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Eu perco o chão/ Eu não acho as palavras/ Eu ando tão triste/ Eu ando pela sala/ [...] Eu deixo a porta aberta/ Eu não moro mais em mim/ [...] Eu perco as chaves de casa/ Eu perco o freio/ Estou em milhares de cacos/ Eu estou ao meio (CALCANHOTTO, 1994).

Para Costa (2004, p. 55), abordar o tema do corpo em Psicanálise pode parecer redundante: “Afinal, toda Psicanálise é do ‘corpo’”. No entanto, para ele, a discussão, se justifica ao pensarmos na importância que os novos sintomas corporais vêm ganhando na clínica. Ferreira (2008) lembra que a constituição de si está diretamente ligada à corporalidade. Os processos fisiológicos e os processos psíquicos são interdependentes, fazendo com que o biológico e o simbólico dialoguem desde o início da construção da subjetividade.

Segundo Chiozza (1998, p.31):

Soma e psique não são, portanto, duas realidades ontológicas distintas que se influenciam reciprocamente. São mutuamente irredutíveis. Soma e psique são duas categorias que um mesmo existente inconsciente adquire na consciência. As consequências desta atitude epistemológica para a investigação e para o exercício clínico psicanalítico são enormes, já que, a partir deste ponto de vista, explicar uma afecção somática como efeito de uma causa física não exclui a possibilidade de interpretá-la como um derivado consciente de um significado psíquico que permaneceu inconsciente. Em suas “Cinco Conferências...” Freud (1910) dirá, referindo-se à conversão histérica, que quando um curso d’água se divide em dois canais a congestão de um deles se produzirá tão logo a corrente encontre um obstáculo no outro.

Doron e Parot (1998) lembram que, inicialmente, Freud (1914) percebeu que havia conflitos psíquicos que se manifestavam na esfera corporal, ele destacou o papel das neuroses atuais e desenvolveu conhecimentos importantes a partir das necessidades causadas pelo sofrimento com as experiências de guerra. Assim, as concepções de Freud favoreceram o entendimento sobre as afecções psicossomáticas.

Durante o desenvolvimento, as pessoas utilizam diversos recursos na tentativa de manter o equilíbrio psíquico e lidar com suas angústias. As pessoas podem desenvolver neuroses, psicoses, sonhos, obras de arte etc. No entanto, nos momentos em que as defesas e recursos habituais falham e não há uma possibilidade criativa, diante do sofrimento psíquico, o ser humano é capaz de somatizar suas dores mentais. Um processo que é facilitado pela existência de elos complexos entre o funcionamento mental e a representação psíquica do eu somático, de acordo com McDougall (1991, 2000) e Mello Filho (1992, 2002).

Chiozza (1998) destaca, por exemplo, a existência de atos falhos, atos sintomáticos e, também, das alterações corporais como a obesidade ou a palidez permanente da pele, como forma de expressão não-verbal de conteúdos inconscientes.

A Psicossomática ressalta a dialética contínua que há entre soma e psique, nas diversas etapas do desenvolvimento individual e, também, nas relações interpessoais, como expõe autores como Volich (1998). Ela propõe uma abertura para o conhecimento e o trabalho em comum de diferentes campos do saber. E estuda o aparelho psíquico e as perturbações que envolvem o funcionamento psicossomático, em conjunto com características do contexto de vida de cada pessoa.

Os pacientes psicossomáticos são entendidos por McDougall (1991, 2000) como as pessoas que preservam, inconscientemente, a capacidade de adoecer como uma saída em períodos de crise. Eles têm tendência a exigirem demais do corpo físico, ignorando os sinais emitidos pelo corpo. Neles, é o corpo que hiperfunciona ou inibe suas funções normais, de modo insensato para o funcionamento fisiológico. E, embora, provoque o adoecer orgânico, esse movimento visa proteger o sujeito de um dano psíquico.

Essas pessoas sofrem com a influência de mensagens enviadas pelo psiquismo que se sente ameaçado por estar diante de acontecimentos dolorosos, culpabilizantes ou que causam temor. McDougall (1991, 2000) relata que há pessoas que, raramente, conseguem relacionar

os aspectos emocionais com a doença. Entretanto, esses fenômenos possuem um sentido psicológico. Porém, pertencem a uma ordem pré-simbólica e constituem uma resposta somatopsíquica emitida pelo psiquismo, em seu esforço para evitar angústias insuportáveis à consciência.

Para McDougall (1991), o processo psicossomático pode estar ligado à carência de investimento libidinal. O momento em que a doença desponta, está ligado a algumas vivências do indivíduo em suas relações que, de alguma forma, é marcada por uma perda objetal importante. Ela relata que alguns desses pacientes vivenciam perdas e lutos precoces. Por outro lado, para outros sujeitos, a eclosão da doença aparece por uma sensação de necessidade de garantir um mínimo de existência separada de qualquer objeto significativo, o que nos remete às reflexões sobre as relações simbióticas.

Mello Filho (1992) aponta que, nesse funcionamento, é comum a presença de processos em que as palavras são esvaziadas de sua significação afetiva. O psiquismo fica privado em sua linguagem e, assim, o processo de pensamento fica comprometido e empobrecido. Há ausência de representações de palavras. Ele dispõe apenas das representações de coisas, o que reduz a possibilidade de elaboração e dissolução de conflitos.

Segundo McDougall (2000), há duas funções defensivas nos processos psicossomáticos que envolvem a comunicação e as relações: o pensamento operatório, que é uma maneira de relação com os outros e consigo, no qual ocorre uma forma de pensamento e expressão, de modo deslibidinizado e extremamente pragmático e, a alexitimia, em que a pessoa não tem palavras para dar nome a seus estados afetivos; ou, quando pode nomeá-los e não consegue distinguir um estado de outro. Entretanto, comumente, encontramos autores que incluem o funcionamento operatório entre a dinâmica que engloba a alexitimia.

De acordo com Nemiah, Sifneos (1970), Taylor, Bagby e Parker (1991), a alexitimia possui as seguintes características: 1) Notável dificuldade de identificar e descrever

sentimentos; 2) Dificuldade em distinguir entre sentimentos e sensações corporais decorrentes de excitações internas; 3) Carência de fantasias e retração dos processos da imaginação; 4) Estilo cognitivo concreto e apoiado na realidade; 5) Consonância com o social acentuada e pouco contato com sua realidade psíquica. Esses autores afirmam, ainda, que tais processos refletem em um déficit na capacidade de regular as emoções.

Esses modos de funcionamento remetem a um estado primitivo de desenvolvimento em que a distinção entre sujeito e objeto ainda não era estável e podia ser fonte de angústias, como aponta McDougall (1991, 2000). Nesse estágio, as mensagens entre corpo e psiquismo são inscritas psiquicamente sem a representação de palavras, como no início da vida, quando o ser humano ainda não dispunha do recurso da linguagem. Para a autora, a possibilidade de habitar o corpo começa a ser constituída nas relações primárias. Ela aponta que a impossibilidade de inserir experiências afetivas e corporais no código linguístico pode estar ligada ao contato íntimo inicial da relação mãe-bebê.

Então, os processos psicossomáticos acompanham a possibilidade de constituição de si e McDougall (1991, 2000) faz apontamentos que relacionam o uso de soluções psicossomáticas à dinâmica centrada no fazer. Essa autora ressalta que, durante o desenvolvimento da pessoa que psicossomatiza a função paterna, com frequência, apresentou comprometimentos, o que acabou ocasionando uma carência na elaboração psíquica, falhas no processo de simbolização, na constituição dos limites e de segurança interior, as quais podem aparecer compensadas por um agir alienante de caráter compulsivo. O que seria uma tentativa de reduzir a intensidade da dor psíquica por um caminho mais curto, ainda que, com prejuízos no desenvolvimento de recursos para lidar com conflitos emocionais, com situações de frustração e separação.