7.2 American Reactions to North Korean Nuclear Threats
7.2.5 DPRK´s Third Nuclear test – 2013
Mesmo com vastos estudos que buscam classificar os textos de Fernando Pessoa quando não “assinados” por ele ou por algum heterônimo, nem sempre é tarefa simples determinar a atribuição autoral. O próprio Pessoa ao longo de seu processo criativo deslocava seus escritos ora para um ora para outro. Um destes exemplos é “Chuva Oblíqua”. Em 1914, numa carta a Armando Côrtes-Rodrigues, ele combinava a possível publicação de um livro denominado “Antologia do Interseccionismo”, cuja estrutura ele mesmo esquematiza:
“[ ] A composição do volume deve ser esta, pouco mais ou menos: 1. Manifesto (Ultimatum, aliás).
2. Poesias e prosas de Fernando Pessoa.
3. Poesias e prosas («Eu-próprio o Outro», pelo menos) do Sá-Carneiro.
4. Poesias e prosas de A. Côrtes-Rodrigues. (Vá v. vendo o que de mais caracteristicamente interseccionista tem; e vá mandando, para não se perder tempo. Não sabemos ainda ao certo o espaço que competirá a cada um, mas, devendo o livro ter entre 96 e 128 páginas, v. deve poder fazer um cálculo aproximado).
5. Poesias e prosas de A. P. Guisado.
6. Poesias de Álvaro de Campos. («Chuva Oblíqua» — Rei Cheops, etc.).
7. O Interseccionismo explicado aos inferiores. (É aquela explicação do interseccionismo por meio de gráficos que, uma vez, na Brasileira, lhe delineei. Recorda-se?)”.
Neste planeamento, Pessoa atribuía o poema “Chuva Oblíqua” ao Álvaro de Campos. O projeto da “Antologia do Interseccionismo” não se concretizou e no ano seguinte, em 1915, o poema em questão é publicado em “Orpheu 2” assinado por Pessoa ortónimo. Em texto ligeiramente posterior à saída deste segundo número da Revista, Pessoa diz:
“Os Directores do ORPHEU julgam conveniente, para que se evitem erros futuros e más interpretações, esclarecer, com respeito à arte e formas de arte que nessa revista foram praticadas, o seguinte:
[ ] (2) Os termos «sensacionista» e «interseccionista», que, com maior razão, se aplicaram aos artistas de ORPHEU, também não têm cabimento. Sensacionista é só Álvaro de Campos; interseccionista foi só
Fernando Pessoa, e em uma só colaboração — a «Chuva Oblíqua» em ORPHEU 2”. 208
Figura 8 – Sumário da Revista ORPHEU, Nº 2, 1915.
Fonte: MOISÉS, Carlos Felipe et alli. Orpheu 1915-2015: Textos doutrinários e fortuna crítica. Campinas: UNICAMP, 2014. p. 39.
É relevante que o Álvaro de Campos, que seria o “autor” inicial deste poema, tenha comentado que “Chuva Oblíqua” foi um marco na produção literária de Fernando Pessoa. Segundo Campos, Pessoa só foi capaz de produzir tal obra após ter conhecido o mestre Caeiro:
Caeiro viera a Lisboa passar uma semana e foi então que o Fernando o conheceu. Ouviu ler O Guardador de Rebanhos. Foi para casa com febre (a dele), e escreveu de um só lance ou traço, a «Chuva Oblíqua » – os seis poemas. [ ] Mas o Fernando Pessoa era incapaz de arrancar aqueles extraordinários poemas do seu mundo interior se não tivesse conhecido Caeiro. Mas, momentos depois de conhecer Caeiro, sofreu o abalo espiritual que produziu estes poemas.
[ ] E o que há de mais admirável na obra do Fernando Pessoa é esse conjunto de seis poemas, essa «Chuva Oblíqua».209
Da extensa produção de Fernando Pessoa, pouca coisa foi publicada em vida. Apesar dos inúmeros planos de edições e projetos que foram encontrados no espólio, a grande parte não se efetivou. As edições póstumas – com maior ou menor critério – não dão conta do que seria a ideação definitiva do autor. Mesmo quando “é possível conhecer com alguma exactidão a vontade de Pessoa no respeitante à forma final de um texto, verifica-se que as edições correntes reflectem distorcidamente essa vontade”210
. Ainda assim, cada especialista considera que seu critério há de ser o mais correto. Sobretudo quando as edições são acompanhadas de comentários interpretativos corre-se o risco de deixar-se conduzir por uma visão unívoca. O melhor é não se render à homogenização e descortinar a multiplicidade de sentidos que sua obra poética oferece. E Fernando Pessoa é quase sinónimo de pluralidade.
Afinal, como a obra ficou em aberto por não ter tido uma edição definitiva durante sua vida, o que se encontrou no espólio foi um manancial de textos – manuscritos ou datilografados – com variações inteiras de um poema e variantes de vocábulos e versos dentro de um mesmo poema. Uma constante experimentação de forma e conteúdo. Qual das versões do poema ou variantes vocabulares e frasísticas deve ser considerada? Para Ivo Castro, é matéria de opinião, cujo princípio é discutível e a aplicação de elevado risco:
O crítico pode enganar-se na determinação da cronologia das variantes, considerando mais recente uma que não o seja. E pode enganar-se ao supor que o poeta, se tivesse chegado a escolher, teria coincidido consigo.211
209
PESSOA, 2012, op. cit., p. 325.
210 CASTRO, Ivo. Editar Pessoa. Lisboa: Imprensa Nacional -Casa da Moeda, 2013. p.11. 211 Ibidem, p.53.
Tendo estas reflexões em mente, considero que sua obra – por si caleidoscópica – possibilita uma infinidade de rearranjos que Pessoa deixou patente nestes poemas-estudos. Assim como as vozes heteronímicas debatiam-se para se corporificarem textualmente, também o seu criador possuía seu próprio turbilhonamento ideativo (ou era por ele possuído). Neste fluxo contínuo de versos-ensaios, havia o nítido prazer não apenas no burilamento, mas no experimento: “Pessoa parece ter tomado gosto em o trabalhar, revendo, riscando, substituindo ou dispondo em sucessão várias leituras alternativas(...)”212
. Sendo que, eventualmente, poderá o poeta explicitar uma preferência e noutros casos nem chega a resolver-se, mantendo a incógnita.
Para além do arranjo lógico embasado em técnicas de escrita de cena, utilizei-me, convictamente, do meu próprio processo criativo, “Só uma grande intuição pode ser bússola nos descampados da alma (...)”213
212 Ibidem, p.55.