Cada editor das obras de Fernando Pessoa faz as escolhas a seu critério. Alguns apenas compilam da obra édita e outros pesquisam diretamente no espólio. Mesmo a considerar os que acessam os originais, nem sempre fazem as mesmas interpretações, seja por visualizarem a letra (no caso dos manuscritos) de modo diverso ou por optarem por uma ou outra variante que o poeta fazia. No livro “Editar Pessoa”, coordenado por Ivo Castro, temos um aprofundado estudo sobre a edição da obra pessoana. Fica claro a dificuldade em se decifrar Pessoa e fixar os textos. Como mencionei, tal obstáculo é consequência de dois fatores:
Percepções distintas que a letra manuscrita possa suscitar à leitura para a devida compreensão caligráfica;
Parâmetros estabelecidos para a escolha das variantes de palavras e até de versos inteiros, que Pessoa imiscuía no corpo do poema.
Mesmo um experiente estudioso habituado com a caligrafia ou hipoteticamente afeito ao padrão que o poeta tinha de fazer suas anotações, poderá, inadvertidamente, deturpar o sentido primevo do texto. Dizer que Pessoa iria preferir desta ou daquela maneira é só uma cogitação e cada estudioso há de defender o seu juízo.
Como minha tese não tem o objetivo de debruçar-se em questões editoriais ou de genética textual, optei por trabalhar com as obras éditas, formuladas por respeitados investigadores, tais como: Maria Aliete Galhoz, Teresa Rita Lopes, Cleonice Berardinelli, Richard Zenith, Fernando Cabral Martins, Luísa Freire, entre outros. Todavia, quando surgiam discrepâncias ou lacunas, que julguei pudessem empobrecer a arqueologia textual para as escolhas na construção dramatúrgica, recorri ao espólio digitalizado na Biblioteca Nacional de Portugal.
Cito como exemplo, um verso de Alberto Caeiro, que empreguei para o diálogo na peça: “mas o Universo existe mesmo sem ser o Universo”. Este verso faz parte do poema “Creio que irei morrer”, dos “Poemas Inconjuntos”. O texto mais completo só é encontrado na edição de Teresa Sobral Cunha204:
203 WHITMAN, Walt. Leaves of Grass/Folhas de Erva. Vol.I - Edição bilíngue, Tradução: Maria de Lourdes
Guimarães. Lisboa: Relógio D'Água, 2002a. p. 65. Vv. 20 (2).
204 PESSOA, Fernando. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral
Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me ocorre [?], Lembra-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas. Que folhas ou que flores tem uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos nada se define. A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que destinge, uma (...)
...mas o Universo existe mesmo sem o Universo. Esta verdade capital é falsa só quando é dita.
Na edição de Maria Aliete Galhoz205 está assim:
Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me move, Lembra-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas. Que folhas ou que flores têm uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte? Tudo são termos onde se define.
? [Um verso ilegível e incompleto]
Na de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith206:
Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me ocorre, Lembra-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas. Que folhas ou que flores têm uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte? Tudo são termos onde se define.
A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que destinge, uma
205 PESSOA, Fernando. Obra Poética – Volume único. Org.: Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
1986. p. 173.
206 PESSOA, Fernando. Poesia de Alberto Caeiro. Edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith – 3. ed.
Tendo em vista as discordâncias e/ou ausências nas três versões, busquei diretamente no espólio207:
Figura 7 – Manuscritos de Fernando Pessoa
Fonte: Espólio da Biblioteca Nacional de Portugal, BN Esp. E3/16A-7r/16A-7v
Os dois últimos versos: “...mas o Universo existe mesmo sem o Universo. / Esta verdade capital é falsa só quando é dita”, que estão apenas na edição de Teresa Sobral Cunha se encontram no dorso do papel manuscrito como se pode ver nas reproduções acima.
Esta questão de que alguns estudiosos não se aperceberam que Pessoa continuava o texto no reverso da folha pode ser consequência de que nem todos examinaram os originais, mas se detiveram no material digitalizado, o que pode dificultar esta percepção, dado ao enorme volume do espólio. Por vezes, a continuação não se fez no reverso, mas em outro papel, o que dificulta a arqueologia pessoana. Mesmo tendo o espólio sido organizado meticulosamente, tais lapsos podem ocorrer até mesmo com o mais laborioso investigador.
Retomando o ponto sobre os critérios de cada investigador e/ou editor, devemos considerar que alguns avaliam que textos apartados da contiguidade na mesma folha possam não fazer parte do conjunto. A discussão se há ou não continuidade temática com o poema, mas sabemos que o poeta, invariavelmente, pode (e faz) rupturas na sequência lógica, o que não significa, portanto, que tais fragmentos não estejam em consonância com o todo.
Sobre as divergências na compreensão das palavras, exemplifico, neste caso o verso 7. Teresa Sobral Cunha transcreveu-o como: “Tudo são termos nada se define”, já Maria Aliete Galhoz transcreve: “Tudo são termos onde se define”, o que é reproduzido também na edição de Richard Zenith. Pelo manuscrito, este termo é quase ilegível. Todavia, por uma questão de lógica frasal, creio que “nada” está mais adequado a se considerar todo o questionamento relativizador que vem antes. Esta questão passa não só por confrontar diferentes edições e os originais como também considerar a significação no contexto do poema. Foi tal discernimento que me conduziu a fazer minhas próprias escolhas na arqueologia que embasa o constructo dramatúrgico.