Chapter 6: Discussion: Local Narratives about Natural Resources Access and
6.6. Discussion Summary
Conforme já mencionamos, realizamos um recorte da obra Adven-
to da Dictadura Militar no Brazil, do Visconde de Ouro Preto (1891), composto pela Introdução e pelo Manifesto O Visconde de Ouro Preto
aos seus concidadãos, o qual constituiu o corpus de análise. As demais seções da obra compuseram o corpus de apoio.
A seleção do corpus de análise fundamentou-se no quadro metodo- lógico da Teoria Semiolinguística, de Patrick Charaudeau, que aponta para o caráter empírico-dedutivo da pesquisa, isto é, “o analista parte de um material empírico, a linguagem, que já está configurada em certa substância semiológica (verbal)” (CHARAUDEAU, 2005, p. 5) e aplica a material empírico determinada teoria, levando-o a certas conclusões sobre o uso da língua e os possíveis efeitos discursivos.
A abordagem metodológica percorreu duas etapas: (a) levanta- mento de dados e (b) análise desses dados. No levantamento de da- dos, criamos matrizes que permitiram identificar marcas linguísticas e possibilidades implícitas relacionadas aos modos de organização do discurso enunciativo e argumentativo (CHARAUDEAU, 2008a). Esses dados permitiram a análise dos procedimentos enunciativos e dos pro- cedimentos argumentativos.
Os procedimentos enunciativos ou locutivos são três: i) alocutivo: marcado pela relação do locutor com o interlocutor; ii) elocutivo: mar- cado pela relação do locutor consigo mesmo; iii) delocutivo: marcado pela relação do locutor com um terceiro.
Os procedimentos argumentativos podem ser Semânticos, Discursi- vos e de Composição. Os procedimentos semânticos dizem respeito “em utilizar um argumento que se fundamenta num consenso social pelo fato de que os membros de um grupo sociocultural compartilham determi- nados valores, em determinados domínios de avaliação” (CHARAUDE- AU, 2008, p. 232, grifo do autor); os procedimentos discursivos “consis- tem em utilizar ocasionalmente ou sistematicamente certas categorias de língua ou os procedimentos de outros modos de organização do discurso
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para, no âmbito de uma argumentação, produzir certos efeitos de per- suasão” (CHARAUDEAU, 2008, p. 236); e os procedimentos de compo- sição repartem, distribuem e hierarquizam “os elementos do processo argumentativo ao longo do texto, de modo a facilitar a localização das diferentes articulações do raciocínio (composição linear) ou a compre- ensão das conclusões da argumentação (composição classificatória)”. (CHARAUDEAU, 2008, p. 244)
47 TABELA 1
Levantamento de dados para as categorias modais alocutivas
Categorias modais dos atos alocutivos
Ocorrências no Manifesto
Corpo do texto Total Rodapé Total 1. Interpelação 2. Injunção 3. Autorização 4. Aviso 4. Julgamento 4.1. Julgamento positivo 4.2. Julgamento negativo 5. Sugestão 6. Proposta 7. Interrogação (pergunta retórica)
8. Petição (pedido para fazer)
FONTE: Adaptado de CHARAUDEAU, 2008.
A tabela reproduzida acima é apenas uma das doze matrizes utili- zadas5. Criamos uma tabela para cada um dos procedimentos locutivos
do modo de organização enunciativo (alocutivo, elocutivo e delocutivo) e uma tabela para cada um dos procedimentos do modo argumentativo (semântico, discursivo e de composição). Na coleta de dados, utilizamos essas seis matrizes duas vezes: uma vez para o levantamento de dados da
Introdução e uma vez para o levantamento de dados do Manifesto, tota- lizando doze tabelas. Nelas, fizemos uma distinção do número de ocor- rências no corpo do texto e em notas de rodapé, pois essas se apresen- tam de maneira numerosa no corpus de análise. Nem todas as categorias
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modais foram contempladas, portanto enfatizamos aquelas com maior incidência e selecionamos os fragmentos mais significativos para análise.
Os dados levantados a partir dos modos de organização do discur- so (CHARAUDEAU, 2008a) também propiciaram a análise de questões relacionadas à memória discursiva (CHARAUDEAU, 2004). Analisamos sumariamente alguns fragmentos que envolveram o ethos, isto é, a ima- gem de si realizada pelo Visconde em sua obra, e o discurso fundador (ORLANDI, 1993).
A análise dos dados foi uma atividade interessante, pois, além de re- alçar enunciados que remetem aos procedimentos enunciativos e argu- mentativos, também fez emergir reflexões acerca da memória discursiva (COURTINE, 2009; PÊCHEUX, 1997, 1999; ORLANDI, 1993, 2001; CHARAUDEAU, 2004; CONNERTON, 1999, HALBWACHS, 2006); da imagem de si – o ethos (ARISTÓTELES, 1998; AMOSSY, 2007, 2011; CHARAUDEAU, 2008b) – realizada pelo Visconde em sua obra, e do discurso fundador (ORLANDI, 1993).
Neste trabalho, optamos por não fazer um capítulo específico de análise. A discussão dos resultados encontra-se registrada de modo sub- sequente ao respectivo referencial teórico.
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PELAS VIAS DO DISCURSO
Eu vou, Sñrs, tomar em consideração os pontos capitaes
dos discursos que acabamos de ouvir.
(VISCONDE DE OURO PRETO, 1889)6
Acima, reproduzimos um fragmento do segundo discurso profe- rido pelo Visconde de Ouro Preto, na sessão da Câmara dos Depu- tados em 11 de junho de 1889, assim que assumiu a presidência do Ministério 7 de Junho de 1889 (o último Ministério da Monarquia). Os “discursos” a que o Visconde se referia eram os pronunciados pelos deputados Gomes de Castro, Cezario Alvim e João Manoel. Afonso Celso disse levar em consideração os pontos principais dos discursos que eles acabaram de ouvir naquela sessão. Mas por que e como os Discursos nos chamam atenção?
Para início de conversa, o que entendemos por Discurso? No uso comum do termo, Discurso corresponde a uma mensagem solene, ao proferimento de um político (como no caso descrito acima). Em uso mais restrito, equivale a um conjunto de textos: o discurso político, o discurso religioso, o discurso literário, ou seja, o Discurso é uma ativi- dade verbal em geral. Em Linguística, especificamente, ele corresponde à língua em ação. Conforme mencionamos na Apresentação, tomamos pelo termo Discurso os usos da língua e seus efeitos discursivos possí- veis. Questionamos: quais efeitos? Ou ainda: efeitos sobre quem?
Consideramos que efeitos de persuasão, interlocução, intimidade, confidência, revelação são gerados no próprio discurso por um produtor (falante/escritor) e incidem, sobretudo, no receptor (ouvinte/leitor). So- bretudo no receptor, porque o produtor também pode ser “vítima” de si mesmo, caindo em alguma “armadilha” de seu próprio discurso, ao con- tradizer-se, por exemplo. Há ainda outro efeito gerado pelo discurso: o efeito de sentido. Partindo desse ponto, falaremos sobre alguns aspectos
6 OURO PRETO, Visconde de. 2º Discurso na mesma sessão. In: ______. O Advento da Dictadura
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da Teoria Semiolinguística especialmente sobre o processo de semiotiza- ção do mundo e sobre o ato de linguagem.
Charaudeau (2005), ao elaborar a Teoria Semiolinguística, destaca o sentido e a língua. “Semio-” vem de “semiosis”, aludindo à construção do sentido; “-linguística” evidencia a língua. Língua e sentido articu- lam-se em torno da construção psico-sócio-linguageira do sentido, cuja intervenção é realizada por um sujeito. A esse fenômeno, Charaudeau (2005) atribui a noção de processo de semiotização do mundo.