabalho de animação quadro-a-quadro. Já a divisão de tarefas nos moldes industriais vai se tornar a tendência da animação a partir de então, pois seus benefícios foram muito vantajosos para a produção de animação.

Um processo muito semelhante foi desenvolvido por Raoul Barré (1874-1932) e Willliam C. Nolan (1894-1956) que consistia em um sistema de corte no qual o cenário era desenhado em uma folha e o personagem em outra. Na folha do personagem, retirava-se o máximo possível da parte branca do papel e, desta forma, o personagem ficava junto com o cenário, preso através de uma barra com dois pinos. A folha do personagem tampava apenas parte do cenário que era planejado de acordo com a animação.64 Essa técnica, apesar de solucionar o problema do cenário, limitava a animação, pois os movimentos tinham que ser devidamente planejados de acordo com o cenário – o que acabava restringindo a liberdade criativa do artista.

Outro recurso foi a invenção da barra com dois pinos que é atribuída a Raoul Barré (1874-1932)65, pois havia a necessidade de melhorar o sistema de registro mais eficaz do que marcas na folha – folhas furadas para o encaixe de pinos oferecia para os animadores um sistema mais eficiente para manter as folhas posicionadas corretamente, sem perigo de deslocamentos indesejáveis, algo provavelmente comum no sistema de marcas no papel.66

      

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CRAFTON, 1984, p.194 (tradução livre).

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Raoul Barré foi um cartunista e animador da fase silenciosa do cinema de animação. Em 1914, fundou o estúdio dedicado à animação Barré-Nolan Studio com o então companheiro de animação William Nolan. O estúdio dedicou-se exclusivamente a filmes de propaganda com as primeiras animações para vender algum tipo de produto.

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