Essa grande comunidade, criada em torno dos telejornais, terá um mediador. Ele é chamado de Âncora, aquele profissional que seleciona e apresenta as notícias no telejornal. É ele que “vende” ao telespectador os acontecimentos ocorridos no dia-a-dia. Fixa o sentido das notícias que foram produzidas na rua. Dimbleby e Burton (1985) observam que o papel do apresentador é ajudar a compreender o significado da mensagem e a ancorar o conjunto. Eles dão como exemplo, as legendas das fotografias publicadas nos jornais. Citam os anúncios, que são sustentados pelos logotipos das empresas ou pelo produto. No telejornal, o Âncora conduz tudo que será mostrado no programa, das notas às reportagens, dos boletins ao vivo às chamadas de bloco. Ele liga as partes do noticiário, dando sentido ao todo. Squirra (1993, p. 67) explica que este profissional é um apresentador diferente que se envolve em todas as etapas da produção da notícia:
São, principalmente, os editores-chefes dos programas. Aquela pessoa que orienta os temas a serem cobertos; que os seleciona e determina a sua duração; que elimina os assuntos; que inclui novas abordagens e que redireciona o texto na hora da introdução.
Ramos (1998) amplia o que diz Squirra e caracteriza como “tradicional” o modelo norte-americano de Âncora. Acrescenta que, ao desempenhar as funções de editor-chefe e apresentador, o profissional utiliza dois gêneros clássicos do Jornalismo: o Informativo e o Interpretativo. O primeiro, de acordo com Erbolato (1991, p. 34), está ligado ao “relato e à descrição de um fato, dentro dos limites de objetividade permitidos pela natureza humana”. O segundo, tem como
características “a explicação das causas de um fato, localização dele no contexto social (ou histórico) e suas conseqüências”.
Ramos observa que o Gênero Informativo se materializa, quando o apresentador lê os lides das matérias e chama os repórteres. Já o Gênero Interpretativo aparece na ampliação das informações, trazidas pelo repórter, levando em conta o passado, o presente e o futuro. Por fim, o autor ainda diz que “todo e qualquer recurso, que indique o sentido de uma matéria jornalística, realiza a Ancoragem” (RAMOS, 1998).
Outro viés da função do Âncora, que merece registro, é o ato de apresentar as notícias. Mais do que lê-las, o apresentador precisa “viver” o que está lendo. E isso requer sensibilidade. Tanto que é comum nas redações, o apresentador “estudar” o texto antes de entrar no estúdio. Ele precisa fazer as suas marcações. Deve saber a hora de dar mais ou menos ênfase a uma determinada palavra. As notícias não são iguais, têm pesos diferentes. A morte de um político não pode ser lida da mesma forma que uma nota sobre o carnaval. Uma terá um tom de voz mais suave, triste. A outra será mais vibrante e alegre.
Além da voz, é preciso cuidar do corpo. Ele fala por si só. Quando o Âncora está no ar, apresentando um Telejornal, está enviando, mesmo sem perceber, outros sinais para o seu público. É a chamada Comunicação não-verbal. Dimbleby e Burton (1985, p. 57) salientam que, quando estamos juntos, enviamos e recebemos signos não-verbais:
Estes signos não são palavras. Mas são usados como palavras. São sinais que produzimos, gestos que fazemos. Eles afetam o significado do que queremos dizer. São realizados de várias formas: por nossas mãos, cabeça, face, boca, enfim, por todo o corpo.
Os signos não verbais, segundo Dimbleby e Burton (1985), podem ser classificados em três categorias: a) Linguagem do corpo (já explicada acima); b) Paralinguagem; e c) Roupas – a maneira de se vestir. A Paralinguagem trata da interpretação do significado das palavras durante uma conversação. No caso do Âncora, ele está conversando com os telespectadores, através da câmera. É ele que dará um “peso” para cada palavra no contexto de cada notícia. “Há signos que são representados ao mesmo tempo em que as palavras são pronunciadas. Há signos com determinado grau, força e volume. Não falamos como robôs num tom contínuo e monótono” (DIMBLEBY; BURTON, 1985, p. 59). Neste sentido, lembramos a preocupação das emissoras em indicar e até oferecer serviços de um fonoaudiólogo aos repórteres e apresentadores. Sempre há o que melhorar na pronúncia das palavras, na respiração, no tom da voz e no ritmo de leitura das notícias. A idéia é oferecer ao telespectador uma informação clara, limpa, sem qualquer ruído que possa interferir na Comunicação.
Por isso, há também uma preocupação com a maneira de se vestir dos Âncoras. Nesse caso, a vestimenta inclui não só as roupas, mas as jóias, a pintura e a maquilagem. De acordo com Dimbleby e Burton (1985, p. 60), a forma de se vestir “revela muito sobre a personalidade, situação, status e trabalho das pessoas”. Os autores lembram que, na televisão, os atores aparecem com roupas de fácil identificação. Os apresentadores de telejornal fazem o mesmo. Normalmente, adotam roupas no estilo “clássico” – que transmitem seriedade, credibilidade. As mulheres usam os tailleurs e os homens ternos e gravata. As cores das roupas são claras, sóbrias, evitando chamar a atenção. As jóias devem ser simples e sem brilho. A maquilagem segue o mesmo caminho, natural, leve, sem ser chamativa. Em
relação ao “vestir”, a intenção é clara: o apresentador não deve aparecer mais do que a notícia.
No texto A Mensagem Fotográfica, Barthes explicou que a Imagem não é o real, mas o seu perfeito analogon, isto é, ela transmite algo que existe na realidade. O autor admite que há uma redução de proporção no processo de elaboração da Imagem, mas não há uma transformação naquilo que foi mostrado, através dela. Para Barthes (2002, p. 327), portanto, em toda Imagem há um estatuto particular: “Uma mensagem, sem código”. Em função disso, ele afirma que os desenhos, os quadros, o cinema e o teatro “são precisamente as reproduções analógicas da realidade”. Ele não cita, mas podemos dizer que a Imagem da televisão também é uma reprodução da realidade. Mais do que isso, Barthes admite que, além do análogo, ocorre um tratamento especial do criador da Imagem, que confere um segundo sentido aquilo que está sendo mostrado.
A descrição análoga da Imagem é chamada por Barthes de Denotativa. Já o segundo sentido da Imagem, ou seja, a maneira como ela foi elaborada e o seu significado junto à sociedade é caracterizada como Conotativa. Estas duas maneiras de olhar para uma Imagem serão usadas no decorrer deste trabalho de pesquisa. Entretanto, o nosso foco será a Imagem presente nas reportagens de televisão.
Barthes (2002) ainda ressalta que o sentido Conotativo da Imagem ocorre no processo de elaboração da mesma, isto é, estão em jogo, entre outros elementos, a escolha, o tratamento técnico e o enquadramento. Curado (2002) explica que o enquadramento “é a posição da lente em relação ao objeto. Define a maneira como o telespectador vai ver determinada cena”. A autora observa que as cenas são feitas a partir de planos básicos de aproximação e distanciamento dos
objetos. Curado (2002, p. 108) descreve os Planos da Imagem como se estivesse olhando para uma pessoa em pé:
Plano Geral – aberto. Mostra, no caso de uma pessoa, o corpo todo. No
caso de lugares, apresenta cenas gerais, amplas. Nas entrevistas em salas e gabinetes, o plano geral é feito mostrando o entrevistado, o repórter e o ambiente.
Plano Médio ou Plano Americano – traz o objeto mais para perto. Em
pessoas de pé, é a tomada da cintura para cima. É um enquadramento que está se tornando padrão, para filmar a participação de repórteres nas matérias.
Primeiro Plano – mostra do peito para cima. Freqüentemente usado no
meio de uma narrativa feita por repórter ou por apresentador.
Close-up – na pessoa mostra a cabeça e os ombros. É detalhe mais
aproximado do olho do espectador. Dá ênfase ‘a uma informação que está sendo dita pelo repórter ou pelo entrevistado’.
Os dois telejornais serão analisados, nesta pesquisa, através das suas reportagens. Neste momento, baseado nos textos Maciel (1995), é importante recordar os elementos que compõem a reportagem, a forma mais completa de apresentar uma notícia na Televisão. A cabeça é o texto que introduz a exibição da matéria jornalística. É lida pelo Âncora no estúdio e se assemelha ao lead do jornal impresso. O OFF é o texto, elaborado pelo repórter, para narrar as imagens da reportagem. O Boletim é a parte da reportagem em que o repórter aparece no vídeo. É usada, para dar informações que não existem imagens para mostrar. A sonora é a fala do entrevistado. São as pequenas entrevistas que aparecem na reportagem. Serve para dar credibilidade às informações presentes na matéria escrita pelo repórter. Já a Nota pé é um texto lido no estúdio pelo Âncora do telejornal, após a exibição da reportagem. Seu objetivo é dar informações, que possam complementar a matéria.