3. Metodisk tilnærming
3.3 Diskursiv regulering, makt og hegemoni
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
Resumo: Esta comunicação propõe uma leitura da batalha que se travou na planície do Lys em 9 de abril de 1918, leitura que incide não só na atuação do exército português, mas que leva em conta também, e sobretudo, a integração do combate na Ofensiva alemã da Prima- vera desse ano que se desenrolou entre março e julho e, de forma mais específica, na Ope- ração Georgette. Atenderá às forças beligerantes (portuguesas, britânicas e alemãs), às suas características, às estratégias e táticas militares (a relevância da tática alemã das tropas de assalto), às condições de terreno e climatéricas, às dinâmicas do combate.
Palavras-chave: Batalha de La Lys, Ofensiva alemã da Primavera de 1918, Operação Geor- gette, estratégia e tática militar.
Abstract: This communication proposes a reading of the battle that took place in the plain of Lys on April 9, 1918, focuses not only on the performance of the Portuguese army, but above all, on the integration of combat in the German Spring offensive of that year that developed between March and July and, more specifically, in Operation Georgette. It will focus on the belligerent forces (Portuguese, British and German), namely their character- istics, military strategies and tactics (the relevance of the German assault troops tactic), and also to the field of operations and climatic conditions, the dynamics of combat. Keywords: Battle of La Lys, Spring German offensive of 1918, Operation Georgette, strategy and military tactics.
Quando, há anos, publiquei um relato da Batalha de La Lys (Mota, 2006), escrito por um alferes de artilharia que nela combateu, ao compulsar a bibliografia relativa ao tema, aper- cebi-me que muitos dos textos que sobre a batalha se escreveram em Portugal tendiam a analisá-la em si mesma, como se não tivesse contexto, levavam em conta apenas a ação das forças portuguesas e não a das forças britânicas, e, na análise da derrota, conferiam um grande peso à alteração da política de beligerância, introduzida com a chegada ao poder de Sidónio Pais, em dezembro de 1917, que conduzira a um desinvestimento do país na guerra, e pouco à atuação do comando aliado.
Entre as razões apontadas para o fracasso, salientava-se o estado calamitoso em que o exército português se encontrava na Flandres, com as tropas há muito na frente sem serem rendidas, com acentuada carência de oficiais e com o moral muito baixo.
Por outro lado, minimizavam a magnitude da Ofensiva alemã da Primavera de 1918, a importância fulcral que a zona do Lys tinha nessa ofensiva e a intensidade esmagadora do ataque alemão no dia 9 de abril. A batalha era olhada como mais um combate rotineiro da guerra.
Uma outra perspetiva, porém, apresentava em texto publicado logo em 1920 o major de infantaria João Maria Ferreira do Amaral. Escrevia: «A 2.ª Divisão portuguesa, estava nesse dia guarnecendo a frente que cortava o caminho que Ludendorff necessitava ter livre, para se aproximar de Calais e Boulogne. […] Para isso entendeu e muito bem, que tendo pela frente uma divisão, devia lançar contra ela oito divisões, sem se importar se era de portu- gueses, se era forte ou fraca, se estava nas linhas com ou sem vontade, se estava cansada ou não. […] Fez o que manda a cartilha da guerra moderna, que preceitua a quem ataca, fazê-lo na proporção de oito contra um». E acrescentava: «Que a ninguem fique duvidas sobre o destino que uma Divisão Francêsa, Inglêsa ou Americana teria no dia 9 de Abril se estivesse onde esteve a 2.ª Divisão Portuguêsa. Quem lá estivesse seria esmagado, atrope-
lado e … varrido» (Amaral, 1923, pp.8 e 45).
Este excerto pode ser encarado como uma mera justificação do ocorrido, mas levou-me a refletir sobre as reais condições em que se bateram os soldados portugueses e a concen- trar, assim, a minha atenção na dinâmica da guerra, tentando perceber a interdependência de todas as forças em presença, sendo as do Corpo Expedicionário Português (conhecido como o CEP) apenas parte delas.
É certo que a grande diferença numérica entre as unidades lusas e germânicas era sub- linhada em muitos relatos, assim como a superioridade do armamento alemão, quer em qualidade, quer em quantidade, mas nem sempre avaliando suficientemente o impacto que isso teve no desenrolar dos acontecimentos.
Como atenuante, apresentava-se o facto do ataque se ter dado no dia em que as unida- des portuguesas tinham recebido ordens para, finalmente, se deslocarem para posições à retaguarda, momento de especial vulnerabilidade. Não considerando, porém, que isso não se devia a um golpe trágico do destino, mas à decisão tardia da chefia militar inglesa que as havia mantido na linha da frente, por delas ter necessidade, uma vez que a investida alemã do mês de março no Somme aí retivera as britânicas.
Para tentar conferir algum sentido a uma derrota penosa, defende-se por vezes que o confronto desse dia teve, pelo menos, o mérito de retardar o inimigo e assim permitir que os aliados se recompusessem e pudessem resistir. Nada menos exato. Até aos finais de abril, o exército inglês viveu as horas mais desesperadas da guerra.
Em 1917, a guerra chegara a um impasse, com os soldados enterrados nas trincheiras, travando escaramuças constantes, mas sem lucrarem ou cederem ganhos ou recuos signi- ficativos. Não se descortinava a possibilidade de uma solução que pusesse fim ao conflito. Os países iam-se exaurindo por anos de luta e de privações, com as populações esgotadas numa penúria extrema.
É então que a Alemanha, recorrendo a novas táticas de guerra, inflige duas grandes der- rotas aos Aliados. Em setembro esmaga o exército russo em Riga e em novembro o italiano em Caporetto. A confiança na sua própria capacidade militar, estribada nos triunfos obti- dos, leva o comando alemão a planear uma grande ofensiva nos inícios do ano seguinte com a finalidade de acabar com a guerra e alcançar a vitória. O momento é propício. Em 3 de março, firma a paz com a Rússia, pelo Tratado de Brest-Litovsk, e isso permite-lhe dispor de mais 50 divisões, ficando com uma vantagem temporária. E o ataque é inadiável, pois convinha ser desencadeado antes de um maior envolvimento norte-americano, quer em homens quer em recursos.
A Ofensiva alemã da Primavera de 1918, apelidada pelos alemães de Batalha do Kaiser, consta de uma série de ataques – “Michael” (21 de março a 5 de abril), “Georgette” (9 a 29 de abril), “Blücher” (27 de maio a 5 de junho), “Gneisenau” (9 a 15 de junho) e “Marnes- chutz” (15 de julho a 3 de agosto) – desferidos ao longo da Frente Ocidental, iniciados a 21 de março e que se prolongaram até 18 de julho, dia em que se iniciou a contra-ofensiva aliada. Foi seu estratega o general Erich Ludendorff que optou por arriscar uma manobra de “tudo ou nada”, contra a opinião de outros generais mais experientes que teriam prefe- rido progredir menos no terreno, mas de forma mais consolidada. Esta investida foi assim a mais violenta desde que a conflagração começara e foi a que atingiu os avanços mais pro- fundos desde 1914. E por isso mesmo acabou por precipitar o termo da guerra.
A “Operação Michael” decorreu na zona do Somme e com ela pretendia a Alemanha to- mar a cidade de Amiens, um nó ferroviário vital, separar as linhas aliadas, empurrar o exército britânico para lá da Mancha, contando que a França, nessa eventualidade, se dis- pusesse a pedir o armistício.
Simultaneamente, os alemães gizaram a “Operação Georgette”, na zona do Lys, com o fim de conquistar a cidade de Ipres, dominar os portos de Dunquerque, Calais e Boulogne- sur-Mer, para cortar o abastecimento aliado por mar, e tomar Hazebrouck, um centro de caminho de ferro onde os britânicos tinham um grande depósito de mantimentos. Esta cidade ficava a cerca de 24 km, para lá do Setor Português, a noroeste.
Esta operação não foi, como se tem dito, um ataque subsidiário cujo único propósito era coagir o comando aliado a desviar as forças do Somme. Absorveu no total praticamente tantos homens como os que estiveram envolvidos em todas as batalhas de 1915 e 1916 juntas (Williams, 2008, p.174). É certo que teve uma escala menor que “Michael” – devido, em parte, à pressão que a manutenção da área então conquistada exercia –, mas é o próprio Ludendorff que afirma que ela não visava apenas objetivos limitados e que se tornou uma «operação principal». Depois da rápida progressão alemã, que tomou aos ingleses Armen- tières, Messines e Merville, já Winston Churchill, em 12 de abril, a descrevia como «pro- vavelmente, depois do Marne, o clímax da guerra» (Stevenson, 2013, p.68). A 11 de abril, a situação aliada era crítica. Foi nesse dia que Douglas Haig, o comandante da Força Expe- dicionária Britânica, reconhecendo a falta de soluções, emitiu a famosa palavra de ordem “Backs to the wall” – «With our backs to the wall and believing in the justice of our cause
each one of us must fight on to the end»38 (Stevenson, 2013, p.73) – , pela qual impunha a
obrigação de lutar até ao fim, sem recuo nem retirada.
A ofensiva do Lys durou até 29 de abril. Nesta data, o exército alemão suspendeua. Tinha sofrido duras baixas e estava incapaz de conservar o terreno de que se apossara por escassez de provisões e de reforços. As rápidas tropas de assalto que lideravam os ataques não foram acompanhadas por falência da mobilidade da retaguarda. E assim os impressivos ganhos táticos acabaram por não levar à concretização de resultados operacionais.
A “Operação Georgette” envolveu, da parte britânica, dois exércitos, o 1.º, comandado pelo general Henry Horne, e o 2.º, pelo general Herbert Plumer, que ocupavam as zonas a sul e a norte do rio Lys respetivamente. E envolveu, da parte alemã, o 6.º Exército, do ge- neral Ferdinand von Quast, a sul, e o 4.º, do general Sixt von Armin, entre o rio e a cidade de Ipres.
Na manhã de 9 de abril, o primeiro dia da ofensiva, a batalha colocou em confronto o poderoso 6.º Exército alemão e dois corpos do 1.º Exército britânico, o XI, sob o comando do general Richard Haking, com duas divisões na frente, a 2.ª portuguesa e a 55.ª britânica, e o XV onde se integrava a 40.ª Divisão britânica.
O CEP estava nas trincheiras da Flandres francesa desde abril de 1917, operando com duas divisões, sob a direção do general Tamagnini de Abreu e Silva. O Setor Português lo- calizava-se no vale do rio Lys, entre Armentières e La Bassée, Merville e Béthune, com uma área que chegou a ter 14 km de frente e quatro setores de brigada (Ferme du Bois a sul, Neu- ve Chapelle e Fauquissart ao centro e Fleurbaix a norte). Como os ingleses admitiram que a frente era muito extensa, esta foi reduzida para 11 km e em dezembro o setor de Fleurbaix foi atribuído à referida 40.ª Divisão.
Ao longo desse ano, os portugueses mantiveram com determinação a defesa do seu setor. E, quando, nas primeiras semanas de março de 1918, os alemães intensificaram as hostili- dades, os militares lusos não só repeliram vários ataques inimigos, como ainda lançaram com êxito ataques próprios. O seu desempenho não sofreu reparos e em 7 de abril foi até elogiado por Haking (Costa, 1920, p.125).
Por Convenção de 21 de janeiro de 1918, firmada entre os comandos português e britâni- co, o CEP deixou de funcionar como Corpo de Exército. Nesse acordo, estabeleceu-se que a 1.ª Divisão passava para a retaguarda e a 2.ª se incorporava no XI Corpo britânico, deixando de estar subordinada ao CEP para efeitos táticos. Em 3 de abril foi emitida a ordem que mandava efetivar essa resolução e três dias depois, nas vésperas da batalha, a 2.ª Divisão, à frente da qual estava o general Gomes da Costa, passou a tomar conta sozinha de todo o Setor Português, responsabilidade antes atribuída às duas divisões (Costa, 1920, p.116).
Para agravar a questão, a divisão não se achava completa, contando apenas com pouco mais de dois terços dos seus efetivos, e estava muito desfalcada de oficiais (Fraga, 2013, p.407). Foi reforçada por isso com uma brigada da 1.ª Divisão, mas que se destinava a guar- necer a Linha das Aldeias e, portanto, não era uma força à disposição do comando (Costa, 1920, p.36).
38 “Encostados à parede, e acreditando na justiça da nossa causa, cada um de nós tem de continuar a lutar até ao fim” (tradução minha).
A frente portuguesa, até aos inícios de abril guarnecida por 16 batalhões, ficou então apenas com 12 e a Reserva, já insuficiente, foi ainda reduzida para metade (Costa, 1920, p.34). Ao todo, cerca de 16 mil homens, os efetivos realmente combatentes (Fraga, 2013, p.407), para defender uma frente de 11 km – veja-se que o exército americano tinha uma frente de 14 km e 60 mil homens (Henriques; Leitão, 2001, pp.67). A extensão da frente portuguesa é um dado a reter para a compreensão do sucedido. Estava claramente acima da média que existia na frente ocidental e era excecionalmente longa para os padrões da Primeira Guerra. De notar que a 40.ª britânica à sua esquerda defendia 6,858 km e a 55.ª à sua direita apenas 3,657 km.
A ofensiva alemã estendeu-se ao longo de toda a frente lusa e de metade das frentes das divisões britânicas que com ela confinavam – duas milhas (3,218 km) da 40.ª e 1 milha (1,609 km) da 55.ª (Pyles, 2012, p.1). O plano germânico selecionou assim o Setor Portu- guês como zona preferencial de ataque. Este constituía com certeza o elo mais fraco das forças britânicas, mas não foi esse facto que determinou a escolha. Esta foi ditada pelo pró- prio vale do Lys. Por um lado, o setor ficava no caminho do trajeto mais curto e direto que o exército alemão tinha que percorrer para cumprir o objetivo traçado: atravessar o rio no primeiro dia e seguir depois para Hazebrouck. Ficava também numa zona da planície extremamente rasa, o que permitia uma progressão mais célere. Estes dois considerandos também se aplicavam em parte à 40.ª Divisão, mas não à 55.ª, situada num terreno mais afastado e favorável à defesa. Além disso, por ser uma zona lamacenta, cortada por muitos drenos, tornava inoperacional a utilização de tanques, única arma em que o exército aliado tinha a primazia. Por fim, a localização do setor, entalado entre dois canais (Merville-Es- taires e La Bassée), comprometia seriamente os movimentos em caso de retirada (Costa, 1920, p.55) e proporcionava aos alemães uma posição dominante, pois os portugueses es- tavam numa cova com a ribeira La Lawe à retaguarda (Amaral, 1923, p.12).
Os alemães atacaram com uma imensa vantagem numérica. Movimentaram oito divisões em primeira linha e quatro em apoio (Fraga, 2013, pp.405-406), o que só por si sugere que não consideravam inaptas as forças do outro lado. Mas mais importante do que esse enor- me recurso em homens, que lhes permitia avançar em ondas sempre refeitas, era o facto de grande parte dessas divisões serem constituídas pelo escol das tropas germânicas, as exímias Stosstruppen, as tropas de assalto.
Os militares alemães tinham percebido que os ataques frontais por vagas massivas contra as posições de atiradores entrincheirados geravam a perda de muitas vidas e eram pouco eficazes. Em vez de confrontar as linhas inimigas, experimentaram uma outra tática, a da infiltração. Algumas unidades, compostas por infantaria e sapadores jovens e motivados, criaram pelotões de ataque bem armados que se deslocavam em fila e conseguiam mais facilmente cruzar a chamada “Terra de Ninguém”, sem se tornarem alvos tão expostos, e aparecer nas trincheiras inimigas ou mesmo mais atrás. Além das espingardas, levavam consigo também granadas de mão e lança-chamas que se revelaram poderosas armas ofen- sivas, e dispunham de metralhadoras ligeiras, morteiros e canhões leves para apoio de fogo (Pyles, 2012, p.89). Estas tropas de assalto eram a elite do exército germânico, tinham o moral muito elevado e estavam abastecidas com o último armamento de alta tecnologia. Quando as táticas de assalto num ataque atuavam juntamente com bombardeamentos pe- sados e de gás provaram ser inexoráveis. Foram elas as responsáveis pelo arrasamento dos exércitos russo e italiano, assim como do britânico em 21 de março no Somme, na abertura
da “Operação Michael”. E foram elas também, e ainda mais aperfeiçoadas, com as lições colhidas nesta última ofensiva, que enfrentaram a exausta e enfraquecida divisão portu- guesa e a 40.ª Divisão britânica igualmente cansada de combate e que para o Lys tinha sido deslocada depois de tomar parte na Batalha de Cambrai, travada nos finais de 1917.
A ação da chefia britânica revela-se, em vésperas da batalha, confusa e inconsequente. Douglas Haig, encravado na ofensiva do Somme, em retirada com grandes cedências, ten- do o seu comando ameaçado pelos maus resultados, não percebeu a importância da pla- nície do Lys para a estratégia alemã e não teve a cautela, ou os instrumentos ao seu dispor, para dotar a zona a cargo dos portugueses com capacidade militar.
Em contraponto, a preparação da batalha foi muito bem conduzida por parte dos gene- rais alemães do 6.º Exército. A precisão com que certos alvos foram atingidos logo após o início do bombardeamento evidencia que tinham feito os reconhecimentos e localizado os objetivos em devido tempo (Fraga, 2013, p.409). Os ingleses sabiam disso, pois os locais estavam referenciados em mapas capturados pelos alemães, e procederam a alterações no seu dispositivo, mas os portugueses não foram avisados e mantiveram as mesmas posições (Henriques; Leitão, 2001, p.64).
Em 25 de março, Haking, comandante do XI Corpo, tinha feito saber que, em caso de um ataque forte, a 55.ª Divisão não estava preparada para defender as linhas da frente. Por isso, deveria ficar a assegurar a Linha das Aldeias, um setor mais recuado, e era aos portugueses que deveria caber a defesa na Linha B, a linha principal de resistência dos postos avança- dos (Pyles, 2012, p.79). Esta sugestão ficou materializada dias depois na ordem do general Horne que intimava a 2.ª Divisão a morrer na Linha B. Os ingleses, ao mesmo tempo que pediam o sacrifício máximo aos soldados portugueses, não lhes facultavam os meios neces- sários para combaterem. De facto, tinham-lhes tirado grande parte da artilharia pesada, para socorrer Amiens, e o poder de fogo que deixaram era muito insuficiente para respon- der a uma investida em grande escala (Henriques; Leitão, 2001, p.7).
Em 7 de abril, o general Haking fez saber a Gomes da Costa que a 2.ª Divisão ia continuar na frente e que a principal linha de defesa que devia guarnecer era a Linha B. Neste dia, os britânicos estavam cientes da iminência de um ataque, por informações obtidas através dos prisioneiros e da observação aérea e do terreno que mostrava uma grande movimentação em frente do Setor Português, pois Ludendorff, desejando adiantar o início da ofensiva, e cheio de pressa, movia as suas unidades e a sua artilharia à luz do dia. O general Horne comunicou a Douglas Haig no dia 8 que contava ser atacado no dia seguinte, mas este en- tendia que a “Operação Georgette” era provavelmente só uma diversão (Stevenson, 2013, p.71). Assim, não se preveniram os portugueses.
À última hora, em contradição com o que estava estipulado, e no momento menos in- dicado, os ingleses decidiram finalmente ordenar a retirada da frente das unidades de in- fantaria lusas, mas não as de artilharia que se deviam manter nas posições (Costa, 1920, pp.125-126).
Os estrategas da “Operação Georgette” definiram que no dia de abertura, o nosso aziago dia 9 de abril, se devia fazer uma exibição de força implacável. O ataque seguiu as regras das táticas das forças de assalto, exatamente como já o fizera em «Michael» dias antes. Existe, aliás, uma grande similitude entre as duas operações militares. Pelas 4,15 h da ma- nhã, começou um bombardeamento muito intenso de artilharia e morteiros pesados e de fosgénio e gás mostarda, que alvejou as zonas mais recuadas, onde estavam os postos de
comando, depois as comunicações, a artilharia, as segundas linhas de infantaria e a linha da frente. Assim conseguiram romper todas as comunicações e lançar uma grande deso- rientação no campo de batalha, desorientação agravada por um nevoeiro cerrado que im- pedia a visão. Este bombardeamento durou perto de quatro horas sem dar descanso. Foi neste poder avassalador da artilharia que assentou o cerne da investida. Quando diminuiu, e os efeitos nocivos do envenenamento por gás se dissiparam, avançou então a sua infan- taria de assalto bem equipada e treinada, infiltrando-se no sistema defensivo e isolando as tropas das diferentes divisões. Os britânicos recuaram nas suas posições para formar flanco defensivo, deixando aberturas por onde os alemães penetraram com mais desenvoltura, vindo a surpreender as unidades portuguesas pela retaguarda (Costa, 1920, p.130). Depois, os alemães, em vagas sucessivas, foram dizimando os restos dos batalhões de infantaria. As baterias de artilharia portuguesas, por sua vez, como a barragem inimiga não deixava fazer o remuniciamento, foram-se gradualmente reduzindo ao silêncio. De notar, no entanto, que a artilharia existente era apenas de campanha e nunca teria podido contrabater a ar-