5. ANALYSE AV FUNN
5.2.2 Analyse case 2: Hermes
Aristóteles, em sua Arte retórica, ao questionar por que nos en- colerizamos com alguém, declara que:
Os enfermos, os pobres, os apaixonados, os que têm sede, numa palavra, os que sentem um desejo e o veem contrariado, são irascí-
EROTISMO E RELIGIOSIDADE 77 veis e prontos em encolerizarem-se principalmente contra os que tratam com desdém o estado presente em que se encontram. (Aris- tóteles, [19-], p.101)
Se observarmos a voz maledicente dos romances, podemos notar que ela se encaixa em pelo menos três itens da citação. Ela está en- ferma de amor, está apaixonada e sente seu desejo contrariado. Para ilustrar esse exemplo separamos o romance 7.
Anna do meu coração cuja Lindeza cigana ja me enbruxa pelos olhos ja me enfeitiça pela alma
Anna enfim por quem mais quero, se vos não tornais bagana,
da quaresma os misereres, que aleluias da Páscoa Cheguei a esta vossa terra entre sezões, e esperança de hum enganado há dias de outras enfermo ás somanas Premeti não sendo folha tudo o que acho nessa graça que entre as vossas flores possa
colher o meu gosto as lampas (grifos nossos)
A causa da enfermidade é a paixão que faz do eu lírico um ser viciado, portanto doente segundo as regras morais e religiosas do homem prudente do século XVII. O desejo não correspondido o torna irascível e pronto para o vitupério. A culpa, sobretudo, é da beleza que enfeitiça, da mulher que embruxa os olhos, do corpo las- civo etc. Argumentos reforçados por lugares-comuns como a ideia de prudência (conceito social) e a de vício (conceito moral-religioso).
78 CARLOS EDUARDO MENDES DE MORAES (ORG.)
No romance 8, a voz maledicente vitupera duas “comadres”, na verdade tipos alegóricos, representação de mulheres não discretas e viciosas, “fofoqueiras” e “feiticeiras”, como podemos observar no excerto abaixo:
Eu nunca comadres vi gritarem como em [açougue] e no cabo às espetadas dão bofetadas que chovem
Putas se chamam, e disputam
No que sabem quanto podem e saindo tudo a praça
não fica nada no fole Disse uma dize malvada não dissestes que três noutes para embruxar hum menino te converteste num bode Mentes velhaca, eu podia dizer te, nem por remoque de mim esse testemunho tu patifa ês a que foste Preza pello secular
feiticeira tao enorme
que eu te ui com estes olhos levar hum gibão de açoutes Em mim açoutes magana quando na rua das flores
hum negro te deu no rabo
muitas palmadas e couces (grifos nossos)
Podemos perceber que as “comadres” são submetidas, por meio do vitupério, à censura do código de corte e da doutrina católica.
EROTISMO E RELIGIOSIDADE 79 Nesse poema, encontra-se a tópica malles maleficorum, a qual pres- creve que “toda feiticeira provém da concupiscência carnal, que nas mulheres é insaciável” (Hansen, 1989, p.342) e que, por sua vez, acaba por encadear um outro topos do Seiscentos o sexo contra
naturam. A esse tipo vicioso Fonseca Soares lança mão da técnica da diatribe, pela qual o eu lírico ataca violentamente seu interlocutor
proferindo, além dos vocábulos ornados pela sátira aguda, palavras diretas, chulas como “patifa”, ”puta” e “velhaca”.
As mulheres, na maioria dos romances, são os alvos do vitupé- rio. Dessas mulheres, as de camada popular são as que mais sofrem com a pena maledicente do poeta. Logo, não é difícil encontrar uma Maricas que “nasceu flor em colares / para ser peste em Lisboa” (romance 2), uma Izabel lavadeira cuja boca mostra-se “mui sem vergonha” (romance 13) ou uma padeirinha “engraçada / come- zinha da cara” (romance 59). Entretanto, quando o eu lírico dia- loga com as musas mitológicas ou da tradição bucólica clássica, na maioria das vezes, ele usa palavras ofensivas para clamar o desdém dessas mulheres ao seu amor.
Assim, temos uma Tisbe de “rostinho malfazejo” (romance 4), uma Filis que é “mui destra no jogo do truque” (romance 70) e uma Daphne insolente; aludida nos seguintes versos: “Enfim vos sois desta terra / a fêmea mais insolente / pois inda que chovam raios / nenhum por dentro vos mete”. Hansen (1989, p.390), comentando as tópicas usadas na poesia barroca, mais especificamente a tópica
nomen (nome), declara que o nome de Dafne é muito usado para
“figurar negras e putas” pelos poetas do século XVII.
A sátira do padre Antônio da Fonseca se enquadra no que Han- sen (1989, p.226) chama de “agudeza jocosa ou maledicente”, pois seus recursos expressivos tendem para o engenhoso. A voz maledi- cente nos romances de Fonseca Soares tende mais para o que o autor, resgatando um conceito aristotélico, chama de riso sem dor, pois, apesar de haver nela um tom moral que se encaixa no código religio- so-político (Igreja Católica e sociedade de corte) do século XVII, o poeta parece estar fazendo “brincadeiras de vitupério”, muito mais perto do jocoso que do sério, algo como o riso com dor da sátira. Tal procedimento pode ser observado no romance 28 transcrito a seguir:
80 CARLOS EDUARDO MENDES DE MORAES (ORG.)
De chança quero pintar
[...]
e quero zombar de graça ja que tu zombas deveras
Es Izabel muito Linda mas porem muito avarenta
[...]
Es mulher de bom juizo mas inda assim es tão nescia
que há ver nasceu duas luzes trazes metido na testa Com teus olhos é cruel Quem por olhos os nomeia; pois te tira os olhos fora quem lhe tira a ser estrela,
A flor da cara tais flores te quis por a natureza que esses de rosas teu rosto para ser a primavera
[...]
E sem que mal te deseja tal amor tenho a pobreza que melhor te vira nua
que rica de tentas prendas (grifos nossos)
Nesse romance, o eu lírico, num tom irônico, zomba e elogia ao mesmo tempo. Fonseca Soares, seguindo o gosto barroco pelos
quadros, constrói um eu lírico que pinta sua musa de “chança”, ou
seja, pinta-a zombando.
No início do poema, deixa claro, a musa é mulher de “bom juízo”, porém “néscia”, isto é, o contrário da cortesã discreta dos palácios. Em seguida, descreve o rosto de “Izabel”, que se faz com toda a sorte de analogias e hipérboles. Assim, o cabelo louro é ouro; os olhos são
EROTISMO E RELIGIOSIDADE 81 estrelas;2 o rosto é um campo de flores; boca e nariz são brevíssimos;
as mãos e pés são simétricos, pequenos3 e delicados. A mulher é
pintada numa atmosfera fantástica, tem beleza quase sobrenatural, é bela, porém néscia. Possui uma incongruência: nada é perfeito.
No fim do poema, o eu lírico volta ao tom de zombaria usando de palavras coloquiais, como “velhacão”, e do discurso religioso, como o voto de pobreza: “tal amor tenho a pobreza”. Enfim, na última quadra, em tom jocoso e irônico, convida a musa ao deleite amoroso. Portanto, a maledicência nos romances de Fonseca Soares é trabalhada por meio de conceitos, lugares-comuns, metáforas e alegorias que fluem muito mais para o riso do que para a dor. Os tipos viciosos possuem sempre certa incongruência, mostradas por contrastes ou por analogias. Destarte, temos uma Clara que a “brancura que leva escurece a agua”, ou uma musa que “Es mulher de bom juizo / mas inda assim es tão nescia”. O tipo vituperado será sempre aquele que leva em si certa desproporção, deixada em relevo pela voz maledicente.