“Cada um lê os poemas como pode e neles entende o que quer [...].”
(CARVALHO, 2002, p.114).
Em Nove noites, a intertextualidade com as cartas atribuídas a figuras históricas é um recurso recorrente em todos os capítulos do romance correspondentes à história contada pelo narrador-personagem, que, em 2001, sai à procura de pistas sobre o estranho, e pouco conhecido, episódio do suicídio do etnólogo Buell Quain, ocorrido em 1939, na selva amazônica, onde o pesquisador norte-americano estudava os costumes das tribos indígenas brasileiras.
O narrador faz uso de um vasto material intertextual, apresentando-o em seu discurso, e, por meio da interpretação realizada por ele desses textos, tenta encontrar uma justificativa para o que poderia ter ocorrido na região Norte do Brasil, durante o período do governo do presidente Getúlio Vargas, quando Buell Quain realizava pesquisas de etnologia relacionadas com os costumes dos povos indígenas. Decorre, pois, da investigação e do trabalho do narrador-personagem a intertextualidade com as cartas, no romance Nove noites, e a inclusão dos documentos de teor histórico gera um discurso intertextual cuja composição exige mais que palavras. Trata-se de um discurso que, conforme a comparação estabelecida por Jenny (1979, p.21-22), equivale a uma “super-palavra, na medida em que os constituintes deste discurso já não são palavras, mas sim coisas já ditas, já organizadas, fragmentos textuais.”
As cartas citadas na narrativa são identificadas pelo narrador, informando quem escreveu cada documento e em quais condições esse material teria sido escrito. Dessa forma, a referência às cartas se dá, basicamente, por meio da citação direta, entre aspas, das cartas (ou, então, de fragmentos delas), as quais são inseridas no discurso do narrador-personagem, que passa a fazer conjecturas em torno do que lê, revelando suas suposições, com base nos acontecimentos relatados nas correspondências. Assim, numa passagem da narrativa na qual se fala, por exemplo, sobre Ruth Benedict, professora da Universidade de Columbia e orientadora das pesquisas realizadas pelo etnólogo no Brasil, o narrador informa que Benedict simpatizava com alunos desajustados e supõe que, talvez, por isso ela protegesse algum deles, como Quain, por exemplo. Após expor sua suposição, o narrador refere-se a uma carta com o seguinte comentário de Benedict sobre a trágica morte de seu aluno Buell Quain:
Ao receber a notícia do suicídio do aluno [...] Benedict esboçou uma carta à mãe de Quain: “Minha secretária acaba de me telegrafar, e em meio à minha própria dor só consigo pensar na senhora. Ele foi um filho que sempre a preocupou. É desolador. De todos os meus alunos, guardo no coração o lugar mais caloroso para Buell [...]. Estou paralisada pela dor. Que Deus possa confortá-la no seu sofrimento.” (CARVALHO, 2002, p.17-18).
O narrador, como se nota, contextualiza o documento, “uma carta à mãe de Quain”, informando que foi escrito quando a professora soube da “notícia do suicídio do aluno”. Em meio, então, ao discurso do narrador, é incluída a “carta”, separada pelo uso das aspas, e a referência à correspondência atribuída à professora Ruth Benedict corresponde a um recurso que permite enfatizar a comoção da professora norte-americana pelo suicídio de Quain, aluno para o qual ela guarda “no coração o lugar mais caloroso.”
Ocorre, ainda, outro processo de inclusão do material intertextual na moldura narrativa. Trata-se da referência às cartas por meio da citação direta desses documentos, entre aspas, seguindo, porém, uma formatação diferente da formatação das páginas da narrativa e que dá ideia, por exemplo, da formatação utilizada no âmbito das correspondências. Nesse caso, as cartas são separadas do parágrafo em que se desenvolve o discurso do narrador- personagem, conforme demonstra o fragmento a seguir:
[...] fez [a professora] questão de lê-la [a carta] em voz alta, em inglês, intercalando a leitura de pausas e entonações para assinalar [...] coisas que a ela pareciam significativas e a mim não diziam nada:
Prezada dona Júlia,
“Este é apenas um bilhete. Parto nas próximas duas horas para a aldeia krahô. Estamos esperando algumas calças e camisas. Eu e um grupo de índios krahô que estava em Carolina quando cheguei. As calças e as camisas são para eles. [...]
“Ontem à noite, fui a uma festa em homenagem a Humberto de Campos. Houve uns dez breves discursos sobre sua vida e sua obra. Fiquei espantado com o interesse que o povo de Carolina demonstra por tópicos literários. As pessoas se aglomeravam nas portas e se amontoavam nas janelas para ouvir o que era dito. Só entendi metade, mas fiquei impressionado pelo sério interesse da audiência.” (CARVALHO, 2002, p. 28-29).
Na passagem acima, o narrador, em busca de pistas sobre o caso de Quain, se encontra com uma professora brasileira, a qual lê uma correspondência para ele, que está interessado, principalmente, em buscar “uma história de amor” (CARVALHO, 2002, p.28) para tentar explicar o suicídio do etnólogo. O recurso da “carta”, lida pela professora, “em voz alta, em inglês,” como detalha o narrador, não confirma um possível romance do etnólogo com a tia
dela, na época em que Buell Quain esteve no Brasil. De qualquer forma, o aproveitamento intertextual ocorre, tornando possível tratar no texto ficcional da existência de uma mulher, “dona Júlia”, com quem o etnólogo, de alguma forma, poderia ter tido algum tipo de relacionamento, como demonstra a suposta carta escrita por ele.
As passagens aqui transcritas exemplificam, então, a forma como as cartas são inseridas no romance, citadas diretamente pelo narrador, que procura antecipar a inclusão dessas referências intertextuais em seu discurso, como foi possível observar nas passagens já mencionadas, por meio, por exemplo, de comentários como este: “Ao receber a notícia do suicídio do aluno [...] Benedict esboçou uma carta à mãe de Quain [...]” (CARVALHO, 2002, p.17); ou, então, este comentário: “[...] fez [a professora] questão de lê-la [a carta] em voz alta, em inglês [...].” (CARVALHO, 2002, p.28).
A intertextualidade, no caso de Nove noites, consiste num recurso relacionado diretamente com a figura do narrador-personagem, o qual atua como personagem da história narrada, procurando e juntando material que remete ao universo real.55 A partir desse material, constitui-se, então, o discurso desse componente da moldura narrativa, também personagem, que atua, principalmente, como uma espécie de investigador da vida de uma figura histórica, e tal característica permite inseri-lo na condição do narrador que o escritor e crítico Silviano Santiago denomina “narrador-pós-moderno.” O narrador pós-moderno, segundo a proposta apresentada por Santiago (1989, p.39), “é aquele que quer extrair a si da ação narrada, em atitude semelhante à de um repórter ou de um espectador [...].”
No caso do narrador-personagem, é possível dizer que ele se coloca como um espectador da história de Buell Quain, apresentando-se como um jornalista à procura de informações sobre o etnólogo. Entretanto, enquanto faz referência ao material acumulado e àquilo que descobre sobre Buell Quain, ele relata também sua própria experiência, na selva amazônica, na década de 70, quando acompanhava o pai, em viagens de negócios. Essa característica permite, pois, relacioná-lo com o narrador pós-moderno,
aquele que olha o outro para levá-lo a falar (entrevista), já que não está ali para falar da sua experiência. Mas nenhuma escrita é inocente [...] ao dar fala ao outro, acaba também por dar fala a si, só que de maneira indireta. (SANTIAGO, 1989, p.32).
55A respeito da questão do narrador que procura pistas sobre Buell Quain, Micali (2008, p.131) denomina-o
“narrador-autor”, classificando-o, nesse caso, como “homodiegético”, o qual atua como personagem secundária na história sobre Buell Quain, e ainda, como “autor detetive (ou narrador-detetive), uma vez que investiga e vai juntando os dados”, classificando-o, nesse caso, como “autodiegético”, pois, “na recomposição que promove para narrar a história de Quain, ele acaba contando a sua própria.”
A caracterização do narrador pós-moderno apresentada por Santiago parece ajustar-se, então, à condição do narrador-personagem, em Nove noites, que também faz referência à sua própria trajetória, contando-a, ao mesmo tempo em que conta sobre a procura por informações a respeito de Quain. E a trajetória do narrador, inclusive, apresenta algumas coincidências com a trajetória do etnólogo Buell Quain, conforme é possível observar na passagem a seguir:
Buell Quain também havia acompanhado o pai em viagens de negócios. [...] Visitaram a Holanda, a Alemanha e os países escandinavos. [...] Mas se para Quain, que saía do Meio-Oeste para a civilização, o exótico logo foi associado a uma espécie de paraíso [...] para mim, as viagens com o meu pai proporcionaram antes de mais nada uma visão e uma consciência do exótico como parte do inferno [...]. (CARVALHO, 2002, p.64).
O fragmento acima ilustra o papel desempenhado pelo narrador do romance de Carvalho: referindo-se à experiência de Quain com o pai, em viagem pelo mundo, ele aproveita isso como uma espécie de “gancho” e volta o discurso para si mesmo e para as experiências vividas com seu pai, durante sua infância, nas diversas viagens feitas pelos dois, as quais, entretanto, não lhe trazem boas lembranças. Assim, nesse caso, as coincidências entre Quain e o narrador ficam no âmbito das experiências, pois a forma de encará-las, de acordo com a passagem transcrita, é diferente, sendo comparadas como a visão do “paraíso”, para Quain, e como a visão do “inferno”, para o narrador.
A intertextualidade com o material atribuído a figuras históricas permite refletir também sobre a questão da representação, em Nove noites, de acordo com a teoria de Compagnon (2001, p.132), o qual prevê, com base na proposta de Terence Cave, o entendimento da mimèsis como forma de reconstrução de um acontecimento, relacionando a
mimèsis com “pistas” depreendidas da narrativa, as quais exigem um “leitor detetive”, interessado na reconstrução da história. Isso implica, pois, a mimèsis como “reconhecimento” e não mais como “cópia” (COMPAGNON, 2001, p.133). Essa possibilidade de pensar a questão da representação literária como forma de reelaborar um acontecimento, e não de imitá-lo, encontra-se exemplificada, nesse romance contemporâneo em língua portuguesa, a partir da manipulação do recurso da intertextualidade, o qual capacita a narrativa a reinventar a realidade, reforçando, assim, a hipótese deste estudo de considerar o recurso intertextual pertinente para se refletir sobre as relações entre literatura e história, uma vez que ele permite, por exemplo, trazer à tona certos acontecimentos históricos ligados à realidade brasileira, sob um olhar divergente daquele que perpassa os registros da história oficial.
O aproveitamento das cartas, na construção do espaço da escrita em Nove noites, realiza-se por meio de algumas adaptações que afetam o enunciado intertextual. É possível verificar a inclusão das cartas na moldura narrativa de acordo, por exemplo, com o tratamento designado por Jenny (1979, p.34) de “engaste”, que corresponde a uma montagem na qual o “fragmento recuperado” é reaproveitado tendo em vista alguma unidade semântica com o novo texto. Pode ser considerado exemplo da utilização da técnica do engaste a referência a uma carta atribuída a Quain, na qual o etnólogo aponta para o processo de extinção dos índios brasileiros, na selva amazônica, provocado não só pelos brancos, mas também por índios, que, no passado, travavam batalhas entre si, impondo sobre uma tribo os costumes de outra tribo, conforme demonstra o fragmento a seguir:
[...] O clima de animosidade e terror entre as diversas tribos da região os obrigava [os índios Trumai] a acender fogueiras sempre que entravam em “território estrangeiro”, para anunciar a sua presença [...] Quain chegou à aldeia trumai em meados de agosto [de 1938]. [...] Temidos no passado pelo número e pela coragem guerreira, os Trumai estavam reduzidos a uma única aldeia [...] Instalaram-se ali [...] com o objetivo de se afastarem de tribos inimigas, em especial dos Kayabi e dos Nahukwá, cujo chefe era um poderoso xamã. Seus antepassados já haviam sido expulsos dessa mesma região pelos Suyá. Mas agora os Trumai temiam sobretudo os Kamayurá, seus vizinhos mais próximos [...] Por outro lado, os Trumai também pioravam o estado de histeria com as próprias lendas [...] “Há uma expectativa permanente de que os Suyá e os Kamayurá ataquem à noite – basta um galho quebrado depois do cair da noite para levar os homens a se agruparem, com seus arcos e flechas, trêmulos, no centro da aldeia”, Quain escreveu a Ruth Benedict. (CARVALHO, 2002, p.51-52).
A correspondência mencionada é, como se nota, citada de forma direta, entre aspas, sendo incluída no mesmo parágrafo em que se desenvolve o discurso do narrador. A utilização da carta na construção do espaço da escrita é pertinente e significativa, no que concerne à estrutura narrativa, pois seu conteúdo apresenta afinidade com o teor do discurso desenvolvido pelo narrador sobre os Trumai, que, já em 1938, quando Quain os visita, “estavam reduzidos a uma única aldeia”, ameaçados por outras tribos da região, conforme demonstra a passagem transcrita do romance. Assim, de acordo com o relato do narrador, sustentado pela carta, a extinção das culturas indígenas, no Brasil, é um problema decorrente também de conflitos entre as próprias tribos e não apenas de conflitos entre índios e brancos (explicação comumente divulgada na sociedade brasileira). O recurso representado pela suposta carta de Quain é, portanto, incorporado ao texto literário para tratar desse aspecto da realidade do Brasil relacionado com a questão indígena no país. E, nesse caso, o trabalho
intertextual permite à narrativa trazer à tona um viés divergente daquele que perpassa a história oficial, apontando, geralmente, o homem branco como o único responsável pela dizimação dos índios brasileiros.
Ainda quanto ao aproveitamento de textos relacionados com a realidade, o trabalho realizado em Nove noites, caracterizado, praticamente, pelo processo de citação de cartas atribuídas a figuras históricas, pode implicar o que Jenny (1979, p.44) reconhece como marca “ideológica” para salientar que, num discurso, “a pura repetição não existe”, o que existe é a intenção de “trocar-lhe [do discurso] os pólos ideológicos.” Essa condição do discurso intertextual pode ser verificada quando se trata, na narrativa, do cenário amazônico, apresentando-o como um território inóspito, de difícil acesso, um lugar descrito como um verdadeiro “inferno”, de acordo com a passagem abaixo:
Em carta de 1º de novembro de 1940 a Heloísa Alberto Torres, a mãe de Quain conta a história dos missionários do rio Coliseu. À falta de quinino e com os homens morrendo de malária, os americanos começaram a rezar. “Foi quando viram um homem com a cabeça raspada, calças esfarrapadas e uma velha jaqueta vindo do rio na sua direção. Acharam que fosse um prisioneiro em fuga, até que ele lhes sorriu.” No delírio de seu pesadelo, devem ter visto um condenado [...] saindo de dentro de algum pântano da Louisiana ou do Mississippi. Ou pelo menos foi assim que imaginei [narrador] as visões febris e apavoradas dos pobres missionários quando li a carta da mãe do etnólogo. Segundo ela, Quain lhes teria dado um novo remédio [...] O jovem antropólogo teria obtido o medicamento e por sorte o incluíra na sua bagagem depois de a mãe ter lido um artigo numa revista médica e lhe mandado o recorte para o Rio de Janeiro. De alguma forma, nem que fosse à distância, ela tentava ser útil e acompanhar os desígnios do filho em sua descida aos infernos. (CARVALHO, 2002, p.49-50).
O fragmento transcrito recupera o trecho de uma suposta carta da mãe de Buell Quain para, assim, fazer referência às seguintes questões: os ataques de malária comuns na selva amazônica e a falta de assistência médica aos moradores do local. O precário sistema de atendimento à saúde corresponde, inclusive, a um problema social que ainda hoje afeta a região amazônica, e esse cenário teria impressionado a mãe do etnólogo, a qual, morando nos Estados Unidos, não deixa de ser útil ao filho, em sua “descida aos infernos”, segundo imagina o narrador, impressionado com o que lê, na carta da mãe do etnólogo. Nesse caso, a utilização desse material intertextual constitui um recurso utilizado para fazer referência à histórica situação da Amazônia, ontem isolada, hoje, embora menos isolada, pouco integrada, ainda, ao resto do Brasil e, inclusive, bastante devastada em termos de seus recursos naturais.
Além de problematizar aspectos da realidade brasileira, como a extinção das tribos indígenas e as dificuldades impostas ao homem devido às condições naturais do território amazônico, a intertextualidade com as cartas permite, ainda, tratar do controle exercido pelo Estado Novo sobre pesquisadores estrangeiros que trabalhavam no Brasil, dentre os quais consta Buell Quain. A inclusão do fragmento de uma correspondência atribuída a dona Heloísa Alberto Torres, diretora do Museu Nacional do Rio de Janeiro e responsável por Quain, no Brasil, endereçada a Ruth Benedict, professora da Universidade de Columbia e orientadora das pesquisas do etnólogo, mais a inclusão de parte de uma fala, em discurso direto, do depoimento prestado pelo professor brasileiro Castro Faria ao narrador-personagem são estratégias que permitem tratar dessa questão. A passagem da narrativa em que ocorre essa junção de discursos é apresentada a seguir:
Em carta a Ruth Benedict, Heloísa Alberto Torres se explica: “Certos equívocos da parte do sr. Quain foram interpretados pelo Serviço [Serviço de Proteção aos Índios] como infrações à lei e levaram este órgão a impor-lhe condições estritas se ele desejar prosseguir em suas pesquisas nas aldeias indígenas”. Castro Faria diz que essa era a praxe: “Até eu, que era membro- delegado do Conselho de Fiscalização na expedição do Lévi-Strauss precisava de um salvo-conduto.” (CARVALHO, 2002, p.44).
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Pelo que se pode depreender do conteúdo da carta de dona Heloísa e da fala de Castro Faria, os procedimentos dos órgãos governamentais eram rotineiros e visavam ao bom andamento das pesquisas dos estrangeiros entre os índios. Existe, entretanto, outra possibilidade de entendimento para o controle das autoridades, como, por exemplo, o “sentimento antiamericanista” que predominava, “[à]s vésperas da guerra.” (CARVALHO, 2002, p.44). Embora essa possibilidade seja minimizada pelo que diz Castro Faria em seu depoimento e pela referência ao que escreve dona Heloísa para Benedict, a questão da política do Estado Novo em relação aos pesquisadores norte-americanos é lançada na moldura narrativa e recriada com base nas referências intertextuais atribuídas a figuras históricas.
Como forma de reforçar a ligação de Castro Faria e de dona Heloísa com Buell Quain, acopla-se à narrativa uma fotografia de 1939, marcada pela presença de figuras históricas relacionadas com o etnólogo, dentre as quais aparecem o professor Castro Faria e dona Heloísa. Como o etnólogo não está entre os fotografados, o narrador-personagem faz o seguinte comentário a respeito dessa ausência:
Mas havia já naquele tempo uma ausência na foto, que só notei depois de começar a minha investigação sobre Buell Quain. Àquela altura, ele ainda estava vivo e entre os Krahô, e a imagem não deixa de ser, de certa forma, um retrato dele, pela ausência. (CARVALHO, 2002, p.32).
A intertextualidade com essa fotografia de figuras históricas cujas trajetórias, no romance, têm a ver com a figura de Buell Quain é resultado do tratamento que Jenny (1979, p.31) denomina “verbalização” e que corresponde à ligação da imagem com o novo texto, por meio da expressão verbal. A referência à fotografia torna-se, pois, motivo para se falar do etnólogo, cuja ausência, entre os fotografados, merece ser comentada, tendo em vista seu vínculo com as pessoas retratadas, de acordo com a trama da narrativa. Esse processo de interação da imagem fotográfica com o texto ficcional implica o que diz Jenny (1979, p.33) sobre o trabalho de verbalização: um tratamento que “[se] esforça por reduzir todos os corpos estranhos não verbais que podem surgir num texto.”
Outra questão tratada na moldura narrativa, com base na referência a uma carta atribuída a Buell Quain e enviada a Margareth Mead, diz respeito ao processo de degradação da cultura indígena brasileira, resultado da aplicação das ideias do marechal Cândido Rondon no desenvolvimento da Amazônia, de acordo com que revela a passagem a seguir:
Numa das cartas que mandou a Margaret Mead, escrita em 4 de julho de 1939, Quain dizia o seguinte: “O tratamento oficial reduziu os índios à pauperização. Há uma crença muito difundida (entre os poucos que se interessam pelos índios) de que a maneira de ajudá-los é cobri-los de presentes e ‘elevá-los à nossa civilização’. Tudo isso pode ser atribuído a Auguste Comte, que teve uma enorme influência na educação superior local e que através do seu espetacular discípulo brasileiro, o já velho general