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RESULTADOS DE LA BÚSQUEDA BIBLIOGRÁFICA PubMed Combinaciones

19 DOI:10.1097/NNR.0b013e3181dbbd61

As ações pretendidas e levadas a termo na gestão de Sonis, no terreno das tecnologias de informação, teriam implicações também estruturais. Ele constatou que informações gerenciais mínimas, tais como custos e resultados alcançados, pareciam indisponíveis, assim como parte dos elementos técnicos para uma adequada avaliação institucional (BIREME, 1976).106 No que concerne à utilidade, em si, do sistema, Sonis constatou que sua utilização se restringia, mais uma vez, a uma elite médica dedicada à pesquisa acadêmica voltada para temas ultra especializados (BIREME, 1976). As condições de funcionamento dos terminais, na Bireme e nas outras instituições, eram bastante irregulares, assim como a conexão telefônica com o Instituto de Energia Atômica. O número de terminais em operação havia se reduzido a dois: um na Bireme e outro na Biblioteca da Faculdade de Medicina da UFRJ. Portanto, um componente fundamental do projeto da Bireme como contribuição para uma modernização da infraestrutura docente, o sonho da recuperação da informação assistida por computador, que tanto havia maravilhado Neghme e os dirigentes da Fepafem, na já distante reunião de Poços de Caldas, em 1964, vinha se transformando em um nó crítico, de ordem técnica, no desenvolvimento institucional da biblioteca regional da saúde.

Além dessas dificuldades, havia outras de caráter orçamentário. Financiado pelo Pnud até finais de 1975, o projeto Medline passou a ser, após esse ano, integralmente coberto pelos recursos regulares da Bireme, ainda que uma política de cobrança de taxas começasse a ser praticada. Para Sonis, a instalação da Medline poderia tornar-se um problema clássico das inversões em tecnologia mal planejadas, acarretando...

“(...) custos crescentes e baixa eficiência para cuja solução se exigem maiores investimentos que vão aumentando

106 Sonis, mais tarde, designaria um gerente administrativo para realizar um acompanhamento exclusivo da cooperação propriamente tecnológica com a NLM.

o comprometimento financeiro de maneira tal que, pelos investimentos realizados, se torna cada vez mais difícil tomar decisões racionais: é a manutenção do próprio sistema o que dirige o processo” (BIREME 1976: 21).

Ao tentar solucionar o problema, a Bireme aproximou-se do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia - Ibict, desde 1974 a nova denominação do IBBD. Em princípio, foi cogitada uma completa assimilação do projeto Medline pelo Ibict, como parte da arquitetura do Sistema Nacional de Informação Científica e Tecnológica – Snict. Nesse arranjo, a Bireme permaneceria apenas como usuária ou, numa hipótese intermediária, como uma parceira preferencial. Entretanto, a perda do controle do projeto, por parte da Bireme, inclusive com suas implicações político– institucionais e simbólicas, foi considerada um aspecto crítico (BIREME, 1976).

Uma comissão tripartite de alto nível, formada pelos diretores da Bireme, do Ibict e pelo Diretor Associado para Sistemas de Computação e Comunicações da NLM,107 foi estabelecida para realizar, em dezembro de 1976, um diagnóstico amplo da situação e examinar as alternativas disponíveis. Ao final dos trabalhos, a comissão diagnosticou sérios problemas de planejamento, gerência e, também, de design de projeto. Estabeleceu-se que, para sua continuidade, seria preciso constituir uma unidade interna integralmente dedicada a sua operação e administração, o que incluía as atividades de gestão, treinamento, suporte técnico ao usuário, assim como a articulação com as atividades de processamento documental ou bibliográfico. Seria de sua responsabilidade produzir um novo padrão de relacionamento técnico entre a NLM e a Bireme, de modo mais regular e dinâmico, e estabelecer um programa de trabalho que pudesse servir de roteiro para o que seria uma gestão estratégica na área de tecnologias da informação (BIREME, 1977c).

Uma vez que a capacidade de computação do IEA e a qualidade dos terminais foram consideradas satisfatórias, a comissão considerou como maiores dificuldades a qualidade e os custos da infraestrutura de comunicações. Quanto a esse aspecto, a rede projetada em 1974 mostrou-se incorretamente dimensionada, e verificou-se que, ainda

em 1972, na época de sua inclusão no projeto apresentado ao Pnud, ela fora objeto de pareceres técnicos nos quais constavam ressalvas importantes (BIREME, 1977c).108 Ao que parece, segundo esse diagnóstico, na iminência de um aceite do projeto, por parte do Pnud, Neghme teria passado ao largo das recomendações técnicas.

Em maio 1977, o tema foi levado à análise do Conselho Científico Assessor, e este se pronunciou pela continuidade do projeto, uma vez realizadas as modificações recomendadas. Essa decisão resultou na criação, na Bireme, de um embrião de uma área técnica especializada em tecnologias de informação, com implicações decisivas para o seu projeto institucional. No final de 1977, a Bireme adquiriu e instalou um computador Digital PDP-11/34, contratou um engenheiro de sistemas e deu início ao desenvolvimento local de soluções nas áreas de registro, controle e estatística das atividades de disseminação seletiva da informação, elaboração do catálogo local de periódicos, administração de projetos e gestão orçamentária, entre outras soluções (BIREME, 1978). A decisão de manter na Bireme a condução de Medline no Brasil e de reforçar a sua área de computação seria crucial para os rumos futuros da prórpria bIblioteca Regional de Medicina como centro pan-americano (SONIS, 2009)

Dois anos depois, em 1979, a Bireme deu início à elaboração do Index Medicus Latino-Americano, e, nessa ocasião, a conjugação das experiências em processamento de dados e tratamento documental, somadas à prática no uso das metodologias subjacentes à Medline, permitiu a ela adquirir uma base de competências que, na década seguinte, resultou no seu estabelecimento como instituição de referência para soluções de baixo custo para a automação das bibliotecas de medicina e saúde, uma competência extremamente atrativa no contexto de países em desenvolvimento.109

Em 1977, primeiro ano da gestão de Sonis, a NLM e a Opas celebraram um novo convênio para a utilização da Medline em São Paulo. Por esse instrumento,

108 Em 1977, recomendou-se o abandono de parte da rede porque esta não correspondia às condições técnicas existentes e porque o baixo volume de tráfego não justificava os custos envolvidos (BIREME, 1977c).

109 Esta “evolução” entre a criação desse embrião de área técnica e a consolidação de competência tecnológica não foi linear. Para isso, foi preciso desenvolver, na segunda metade da década de 80, projetos com fortes componentes de infraestrutura, linguagens documentárias e desenvolvimento tecnológico. Entre estes, o convênio com o International Development Research Centre - IDRC, do Canadá. Ver: Alonso, [1984] e Bireme (1984).

caberia à Bireme realizar uma certa quantidade de serviços de indexação, como forma de contrapartida pela cessão de extratos da base de dados da NLM e a utilização de softwares associados.110 Para fazer frente a esse compromisso, a biblioteca regional assumiu a responsabilidade pela indexação de todos os periódicos latino-americanos - à exceção dos mexicanos - incluídos no Index Medicus. Em 1978, ainda em período experimental, coube à Bireme processar 531 artigos de 15 títulos, de um total de 44 títulos latino-americanos. Em 1979, já tendo a Bireme assumido a totalidade das tarefas, foram processados1.192 artigos de trinta revistas (BIREME, 1978).

Ainda em 1978, com base nessa experiência, a Bireme deu início à preparação de um projeto piloto do Index Medicus Latino-Americano. Tomando como ponto de partida os títulos já compilados por outros índices, entre os quais o próprio Index Medicus, Excerpta Medica, Biological Abstracts e Current Contents, e mediante uma avaliação de outros títulos já existentes no acervo da biblioteca, compôs-se uma lista provisória que foi enviada para uma análise crítica por especialistas de vários países da América Latina. Ao mesmo tempo que ficava estabelecida a cobertura inicial de aproximadamente 200 títulos, foi redigido o programa de computação para a elaboração automatizada da publicação (BIREME, 1980a; PIEGAS & NOWINSKI, 1981).

Em agosto de 1979, tornou-se público o primeiro número do Index Medicus Latino-Americano – IMLA, indexando cerca de 1.500 artigos publicados de janeiro a julho do ano anterior. Ficou estabelecida uma periodicidade semestral, e desde o primeiro número seus editores sinalizaram a expectativa de torná-lo uma base de dados acessível remotamente. Na apresentação do número inaugural, Hector Acuña, diretor da Opas, classificou, textualmente, a elaboração do IMLA como um exemplo de cooperação técnica entre países em desenvolvimento, pelo tanto que representava de transferência, incorporação e adaptação de tecnologias, coordenação de esforços interregionais e mobilização de recursos nacionais. Com o IMLA, a Bireme incorporava, definitivamente, o controle da bibliografia periódica latino-americana às suas atribuições, um evento que se tornaria crucial na trajetória de recepção, pela Bireme, do modelo concebido pela NLM.

110 No final da década, este era o formato adotado pela NLM, pelo menos no que tange às bibliotecas e sistemas de fora dos EUA, assim reduzindo as suas despesas sempre crescentes com as tarefas de

A elaboração desse índice também permitiu à Bireme aprofundar o processo de incorporação das metodologias associadas ao uso da Medline. Para elaborar os cabeçalhos de assuntos adotados na indexação, foi providenciada uma tradução para o português, feita pela Bireme, do núcleo central dos descritores de Medical Subject Headings - Mesh, um instrumento desenvolvido pela NLM. Ao fazê-la, formava-se uma competência que se revelaria fundamental, que seria acionada, quando, em 1980, a Bireme, decidiu-se por desenvolver os Descritores de Ciências da Saúde – DeCS, que consistiu de uma tradução completa do Mesh, para português e espanhol, adicionado de um vocabulário de indexação para o campo temático da saúde pública, tal como era concebido na América Latina (BIREME, 1980; FERREIRA, 1981; PACKER, 2011). A essa altura, o formato e as características metodológicas do IMLA já eram recomendadas como solução para o controle bibliográfico em países em desenvolvimento (PIEGAS & NOWINSKI, 1981).

Outro tema crítico na gestão de Sonis, referia-se ao orçamento da Bireme e às implicações programáticas acarretadas por alterações de vulto na sua composição. No início da sua gestão, em janeiro de 1977, as condições orçamentárias eram relativamente favoráveis. A partir de outubro de 1976, entrou em execução um projeto financiado pela Finep, destinado ao fortalecimento da rede brasileira de bibliotecas médicas. Ao mesmo tempo, novos acordos foram firmados ou renovados com o Departamento Nacional do Câncer- DNC, com o Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição, o Inam, e com a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, passando a compor um conjunto diversificado de fontes brasileiras de financiamento.111

O ano de 1976, de fato, registraria uma inversão no padrão de financiamento da Bireme. A partir de então, o governo brasileiro passou a ser o seu principal financiador, sobretudo pela entrada em cena dos recursos da Finep, da ordem de 75% do orçamento

111 Na área de oncologia, por exemplo, foi possível estabelecer um convênio com a Divisão Nacional de Câncer do Ministério da Saúde do Brasil e o National Cancer Institute, dos EUA, o que envolvia a participação da Bireme no desenvolvimento do Latin American Cancer Research Information Program, ou Lacrip. Esse programa envolveu a produção de uma base dados de artigos sobre câncer publicados em revistas da América Latina; de uma segunda base para registro de patologias tumorais; e a prestação de serviços de disseminação seletiva. De menor volume, mas igualmente importante, foi a disseminação de listas bibliográficas e o provimento de artigos para a Secretaria de Saúde de São Paulo e o Inam (Bireme 1978).

global (Gráfico 2). Isto significava uma nacionalização do orçamento da Bireme, que até então contava com recursos predominantemente internacionais 112.

Gráfico 2

Evolução do Orçamento da Bireme por Origem dos Recursos: fontes nacionais x fontes externas, a preços de 2005.

0 0,5 1 1,5 2 2,5 3 3,5 4 4,5 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 U S $ M il h õ e s ( 2 0 0 5 )

Gov./ProJ Brasil Opas e outras Agências Ext. Fonte: Pires-Alves, 2005

Essa alteração no perfil do financiamento não deixou de ter seus impactos políticos e programáticos. A Bireme passou a reafirmar, com frequência, a sua condição também de centro nacional brasileiro, no desenho do sistema de informação biomédica latino-americano. Quando da renovação, por exemplo, do convênio básico com o governo do Brasil, em 1978, foi formalizada a instituição de um Comitê Assessor Nacional, como instância adicional de aconselhamento do diretor da Bireme, com o

112 Os novos recursos para projetos específicos que aportaram, a partir de 1976, significaram multiplicar por quatro ou cinco os recursos não comprometidos com pessoal ou com a assinatura de periódicos, ou seja, efetivamente disponíveis para novos projeto e atividades (BIREME, 1971; [1982];[1984]). Isso, todavia, implicava que, embora houvesse recursos para novos desenvolvimentos, muitas das atividades permanentes, como a assinatura regular de periódicos, enfrentassem problemas com recursos reduzidos

propósito de aproximar a Bireme das instituições nacionais que adquiriam crescente importância (BIREME, 1977b).113

Com base nessa oferta de recursos nacionais, sobretudo da Finep, verificou-se uma significativa expansão da rede de brasileira de bibliotecas. Entre 1976 e 1981, foram estabelecidos nove novos subcentros regionais, que passaram, então, a totalizar 21. Em 1981, já havia 279 bibliotecas colaboradoras em toda a rede nacional, e a rede começava, gradativamente, a contemplar unidades da esfera da prestação de serviços de saúde, ou não pertencentes ao que Sonis considerava o mundo restrito das faculdades e dos institutos de pesquisa (BIREME, 1982).114 O funcionamento dessa rede, que contemplava o uso e a administração compartilhada de acervos e processos técnicos e a realização de cursos, seminários regionais e nacionais, ia conformando uma cultura comum no domínio de atuação da Bireme e da rede.

Foram os recursos da Finep que permitiram, por fim, que a Medline fosse implantada em Brasília e Belo Horizonte e que a incipiente área de processamento de dados da Bireme fosse fortalecida e pudesse começar a desenvolver soluções locais, voltadas para o controle bibliográfico da produção latino-americana, inclusive com a recuperação de materiais não publicados. Temas, como comentado anteriormente, com profundas implicações programáticas, segundo as ideias defendidas por Sonis (BIREME, 1977; 1978).

Para o conjunto da América Espanhola, o panorama era o oposto. A estratégia de firmar convênios com os governos nacionais, a partir dos conselhos nacionais de ciência e tecnologia, tal como imaginado por Neghme, não conseguiu avançar muito mais do que o que havia sido possível com a mobilização das associações nacionais de educação médica. Àquela altura, segundo algumas interpretações, nenhum país sul-americano, em função do volume da sua produção científica, revestia de alguma importância o

113 Sonis já havia informalmente, desde 1977, estabelecido um comitê nacional, no qual tinham assento os representantes do Ministério da Educação, do Ministério da Saúde, da Escola Paulista de Medicina, da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo e da Finep, na vigência de projetos com esta financiadora (BIREME, 1977b).

114 Uma análise preliminar permitiu identificar 37 instituições não direta ou imediatamente referidas às faculdades de medicina e aos institutos de pesquisa, dentre elas hospitais da rede do Inamps, dos Servidores do Estado e das Forças Amadas; secretarias de saúde; e laboratórios industriais privados (BIREME, 1982). Uma descrição completa do então sistema nacional está em Pires-Alves (2005).

problema da informação científica em medicina e saúde. A sensibilidade institucional para problemas dessa ordem era, então, bem reduzida, e a possibilidade de as principais escolas de medicina recorrerem à Bireme - ou diretamente à NLM, como no caso do México - parecia ser plenamente suficiente (PACKER, 2011).

Por sua vez, a crescente importância das instituições brasileiras, na condição de demandantes e financiadoras da Bireme, pronunciada a partir de 1976, tendeu a produzir, a médio prazo, um processo de nacionalização da própria produção da Bireme. A partir de 1979, mesmo quando, em um quadro de restrições orçamentárias decorrentes de uma drástica redução do aporte de recursos brasileiros, a produção da Bireme foi em vasta proporção dirigida para o Brasil. 115 Portanto, a redução de recursos brasileiros, em sua maior parte decorrente do fim do apoio da Finep, que levou o orçamento global da Bireme para níveis abaixo do executado em 1972, em valores reais, deu-se em um momento de baixo grau de visibilidade do seu papel regional.