Segundo Iida (2005), o registro dos movimentos do corpo humano é feito com base no sistema de planos triortogonais. Como o nome sugere, trata-se de um conjunto de três planos imaginários, perpendiculares entre si, que dividem o corpo tal como estão representados na figura a seguir:
O plano frontal separa o corpo em frente e costas. Perpendicularmente, também na vertical, situa-se o ao plano sagital, que seciona simetricamente o corpo nas metades direita e esquerda. Paralelamente ao chão e na altura do umbigo, configura-se o plano transversal, também chamado de plano horizontal, que divide o corpo em parte superior e inferior.
Ao realizar movimentos, os membros superiores – mãos e braços – cruzam esses planos, traçando um volume de alcance, isto é, uma região tridimensional de alcance dos braços. Estando o indivíduo sentado ou em pé no momento da sinalização, as zonas percorridas pelos braços e mãos podem distar ou se aproximar do seu tronco. Fora do alcance dos braços e mantendo os pés fixos no chão, o tronco tem de se inclinar até que a mão atinja o ponto desejado no espaço. O esforço demandado para essa tarefa dentro dessa zona de alcance máximo é bem maior do que o exigido para uma tarefa em que o corpo se mantém perpendicular ao chão. Quanto menos esforço houver na realização do movimento, menor será o gasto energético e, consequentemente, maior será o conforto. É o que ocorre com os movimentos que percorrem a chamada zona preferencial. Essas zonas estão ilustradas na figura (10):
Figura 10: Vista da zona preferencial (In: IIDA, 2005, p. 125)
Cabe ressaltar que, em pé ou sentados, os sinalizantes geralmente produzem os sinais na região à frente do seu corpo, chamado de espaço de realização dos sinais ou, simplesmente, espaço de sinalização (QUADROS e KARNOPP, 2004), que coincide com a zona preferencial dos
movimentos realizados pelos braços (Figura 10), embora abranja uma área bem mais ampla, cujos limites dependem do alcance dos braços.
Faria-Nascimento (2009) destaca que esse espaço já foi representado em forma de ilustrações por diversos pesquisadores, desde o século XIX. Alguns autores preferiram representá-lo em forma de um paralelepípedo9 imaginário ao redor do sinalizante, e outros, em forma de círculos
ou globos (FARIA-NASCIMENTO, 2009, p. 135-156), conforme mostram as figuras (11) e (12) a seguir:
Figura 11: Espaço de sinalização por Bacon (In: FARIA-NASCIMENTO, 2009 – Fig. 15)
9 Brito (1995) utilizou ainda um sistema de eixos igualmente imaginários, que atravessam as extremidades corporais (o vertical, o transversal e o de profundidade), para determinar a posição exata de um articulador em relação ao restante do corpo do sinalizante. Retomaremos este assunto no capítulo 3, ao dedicarmos uma seção aos estudos realizados por essa pesquisadora e às respectivas contribuições no âmbito do nível fonético- fonológico da LSB.
Figura 12: Espaço de sinalização por Brito (In: BRITO, 1995 -Fig. 12.2)
Comparando as duas figuras, percebemos que as zonas demarcadas possuem representações diferentes não somente quanto à forma geométrica de cada uma, mas especialmente pela zona de alcance das mãos. Em relação ao plano frontal, ambas coincidem por considerarem a possibilidade de realização dos sinais tanto na parte anterior quanto na posterior do corpo do sinalizante. Porém, no que concerne ao plano transversal, mais precisamente na metade inferior do corpo, vemos que as concepções se diferem. Pela figura (11), prevê-se que a zona de alcance máximo da mão se estende da coxa à altura máxima que a mão consegue atingir acima da cabeça. Na figura (12), o ponto mais alto da metade superior é equivalente ao representado na figura (11), mas o ponto mais baixo situa-se na região da cintura.
Essa diferença de concepções é observada por Faria-Nascimento (2009), que contesta a forma do paralelepípedo, por partir do princípio de que o espaço de sinalização corresponde a toda a área circundada pela mão, diante, atrás e nas laterais do corpo, incluindo os hemisférios acima e abaixo do plano transversal, até o limite máximo atingido pela mão com o braço esticado. Por esse motivo, essa pesquisadora adota a forma esférica como a representação mais conveniente às suas análises (FARIA-NASCIMENTO 2009, p. 155-158).
Em complemento às suas observações sobre o espaço de sinalização, Faria-Nascimento (2009) salienta ainda que a maioria dos sinais da LSB se concentra na região à frente da face e do tronco do sinalizante, e justifica esse fenômeno pelo prisma da percepção. Entretanto, creditamos a preferência pela realização dos sinais à frente do tórax não só ao campo visual, mas sobretudo à zona preferencial de movimento. No contexto de produção em LSB, o
sinalizante executa movimentações corporais em sucessivas atividades físicas que envolvem gasto de energia, e certos movimentos corporais acrescentam mais esforços ao sistema musculoesquelético, do mesmo modo como algumas posturas condicionam maior ou menor desconforto do que outras (COTRIM,2004). Se considerarmos o princípio (ou lei) do menor
esforço10 como uma condição eminentemente humana, a preferência articulatória do sinalizante apontada por Faria-Nascimento (op. cit.) pode ser justificada também pela motivação fisiológica de articulação, que se reflete na LSB por um dos princípios basilares das línguas naturais, a economia.
Essa explicação torna compreensível a mudança ocorrida, por exemplo, na forma do sinal ‘cadeira’ em LSB (Figura 13), que evoluiu do movimento realizado com a articulação de todo o corpo, envolvendo o gesto de flexão dos joelhos, à execução mais simplificada com a utilização apenas dos dois articuladores primários (as mãos):
Figura 13: Evolução do sinal 'cadeira', em LSB (In: GAMA, 1875, p. 9; CAPOVILLA e RAPHAEL, 2008)
Chamamos a atenção para a similaridade entre as formas desses dois sinais. O sinal mais antigo representa a própria atitude de sentar, com os movimentos de flexão das pernas e dos cotovelos, sugerindo o agachamento do corpo em direção a um assento. Da mesma maneira, a forma contemporânea faz alusão ao apoio das nádegas e das coxas numa superfície, porém com o redimensionamento das proporções do sinal original, substituindo as pernas pelos dedos indicador e médio da mão ativa. Podemos dizer então que esta forma é menor do que a antiga,
10 Saussure (1995, p. 172) menciona a lei do menor esforço ao refletir sobre as causas para a mudanças fonéticas nas línguas orais. Segundo o autor, essa lei parece se aplicar em certos casos, quando ocorre a substituição de “duas articulações por uma só, ou uma articulação difícil por outra mais cômoda”. Após demonstrar o fenômeno com palavras francesas originárias do latim, oferece em contrapartida uma gama de exemplos em alemão, em que se passa o contrário, ou seja, na evolução da língua ocorrem acréscimos de fonemas que aparentemente demandam maior esforço articulatório. Ao final, sem ter um posicionamento rígido contra ou a favor da lei do menor esforço, propõe que se considere simultaneamente as motivações fisiológicas e psicológicas em tais mudanças nas línguas.
pois envolve menor quantidade de estruturas corpóreas (os articuladores), além de preservar a porção material que exibe certa transparência conceitual (manifestação da iconicidade). No momento, não estenderemos nossas observações sobre as influências das propriedades semânticas na forma dos sinais. Sobre isso, faremos uma reflexão no capítulo 6, onde serão discutidos o tamanho dos sinais e a interface entre o nível sublexical e o sintático. O que importa agora é ressaltar que esse tipo de redução de forma envolve um tipo de interpretação visual. Tal redução se assemelha aos fenômenos denominados metaplasmos por subtração11, em que
as palavras das línguas orais sofrem, ao longo do tempo, reduções de material sonoro, ou seja, por supressão de fonemas.