3. Fremgangsmåte for å avgjøre når vann fra veg skal renses
3.4. Diskusjon av de ulike prinsippene for vurdering av om det er nødvendig å iverksette
Estudos do NEGRI têm adotado como arcabouço teórico e metodológico para análise da ideologia a produção de John B. Thompson desenvolvida no livro ―Ideologia e cultura moderna: Teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa‖ (2009). A formulação de seu conceito de ideologia resulta de um trabalho elaborado pelo autor de reconstrução da trajetória dos sentidos atribuídos ao conceito por diferentes autores, trajetória que será aqui apenas esboçada.
Na revisão da trajetória histórica das concepções do termo ideologia, Thompson (2009) distingue autores que o concebem de modo neutro de outros que o conceituam de modo pejorativo ou crítico. Assim, ao reconstruir o surgimento do termo na Europa iluminista, Thompson (2009) assinala como texto de origem a obra do filósofo Destutt De Tracy (1796), que concebe a ideologia como a ―ciência das idéias‖, conceituando-a, portanto, de modo neutro. Destutt De Tracy (1796) concebe a ideologia como primeira ciência, dado que todo conhecimento científico abrangeria a combinação de ideias. Tal ciência seria a base da gramática, da lógica, da educação, da moralidade e, inclusive, da compreensão da natureza humana. Destarte, viabilizaria a reestruturação da ordem social e política conforme as necessidades e as aspirações humanas. Thompson (2009) apreende concepções neutras de ideologia em textos de autores consagrados dos séculos XIX e XX (como Lênin, Lukács e em parte do legado de Mannheim) para os quais a ideologia é tida como ―cimento social‖, conjunto de ideias compartilhadas por sociedades ou grupos sociais.
De outro lado, Thompson (2009) identifica outro conjunto de obras/pensadores que compartilham um sentido negativo, crítico ou pejorativo na conceituação de ideologia, apesar de o caráter de negatividade divergir. Dentre eles, destaca o aporte de Marx, dada a sua importante contribuição à formulação do conceito de ideologia.
Como primeiro representante da conceituação crítica ou pejorativa, Thompson (2009) destaca a proposição de Napoleão que, em contexto político de embate, associou ao termo ideologia ideias abstratas e ilusórias.
Em Marx, Thompson identifica três conceituações às quais atribui denominações específicas, que não se encontram na obra marxiana:
polêmica — doutrina teórica equivocada que considera as ideias abstratas isoladas de conexões sócio-históricas;
epifenomênica — conjunto de ideias que representa de forma ilusória as relações de classe e exprime os interesses do grupo dominante;
latente12 — sistema de representação que sustenta relações de dominação, mediante orientação de pessoas para o passado e não para o futuro ou para símbolos e ideais que ocultam as relações de classe.
Na obra de Marx, Thompson (2009) identifica critérios de negatividade em dois planos: no epistemológico e no político. No eixo epistemológico, a concepção polêmica pela qual Marx, mantém o sentido negativo atribuído ao termo por Napoleão, pois, para este último, as ideias implicadas eram tanto abstratas ou impraticáveis como errôneas ou ilusórias. No eixo político, após a transição para a concepção epifenomênica, Thompson (2009) assinala que Marx alterou sua compreensão acerca do critério de negatividade. Assim, conforme Thompson (2009), as ideias constitutivas da ideologia não apenas mantêm seu cunho ilusório, mas também são concebidas como expressão dos interesses da classe dominante. De acordo com Thompson (2009), na concepção latente, Marx concebe a ideologia como sistema de representações que esconde dos indivíduos os interesses dominantes e, consequentemente, mantém relações de dominação.
12 Ao analisar a teoria marxiana, Thompson denominou tal concepção como latente, dado Marx ter
Thompson (2009) compartilha com Marx a concepção crítica de ideologia. Inspira-se, mais particularmente, no que denomina de concepção latente, porém altera o critério marxiano de negatividade. Segundo Thompson (2009), não é indispensável que as formas simbólicas sejam errôneas e ilusórias para que sejam ideológicas. Isto é, por vezes, a ideologia opera mediante o obscurecimento ou a falsa interpretação das conjunturas; entretanto, tais possibilidades são contingentes e não essenciais à ideologia. Para o autor, caracterizar as formas simbólicas como ideológicas pode prescindir da atribuição de falsidade ao fenômeno estudado pelo analista. Nesse sentido, Thompson (2009) assinala algumas considerações fundamentais: 1) estipula, como prioritário, analisar as maneiras como as formas simbólicas produzidos pela ideologia servem para estabelecer e sustentar relações de dominação em contextos e em processos socialmente estruturados; 2) diverge ainda de Marx ao afirmar que as relações de classe constituem apenas uma das formas de dominação e subordinação, pois existem relações de poder sistematicamente assimétricas nas quais outros eixos estão envolvidos: sexo, nações, origem étnica e idade; 3) afirma que a teoria marxiana relega a importância das formas simbólicas e dos sentidos mobilizados para a constituição da realidade social e o envolvimento destes na criação e manutenção das relações entre grupos e pessoas.
A perspectiva crítica de Thompson (2009) recupera, então, o vínculo entre o conceito de ideologia e o fenômeno da dominação, propondo uma base conceitual para análise da produção, circulação e recepção das formas simbólicas. Para o autor, estudar a ideologia é compreender as ―maneiras como o sentido, mobilizado pelas formas simbólicas, serve para estabelecer e sustentar relações de dominação‖:
(...) estabelecer, querendo significar que o sentido pode criar ativamente e instituir relações de dominação; sustentar, querendo significar que o sentido pode servir para manter e reproduzir relações de dominação através de um contínuo processo de produção e recepção de formas simbólicas (p.79). Segundo Thompson (2009), as formas simbólicas podem produzir e sustentar relações de dominação, bem como estabelecê-las. Isto é, desigualdades de poder sistematicamente assimétricas podem ser criadas e mantidas por ocorrências que subjuguem o indivíduo (força bruta, desânimo etc.) ou por formas simbólicas ideológicas. Neste sentido, a análise da ideologia tem como cerne a análise da dimensão simbólica que gera e mantém relações de dominação.
A concepção crítica de ideologia de Thompson (2009) descarta a tendência de considerar o conceito como cimento social das sociedades e de pensá-lo como característica ou atributo intrínseco a sistemas simbólicos. O cerne da proposta do autor está nos usos sociais das formas simbólicas, ou seja, em que medida ou como as formas simbólicas estabelecem e sustentam relações de dominação em contextos sociais estruturados nas quais são produzidas, transmitidas e recebidas. Essa consideração permite interpretar uma forma simbólica como ideológica em um contexto e como radical/ subversiva em outro, ou vice e versa. Como exemplo: discursos acerca dos direitos humanos podem ser considerados elementos de manutenção da ordem social, política e econômica em determinado contexto, ou subversivos em outra conjuntura.
As formas simbólicas são definidas como ―amplo espectro de ações e falas, imagens e textos, que são produzidos por sujeitos e reconhecidos por eles e pelos outros como construtos significativos.‖ (THOMPSON, 2009, p.79). As formas simbólicas podem, ainda, ser linguísticas, não-linguísticas ou semi-linguísticas reconhecidas em contextos e processos socialmente estruturados.
Thompson (2009) apresenta cinco aspectos que caracterizam as formas simbólicas:
intencional — são construídas, produzidas ou empregadas de um sujeito para outro, intencionalmente;
convencional — a produção, construção e uso das formas simbólicas e interpretação dos indivíduos que as recebem, envolvem regras, códigos ou convenções;
estrutural — as formas simbólicas possuem uma estrutura articulada; referencial — as formas simbólicas são representativas de algo;
contextual — as formas simbólicas ocorrem dentre processos e contextos sócio-históricos peculiares e por meio desses são produzidas, transmitidas e recebidas.
As concepções de formas simbólicas e de cultura estão na teoria de Thompson (2009), como em outras, intimamente integradas. Para o autor, os fenômenos culturais são compreendidos como formas simbólicas produzidas que circulam e são recebidas em contextos sociais estruturados. Por conseguinte, a análise cultural pode ser
concebida como estudo da constituição significativa e da contextualização social das formas simbólicas.
Nesta dissertação, as formas simbólicas analisadas foram os discursos proferidos por três IES que promovem o curso de Pedagogia acerca dos bebês, seu cuidar e educar. Tais discursos foram captados nos planos de ensino das disciplinas e no texto resultante da transcrição de entrevistas que efetuamos junto a três professoras. O lugar dos atores sociais, as qualificações que lhes conferem posições em um campo social ou instituição, segundo Thompson (2009), possibilitam aos sujeitos diferentes níveis de poder para tomar decisões e alcançar objetivos. Entretanto, poder e dominação não são conceituados igualmente. Para o autor, poder é a capacidade conferida a indivíduos social ou institucionalmente, que lhes permite tomar decisões, atingir seus objetivos e promover seus interesses. Dominação, para o autor, por sua vez, é conceituada como relações de poder sistematicamente assimétricas, ou seja, quando indivíduos possuem poder de forma significativa e permanente, mantendo-o inatingível a outros agentes.
Outro aporte da teoria de Thompson (2009) para pesquisar produções simbólicas no âmbito da teoria da ideologia são os modos como esta última pode operar. Para o autor, são inúmeros os modos de operação em que o sentido pode funcionar em condições sócio-históricas peculiares para manter ou gerar relações de dominação. Thompson (2009) identifica cinco modos principais de operação da ideologia que podem se sobrepor e se reforçar mutuamente e suas estratégias típicas de construção simbólica (Quadro 2).
Quadro 2 - Modos de operação da ideologia
Modos gerais Estratégias típicas de construção simbólica
Legitimação Racionalização
Universalização Narrativização
Dissimulação Deslocamento
Eufemização
Tropo (sinédoque, metonímia, metáfora)
Unificação Estandardização Simbolização da unidade Fragmentação Diferenciação Expurgo do outro Reificação Naturalização Eternalização Nominalização/passivização Fonte: Thompson (2009, p.81)
Apresentamos, a seguir, uma síntese da descrição de tais modos e de suas estratégias de construção simbólica e de operação da ideologia.
A legitimação é para Thompson (2009) – como para outros - um dos modos de operação da ideologia. A legitimação, por sua vez pode se expressar nas formas simbólicas em estratégias típicas, a saber:
racionalização — uma forma simbólica construída numa cadeia de raciocínios para defender ou justificar um conjunto de relações ou de instituições sociais e, por fim, induzir ao apoio;
universalização — os interesses de alguns são apresentados como extensivos a todos;
narrativização — formas simbólicas que relatam a história, concebendo o presente de modo tradicional, eterno e aceitável.
A dissimulação, como modo de operação da ideologia identificada por Thompson (2009), opera obscurecendo, ocultando ou negando relações de dominação.
Esse modo geral pode se expressar em três estratégias típicas de construção simbólica:
deslocamento — estratégia que transfere conotações positivas ou negativas de um objeto para outro;
eufemização — descrição ou redescrição de ações, instituições ou relações sociais com o objetivo de atribuir-lhe valoração positiva; tropo — uso de figuras de linguagem que podem dissimular relações de dominação.
A unificação, outro modo de operação da ideologia apresentado por Thompson (2009), tem como principal característica a construção, em nível simbólico, de uma unidade que interliga indivíduos em uma identidade coletiva, desconsiderando as diferenças que os caracterizam. Suas principais estratégias são:
estandardização ou padronização — processo no qual as formas simbólicas são adaptadas a um referencial padrão a ser partilhado e aceito pelo coletivo;
simbolização da unidade — construção de símbolo de unidade, identidade e identificação coletiva, difundidas por determinados grupos, tal como a bandeira.
As relações de dominação que podem ser estabelecidas e sustentadas pela retratação de uma situação transitória e histórica como natural, permanente e atemporal constituem o modo de operação da ideologia denominado reificação (THOMPSON, 2009). Suas estratégias típicas de construção simbólica, elencadas por Thompson (2009), são:
naturalização — algo criado social e historicamente pode ser tratado como acontecimento natural e inevitável;
eternalização — fenômenos sócio-históricos têm sua historicidade eliminada ao serem tratados como imutáveis, permanentes e constantes; nominalização/passivização — na primeira, os verbos são conjugados na voz passiva, enquanto na segunda as ações e seus executores são transformados em nomes, ocultando a ação e o autor.
A fragmentação é outro modo de operação da ideologia. Segundo Thompson (2009), na fragmentação, as relações de dominação podem ser mantidas com vistas à pulverização das pessoas que, individualmente ou em grupos, podem constituir desafio efetivo aos grupos dominantes ou promover enfrentamento a um alvo considerado ameaçador. As estratégias que integram com esse modo de operação, apontadas pelo autor, são:
diferenciação — formas simbólicas que potencializam as diferenças e divisões entre pessoas e grupos, fortalecendo a desagregação;
expurgo do outro — formas simbólicas que constroem um inimigo perverso e ameaçador, interno ou externo, cabendo aos indivíduos a ele resistir coletivamente ou expurgá-lo.
Thompson (2009) afirma que sua proposta não significa que os modos e as estratégias arrolados sejam as únicas maneiras de a ideologia operar. Assim, no NEGRI, a partir da tese de Andrade (2004), tem sido considerado o conceito de estigma como estratégia típica de construção simbólica da fragmentação, resultado da diferenciação e expurgo do outro. Tal conceito é constituído por dois aspectos: o instituído pela diferença (diferenciação) e outro que justificaria a exclusão (expurgo do outro). Andrade (2004) diferencia a estigmatização do expurgo do outro, por este não apresentar os atributos do estigmatizado como uma ameaça e sim, por vezes, utilizar- se de um discurso contra a exclusão social. A diferenciação também difere da estigmatização, segundo o autor, pois a primeira enfatiza as diferenças, mas não
pressupõe inferioridade ou desigualdade social. Contrariamente, a estigmatização sugere um caráter de inferioridade ou desigualdade aos indivíduos e, por conseguinte, implica em relação de subordinação.
Thompson (2009), após promover profícua reflexão acerca da teoria da ideologia e seus modos de operação, desenvolve a hermenêutica de profundidade como referencial metodológico para análise e interpretação das formas simbólicas em contextos estruturados, objeto de síntese do próximo item.