Jair Albo Marques de Souza foi assessor da Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento da CBTN (1972-1974), assistente da Diretoria de Planejamento Energético e Empresarial da Nuclebrás (1974- 1980) e assistente da Diretoria de Planejamento da Eletronuclear (1997-2000). Possui
especialização em Engenharia Nuclear pelo IME e mestrado em Energia Nuclear pela Universidade de Londres.
Depoimento concedido a Marly Motta e Tatiana Coutto em sessão realizada no Rio de Janeiro no dia 30 de junho de 2010.
O primeiro contato com a energia nuclear
Antes de abordar sua escolha pela engenharia elétrica, o senhor poderia nos falar um pouco sobre os seus primeiros estudos?
Após o ginásio optei pela escola militar a fim de continuar os estudos. Fui aprovado no vestibular para engenharia e para arquitetura, e frequentei ambos os cursos durante determinado período. Por influência dos colegas e dos professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, optei pela engenharia elétrica.
Na época da graduação, o senhor já considerava a possibilidade de trabalhar com energia nuclear?
Não. Em 1965, último ano do curso, encontrei um professor de projetos de usinas hidrelétricas, Silvio Freitas, um engenheiro muito competente que queria conhecer coisas novas. Tinha feito vários projetos e era chefe de uma empresa do Rio Grande do Sul chamada Companhia Estadual de Energia Elétrica, CEEE. Ele havia feito um curso sobre energia nuclear - em São Paulo, creio - e decidiu oferecer uma formação semelhante, à noite, para quem se interessasse pela área. Eu e meia dúzia de colegas decidimos fazer o curso, que era excelente. Ao final do curso, o professor Freitas avisou que havia conseguido bolsas de estudo no IME, no Rio de Janeiro. Na época faltavam engenheiros, e as empresas competiam para atrair os recém-formados. Fui convidado para trabalhar como professor em cursos recém-inaugurados de engenharia elétrica e mecânica em Florianópolis. Tinha também a opção de trabalhar na IBM. Apesar das ofertas, mudei-me para o Rio de Janeiro com Lothario Deppe, Eloi Zimmermann, que depois foi para Furnas, e um casal de engenheiros, Egberto e Eunice Burger.
IME, Cnen, e o Grupo Lane: o início das atividades de planejamento
O senhor poderia falar um pouco sobre o período no IME e de que forma o curso contribuiu para sua ida para a Cnen?
docentes era militar com graduação em engenharia eletrônica ou nuclear. Nosso trabalho era uma espécie de tese. Mais tarde, quando fiz mestrado no Imperial College of Science and Technology, na Inglaterra, vi que o trabalho que tinha feito no Brasil era igual ou melhor.
Havia um professor de física aplicada, um general e engenheiro militar chamado Uriel da Costa
Ribeiro.69 No final do curso, em 1966, ele foi escolhido presidente da Cnen e convidou os cinco que tinham terminado o curso para trabalhar na Comissão, já que lá praticamente não havia engenheiros. Na ocasião, eu não tinha outra opção senão aceitar. Foi muito interessante, pois o general não tomava decisões sem consultar “os três mosqueteiros”.
Essas consultas se referiam a que temas?
Planejamento. É importante que o chefe discuta com seus subordinados, apliquei essa atitude minha vida inteira; é desgastante não saber o que acontece em seu departamento.
Uma vez que Uriel Ribeiro era um general, havia uma hierarquia de comando?
Foi o general Uriel que resolveu criar uma assessoria de planejamento; nós três fomos a semente. Havia outro engenheiro militar, Horácio Antunes Ferreira Júnior, que formou um grupo chamado Assessoria de Planejamento e Desenvolvimento da Cnen (Asped), que controlava o orçamento de toda a Comissão e seus institutos. Antes não existia praticamente nada de planejamento, começamos isso tudo fazendo estudos sobre a necessidade de energia nuclear. Em 1967, o governo criou um grupo de trabalho importantíssimo.
Refere-se ao chamado Grupo Lane?
Não, esse grupo tinha por objetivo equacionar a cooperação entre Cnen e Eletrobras. Legalmente, tudo o que se referia à energia nuclear cabia à Comissão. A parte de geração de energia não estava definida, e criou-se um grupo de trabalho para discutir como as tarefas e atribuições seriam
divididas. Foi decido que a construção das usinas caberia à Eletrobras com participação da Cnen, mas a definição do tipo de usina ficaria a cargo da Eletrobras. O relatório foi aprovado em outubro de 1967.
O fato de gostar muito de física de reatores, de projetos, levou-me a fazer vários cursos sobre o assunto e contribuiu para minha ida para a área nuclear. Certa vez um professor francês veio a Belo Horizonte dar um curso no antigo IPR, atual CDTN; interessei-me e pensei em fazer um curso
exterior na área de física de reatores. Mas, em 1968, o governo decidiu que deveriam ser tomadas decisões para a construção da primeira usina nuclear, embora então não se soubesse exatamente o que fazer. Por isso, o governo pediu a participação de uma assessoria internacional constituída de vários especialistas. Nesse momento foi criado o Grupo Lane.
Além de James Lane, dos Estados Unidos, quem mais fazia parte do grupo?
Havia o Ian MacKay, do Canadá, Bellmond, da Suécia, especialista em energia hidrelétrica. Vieram ainda Mr.Tilbe, do Reino Unido, Peter Magen, da Suécia, e uma pessoa da AIEA. Os trabalhos
versavam sobre produção de energia elétrica, com nosso grupo de Furnas e Eletrobras.
Havia visitas, palestras e relatórios. Cinco ou seis pessoas trabalhavam de modo permanente no grupo, que era coordenado por Horácio Ferreira. Mauro Moreira70 era representante da Eletrobras, e David Neiva Simon era assistente do diretor francês, e posteriormente chefiou o departamento de energia nuclear. Havia também Eloi Zimmermann. Havia um engenheiro do Ipen, Pedro de
Camargo,71 e o pessoal do IPR: Witold Lepecki,72 Carlos Werth Urban73 e Lothario Deppe,74
além de dois engenheiros do Instituto de Engenharia Nuclear, Ien, da UFRJ - Luiz Fernando Schneider e José Evangelista, que foi chefe do setor de reatores na Asped. Frederico Magalhães Gomes,75 do IPR, depois foi para a Eletrobras.
Como secretário executivo do grupo, eu era responsável pela coordenação entre estrangeiros e brasileiros, pela parte de apoio técnico e visitas, pois falava bem inglês e francês. Esse relatório abrangia o que se deve fazer para construir uma usina, tipos de usina, impactos ambientais,
percentagem de consumo, além das necessidades em termos de recursos humanos e treinamento.
O estudo feito pelo Grupo Lane concluiu que a energia nuclear era necessária para complementar a matriz hidrelétrica?
Essa questão também foi parte do estudo. Até então, no setor elétrico, nunca se havia feito um estudo de longo prazo para saber qual era a necessidade de energia em dez, quinze anos. Isso foi feito
durante esse estudo junto com o pessoal do IPR. Nós, na Asped, começamos a tratar desses programas de otimização e de expansão do sistema elétrico. O estudo forneceu as bases para a tomada de decisão. As conclusões foram levadas ao governo e aprovadas já na administração Costa e Silva, em 1967.
O general Uriel discutia com os bolsistas vindos do IME a opção defendida pelo Grupo do Tório? A tentativa autônoma de desenvolver um reator nacional era apoiada pelo presidente da Cnen?
Era discutida. Inclusive, a Asped tinha muito contato com o pessoal do Tório. Nessa época, ainda não se havia decidido que tipo de usina seria escolhido. Então esse reator nacional, digamos, estava em consideração, mas foi descartado. O Grupo do Tório teve uma função extremamente importante de formação de pessoal, que foi incorporada na Companhia Brasileira de Tecnologia Nuclear, CBTN, e na futura Nuclebrás.
Houve ainda um momento, não sei exatamente quando, que veio do IPR, do Grupo do Tório, o
engenheiro Sérgio Salvo Brito, especialista em planejamento elétrico. Tinha feito um curso na França e passou a trabalhar parcialmente conosco: ele ficava três dias em Belo Horizonte e dois no Rio. Estava escrevendo um relatório muito importante, mas precisava fazer os cálculos. Como não havia programa de computador na época, eu e o Deppe resolvemos fazer um cálculo integrativo aplicando a teoria de planejamento dele e testando diferentes hipóteses até chegar a planejamento ótimo de custo e expansão mínima. No planejamento, há o custo das usinas, do combustível e da operação, dependendo do sistema e da demanda. Ficávamos depois do serviço, acordávamos à noite e
no Clube de Engenharia. John Cotrim,76 presidente de Furnas, estava lá e o convidou para ser chefe do departamento de planejamento da empresa. Depois foram o Deppe e o Eloi. Eu já estava indo para a Inglaterra e continuei na Cnen.
O início da carreira internacional: o mestrado na Inglaterra
Qual foi a relação entre sua participação no Grupo Lane e o mestrado em Londres?
Uma das recomendações do relatório Lane é que se devia investir muito em tecnologia e formação de pessoal; no Grupo Lane havia Mr. Tilbe, do Reino Unido, que falou para que eu me dedicasse ao planejamento e não à física de reatores e disse que o lugar certo para fazer planejamento era a Inglaterra. Concordei, e ele convenceu o pessoal da Comissão de que eu iria para lá. Não houve resistência, a decisão já havia sido tomada. Dos “três mosqueteiros”, eu era o que tinha mais vontade de ir para o exterior, e meu chefe concordou. Como esse trabalho foi coordenado pela AIEA, eles logo conseguiram uma bolsa: no final de 1968 eu já estava na Inglaterra.
O curso era praticamente repetição das matérias que eu já tinha visto no IME e no curso com o doutor Silvio Freitas. A parte teórica foi fácil, o problema foi a tese. Conheci uma pessoa que estava
fazendo doutorado no departamento de química e que desenvolveu um método de otimização de multivariáveis para aperfeiçoar processos químicos. Li o trabalho e pensei que poderia adaptá-lo a um projeto de usina nuclear. Meu orientador lá era o professor John Head,77 que simpatizou comigo. Comecei a escrever a tese, fazendo adaptações. Apliquei aquele estudo, inicialmente desenvolvido para engenharia química, para otimizar projetos de uma usina que estava em desenvolvimento no Reino Unido nessa época, com o chamado reator avançado - gás-grafite. O projeto foi muito bem aceito. Ganhei o título de Master of Science in Nuclear Power. Pensei em permanecer na Inglaterra e fazer o doutorado lá, mas surgiu outra oportunidade. No entanto, mais tarde vi que o projeto não seria aplicado no Brasil; tratava-se de um modelo único que só a Inglaterra estava desenvolvendo. Entrei em contato com o pessoal do Grupo do Tório e resolvi otimizar o reator a tório utilizando a mesma metodologia; fiz uma espécie de segunda tese do reator extinto.
O senhor continuou a trabalhar com o John Head na adaptação da metodologia?
Sim, ele conhecia as pesquisas com tório e urânio e achou o projeto muito interessante. Para o Brasil isso era importante, pois temos muito tório.
Na sua avaliação, por que o grupo inglês The Nuclear Power Group (TNPG) perdeu para a Westinghouse?
No início de 1970, eu já tinha terminado o mestrado quando Mr. Tilbe falou para eu fazer estágio em várias áreas de projeto de usina, planejamento de expansão a longo prazo. Um dos estágios foi no The Nuclear Power Group, TNPG, que estava apresentando uma proposta para construir a primeira usina nuclear através de contrato turnkey – Angra 1, que a essa altura foi aberta a concorrência internacional. Pedi para acompanhar a proposta, mas eles não venceram a concorrência por várias razões.
O reator a água leve era muito bom, extremamente fácil de controlar, mas só havia um em operação, um protótipo. Seria muito arriscado adquirir um reator com pouca experiência.
De onde vinha a maior parte dessa experiência de planejamento em longo prazo?
Quem começou com tudo isso foram os franceses. Sérgio Brito trouxe essas técnicas de lá. A empresa EDF (Eletricitè de France) era muito boa nessa época. A otimização e o planejamento a longo prazo têm muita base matemática. O grupo na Inglaterra também era bom nisso; já que eu estava lá, decidi aproveitar.
Seu mestrado coincide com a discussão de regimes de não proliferação e de desnuclearização.78 Essas grandes questões políticas influenciaram a decisão brasileira de não investir no reator a gás-grafite? Esses regimes eram discutidos pelo pessoal da Cnen, mesmo que informalmente?
Não. Algumas pessoas da Asped discutiam o assunto, mas isso era mais no nível político, no Itamaraty, não na área de tecnologia e de pesquisa. No College, em Londres, isso tampouco era discutido. Mais tarde é que fomos nos preocupar um pouco com isso.
A Cnen sob Hervásio de Carvalho79 e a reformulação das instituições da política nuclear Em 1969, Hervásio de Carvalho assumiu o cargo de presidente da Cnen; nessa época, Carlos Syllus Martins Pinto era o chefe da Asped. Que mudanças o senhor percebeu na Comissão após regressar da Inglaterra?
Dentro da Asped, havia um setor de reatores não mais chefiado pelo Evangelista, e sim pelo dr. Witold Piotr Stefan Lepecki, com quem trabalhei por um tempo. Havia o Hervásio, o Syllus e o Lepecki80. A Comissão havia mudado, porque nessa época já havia muitos engenheiros. O Syllus organizou a Asped, e já tínhamos força de decidir orçamentos de diversas áreas e sugestão do que se deveria fazer. Quando voltei, com mais experiência, eu, Lepecki e outras pessoas começamos a fazer estudos sobre o as necessidades do setor elétrico brasileiro. Apresentei o trabalho, intitulado
Nuclear Power Forecast for Brazil, no primeiro dia da conferência mais importante no setor de
energia elétrica, em 1971, em Genebra. Syllus e Lepecki foram também, mas, como eu vinha da Inglaterra, supostamente falava bem inglês para apresentar. Foram muitas as perguntas.
Outra mudança na Comissão foi a criação da Companhia Brasileira de Tecnologia Nuclear, CBTN, formada com uma subsidiária da Cnen pelo MME, cujo ministro era Dias Leite.81 Ficamos em uma sala separada por algum tempo na sede da Comissão, em Botafogo, até que o Syllus foi nomeado diretor. Além dele, Lepecki, José Carlos Castro,82 Marco Antônio e eu formávamos o grupo inicial. A seguir, Syllus foi nomeado diretor de Tecnologia e Desenvolvimento, e eu fui designado chefe da assessoria de programação. Comigo foram Marco Antônio, José Carlos Castro e uns engenheiros que estavam fazendo tese.
Quando o senhor fez esse planejamento, contava-se só com a Westinghouse ou já havia sinalização do Acordo Brasil-Alemanha?
Não, ainda não sabíamos da decisão. A opção pelos Estados Unidos coube à parte comercial; Furnas fora incumbida de fazer a concorrência e escolheu a Westinghouse por vários critérios.
Evidentemente, Furnas nos consultava, mas não tínhamos peso na decisão. Mas houve uma época em que foi decidido dar ênfase aos reatores a água leve. A Westinghouse era um dos fabricantes. O outro era a General Electric, GE, que tinha outro tipo de reator de água leve, com água fervente, enquanto o reator Westinghouse era do tipo PWR.
A ênfase no planejamento tem a ver com a postura da área nuclear diante do setor elétrico?
Era uma área muito difícil, não era nossa seara. Quem tem que fazer planejamento é o setor elétrico, a Eletrobras. Sentimos que o pensamento era de que caberia a nós dizer que era preciso tanta energia. Tínhamos ideia de que seria necessária outra fonte além da hidrelétrica, na ordem de cinco a dez mil megawatts de potência instalada, em torno do ano de 1990 – que mais tarde seria recomendada pelo chamado “Plano 90”. Para falar sobre o assunto, chamamos uma pessoa reconhecida que trabalhava no setor elétrico para avaliar nossos estudos e nos orientar como consultor independente: o dr. Jerzy Lepecki,83 ex-presidente da Celpa e diretor da Cesp. Éramos eu e mais um engenheiro elétrico, de quem fui orientador de tese no IME, Marco Antônio Dell Assem.
O senhor foi muito habilidoso em conduzir essa política institucional.
O mais habilidoso foi termos solicitado ao diretor de planejamento da Eletrobras que indicasse alguém para acompanhar os estudos. Ele indicou o engenheiro Yoshimori Une, do departamento de energia térmica. Tudo era inspecionado. Esses estudos de revisão e autorização se desenvolveram até meados de 1973 e confirmaram nossos trabalhos anteriores. Com base nos nossos estudos, o governo resolveu levar a sério essa parte de planejamento.
O nuclear no planejamento energético: o ‘Plano 90’ da Eletrobras e os antecedentes do Acordo Brasil-Alemanha
Como foi constituído o grupo que elaborou o Plano 90? Quais eram os principais elementos, sugestões e avaliações desses estudos?
O acompanhamento do trabalho pelo engenheiro Yoshimori Une chegou aos ouvidos do presidente da Eletrobras, que decidiu fazer o primeiro estudo de longo prazo do setor elétrico para as regiões Sul e Sudeste do Brasil (que seriam futuramente interligadas). O dr. Jerzy Lepecki foi escolhido para
coordenar o estudo do Plano 90 e nos convidou para participar como observadores. Como a energia nuclear naquela época era uma opção importante, fornecemos todos os dados, como tamanho ótimo, custo, informações necessárias ao planejamento. Jerzy Lepecki não ficou nessa coordenação até o final. A Eletrobras criou um Centro de Pesquisa de Energia Elétrica, Cepel, na Ilha do Fundão; Lepecki foi nomeado diretor, passando a coordenação do Plano 90 para o dr. Amarante, então chefe de departamento de planejamento.
Foram várias as recomendações do Plano 90, mas a mais importante foi a de que era preciso construir entre seis e oito usinas para garantir a oferta de energia no longo prazo. O programa era
dividido em duas etapas: para a primeira etapa, que se estendia até 1985, eram previstas duas usinas nucleares de 1200 megawatts, cuja decisão deveria ser feita imediatamente. Mario Bhering,84
presidente da Eletrobras, e Camilo Penna85 mandaram um ofício para o ministro Shigeaki Ueki86
solicitando a aprovação dessas duas usinas. Furnas ficou encarregada de fazer as usinas de Angra 2 e Angra 3. Nós da CBTN pensamos então em negociar todas as usinas solicitando transferência de tecnologia, formação de pessoal e índice de nacionalização crescente à medida que as usinas fossem construídas. Decidimos fazer uma proposta ao governo para que fosse negociado um pacote de
usinas. Começamos a fazer contatos com diversos países: Witold Lepecki participou de missões nos Estados Unidos, Inglaterra, França e Alemanha.
A Alemanha era o país que mais satisfazia nossas necessidades: não se tratava apenas das usinas, havia o ciclo do combustível, assessoria na parte de prospecção, conversão, enriquecimento e reprocessamento. Trabalhamos intensamente na época de negociação e íamos frequentemente a
Brasília. As negociações eram sigilosas e conduzidas em diversas fases, desde o estabelecimento de propostas específicas – o que nós queríamos – para depois negociar. Foi fechado o contrato com a Alemanha.
O dr. Witold Lepecki, o chanceler Azeredo da Silveira87 e o ministro Shigeaki Ueki participavam dessas viagens e das negociações com o senhor?
Não o Azeredo. Eu vivia na Alemanha, principalmente depois que foi assinado o acordo, pois tinha que discutir acordos específicos de cada área. Minha assessoria na época foi responsável por dois acordos referentes ao suprimento dos elementos combustíveis para Angra 2 e Angra 3 e pelo contrato de enriquecimento. Dois engenheiros participaram da negociação: José Carlos, responsável pelo combustível, e eu, que cuidava da parte de enriquecimento. E do lado de lá havia vários alemães e holandeses, pois o contrato foi negociado com a Urenco, que pertencia a Alemanha, Inglaterra e Holanda.
O enriquecimento já era uma questão delicada na época?
Era superdelicada: tínhamos um contrato de fornecimento de combustível com os Estados Unidos para Angra 1 que não deu em nada, foi bloqueado pelo Departamento de Estado. Tivemos que incluir a parte de Angra 1 no contrato com a Urenco, que até hoje supre o combustível de Angra 1. Tivemos que nos adaptar, planejamento é adaptação de áreas. Felizmente, mais tarde o Brasil desenvolveu por si próprio a ultracentrifugação.
O núcleo da CBTN, formado por técnicos, recebeu algum tipo de formação com vistas a se preparar para as negociações que resultaram no Acordo Brasil-Alemanha?
Antes das missões, Syllus enviou alguns de nós – Lepecki, eu e José Carlos - para um curso de especialização em negociações. Não tínhamos a mínima noção dos aspectos legais, de convenções internacionais; éramos engenheiros. Passamos uma época nos Estados Unidos, em uma empresa que já tinha sido consultora de Furnas, a NUS Corporation, a fim de simular as negociações em inglês. O Elói também fez esse curso de gerenciamento, pois trabalhava no departamento de planejamento de