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Chapter 4: Offensive interests in Norway

4.4 Does BITs matter to the corporations?

Neste subitem, analiso como os entrevistados estruturam suas narrativas para contar suas trajetórias de vida, ou seja, como os diferentes aspectos da experiência da emigração presentes nos relatos são organizados tendo-se em vista o trabalho de (re)construção das identidades sociais. Além de como os narradores constroem suas experiências passadas tendo em vista a sua perspectiva de presente, ou seja, estando já integrados e sendo atuais membros da sociedade barrense e não simplesmente representantes da “colônia italiana” em Barra do Piraí. Soma-se a isso o fato de ambos terem se casado com brasileiras, barrenses de boa família.

O tópico família é muito importante para ambos, pois podemos perceber que a tem como um bem, uma grande conquista. Porém, a experiência de casar-se com uma professora, brasileira, de boa família, e com ela constituído família é vivenciada de modo diverso.

Renato aponta para o preconceito que a colônia italiana, que pregava o casamento entre membros da mesma, tinha para com os casamentos entre italianos e brasileiras (turnos: 487, 463) e esclarece que seu casamento deu certo porque, como sua avó dizia, escutou seu coração (turno 465). O curioso é que ao mesmo tempo, que diz ser tão estrangeiro como ela (turno 487), Renato a enaltece dizendo nunca ter se decepcionado com a esposa que sempre se comportou como verdadeira Luzzitana (turno 752,754), ou seja, casou-se com uma brasileira, mas que se comporta tão bem como as italianas, seja por seu

comportamento ao receber pessoas em casa, seja pela perfeita execução dos pratos italianos que aprendeu a fazer com Renato, pois que por ocasião de seu casamento não sabia cozinhar (turno 807).

Já Vittorio não parece ter vivenciado esse preconceito, talvez por seu pai ter-se casado com sua mãe que era filha de italianos, mas havia nascido no Brasil, ou seja, era brasileira.

Vittorio, mostra orgulho de ter duas pátrias (turno 239) e atribui a esposa o caráter e maturidade necessários para a manutenção de seu casamento nos primeiros anos (turno 366), período no qual comportava-se mal com a esposa, pois ao invés de atentar para suas necessidades, agia em seu confronto com grosserias e estupidez (turno 366), marcando a si próprio com o esteriótipo do machão.

Porém, cabe ressaltar que ambos vêem suas esposas como companheiras importantes para os negócios da família. Maria, com sua profissão de professora garantia estabilidade financeira (turno 479), na medida em que seu salário era algo certo, com o qual o casal poderia contar, o que não ocorre com a profissão de comerciante do marido (turno 477), que depende das vendas. Além de receber bem as visitas, fazendo com que elas sentissem-se em casa, como também o fazia Helena que ajudava o marido executivo relacionando-se bem com seus clientes e suas esposas.

O traquejo social e a conduta de ambas são enfatizadas por Renato e Vittorio que, cada um a seu modo, sinalizam a apreciação pelo sexo feminino e relativo sucesso com esse público, além de trazerem à baila o tabu da virgindade.

Renato diz ser Maria, apesar de suas pernas bonitas e morenice (turno 688), a mais feia dentre todas as suas namoradas, mas a da qual mais gosta e a mais recatada, enfatizando ter levado meses para dar-lhe um simples beijo e que o fazia dormir em um hotel, ao passo que outras o convidavam para dormir em suas casas. Como podemos ver a seguir:

730 Renato ( ) namorada ( ) sabe por que? Meu pai era uma pessoa muito esquisito (.) era muito sério, se namoravo uma filha de patrício “Vê lá o que que você

vai fazer, hã.” Como essa minha senhora era conhecida do meu tio que ( ) “Vê lá não deixa teu tio comcara grande não, hein?” compreendeu? As

mulheres me queriam

731 Sandra o senhor era bonito, me mostrou a foto 732 Renato hã?

733 Sandra o senhor já me mostrou a foto, de quando o senhor era novo 734 Renato hã?

735 Sandra o senhor me mostrou a foto, o senhor era bonito, né?

736 Renato é é e: aquela quantos anos eu tinha. Cheguei aqui com vinte e quatro, vinte sete eu tinha, era novo, era novo, compreendeu? e ela é ciumenta [cochichando, em tom de confidência] de todas as namoradas que namorei ela era a mais feia, mas é a que eu mais gosto.

737 Sandra (risos)

738 Renato palavra de honra, te juro. palavra de honra, tu sabe o por quê? Eu não vou dizer a sua pessoa porque ia ser um pouco pesado, mas quando você gostava e a pessoa te convidava pra ir a casa naquela época, que falava de verginità, que não era mais Virgem era babaca o homem

739 Sandra hum hum

740 Renato Eu só fui beijar ela depois de três, quatro, cinco, seis MESes demorada 741 Sandra (risos)

742 Renato e com posição social e tudo, namorei é que é uma delícia todo dia pegava o bondinho, no largo das neves. Agora não sei mais, sabe o bondinho? 743 Sandra hum, hum, tem tem o bondinho ainda

744 Renato compreendeu? ( ) palavra de deus te juro que estou sendo sincero 745 Sandra ela fazia jogo duro (risos)

746 Renato ma no, ela era sincera 747 Sandra ahã

748 Renato está se passando isso, isso e isso comigo. Na minha casa tem isso isso e isso. Você não pode dormir na minha casa, tem que dormir no hotel. Se

fosse outra “não pode dormir aqui” e tal Ahh pára com isso!

749 Sandra (risos)

750 Renato compreendeu? pra mim de todas as namoradas que tive eu amo essa. por mim se ela morresse eu ia junto. nós somos assim ó assim ó (fazendo sinal com as mãos de unha e carne). Não deixa morrer não amor. Não é por interesse é pelo caráter (som de ônibus) tem um caráter permanente um caráter de ( ) mas a mais feia é ela.

751 Sandra (risos) fica irritada, né? mas tem que ficar (risos)

752 Renato e nunca me deixou decepcionado quando vinha um patrício, ela sempre pronta, uma vez veio um patrício, filho, sobrinho do meu irmão, meu primo que mora em Itatiaia chama B. A., a mãe se chama E. é de Milão um engenheiro telefonaram, mas como é que você engenheiro me telefona de Milão? e o B. como é que você está se arranjando por ai? Aqui tem uma Luzzitana! A Luzzitana era a mulher do Renato (com orgulho) porque ela já teve em Itália, apanhou o costume, a minha prima lá: “é uma boa moça pros filhos então minha mulher diz, vamos fazer aquilo”.

Após me perguntar se eu era casada, Vittorio inicia o tópico sobre virgindade, para logo em seguida, talvez com o intuito de evitar uma gafe, apontar para o fato de alguns homens optem por se casar virgem.

Inicialmente, diz não ser contrário para logo após reforçar a idéia de aproveitar a juventude, deixando subentendido que ele não foi partidário de Cacá, o jogador de futebol que, segundo divulgado pela mídia, que se casou virgem.

499 Vittorio É tem gente que casa virgem. Tem homem que casa virgem, mas tudo bem, não tenho nada contra. Eu até tenho algo contra, que eu acho que eu tenho hoje tranqüilidade com a minha mulher, porque o quê tinha de errado eu fiz quando podia fazer. A pior coisa que tem é o homem ficar velho e triste porque não fez na juventude o quê tinha que fazer. Tudo que você possa imaginar de errado eu fiz. Hoje eu não sinto falta. O que tinha de ruim eu consertei... Um dia eu cheguei no médico e ele falou: “Quê que você ta fazendo aqui?” E eu: Vim

pra você me operar. Ele: “O quê é isso? Operar o quê?” “Cálculo renal”. E aí

mostrei os exames pra ele, pra resolver logo.

Por sua vez, quando o assunto é a emigração Renato e Vittorio se aproximam no que se refere às histórias de seu pai e avô, respectivamente, pois ambos eram analfabetos e no Brasil conseguiram o sustento de seus filhos, sendo que o avô de Vittorio construiu um verdadeiro império no ramo alimentício em Barra do Piraí, daí a diferença da vinda de Vittorio para de Renato.

Vittorio, veio como o “príncipe-herdeiro”, sua mãe havia falecido poucos meses após seu nascimento e após a guerra seu avô prometeu dar-lhe a parte da herança que cabia a filha ao neto, caso esse viesse para o Brasil, morar com ele. Deste modo, aos 13 anos o menino Vittorio embarca em um avião, uma verdadeira aventura, pois a aviação civil havia começado há pouco tempo e a aeronave comportava apenas poucos passageiros, além de enguiçar constantemente, o que contribuía para o caráter de aventura. Ao chegar em Barra do Piraí, Vittorio teve professor particular de português e deu seguimento a seus estudos, preparando se para assumir a gestão da empresa de se avô, coube-lhe os setores de vendas e marketing, chegou a ter 120 vendedores e esteve à frente desses setores até a falência da Del Fiore.

Deste modo, temos duas imagens da emigração. Enquanto Vittorio sozinho cruzava os céus, pioneiro como faz questão de nos contar sobre seu avô, Renato com seu pai singrava os mares, como animais, pois as condições dos navios eram péssimas e a viagem longa.

Ao chegar ao Rio, aos 24 anos, Renato, cujo pai decidira trazê-lo consigo por causa de sua profissão de alfaiate, estranha os costumes locais, se depara com a realidade das pobres instalações para imigrantes e trabalha, trabalha, trabalha, não dando continuidade

aos estudos e aprendendo a língua portuguesa no convívio com imigrantes portugueses e brasileiros.

Por pouco tempo desempenha o trabalho de alfaiate, pois percebe que não ganharia muito dinheiro e passa a vender coisas, até, já morando em Barra do Piraí, montar um bar e posteriormente cantinas em colégios da cidade.

Mais uma vez, o “fare la merica” toma o significado de constituir família e, por meio de muito trabalho, garantir-lhe um teto, dar estudos aos filhos para que eles se sustentem, enfim, mantê-la saudável. Sob esse aspecto ambos foram bem sucedidos.

A seguir teço as últimas considerações a respeito do estudo desenvolvido nessa pesquisa.

Sinto muito amor, mas não pode ser Moro em Jaçanã

Se eu perder esse trem Que sai agora às onze horas

Só amanhã de manhã

Não posso ficar nem mais um minuto com você Sinto muito amor, mas não pode ser

Moro em Jaçanã Se eu perder esse trem Que sai agora às onze horas

Só amanhã de manhã Além disso mulher, tem outra coisa Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar

Sou filho único, tenho minha casa prá olhar Não posso ficar, não posso ficar... Não posso ficar nem mais um minuto com você

Sinto muito amor, mas não pode ser Moro em Jaçanã

Se eu perder esse trem Que sai agora às onze horas

Só amanhã de manhã Além disso mulher, tem outra coisa Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar

Sou filho único, tenho minha casa prá olhar Não posso ficar, não posso ficar...

Nesta pesquisa, abordo questões que acredito nos interessam porque lidam com discursos com os quais nos deparamos em nosso quotidiano. Lido com o mundo dos seres humanos histórico e socialmente construídos com a linguagem como sistema simbólico compartilhado e como uma prática social; com a construção narrativa e; com a percepção de a forma como os seres humanos estão agindo no mundo pode decorrer de ideologias presentes em seus discursos.

Ressalto que trabalho com narrativas contadas por membros-representantes de uma comunidade italiana no sul fluminense que emigraram após a segunda guerra mundial e cujos ancestrais vieram ao Brasil no final do século XIX ou início do século XX, de acordo com as grandes levas de imigração, como visto no capítulo 3 e cujas estórias de vida encontram-se nos anexos e foram por mim recontadas no capítulo 2, em breve avô e pai, apesar de analfabetos, por meio do comércio, se estabeleceram, uns acumulando maior riqueza do que os outros, mas todos bem sucedidos no que diz respeito a fare la merica.

E, assim como seus ancestrais, também Renato e Vittorio fanno la merica , se a lermos como constituir família e dar aos membros destas possibilidade de uma vida melhor, fazendo com que seus filhos estudem, que tenham um lar e trabalho, bem como o fazem Renato e Vittorio.

Os narradores descrevem o período do pós-guerra como de miséria para o país, mas encontram na família o esteio e sentem a falta desse berço ao afastarem-se, até constituir a sua própria família e assegurar-lhes um lar como refúgio, reflexo de si e conexão com o mundo exterior, como vimos no capítulo 4.

O processo de emigração, como visto foi diferente para ambos, posto que um vinha de avião, um luxo para a época e o outro como um animal em um navio. De certa forma o caráter de aventura os une nessa experiência.

A análise das narrativas mostra que o processo de reconstrução das identidades foi complexo, já que passaram por vários estágios antes de se tornarem membros da comunidade barrense.

Certas experiências vividas pelos narradores, segundo suas narrativas, os levaram, de forma gradativa, a mudanças de paradigmas na condução de suas identidades sociais.

Nesta pesquisa os entrevistados constroem suas narrativas de modo a mostrar que a reconstrução de suas identidades sociais se deu por meio do contato com os costumes brasileiros e com a língua portuguesa, contato esse ampliado ao se casarem com brasileiras e terem filhos brasileiros. Para que pudessem trabalhar, e no caso de Vittorio também estudar, precisaram aprender a língua portuguesa, ao menos tanto quanto os conhecimentos de língua italiana, que no caso de eles era uma segunda língua, dado que a língua materna era em um caso o dialeto da Calábria e no outro da Campagna.

Na análise, também procurei demonstrar como os narradores fazem uso de algumas estratégias de envolvimento para construírem as suas narrativas de história de vida e ratificarem suas identidades. Dentre essas estratégias se destacam o uso de diálogo construído, o de repetições e imagens e, o próprio discurso narrativo, o contar histórias, como uma tática que implica a co-construção e, confere ao ouvinte um papel de colaborador ativo na construção de sua estória de vida. Nessas interações discursivas, formaram-se “duetos conversacionais” (Falk: 1979), caracterizados pelo contar conjunto, cooperativo entre a entrevistadora, o entrevistado e seus familiares.

Deste modo, por meio dos temas escolhidos pelo entrevistado para narrar suas histórias de vida e pelas estratégias de envolvimento por eles utilizadas, pudemos atestar as diferentes dimensões da identidade dos entrevistados.

Evidencio que para se adequarem ao global e o local, Renato e Vittorio, construíram diversas identidades, ao se definirem implícita ou explicitamente como calabrês, salernitano, italiano, presença italiana no Brasil.

Assim como as identidades, a compreensão do espaço, para o indivíduo que vivenciam as tensões do mundo atual, posto que os fenômenos da globalização os coloca cada vez mais em contato com outras realidades, com outros indivíduos fazendo com que eles se construam e re-construam cada vez mais, fato esse que também se reflete no seu modo de habitar, como visto no capítulo 4.

O habitar doméstico segundo a forma como ele é percebido e vivenciado pelos habitantes, esse habitar é tão amplo quanto a própria vida de seus indivíduos. Não ocorre isoladamente, ou independentemente das interferências externas, as quais não apenas permeiam a vida doméstica, mas a enriquecem, tornando-se privadas e interferindo nos sentidos que damos a ela. Talvez por isso, possamos compreender a

relações formais com o espaço doméstico, mas a própria maneira de encarar a vida. Minha língua minha pátria, ao analisarmos o discurso, podemos não só compreender a identidade, mas suas ideologias, seu modo de viver, que são retratados quer a partir da linguagem quer a partir da materialização de seus desejos e formas de se relacionar com o espaço privado, o espaço eleito para ser seu para retratar seu eu, para servir de refúgio e local de reflexão. Extensão visível do seu íntimo e de suas relações com o mundo exterior.

Acredito que essa pesquisa contribua para que o barrense lance um novo olhar para si e para sua cidade e espero que outras pesquisas sejam realizadas no intuito de preservar a memória das diversas comunidades que se encontram no Município de Barra do Piraí e municípios vizinhos que formam o roteiro denominado Vale do Café, situados no sul fluminense.

Quando nasci um anjo esbelto,