Em 1955, no Boletim da Sociedade Pestalozzi do Brasil, número 27, foi publicada uma palestra proferida por Beatrice Bemis 31 na Pestalozzi do Brasil.
Beatrice ressaltou que começou a interessar-se pela educação de pessoas retardadas após o nascimento de sua filha Carolina que tinha a Síndrome de Down. Destacou que, naquela época, a educação da criança retardada estava começando na Califórnia. Assim, ela e o marido George Bemis pensaram que deveriam abrir uma escola para educar a filha e outras pessoas. Retornou à Universidade para fazer o curso normal e também aperfeiçoar-se no ensino especial.
A formação do professor de ensino primário era de responsabilidade da Secretaria de Educação do Estado da Califórnia. Beatrice obteve duas formações, uma para o ensino normal e outra para o ensino de crianças retardadas. A formação universitária tinha uma extensa carga horária, e entre as disciplinas, também versavam conteúdos sobre educação audiovisual, ensino de arte, música, educação física, psicologia, história e filosofia da educação. O estágio também era exigido e contava com um ano de prática de ensino sob a orientação de uma professora.
Para obter o diploma especial para o ensino de crianças retardadas, eram necessários dois anos de curso sobre crianças normais, dentro dos quais havia mais dezoito aulas adicionais em psicologia da criança anormal, além de cursos para crianças deficientes e ainda cursos de pesquisa educacional, trabalhos manuais e música.
Ela ressaltava que ensinar ao retardado era um processo lento, e era necessário descobrir, de fato, o que ele deveria aprender e, muitas vezes, passar-lhe conhecimentos bem diferentes dos que carecia uma criança normal.
Beatrice também relatou que, durante os cursos, dava-se muita importância a dois princípios básicos e interligados: a educação como uma ponte para a vida, e consideração da criança retardada como um todo.
Muitas e muitas vezes, nos momentos de estudo, durante o planejamento de aulas, os professores do curso pediam a reflexão e avaliação de cada conteúdo que seria
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George e Beatrice Bemis, pais de uma menina com Síndrome de Down, haviam participado da fundação de mais de 250 Associações de Crianças Retardadas nos Estados Unidos (NARC), e por isso, juntamente com Helena Antipoff e colaboradores além de participarem da fundação da 1ªAPAE, incentivaram o movimento em favor da criança com deficiência mental proferindo palestras em vários locais do Brasil, principalmente na Fazenda do Rosário e Sociedade Pestalozzi do Brasil. Essas informações também foram noticiadas e obtidas através de reportagens de Edições digitalizadas do Jornal Correio da Manhã (1954-1974) na hemeroteca digital brasileira da Biblioteca Nacional do Brasil.
ministrado ao aluno retardado. Eles riscavam de vermelho, sem piedade, qualquer coisa nesses planejamentos, que não fossem ao encontro de alguns de seus critérios, os quais eram:
1 Em que isto contribui para auxiliar uma criança a viver mais facilmente com sua família?
2 Em que isto contribui para tornar a criança mais capaz de se dar bem com outras pessoas?
3 Em que isto contribui para facilitar uma criança ser melhor aceita na sua comunidade?
4 Em que isto contribui para ajudar a criança a desenvolver bons hábitos de trabalho e destreza? (BEMIS, B. 1955)
Ela enfatizou que, naturalmente, em toda educação, um professor deveria conhecer as peculiaridades de cada criança e tentar desenvolver sua autonomia, independência e suas potencialidades.
Quando o ensino é direcionado à melhoria do ajustamento de uma criança retardada, à sua família, comunidade e cultura, isso quer dizer que o percurso de sua aprendizagem deve ser diferente do que é oferecido a uma criança normal ou uma criança que seja da mesma família, comunidade ou cultura.
Beatrice relatou um caso de um menino cujo QI era 50, ou seja, tinha retardo mental. Apresentava dificuldade na linguagem e falta de coordenação motora; tinha pouca experiência fora de lar; sofria rejeição pelo pai e era aceito pela mãe. A palestrante levantou o seguinte questionamento:
Quais os elementos básicos que precisavam ser considerados no planejamento de seu ensino?
1. Para independência pessoal – necessita ele aprender a abotoar a roupa? Dar laço no sapato? Comer sem derramar a comida? Se for esse o caso, essas coisas devem ser incluídas em seu programa.
2. Para a vida familiar – saberá ele até aonde ir para receber atenção agradável de adultos como seu pai? Saberá ele como receber visitas em sua casa? Terá ele responsabilidades ou pequenas tarefas em casa, que o façam sentir-se parte integrante da família? Se a resposta é NÂO, torna-se responsabilidade da escola ajuda-lo?
3. Atitudes sociais – esperar sua vez, guardar seus objetos, mil pequenas coisas que a professora poderá lembrar durante a rotina cotidiana.
4. Leitura, escrita e aritmética – o que podemos ensinar-lhe a respeito. Talvez para ele a leitura consista apenas em aprender algumas palavras que lhe garantam a segurança, tais como: PARE E SIGA, VENENO, PERIGO, etc. Sua escrita pode incluir apenas seu próprio nome e endereço e talvez algumas palavras simples. Sua aritmética talvez não chegue a símbolos, mas apenas ao conhecimento e manuseio do dinheiro de seu país, para suas pequenas despesas. Ele deverá estudar o dinheiro verdadeiro, numa situação real na classe. (BEMIS, B. 1955)
Segundo Beatrice, muitas crianças retardadas, mesmo de lares de boa situação financeira, sentiam falta de experiências comuns, tão naturais às demais, as quais deveriam também ser proporcionadas pela escola. Portanto a criança citada no exemplo necessitaria de correção de linguagem e fisioterapia, incluídas no seu ensino. Assim, o seu programa educativo deveria ser planejado para que ele encontrasse sucesso em cada atividade que obtivesse aprendizagem por mais simples que fosse.
Em vez de falar acerca de técnicas ou métodos específicos usados nos Estados Unidos, ela partilhou sua experiência na educação de pessoas especiais e enfatizou o trabalho da Sociedade Pestalozzi do Brasil. Ela não só destacou as dificuldades e limitações das pessoas retardadas, mas também levou-nos a refletir sobre as estratégias que poderíamos recorrer para que o processo ensino e aprendizagem ocorram de forma significativa.