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3 Metodiske valg

3.3 Kvantitativ  innholdsanalyse

Durante as entrevistas com os reeducandos e policiais, cuja transcrição completa encontra-se no Apêndice B, procuramos traçar um perfil desses colaboradores, a fim de analisarmos a influência desse perfil nos usos linguísticos do grupo. Conforme já mencionamos acima e de acordo com as entrevistas em apêndice, a maioria dos reeducandos entrevistados são oriundos de classe social baixa, possuem baixo nível de escolarização e tratam-se de presos já condenados, que cumpriam pena em regime fechado. Já a maioria dos policias entrevistados, tanto os agentes penitenciários, quanto o agente de polícia e o delegado, possuem ensino superior completo e atuam na profissão há mais de seis anos.

Com o fito de preservar as identidades dos colaboradores, por questões éticas, bem como para personalizar nosso trabalho, identificamos os entrevistados utilizando pseudônimos, em que nomeamos os quatorze reeducandos e os oito policias sujeitos da pesquisa por meio de vocábulos gírios, cujos significados constam no glossário em apêndice.

A escolha desses pseudônimos foi feita procurando relacionar alguma característica do entrevistado com o vocábulo gírio, contudo, em alguns casos, essa escolha foi feita sem, necessariamente, ocorrer tal relação.

A seguir apresentamos os vinte e dois colaboradores, explicando o porquê de cada apelido fictício atribuído a eles.

Na CPPG entrevistamos seis reeducandos, aos quais atribuímos os seguintes pseudônimos: Barca, Sete Um, Latada, Caô, Chegado e Feijão. A escolha do termo gírio “Barca” para nosso primeiro colaborador se deu porque, durante a entrevista, esse reeducando de trinta e um anos de idade nos relatou que estava preso há doze anos e, durante esse tempo, já passou por vários presídios e casas de detenções brasileiras. Desse modo, como o vocábulo gírio “barca” significa transferência para outra unidade prisional (vide glossário em apenso), resolvemos dar essa alcunha ao entrevistado. Já o reeducando Sete Um, que estava preso há sete anos e oito meses pelo crime de assalto, recebeu esse nome fictício devido ao fato de possuir fortes argumentos para tentar mostrar à entrevistadora que não é um dos mais “problemáticos” da criminalidade, que não usa gíria em sua linguagem e que tem um bom comportamento dentro da cadeia. Contudo, os agentes penitenciários nos informaram, em conversa informal, que seu perfil é o oposto do que tentou transmitir, desse modo, resolvemos nomeá-lo de “Sete Um”, porque esse vocábulo gírio significa estelionatário ou pessoa que persuade e engana os outros com facilidade (faz referência ao artigo 171 do Código Penal brasileiro, que trata do crime de estelionato). Por sua vez, o reeducando Latada, que estava preso há três anos pelo crime de incêndio/vandalismo, recebeu essa alcunha porque, durante a conversa com a pesquisadora, revelou que só faz coisas erradas, só entra em “latada” (vide glossário) e que por isso estava preso e com as duas pernas quebradas a tiro pelos policiais, resultado de tentativas de fuga. Já o reeducando Caô, preso há cinco anos pelo crime de assalto, recebeu esse pseudônimo pelo mesmo motivo do reeducando Sete Um, pois “caô” na gíria do sistema penitenciário significa “preso que tem lábia para levar todos na conversa” e esse detento, assim como Sete Um, tentou transmitir uma imagem de si mesmo que não condizia com a realidade relatada pelos policiais. Por sua vez, Chegado, nosso quinto entrevistado, estava preso há cinco anos pelo crime de assalto e, em nossa conversa, mostrou- se reservado e tímido, não fornecendo em sua fala nenhuma motivação para o associarmos a alguma das gírias do sistema, assim sendo, resolvemos denominá-lo de Chegado, que significa “amigo”, “colega”. Nosso último colaborador da CPPG estava preso há onze meses pelo crime de assalto e recebeu o nome fictício de Feijão. A escolha desse pseudônimo se deu pelo fato do entrevistado nos relatar que era usuário de maconha antes de ser preso e quando

ligava para um traficante sempre se referia à droga como “feijão” a fim de não ser pego facilmente pelos policiais em uma escuta telefônica.

Passamos agora aos oito reeducandos do presídio de Cariri – TO, que receberam as seguintes alcunhas: Caju, Cospe Fogo, Bimbal, Tereza, Doce Recheado, Pegador, Mano e Correria. Dentre esses colaboradores, os reeducandos Caju e Mano, que significam, respectivamente, “lâmpada” e “amigo/colega”, receberam tais pseudônimos sem ocorrer relação entre o significado do nome e alguma característica dos entrevistados. Já para nomearmos o reeducando Cospe Fofo, levamos em consideração o fato dele está cumprindo pena há quatro anos pelo crime de homicídio, ou seja, associamos o crime ao instrumento utilizado em sua prática, o revólver, que, na gíria do sistema, é denominado de “cospe fogo”. O colaborador Bimbal, que cumpria pena há cinco anos por tráfico de drogas, recebeu esse nome fictício porque nos relatou que escrevia cartas e/ou bilhetes (que no presídio são chamados de “”bimbal”) para se comunicar com mulheres que estavam fora da cadeia. Já o reeducando Tereza, que estava preso há um ano e oito meses pelo crime de tráfico de drogas, mas que já era reincidente, recebeu essa alcunha porque foi encontrado morto dentro do presídio alguns dias após nos ter concedido a entrevista; o mesmo enforcou-se com uma corda feita de lençol, a qual é denominada de “tereza” pelos detentos. De acordo com os agentes penitenciários, esse reeducando vinha sofrendo ameaças de grupos rivais dentro do presídio, sendo que sua transferência para outra casa de detenção já estava sendo providenciada, contudo, por medo de ser morto por seus inimigos de forma mais cruel e covarde, resolveu suicidar-se. Resolvemos nomear nosso quinto entrevistado no presídio de Cariri de Doce Recheado porque esse reeducando, que cumpria pena há nove anos pelos crimes de assalto e sequestro, foi um dos que mais falou, revelando detalhes da rotina na prisão e no mundo da criminalidade; então, de acordo com o próprio entrevistado, como o vocábulo gírio “doce recheado” é usado na cadeia para denominar “aparelho celular com chip”, achamos por bem denominá-lo por essa alcunha, uma vez que ele falou tanto quanto se pode falar por meio de um aparelho celular com chip. Por sua vez, o reeducando Pegador, que já cumpria pena em regime semiaberto pelo crime de tráfico de drogas, recebeu esse pseudônimo devido ao fato de nos relatar que um dos motivos para sua entrada no mundo do crime foi para conseguir dinheiro rápido e fácil a fim de manter as “duas ou três namoradinhas” que sempre tinha; daí, como a gíria “pegador” é utilizada para se referir a homens namoradores, que namoram muitas mulheres, resolvemos denominá-lo com esse vocábulo gírio. Por último, temos o reeducando Correria, um senhor de cinquenta e sete anos idade e que cumpria pena há um ano e oito meses pelo crime de assalto. Com relação a esse reeducando, resolvemos chamá-lo de Correria porque o mesmo relatou que gosta de ajudar os outros detentos dentro do presídio,

desse modo, como o termo gírio “correria” significa preso que ajudo os outros, aquele que “faz os corre da cadeia”, resolvemos denominá-lo por esse termo gírio.

No que tange aos policias, estes receberam pseudônimos de acordo com a forma como os reeducandos se dirigem a eles dentro do estabelecimento penal, sem estabelecer uma ligação direta entre o nome fictício e uma característica própria de cada um. Assim, os três agentes penitenciários entrevistados na CPPG receberam os nomes fictícios de Ganso, Gambé e Verme; os três agentes penitenciários do presídio de Cariri foram denominados de Dezoito, Manga Lisa e Pé-preto; o agente de polícia da Central de Flagrantes de Gurupi recebeu o nome de Tira; e, por último, o delegado da Delegacia Especializada em Investigações Criminais de Gurupi (DEIC) foi denominado de Delega. Já para a identificação da fala da entrevistadora, utilizamos a abreviação E..

Para maiores explicações com relação aos significados dos termos gírios que os reeducandos utilizam em referência aos policias, veja o glossário no Apêndice A, bem como o item 3.6 do Capítulo 3 desta dissertação, em que analisamos algumas das criações metafóricas das gírias dos reeducandos.

2.4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

No presente capítulo descrevemos, de forma minuciosa, os procedimentos metodológicos para a geração dos dados da pesquisa de campo, falando sobre os instrumentos utilizados, a identificação dos colaboradores da pesquisa e as dificuldades encontradas para realizar as entrevistas com os reeducandos, devido a sua condição de reclusão.

Enfatizamos a responsabilidade ética do pesquisador perante a violência, nos pautando no método da etnografia e da metamorfose para buscar o diálogo com aqueles sujeitos que estão à margem da sociedade.

Além disso, procuramos justificar as escolhas metodológicas feitas ao longo da pesquisa, mostrando, também, que muitas delas foram feitas devido ao contexto de violência e criminalidade em que nosso estudo se insere.