Chapter 4: The Case in Context
4.3. FDI in Latin America
No presente estudo, as características individuais sexo, idade e peso ao nascer não apresentaram associação significativa com a obesidade dos escolares. Em se tratando do sexo, estudos brasileiros também não encontraram relação entre esta variável e a obesidade de meninos e meninas (BALABAN E SILVA, 2001; OLIVEIRA,
CERQUEIRA E OLIVEIRA, 2003; BRASIL, FISBERG E MARANHÃO 2007;
SALOMONS, RECH E LOCH, 2007). Outras pesquisas nacionais e internacionais
apontaram prevalências superiores da doença tanto no sexo masculino (SOAR et al., 2004; RONQUE et al., 2005; ARMSTRONG et al., 2006; LAZAROU et al., 2008), quanto no sexo feminino (GIUGLIANO E CARNEIRO, 2004; KHADER et al., 2009). Por outro lado, uma investigação na cidade de Santos/SP constatou que a prevalência de obesidade foi maior nos meninos que nas meninas (COSTA, CINTRA E FISBERG, 2006).Nesse contexto, resultados distintos são observados na literatura (PELEGRINI, 2010), o que pode justificar o resultado do presente estudo.
No que diz respeito à idade, o estudo de Ricardo e colaboradores que também avaliou escolares de 6 a 10 anos, corrobora o nosso achado, já que também não encontrou associação entre o excesso de peso e a faixa etária observada (RICARDO et al., 2009). Em contrapartida, outras pesquisas com escolares apontaram uma associação negativa entre a idade e o excesso de peso; em que quanto maior a idade, menor o risco de desenvolver a doença (VIEIRA et al., 2008; MENDES, 2013). Este resultado foi reafirmado em outros estudos, onde foram observadas diminuição da prevalência do sobrepeso e obesidade com o aumento da idade (SILVA, BALABAN E MOTTA, 2005; SIMON 2009; PELEGRINI et al., 2010). Embora não tenha sido encontrada esta associação entre a faixa etária e a obesidade dos escolares em nossa amostra, o fato de haver o risco da doença se desenvolver preferencialmente em indivíduos mais novos, reafirma a importância de se atentar para o controle do evento em crianças.
Sobre o peso ao nascer, também não foi encontrada associação significativa com a obesidade dos escolares. De acordo com a Associação brasileira para o estudo da obesidade e da síndrome metabólica, o excesso de peso ao nascer também pode ser fator de risco para o desenvolvimento da obesidade infantil, o que pode ter sido uma das nossas limitações. Além disso, ainda não foi possível estabelecer claramente
o efeito do peso ao nascer na obesidade infantil, já que existem outros possíveis fatores, como características contextuais tardias, que podem influenciar o desfecho da doença e gerar resultados contraditórios (OLIVEIRA, 2010). Também foi visto em uma recente meta análise, a não associação entre a obesidade e o baixo peso ao nascer, o que também supõe que a relação entre eles ainda não está esclarecida (YU et al., 2011; GOMES et al., 2013; LINDBERG et al., 2015).
Dentre as características contextuais avaliadas, a duração do aleitamento materno exclusivo não demonstrou associação significativa com a ocorrência de obesidade nos escolares. Este achado se contrapõe ao resultado encontrado no estudo de Lira e colaboradores, no qual crianças amamentadas por um tempo inferior a 6 meses, demonstraram maior predisposição ao excesso de peso em relação àquelas amamentadas por mais tempo (LIRA et al., 2012). Entretanto se assemelha ao estudo de Bussato et al, que também não encontraram associação (BUSSATO, OLIVEIRA E CARVALHO, 2006). Este resultado pode estar relacionado a diferenças no tamanho da amostra ou alguns fatores de confundimento como peso ao nascer, obesidade materna e nível socioeconômico (MARTORELL, STEIN e SCHROEDER, 2001).
Da mesma forma, a renda e o tempo gasto assistindo TV por dia não revelaram associação significativa com a obesidade do escolar. Nosso achado em relação à renda familiar contradiz o estudo de Silva e colaboradores (SILVA, BALABAN e MOTTA, 2005). Isto pode ser explicado pelo fato de que no Brasil, o aumento da prevalência do excesso de peso infantil tem sido observado em todas as classes socioeconômicas (BATISTA E RISSIN, 2003).
Resultado semelhante sobre a ausência de associação do tempo gasto assistindo TV por dia e a obesidade dos escolares foi observado em outros estudos (KATZMARZYK et al., 1998; VANDERWATER E HUANG, 2006; ENES, PEGOLO E SILVA, 2009). Porém, pesquisas também encontraram que os escolares que passavam mais tempo assistindo TV tiveram maiores chances de apresentar excesso de peso quando comparados aos que realizavam outras atividades (JAGO et al, 2005; SILVA, LOPES E SILVA, 2007; PETRIBÚ et al., 2011). A discrepância observada pode ser justificada pela utilização de diferentes protocolos de estudo, bem como diferentes faixas etárias avaliadas (JANUSZEK-TRZCIAKOWSKA et al., 2014).
Em relação ao hábito de assistir TV enquanto se alimenta e ao tipo de deslocamento de casa para escola, nesta pesquisa estes fatores não apresentaram associação significativa com a obesidade dos escolares. Nesse aspecto, corrobora em partes o estudo realizado por Kneipp e colaboradores, pois também demonstraram que o tipo de deslocamento para escola não esteve associado ao excesso de peso de crianças de uma rede pública de ensino, ao passo que o hábito de assistir TV enquanto se alimenta apresentou associação significativa com o evento (KNEIPP et al., 2015). No entanto, resultado oposto foi observado por Silva e colaboradores, cujo estudo demonstrou que escolares que utilizavam o transporte passivo para se deslocar apresentaram mais chances de apresentarem excesso de peso em relação aos que utilizavam transporte ativo (SILVA, LOPES E SILVA, 2007).
Nesse contexto, a distância não influenciou a escolha do tipo de transporte para escola, tanto em crianças eutróficas quanto em obesas deste estudo. Diferentemente, outra pesquisa demonstrou que escolares que residiam a uma menor distância da escola ou até 800 metros, tinham maior tendência de realizar o percurso a pé (LOUREIRO et al., 2010). Da mesma forma, Matos et al também demonstraram diferenças estatisticamente significativas em relação à distância e o meio de transporte utilizado no trajeto casa/escola. Nesse caso, dada uma distância de até 1 km e de 1,1km a 3km, os escolares realizavam o percurso a pé ou de automóvel, respectivamente (MATOS et al., 2015).
Portanto, a escolha pelo deslocamento ativo se manifestou na presença de menores distâncias. Como justificativa dos resultados desta pesquisa, é visto que não só a distância percorrida, mas também outros fatores podem influenciar a escolha do tipo de transporte, como por exemplo, a condição socioeconômica do indivíduo, a segurança local, a infraestrutura, as características climáticas do percurso, idade da criança e peso do material escolar (HALLAL et al., 2006; SILVA et al., 2007; CUNHA, 2015).
Tratando-se do tempo diário utilizado com atividades sedentárias, também não houve associação significativa desta variável com a obesidade dos escolares deste estudo, resultado também encontrado por Lucena e colaboradores. Nesse sentido, uma revisão concluiu que a relação significativa entre o excesso de peso e atividades sedentárias de escolares pode variar de acordo com o delineamento do estudo e
critérios de classificação do comportamento sedentário, o que justifica os resultados aqui apresentados (UIJTDEWILLIGEN et al., 2011; LUCENA et al., 2015).
Outra característica que não se associou significativamente com a obesidade dos escolares deste estudo é a ocupação materna. Em contrapartida, no estudo de Datar e colaboradores, as horas de trabalho maternas estiveram significativamente associadas com a obesidade infantil. É percebido que mães mais ocupadas, geralmente utilizam alimentos industrializados com maior frequência, que consequentemente também serão consumidos por seus filhos. Outro fato importante é que, a ausência materna causada pelo tempo de trabalho, diminui a vigilância sobre as crianças, que por sua vez tem maior propensão de desenvolver hábitos de vida não saudáveis como o aumento do tempo utilizado com atividades sedentárias (DATAR et al., 2015). Por outro lado, em nosso estudo a presença da figura paterna no acompanhamento da rotina das crianças pode justificar a não associação da ocupação materna com o estado nutricional dos filhos.
Nesta pesquisa, somente a classe do IMC do pai e da mãe estiveram associadas à obesidade dos escolares. Nesse contexto, outras pesquisas também verificaram relação significativa entre o IMC dos pais com o sobrepeso em crianças. O estudo de Reis et al corrobora os nossos resultados, pois também encontrou que filhos de pai obeso têm 6 vezes mais chances de desenvolverem obesidade. No entanto, também tem sido visto que a influência do estado nutricional da mãe para o filho é maior quando se comparado a do pai, já que em grande parte dos casos, o cuidado materno se destaca em relação ao paterno e por isso as mães tendem a ter maior influência sobre o hábito de vida e na educação alimentar de seus filhos (DANIELZIK et al., 2004; JOHANNSEN; JOHANNSEN; SPECKER, 2006; REIS et al., 2006; PSARRA et al., 2006; NOVAES et al., 2009).
Outros estudos demonstraram que crianças na faixa etária de 0 a 8 anos e que eram filhos de pais com excesso de peso, apresentaram um aumento importante no IMC em relação a crianças que possuíam somente um ou nenhum dos pais com excesso de peso. Contudo, este contraste foi significante apenas para as crianças com idade superior a 7 anos (SAFER et al., 2001).Diante dos expostos,percebe-se que a influência do estado nutricional de ambos os pais são importantes no desenvolvimento da obesidade dos filhos, estando, neste estudo, as chances aumentadas para o pai. Ainda, observou-se que tanto a classe de IMC do pai quanto
da mãe permaneceram significativas no ajuste do modelo pelo sexo, classificando-as como boas variáveis explicativas para ocorrência do evento.
Com referência a característica ambiental avaliada, localização geográfica da escola, não foi observada associação significativa desta com a ocorrência de obesidade dos escolares. De maneira oposta, um estudo em São Paulo com crianças de escolas públicas municipais demonstrou que o grupo matriculado em escolas periféricas apresentou menores prevalências de sobrepeso quando comparados às crianças que estudavam em escolas centrais. De acordo com o autor, o estado nutricional pode variar de acordo com as características da região a qual o indivíduo pertence, como nível de desenvolvimento econômico, diferenças sociais, investimentos em saúde e acesso à cultura (GUIMARÃES et al., 2001). Em se tratando do presente estudo, a pequena extensão territorial do município pode justificar o resultado encontrado, já que o contraste entre as características regionais tende a ser menor.
Sobre a distância das residências para as praças, foi observado que os indivíduos eutróficos apresentaram uma distância menor quando comparados aos obesos. Entretanto, não se pode afirmar que devido a maior proximidade das praças, os escolares eutróficos frequentavam estes locais e estavam menos propensos ao sedentarismo que os escolares obesos. Nesse sentido, fatores como a idade e o nível de criminalidade do bairro podem impedir que os indivíduos frequentem locais públicos para realizar exercícios físicos (GIN E FAN, 2013). Dessa forma, a proximidade das residências dos escolares eutróficos para as praças não é o único fator que garante a prática de atividades físicas nessas áreas.
Algumas limitações devem ser consideradas. Devido ao difícil acesso a determinados locais como zonas rurais distantes, e possíveis erros nos endereços contidos no banco de dados, não foi possível localizar algumas residências no trabalho de campo, levando a perda de indivíduos da amostra.
8 CONCLUSÃO
Nosso estudo demonstra uma relevante associação entre as características nutricionais dos pais com o estado de saúde dos filhos. Ainda que tenha sido observada uma maior influência paterna no desenvolvimento nutricional da criança, enfatiza-se a importância da qualidade do estilo de vida e a necessidade de desenvolver medidas de prevenção da obesidade não só a nível individual, como também em todo o contexto familiar.
Além disso, é importante atentar para as características do ambiente construído que estão diretamente relacionadas ao nível de atividade físicas dos indivíduos. Logo, é grande a necessidade de investimento em ambientes seguros e incentivadores a essas práticas como praças e parques com iluminação, vigilância e fácil acesso.
Em suma, ressalta-se que a implementação de medidas públicas destinadas à promoção da saúde e prevenção de doenças crônicas não transmissíveis como a obesidade, é essencial no âmbito familiar e ambiental. Desse modo, para proporcionar um estilo de vida saudável e duradouro para as crianças, é fundamental oferecer oportunidades para a prática de atividades físicas regulares no bairro e informações sobre como manter uma alimentação saudável, tanto para os filhos quanto para os pais.
9 PERSPECTIVAS
Pesquisas sobre os fatores determinantes da obesidade infantil são fundamentais para cessar o aumento da sua prevalência. Dessa maneira, com o intuito de aprofundar e complementar os nossos achados, é importante que o comportamento alimentar também seja avaliado. Esta análise pode ser direcionada através da investigação sobre as preferências alimentares, sobre o número de refeições consumidas por dia, bem como o acesso a comércios para aquisição de bens alimentícios pelos indivíduos no município.
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