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Maffesoli (1999, p. 49) explicou que a Pós-Modernidade surgiu depois do esgotamento do modelo, vivido na Modernidade, baseado em temas, como Estado- Nação e os sistemas ideológicos. Segundo o autor, a nova era trouxe de volta “o retorno ao local, a importância da tribo e a colagem mitológica”. O sociólogo citou como exemplo o fim do ex-Império do Leste europeu, onde muitas províncias

lutaram pela autonomia e independência. Houve luta armada e pacífica. O “localismo”, para o autor, é uma das características centrais da nossa época.

Ianni interpretou a Pós-Modernidade como uma forma de pensamento que surgiu no final do século XIX e se intensificou no século XX. Ele (2000, p. 236) observou que, na era Pós-Moderna, “a linguagem como que se descola do real, liberta-se da idéia ou ilusão da representação, abandonando a mímesis” – presente na modernidade. Ianni (2000, p. 238) ponderou que, na Pós-Modernidade, não há compromisso com a continuidade ou descontinuidade, como o passado ou presente. “Narra-se de modo aforístico, epigramático, fragmentário ou errático. Carrega-se na montagem, colagem, mixagem, bricolagem, desconstrução, simulacro, virtual” – assinalou o autor.

Jameson (1985) situou a Pós-modernidade no contexto do fim da Segunda Guerra Mundial, portanto, no final dos anos 40. Segundo ele, era nesse momento que o capitalismo entrava numa nova fase com o crescimento econômico dos Estados Unidos. Por isso, o autor chamou a Pós-Modernidade de capitalismo multinacional e atribuiu outros nomes como: Sociedade Pós-industrial ou Sociedade de Consumo e Sociedade da Mídia ou do Espetáculo. Revelou que uma outra marca da Pós-Modernidade foi o apagamento das fronteiras entre a chamada Cultura erudita e a Cultura popular ou das massas. Neste sentido, ele apontou duas características da era Pós-Moderna: o pastiche e a esquizofrenia.

Jamenson (1985, p. 18) entendeu o pastiche, como “a paródia, a imitação de um estilo singular ou exclusivo, a utilização de uma máscara estilística, uma fala em língua morta”. Entretanto, advertiu que o pastiche é a paródia que perdeu o senso de humor. Explicou que o termo surgiu com a “morte do sujeito”, com o fim do

individualismo, do estilo pessoal, privado e inconfundível, marcas da modernidade clássica. Disse que autores, como Picasso, Proust e Eliot não funcionam mais, pois ninguém mais possui um mundo privado e único. Tudo já foi inventado, por isso, só restou aos artistas e escritores “imitar estilos mortos, falar através de máscaras e com as vozes dos estilos do museu imaginário” – revela o autor (1985, p. 19).

No entanto, Jameson (1985) observou que o aparecimento do pastiche não acabou necessariamente com a estética e o novo. Ele deu como exemplo o chamado “filme de nostalgia”. E cita alguns filmes do gênero: American Graffiti, feito em 1973 por George Lucas, que resgata a “atmosfera e as singularidades dos anos 50 nos Estados Unidos”; Chinatown, de Polanski, que recupera os anos 30; e Guerra nas Estrelas, que relembra uma época “intergalática” que de fato não existiu, mas que estava presente nos seriados americanos que retrataram o tema para as gerações que cresceram nos anos 30 e 50.

Sobre a Esquizofrenia, Jameson (1985, p. 22) apenas utiliza um termo caro à psicologia, como uma metáfora da Pós-Modernidade. Segundo ele, esta doença é um distúrbio de linguagem, onde a pessoa passa a ver as coisas de forma isolada, fora do seu contexto: “A experiência esquizofrênica é uma experiência da materialidade isolada, desconectada e descontínua, que não consegue encadear-se numa seqüência coerente”. O autor constata que, hoje vivemos numa espécie de presente perpétuo. Lembra que isso ocorre em função da saturação informacional gerada pelos meios de comunicação. Assinala que fatos, ocorridos nos anos 60 parecem estar num passado distante. E expressa a sua preocupação:

O desaparecimento do sentido da história, o modo pelo qual o sistema social contemporâneo como um todo demonstra que começou, pouco a pouco, a perder a sua capacidade de preservar o próprio passado e começou a viver em um presente perpétuo (1985, p. 26).

Rouanet (1986, p. 28 e 33) explica que a Pós-Modernidade reflete um “estado de espírito”, não alguma coisa cristalizada, por isso há dificuldade em defini- la. Entretanto, na sua reflexão, ele afirma que o fenômeno está presente no cotidiano das pessoas e se manifesta em pelo menos três níveis: no plano Social: “Por uma onipresença do signo e do simulacro, do vídeo e da hiper-comunicação”. No plano Econômico, com a “planetarização do capitalismo”, incluindo aí a Cultura informatizada. No plano Político, a sociedade civil ganha papel de destaque e as conquistas passam a ser de grupos, segmentos e não mais universais. Segundo Rouanet (1986, p. 31), a Pós-Modernidade se manifesta no mundo vivido, num novo dia-a-dia: “É um Cotidiano em que a máquina foi substituída pela Informação, a fábrica pelo Shopping Center, o contato de pessoa a pessoa pela relação com o vídeo”. Ele reconhece que não sabe onde tudo isso vai dar, se numa nova Idade Média ou numa Renascença.

Rouanet (1986, p. 43 e 44), que descreve tão bem a Pós-Modernidade, pergunta: será que estamos vivendo um momento de ruptura real? O sociólogo conclui que não e explica o porquê: “Nada mais moderno que a obsessão com a tecnologia e seus efeitos sobre a vida, positivos ou negativos”. E acrescenta: “Não me parece que a informatização da sociedade seja tão diferente da maquinização da vida, experimentada pelos modernos como uma benção ou uma catástrofe”. Entretanto, o autor admite que valores do cotidiano pós-moderno são mais qualificados, mas ao mesmo tempo “velhos” conhecidos. A estetização da mercadoria, a predominância da informação, o hedonismo, o narcisismo e consumo generalizado nos remetem, segundo Rouanet (1986, p. 44), à Escola de Frankfurt. Por isso, ele conclui: “Estamos em plena modernidade”.

Contudo, Rouanet (1986, p. 50), revela que o homem está cansado da Modernidade doente. Período marcado pela “esperança traída”, “domesticação das consciências no mundo industrializado” e pela “tirania política”, onde três quartos da população mundial vive na pobreza absoluta. Essa, segundo o autor, é a “verdade ou a ilusão do pós-moderno”. Uma tentativa de lutar contra os problemas da modernidade, não os enfrentando, mas fazendo uma fuga para frente. Por isso, a criação do movimento Verde, do “pós-moderno contracultural” – “anárquico” – “pluralista”, entre outros. Na visão de Rouanet (1986, p. 50), é preciso “criticar a modernidade real com os critérios da modernidade ideal”, ou seja, cumprir a promessa feita no Iluminismo: a auto-emancipação humana.

Kellner (2001) discute a identidade na Pós-Modernidade. Ele observa que, na era Pré-Moderna, as pessoas não passavam por crises de identidade. Ser caçador e membro de uma tribo, já era algo suficiente. Já na Modernidade, a identidade tinha papel relativamente fixo: mãe, filho, texano, escoteiro, professor, entre outras funções. Portanto, ela dependia do reconhecimento dos outros e estava ligada ao desenvolvimento de um indivíduo.

Em relação à Pós-Modernidade, Kellner (2001) endossa as palavras de outros autores que acreditam que o sujeito implodiu e no lugar dele formaram-se as massas. Kellner (idem, p. 299), quando se refere à Televisão, recorre a Kroker e a Cook para expressar o seu pensamento: “O eu televisivo é o indivíduo eletrônico por excelência, que retira tudo que há, para retirar do simulacro da mídia: uma identidade mercadológica como consumidor da sociedade do espetáculo, uma galáxia de humores hiperfibrilados”. Ele cita como exemplo, o filme Uma Linda Mulher, estrelado por Júlia Roberts, onde ela aparece como uma prostituta e termina como uma mulher elegante: “O filme ilustra o processo de autotransformação,

através da moda, dos cosméticos, da dicção e do modo de ser, bem como o grau de mediação da identidade pela imagem e pela aparência na Cultura contemporânea” (KELLNER, 2001, p. 299).

Kellner (2001) também faz uma síntese do que seriam as principais características da Cultura Pós-Moderna. Onipresença de Imagens, sem profundidade, emoções de gosto duvidoso, produzida pela tecnologia, pastiche e implosão das formas, citação e repetição de imagens e formas passadas. No que tange à Televisão, o autor destaca que, na maior parte da história, a palavra-chave foi a narração, mas, que, agora, na era Pós-Moderna, a Imagem tirou do centro a importância desse formato:

Há um novo visual e um novo tipo de sentimento: o significante foi liberado, e a imagem tem precedência sobre a narração, visto que certas imagens estéticas contundentes, de grande artificialidade, se afastam da diegese televisiva e se transformam em centro de fascinação, de prazer sedutor, de uma intensa, porém fragmentária e transitória experiência estética (KELLNER, 2001, p. 301).

Aliás, ainda sobre a Televisão, Kellner (2001) observa que o estilo comercial é guiado por uma “estética do realismo representacional”, onde as imagens e as histórias fabricadas tentam produzir um efeito de realidade.

Maffesoli concorda com Kellner e coloca a estética como um outro aspecto importante da Pós-Modernidade. Na visão do sociólogo francês (1999, p. 28), “estética é a faculdade de sentir em comum”. Por causa disso, o autor afirma que a vida cotidiana pode ser considerada uma obra de arte. Ele revela que a comida, as festas, o lazer, entre outras atividades do dia-a-dia, não podem ser mais consideradas, sem importância na vida social:

O paradigma estético é o ângulo de ataque que permite justificar toda uma constelação de ações, sentimentos, de ambientes específicos do espírito do

tempo Pós-Moderno. Tudo que liga ao presenteísmo, no sentido da oportunidade, tudo o que remete à banalidade e à força agregativa, numa palavra, à ênfase do carpe diem, hoje renascente, encontra na matriz estética um lugar de eleição (MAFFESOLI, 1999, p. 55).

Para Maffesoli (1999), vivemos num mundo comum, cuja construção social da realidade é essencialmente simbólica. Para o sociólogo, o mundo, a que pertenço, é um conjunto de referências que divido com os outros. É o que ele chama de interacionismo simbólico.

O sociólogo (1999, p. 15 e 258) pondera que, essa interação simbólica comum, é a marca da Pós-Modernidade. Que ela irá ocorrer “a partir de um processo complexo feito de atrações, de repulsões, de emoções e de paixões. Coisas que têm uma forte carga estética”. Por isso, estão em destaque no debate contemporâneo as noções de espaço, território, urbanidade e de localismo. O autor (1999, p. 259) salienta que o lugar é “o vetor do estar-junto social”. Pode ser um bairro, uma tribo, uma comunidade. O território pode ser real ou simbólico.

Em nossa pesquisa, interessa-nos o território simbólico, aquele que se concretiza através dos Meios de Comunicação. Maffesoli (1999, p. 263) explica que, nesse território, que também integra a Pós-Modernidade, ocorre uma “cosa mentale”, uma espécie de “materialidade mística”. Ele dá como exemplo o videotexto na França, que é acessado por milhares de pessoas. No Brasil, o público do JN forma um “território simbólico”, que em termos de número de pessoas (31 milhões), é maior que a população de muitos países da Europa e da América Latina. É neste espaço social que pode se materializar uma grande Comunicação entre os brasileiros.

Uma outra característica da Pós-Modernidade é a idéia de que vivemos numa “Sociedade do Espetáculo”, onde os acontecimentos diários se transformam em “show” para nós mesmos. Debord (1998, p.14 e 15) esclarece que o espetáculo não é um conjunto de Imagens, mas uma relação social mediada por Imagens. Para ele, “a realidade surge no espetáculo, e o espetáculo é real”. Ianni (2000, p. 241) diz que Imagem predomina na Cultura de Massa. Ela disputa um lugar com a palavra impressa: “a Imagem enquanto meio de Comunicação, Informação e Entretenimento; sem esquecer seus usos no que se refere à compreensão, reflexão e fantasia” – salienta o autor.

Maffesoli (1999, p. 51) cita exemplos de “espetáculos”, que são a matéria- prima dos telejornais: “A catástrofe, o triunfo esportivo, a parada militar, o festival musical, a explosão de uma nave espacial, o encontro político, o seqüestro de um avião, o engarrafamento urbano, a tomada de refém, a viagem papal, [...]”. O autor (1999) enfatiza que a Pós-Modernidade é a sinergia de fenômenos arcaicos com o desenvolvimento tecnológico.

Os telejornais parecem simbolizar a Pós-Modernidade. Para eles, só interessa o presente, o aqui e o agora. O que ocorreu ontem já é velho para o noticiário. Os programas registram os pequenos acontecimentos cotidianos e os transformam em “grandes” para as comunidades. Encarna o eterno presente, a vida em andamento. Arlindo Machado (1986) assinala exatamente isso em relação à Televisão. Para ele, os programas não são obras acabadas, mas apenas retratos de algo que não terminou que pode ser ampliado. Quando chega o fim de um telejornal, temos a sensação de que os temas apresentados poderiam ter sido mais bem explorados, que faltou algo. É a realidade. A televisão é sempre uma obra em andamento.