por esta rezão não trata de cortesias que são nos meninos escusadas. Somente quer os carinhos que são propios de quem ama aborrece os comprimentos disfarces das esquivanças Mil ternuras vos dissera mas vejo que se me embarga o desejo de dizê-las
no impossível de explicá-las. Digo só que por vós morro e se vivo é porque basta o gosto que em morrer tenho
para dar me vida Larga (romance 19, grifos nossos)
Nesse romance, o tema da morte e ressurreição de cristo é pa- tente, assim como todo um léxico ligado ao vocabulário da Igreja. O poeta usa nada menos do que dezesseis palavras ligadas ao léxico cristão: quaresma, aleluias, Semana Santa, paixão, páscoa, sepultado, penitente, jejuava, confissões, Deus, indulgência, culpa, pena, graça, jubileu e cortejos, mergulhando-as no campo semântico do erótico.
O eu lírico é uma espécie de Cristo que sofre e morre pela musa para ter vida infinita: “Digo só que por vos morro / e se vivo é por- que basta / o gosto que em morrer tenho / para dar me vida larga”. Receber uma carta4 de sua amada suscita nele desejos que estão
4 “O motivo da carta de amor, intimamente ligado à temática petrarquista dos tormentos nascidos da ausência, e que, no século XVI, inspirou tantos poemas de saudade e angústia, [nos poetas barrocos] degrada-se até o nível da obsce- nidade [...]” (Silva, 1971, p.426-7). Nos romances que fazem parte do corpus deste estudo, Fonseca usa as cartas como instrumentos capazes de suscitar o desejo do eu lírico.
EROTISMO E RELIGIOSIDADE 85 implícitos nas palavras religiosas. Assim, palavras como esperança,
quaresma e aleluias, todas do léxico religioso, cedem seus conceitos
ao erótico. Pois esperança pode significar a possível realização de um desejo; quaresma, a abstinência sexual; aleluia, o saciar do dese- jo. Nas últimas quadras, há uma provável alusão ao deus da mitolo- gia clássica em “O amor é mui menino”, que poderia sugerir Cupi- do, deus do Amor, evidenciando um sincretismo Igreja e mitologia. O vocabulário da Igreja está presente nos romances eróticos e, como vimos no subcapítulo “A voz maledicente”, também está nos romances satíricos, pois empresta suas designações contrarrefor- mistas para tipos viciosos como bruxas e feiticeiras. Além disso, a religiosidade traz à luz temas como o da “tentação” e o “amor freirático”, muito cultivado no século XVII.
Hansen (1989, p.350-1), analisando o amor freirático na sátira de Gregório de Mantos, afirma que:
A sátira do amor freirático se produz, no caso, como drama- tização de boatos, como reiteração ou deslocamento de discursos oficiais sobre o assunto, como desenvolvimento, retórico poético de convenções do amor cortesão e suas técnicas eróticas – o que inclui, por exemplo, a paródia lírica, o insulto, a difamação, a chalaça, a imitação obscena de troca de correspondência e alimentos. Outras tópicas tradicionais, como as da gula, luxúria, usura e simonia dos frades, cruzam-se na do amor freirático, como efeito de despropor- ção viciosa dos religiosos e apologia dos discretos seculares, como ainda se vê.
Também sobre o amor freirático Silva (1971, p.442) observa que: Uma leitura, mesmo apressada, dos nossos cancioneiros barro- cos revela de pronto que o motivo mais frequente explorado pela poesia satírica da época foi o dos amores freiráticos. Nos numerosos conventos existentes, os ideais religiosos e ascéticos foram-se abas- tardando e a disciplina foi-se relaxando e dissolvendo, de modo que numerosas freiras sem vocação, dadas a folguedos e a ostentações
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luxuosas, transformaram as grades conventuais em lugar de mun- danos e licenciosos encontros com os galãs do tempo.
Em seguida, para exemplificar, transcreve um excerto de um poema de Fonseca Soares:
Cuidei que fosse mui firme Freira com tanto de tola: Mas Freira para mudar-se,
Todo juízo lhe sobra. (apud Silva, 1971, p.442)
O tema do amor freirático é retomado em nosso corpus somente uma vez, no romance 18. Na verdade, o eu lírico sugere o tema quando faz alusão à vestimenta tradicional da freira, o hábito:
Deitai vos aqui comigo Vosso aio ser pertendo as mãos, e a boa vontade por vos minha alma prometo Destoucai essa toalha os alfinetes desprego
posto sem nuvem me abrasem os raios desse cabello
Despi o habito meu bem
minha menina por certo não ha mais garbosa dama
do que vos ficais em fresco (romance 18, grifo nosso)
Esse romance possui um tom bastante erótico e explora muito os vocativos, efeito expressivo muito usado pelo poeta e que aproxima a linguagem da poesia à oralidade. Nele, também se faz alusão à vestimenta feminina da época, usando esse léxico para descrever gradativamente o despir da musa até sua nudez. Ademais, o eu líri- co faz alusão a partes do corpo da mulher como “cabelos”, “peito”,
EROTISMO E RELIGIOSIDADE 87 “pés”, “boca” e a branca cor da pele. Usando o léxico da sociedade de corte, insinua-se ao seu interlocutor como “Vosso aio”. Interes- sante notar que nesse romance os últimos versos foram rasurados pelo poeta, o que pode sugerir um poema inacabado, cujos versos rasurados não foram aprovados por Fonseca Soares.
Enfim, a voz do homem temente a Deus se manifesta na angús- tia do eu lírico que, tomado pelo desejo, não quer se tornar um tipo vicioso. Lembra que até Cristo foi subjugado à tentação, por isso não se vê ileso de tal sentimento. Numa chave erótica, no romance 98, o eu lírico glosa essa passagem bíblica:
Livre-me Deus de que eu caia
nestes adorados vícios pois para ser d’almas estragos são do coração suspiros
Mitologia
O universo da mitologia se faz presente nos nomes de musas evocadas pelo eu lírico, como Fillis, Clori, Tisbe, Nise e Dafne, ou nas citações aos deuses mitológicos ao longo dos romances. O léxico da mitologia greco-romana é usado, em sua maior parte, como obje- to de comparação. Assim, o poeta compara entidades mitológicas às musas ou a certas ações ou estado de espírito. Nessas comparações, leva-se em conta, principalmente, o jogo conceitual que envolve a lenda do ser mitológico e o contexto para o qual serve como parâ- metro. As comparações são, sobretudo, retórico-poéticas, ampli- ficações que reforçam as imagens da poesia e os argumentos do eu lírico. Um exemplo de tal recurso pode ser observado no romance 47, do qual retiramos o excerto abaixo.
Pródiga se de esquivanças Liberal se de desprezos avarenta de favores fugitiva a rendimentos
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