16.3 H YPOTHESIS T ESTING OF B EST P RACTICES
16.3.4 Discussion on Hypothesis Test of Best Practices and @DPPS2
Entre o final do século XIX e início do século XX várias foram as obras publicadas contra a evolução por clérigos antievolucionistas nos EUA. Em seus primórdios – aproximadamente até o final da década de 20 do século passado – o movimento que se contrapunha à evolução se auto denominava movimento antievolucionista e não movimento criacionista. Isso ocorreu, devido a alguns fatores: o termo criacionismo já possuía um significado próprio bem conhecido à época43; os cientistas que se opunham à evolução possuíam diferentes entendimentos sobre a criação e o mesmo ocorria entre os fundamentalistas que apresentavam discordâncias interpretativas em relação ao capítulo 1 do Gênesis. É somente em 1929 que o termo criacionismo aparece vinculado ao debate criação versus evolução, com a publicação da obra intitulada Back to Creationism, de Harold W. Clark (1891-1986), um professor de biologia de uma faculdade confessional na Carolina do Norte, antigo aluno de Georgy McCready Price – sobre o qual discutiremos mais à frente (NUMBERS, 2006; 2014). Em um trecho da obra ele escreve:
interpretará os registros das rochas, as vidas das plantas e dos animais e a história humana à luz da história da criação...Conforme o homem se aprofunde na ciência do criacionismo, os segredos mais íntimos das células e dos átomos exibirão o poder do Criador de formas que nunca foram compreendidos; e na degeneração e no mal que a biologia e a sociologia trouxeram à luz será vista a atividade do contrapoder (i.e. Satã) que vem tentando arruinar a bela criação... Chegou a hora para uma rebelião contra o domínio da evolução e para retornar aos fundamentos da verdadeira ciência, DE VOLTA AO CRIACIONISMO (CLARK, 1929, p. 138-139, apud NUMBERS, 2014, p. 169, ênfase do autor).
43“Desde os primórdios da cristandade os teólogos haviam ligado ‘criacionismo’ à doutrina de que Deus tinha criado individualmente cada alma humana – opondo-se aos ensinamentos traducianistas de que Deus criara apenas a alma de Adão e que as crianças herdariam as almas de seus pais” (NUMBERS, 2014, p. 166).
O movimento criacionista organizado surge nos Estados Unidos, sendo considerado por muitos estudiosos um fenômeno tipicamente estadunidense. Stephen J. Gould na obra Pilares
do Tempo: ciência e religião na plenitude da vida (2002, p. 103) diz: a controvérsia criação-
evolução “é tão tipicamente americana quanto a torta de maça e o Tio Sam. Nenhuma outra nação ocidental enfrenta uma ameaça tão grave sob a forma de um movimento político sério (em vez de alguns fracos espasmos periféricos)”. Gould estava correto, entretanto, atualmente, o movimento criacionista ou derivações dele, tem crescido em outros países, inclusive naqueles sem tradição religiosa literalista, como alguns países europeus.
Neste estudo, adotamos a definição de criacionismo como proposta por Scott44 (2009). Para ela, o criacionismo pode ser definido de uma forma mais ampla ou de outra, mais restrita. Na forma mais ampla, entende-se a criação por meio de uma entidade/força sobrenatural, que pode ser entendida diferentemente nas várias religiões. Essa entidade seria Deus para cristãos, muçulmanos e judeus e outras divindades para praticantes de outras religiões. Em sua forma mais restrita, criacionismo adquiriria a conotação da doutrina religiosa da criação especial que afirma que Deus criou o universo basicamente como o vemos hoje e que, desde então, praticamente não mudou. Adotamos, também, a proposta criação-evolução continuum45 da autora (SCOTT, 2004, 2009) que entende haver um gradiente de posicionamentos religiosos vinculados à relação criação e evolução. Essa proposta visa possibilitar uma melhor compreensão desse gradiente, de modo a contribuir para a abordagem da temática no ensino. Segundo a autora, ela inibiria interpretações simplistas e equivocadas relacionadas ao entendimento da existência de duas posições extremas e opostas: de um lado estariam os criacionistas cristãos e, do outro, os evolucionistas ateístas; entre os primeiros estariam os que creem em Deus e, entre os segundos, os que não creem ou, ainda, que, aceitar a evolução implica, necessariamente, não crer em Deus.
A história do criacionismo nos Estados Unidos pode ser classificada em três fases: a fase inicial se caracteriza pela tentativa de eliminação da evolução dos livros didáticos por meio de legislação específica; na segunda fase, quando essas leis são eliminadas, o movimento criacionista busca uma alternativa para se fazer presente nas escolas, é o período do
44 Antropóloga americana e ativista em prol do ensino da evolução biológica, diretora da National Science for Center Education, nos Estados Unidos, entre de 1987-2013.
45 Scott (2009) estabelece um gradiente de posicionamentos acerca da relação criação-evolução que vai de uma posição mais extrema à outra: criacionistas da Terra plana; geocentristas; criacionistas da Terra jovem; criacionistas da Terra antiga; criacionistas da lacuna, criacionistas dia-era; criacionismo progressivo; criacionismo evolucionário; evolucionismo teísta; evolucionismo agnóstico; evolucionismo materialista. A autora situa o design inteligente em uma posição intermediária que iria do criacionismo da Terra Jovem ao criacionismo progressista. Esclareceremos o entendimento de cada um desses posicionamentos conforme citados durante o texto.
desenvolvimento da “ciência da criação”; por sua vez, quando as lei que garantiam a igualdade de tempo entre evolução e ciência da criação são eliminadas, o movimento criacionista busca uma nova roupagem visando sua manutenção nas escolas públicas, é a terceira fase do criacionismo estadunidense. É essa trajetória que buscamos evidenciar (SCOTT, 2009).
Como já mencionamos, nos Estados Unidos, no final do século XIX, assim como em alguns países europeus, a maioria dos cientistas e uma parte considerável dos eclesiásticos já haviam aderido às ideias de Darwin. Isso aconteceu, também, porque muitos cientistas da época, que aceitavam a evolução, eram, também, membros ativos de diferentes denominações religiosas, o que facilitou a disseminação das ideias evolutivas entre os dois grupos (SCOTT, 2009). Na mesma época, o pensamento de Darwin, ou parte dele, já era disseminado, também, no ensino. No princípio, não houve oposição a essa disseminação devido ao pouco acesso ao nível secundário e superior nos Estados Unidos nessa época, que era restrito à elite dos centros urbanos (GASPAR; AVELAR; MATEUS, 2007; SCOTT, 2009).
No início do século XX, entretanto, começam a surgir os primeiros movimentos antievolucionistas mais organizados em território estadunidense. Isso decorre, segundo Scott (2009), de uma série de fatores característicos da época: ampliação do acesso à educação secundária46; a impopularidade do darwinismo social após a I Guerra Mundial; e o surgimento do protestantismo fundamentalista. Uma das vertentes47 do darwinismo social, que tem em Herbert Spencer48 um dos seus principais representantes, buscava aplicar os conceitos científicos desenvolvidos por Darwin à sociedade humana (BROOKE, 2003). Dessa forma, justificava-se injustiças sociais e preconceitos contra grupos específicos utilizando-se da ideia da “luta pela existência” e da “sobrevivência do mais apto”. Entende-se que o darwinismo social, uma interpretação considerada equivocada do pensamento evolutivo, forneceu a base teórica para o movimento eugênico e para ideias vinculadas ao nazismo, ao fascismo e ao imperialismo durante a primeira metade do século XX. Neste sentido, as críticas à evolução, nessa época, passaram a ser, também, não apenas religiosas, mas políticas. O acesso cada vez
46 Em 1890 havia, aproximadamente, 200.000 alunos frequentando a escola secundária nos Estados Unidos. Em 1920, esse número estaria próximo de 2.000.000 de estudantes (SCOTT, 2009).
47 “[...] nas suas primeiras formas, o darwinismo social britânico teve uma face liberal. Havia elementos na síntese de Darwin que apontavam para a reforma social, especialmente, para a eliminação dos privilégios aristocrático. O estatuto conferido pelo nascimento, mais do que pelo mérito, era suscetível à crítica de que protegia artificialmente membros ociosos e improdutivos da sociedade. A propriedade de terras poderia desencorajar a iniciativa econômica e os privilégios desfrutados pelos varões da pequena nobreza provocaram até comentários ao próprio Darwin [...]” (BROOKE, 2003, p. 284).
48 Herbert Spencer foi uma das 80 pessoas selecionadas por Darwin para receber um exemplar da primeira edição de A origem das espécies, em 1859 (BROWNE, 2008).
maior ao conhecimento evolutivo nas escolas públicas secundárias, associadas a essas críticas, iniciou uma forte reação contrária ao seu ensino.
Numbers (2006) cita outro fator que poderia estar envolvido no surgimento do movimento antievolucionista organizado dos Estados Unidos. Segundo ele, no início do século XX, acusavam-se alguns professores de biologia de intolerância e insensibilidade na forma como abordavam a evolução em sala de aula. Alguns relatos evidenciavam uma postura arrogante e impositiva sobre as crenças religiosas dos alunos. Neste sentido, muitos eram os que solicitavam uma postura mais humanista por parte dos professores.
É também no início do século XX que surge um movimento entre os religiosos protestantes, principalmente entre batistas, metodistas e presbiterianos49, que visava combater, dentre outras coisas, tendências teológicas liberais vinculadas aos estudos bíblicos (também conhecidos como teologia modernista ou liberalismo teológico), surgidos na segunda metade do século XIX e mencionados por nós anteriormente neste capítulo. Um dos marcos desse movimento protestante foi a publicação, entre 1910 e 1915, por vários autores, de uma série de 12 livretos intitulados The Fundamentals financiados por dois grandes empresários da área petrolífera, fundadores, também, de uma faculdade evangélica conservadora em Los Angeles, o The Bible Institute of Los Angeles, atual Biola University. Três milhões de exemplares foram distribuídos entre sacerdotes, missionários e escolas de catequese. Cinco eram os princípios fundamentais: (1) a infalibilidade da Bíblia; (2) Cristo é divino e tem uma origem virginal; (3) Cristo morreu em expiação aos nossos pecados; (4) Cristo ressuscitou; (5) Cristo voltará à Terra ou (5’) os milagres de Cristo são reais50. Difundia-se, ainda, que aquele que não acreditasse nos
Princípios Fundamentais iria para o inferno (GASPAR; AVELAR; MATEUS, 2007; SCOTT,
2009).
A evolução era tratada de diferentes formas nos livretos, dependendo da confissão religiosa da qual o autor professava. Assim, alguns se posicionavam claramente contrários à evolução. Outros, a aceitavam em uma perspectiva teísta51 com variações, podendo-se aceitar a evolução animal, mas não a humana ou aceitar a evolução humana, mas não por meio da
49 Segundo Souza (2009), nessa época, nos Estados Unidos, a rejeição à evolução era mais prevalente entre batistas e presbiterianos. Os luteranos também rejeitavam à evolução, mas valorizavam a separação igreja estado e se posicionavam contrários às tentativas de proibição do ensino de evolução que se iniciariam nessa época. Os católicos eram um grupo mais dividido, mas como os luteranos, valorizavam a separação igreja e estado.
50 Segundo Gaspar, Avelar e Mateus (2007), há variações no livreto do 5º fundamento dependendo da edição considerada.
51 O evolucionismo teísta compreende que Deus atua por meio das leis naturais. Pode existir, entretanto, variações no entendimento acerca de quando e como Deus interveio/intervém na natureza, particularmente no que se refere a origem dos seres humanos. De modo geral, esse posicionamento aceita todas as explicações da ciência moderna. É a posição adotada pela igreja católica e ensinada em grande parte dos seminários protestantes. (SCOTT, 2009).
seleção natural, uma vez que se entendia que a seleção natural, como proposta por Darwin, assumia o papel de Deus na criação da vida na Terra. A maior parte dos autores dos livretos era adepto do criacionismo dia-era52. Dentre os que rejeitavam a evolução estavam os autores
adeptos do Adventismo do Sétimo Dia. Os adventistas defendiam o literalismo bíblico e a “geologia do dilúvio”, que compreendia os fósseis como seres soterrados durante o dilúvio bíblico. Nessa época, um dos maiores defensores deste entendimento foi Georges M. Price (1870-1963), falaremos dele mais à frente. Embora nem todos os livretos tenham sido antievolucionistas, a posição fundamentalista em direção à evolução endureceu com bastante rapidez (GASPAR; AVELAR; MATEUS, 2007).
De acordo com Scott (2009, p. 98), “os fundamentalistas se tornaram a tropa terrestre das campanhas para libertar as escolas da evolução. Eram motivados por sentimentos religiosos e por uma preocupação de ser a evolução a fonte de muitas tendências sociais negativas ou mesmo corrosivas”. Essas preocupações mais políticas e sociais dos fundamentalistas em relação à evolução, como já mencionamos, estavam vinculadas ao entendimento equivocado das ideias de Darwin no contexto da Primeira Guerra Mundial, sobretudo às ideias eugênicas em voga na Alemanha, país que tinham dado início, também aos estudos bíblicos. As preocupações dos fundamentalistas se voltavam, também, ao contexto do capitalismo estadunidense. Rockefeller e outros, à época, faziam interpretações equivocadas das ideias evolutivas justificando a opressão imposta aos mais fracos pelo sistema capitalista. É nesta conjuntura que o movimento fundamentalista ganha um adepto importante e, em princípio, inesperado devido às causas progressistas que abraçava em sua vida pública. Tratava-se de William Jennings Bryan, famoso democrata que concorreu à presidência dos Estados Unidos por 3 vezes e defendeu causas relacionadas aos direitos dos consumidores, ao combate dos monopólios e ao direito do voto feminino. É com o apoio de Bryan, que era presbiteriano, que o movimento fundamentalista nos Estados Unidos ganha força, adquirindo conotações políticas. É por meio de Bryan que se estabelece a “cruzada antievolucionista” nos Estados Unidos no início do século XX (NUMBERS, 2006, p. 55). Isso também é evidenciado por Gould (2002, p. 106)
52 O criacionismo dia-era é um dos tipos de criacionismo da Terra antiga, ou seja, procura acomodar os conhecimentos científicos sobre a idade da Terra e o registro fóssil ao Gênesis bíblico. Especificamente o criacionismo dia-era envolve a interpretação de que os dias retratados no Gênese não seriam dias de vinte e quatro horas, mas expressões metafóricas que representariam longos períodos de tempo, eras que acomodariam a idade antiga da Terra. Os Testemunhas de Jeová são adeptos desse tipo de criacionismo.
o movimento fundamentalista pode ser tão antigo quanto os Estados Unidos e sua oposição ao ensino da evolução pode ser tão antiga quanto Darwin. No entanto, esse movimento marginal, sem conotações políticas e basicamente regional, não teve forças para provocar efeitos legislativos até que uma das grandes figuras da história americana, Willian Jennings Bryan resolveu dedicar suas últimas energias a essa questão.
A “cruzada antievolucionista”, que tinha por objetivo impor o ensino do criacionismo nas escolas públicas, em detrimento do ensino da evolução encontrou um terreno fértil nos Estados Unidos, um país marcado, historicamente, por disputas entre extremos: Norte contra Sul; ricos contra pobres; controle local contra controle federal, dentre outras. Assim, além dos fatores já destacados, também contribuíram para o surgimento e o avanço do movimento criacionista organizado nos Estados Unidos, a descentralização dos estados americanos que reflete a formação desta nação, composta, em grande parte, por dissidentes religiosos em busca de “liberdade religiosa”53. Os pioneiros, na ocupação da costa leste americana, também pela omissão do estado, estabeleceram a polícia, o sistema de ensino e as congregações religiosas, que podiam divergir da corrente teológica de origem. Também por isso, é nos Estados Unidos onde surgem diversas seitas e novas denominações religiosas54 a partir de líderes carismáticos. Essa formação inicial descentralizada federativamente, mas centralizada em torno de um núcleo religioso local, notadamente, fundamentalista, contribuiu para a guerra que se instalaria contra o ensino de evolução com o passar dos anos nesse país (GOULD, 2002; SCOTT, 2009).
Bryan dá início a sua cruzada contra o ensino da evolução no início da década de 20. Gould (2002) esclarece que esse posicionamento, contrário ao ensino da evolução, se devia, principalmente, a um entendimento distorcido das ideias de Darwin. Bryan confundia a “evolução em si”, isto é, o entendimento de que as espécies mudam ao longo do tempo com o processo que produzia essa modificação, a seleção natural. Por sua vez, não compreendia a seleção natural que, para ele, seria “uma teoria marcial de sobrevivência por meio da luta e destruição dos inimigos” (GOULD, 2002, p. 122). Ele entendia, ainda, que o darwinismo afirmava haver um valor moral nesta “luta pela sobrevivência”. Já no início do século, em 1904, ele escrevia:
a teoria darwiniana representa o homem tendo alcançado sua atual perfeição por meio da lei do ódio – a lei implacável pela qual os fortes se unem e matam os fracos. Se essa é a lei de nossa evolução, então, se houver alguma lógica regendo a mente
53 Como esclarece Scott (2009) essa busca pela liberdade religiosa, na maioria das vezes, não implicava em considerar a liberdade religiosa do outro.
54 Foi nos Estados Unidos onde surgiram, por exemplo, os Adventistas do Sétimo Dia, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, os Mórmons, os Testemunhas de Jeová (SCOTT, 2009).
humana, devemos nos voltar novamente para a lei das feras, à medida que nos afastamos da lei do amor. Prefiro acreditar que o amor, em vez do ódio, seja a lei do desenvolvimento (BRYAN, 1904 apud GOULD, 2002, p, 122).
Em 1922, Bryan inicia, no estado do Kentucky, um movimento exigindo a banimento do ensino da evolução biológica das escolas públicas, sua intenção, entretanto, era difundir esse movimento por todo o país. Em 1925, o estado do Tennessee promulga o Butler Act, também conhecido como Lei do Macaco (GOULD, 2002) que proibia o ensino da evolução nas escolas públicas.
No Tennessee, o Butler Act, que recebe esse nome devido ao nome do político que o propôs, foi aprovado pela Câmara dos Deputados do estado do Tennessee sem a promoção de um debate qualificado sobre a questão. O debate ocorreu, entretanto, no Senado que ouviu depoimentos contrários e a favor da sua aprovação. Os cientistas ouvidos, em sua maioria, se posicionaram contrários, já os religiosos ficaram divididos. Os mais fundamentalistas foram favoráveis à sua aprovação alegando preservação da fé das crianças. Os mais liberais, por sua vez, tomavam posição contrária alegando ferimento a laicidade do Estado. Apesar do debate tender para a sua rejeição, a “Lei do Macaco” foi aprovada por pressão da opinião pública da população do Tennessee, favorável ao banimento do ensino da evolução das escolas públicas do estado (SCOTT, 2009).
O seu texto dizia: é proibido “ensinar qualquer teoria que negue a história da Criação
Divina do homem como é ensinada na Bíblia, e ensinar em vez disso que o homem descendeu de uma ordem inferior de animais” (GASPAR; AVELAR; MATEUS, 2007, p. 136, grifos dos autores). Logo após a promulgação do Butler Act, no Tennessee, a American Civil Liberties
Union (ACLU) planejou uma estratégia visando alegar a sua inconstitucionalidade na Suprema
Corte, uma vez que ele feria a Primeira Emenda da Constituição Americana55. A estratégia consistia em ferir o Butler Act, haver condenação e, então, recorrer à Suprema Corte. Alegar- se-ia o ferimento de 3 cláusulas da Primeira Emenda Constitucional: a do estabelecimento – o
Congresso não legislará no sentido de estabelecer uma religião –, a do livre exercício – o
Congresso não legislará [...]proibindo o livre exercício dos cultos e a cláusula da liberdade de
expressão e reunião – o Congresso não legislará [...]cerceando a liberdade de palavra de
imprensa ou o direito do povo de se reunir pacificamente. A adoção da estratégia se devia a
55A Primeira Emenda da Constituição Americana promulgada em 1791 dizia: “O Congresso não legislará no
sentido de estabelecer uma religião, ou proibindo o livre exercício dos cultos; ou cerceando a liberdade de palavra, ou de imprensa, ou o direito do povo de se reunir pacificamente, e de dirigir aos Governo petições para a reparação de seus agravos” (GASPAR; AVELAR: MATEUS, 2007, p. 137, grifos dos autores).
impossibilidade de a corte local julgar sobre a inconstitucionalidade do Butler Act, podendo julgar (condenar ou inocentar) apenas acerca da desobediência da sua obrigatoriedade. Por isso, “a ACLU preferiu, portanto, uma condenação menos problemática, passível de apelação em uma corte superior”. (GOULD, 2002, p. 108).
O chamamento da ACLU56 – alguém que se dispusesse a ferir a Lei do Macaco e ser condenado – atrai a atenção de moradores da pacata cidade de Dayton que possuía, à época, cerca de 1800 habitantes. Um deles foi o engenheiro George Rappelyea que havia se revoltado ao participar de um funeral de uma criança, filha de um funcionário, quando o padre fundamentalista afirmara que, por ser a criança pagã, queimaria no fogo do inferno. Outros cidadãos e políticos de Dayton também se interessam, mas não apenas porque eram contra o ensino da evolução. Eles entenderam que o julgamento atrairia a atenção para Dayton, aquecendo a economia local. O escolhido para desobedecer ao Butler Act foi John Scopes (1900-1970), um jovem professor de álgebra, física e treinador de futebol americano do Liceu de Dayton que estava, na ocasião, aparentemente, substituindo o professor de biologia que estava doente. De acordo com Larson (1997, apud SCOTT, 2009), Scopes foi escolhido propositadamente pelo grupo de Dayton: era solteiro, não pretendia residir na cidade – diferentemente do professor de biologia efetivo que era morador de Dayton com família e responsabilidades administrativas –, era muito bem quisto pelos alunos, e não tentaria doutrina- los com os conhecimentos ensinava. Seus amigos mais próximos, entretanto, sabiam que