de Janeiro, 1881.
INTRODUÇÃO
Foi-nos cometida a organização desta coletânea. Aceito por obediência o encargo, aliás, com muita honra, dirigimo-nos imediatamente aos mais distintos homens de letras da nossa sociedade. Nas cartas que lhes endereçamos fizemos ressaltar a conveniência de não exceder de vinte linhas impressas cada um dos escritos destinados a esta POLIANTÉA; aparecem, entretanto, alguns de maior extensão; mas quem os ler, conosco seguramente dirá: feliz culpa!
Do generoso acolhimento que encontramos dão eloqüente testemunho as notáveis produções que esmaltam estas páginas.
Às excelentíssimas senhoras e aos ilustres cavalheiros que formarão com as irradiações do talento e do saber a zona luminosa, que neste dia circundará o Liceu de Artes e Ofícios, devemos uma explicação: dá-la-emos em breves palavras: Pela data do recebimento e pelas exigências da composição tipográfica, na qual se observou o plano de entremear prosa e verso , foi determinada a ordem na inserção dos trabalhos que esta POLIANTÉA entesoura.
Nem nos abalançaríamos a fazer seleções no que era seleto, nem ousaríamos manifestar preferências, pelo menos descabidas, com relação a escritores cuja confraternidade literária é para nós motivo de ufania.
Guilherme Bellegarde Félix Ferreira
SANGUE NOVO261
Das artes liberais os prélios e as conquistas São do século que passa, o glorioso afan; na pacífica luta – heróis são os artistas, que buscam do porvir a esplendida manhã.
A indústria é a alavanca – a ciência braço ingente que mede, que contorna o giro universal;
da oficina o trabalho é a força onipotente que eleva, que engrandece a esfera social.
Por toda a parte brada a voz da inteligência À mocidade audaz: - caminhar! Caminhar! Mas, aqui o vigor rasteja na indigência, a indústria jaz inerte, as artes sem altar.
Num século de luz atrasado um povo!
No mundo de Colombo – exausta uma nação! Combata-se a anemia – Injete sangue novo O exemplo que vai dar a Nova legião. Félix Ferreira.
261 Poema de autoria de Félix Ferreira escrito para compor o livro, Polyanthea Comemorativa de Inauguração
NOTÍCIA HISTÓRICA262
Trinta e três anos de existência conta a Sociedade Propagadora das Belas Artes e Liceu de Artes e Ofícios, a sua mais bela e perdurável obra. Quando nenhum outro título tivesse, como aliás o tem, bastar-lhe-ia esse para que uma tal associação se julgasse com direito à gratidão pública. É preciso remontarmo-nos há trinta anos passados, lançar os olhos para os homens e as coisas de então, para bem avaliar e compreender o serviço relevante que prestaram ao país: a Sociedade instituindo o Liceu, e o arquiteto Bethencourt da Silva constituindo a sociedade.
Bruxuleavam apenas os nascentes clarões da instrução do povo, iniciavam-se timidamente os primeiros passos da grande indústria, e como a maior das conquistas civilizadoras se reputava à extinção do odioso tráfico africano, arrancando-se não havia um lustro passado os últimos infelizes às mãos dos insaciáveis mercadores de carne humana, quando, ainda em plena juventude, aquele artista concebeu a idéia de fundar uma associação destinada à propagação das belas artes pelas classes operárias. Antes dele, apenas outro artista não menos ilustre, Porto Alegre, tentara mas não conseguira prover pela municipalidade uma escola teórico prática de artes aplicadas.
Conquanto a reforma de 17 de Fevereiro de 1854, devida ao espírito elevado do Visconde de Bom Retiro, houvesse dado uma face inteiramente nova à instrução do povo, de lado fora posto não só os primórdios artísticos imprescindíveis ao complemento dessa instrução como esquecido inteiramente o ensino aos adultos, cujo número de analfabetos era tão extraordinário nas classes operárias desta capital. Não cogitara o ilustre reformador, de aulas noturnas, e, que eu saiba, não haviam sido até então ensaiadas no país; no entanto, era delas que dependia em boa parte o nosso progresso artístico industrial.
O operário que não sabe ler não é um operário é uma máquina, e máquina de primitivos moldes se não tem a menor noção de belas artes.
Os chamados ofícios – os mais vulgares, como os de alfaiate, sapateiro, marceneiro, carpinteiro, pedreiro, canteiro, ferreiro e pintor de casas, eram quase os únicos que exerciam os brasileiros, promiscuamente livres e escravos, trabalhando estes ao lado daqueles, prática já
262 Texto de Félix Ferreira presente no livro, Polyanthea Comemorativa de Inauguração das Aulas do Sexo
há muitos anos condenada pelo primeiro economista brasileiro na ordem cronológica, o ilustre Visconde de Cayrú, e que muito contribuía para a repugnância que os naturais do país sentiam pelas profissões mecânicas. Os mestres, na maior parte de nacionalidade portuguesa e alguns libertos, eram, em conhecimentos literários e artísticos, tão ignorantes como os operários.
Que produção esperar de tais produtores? – Os mais imperfeitos e desgraciosos, como bem o atestam os móveis e casas que a cada passo ainda se oferecem aos olhos do observador. Fácil é de comparar nas construções prediais a diferença, já não direi da concepção mas da execução, que vai entre o que nesse gênero se faz atualmente e que se fazia há um quarto do século passado.
A constituição da Sociedade Propagadora das Belas Artes, em uma época de tanto atraso artístico industrial, e quando por tal atraso, na autorizada opinião de Porto Alegre, não pudera o Brasil comparecer à Exposição Universal de Londres de 1850, era um grande passo dado para o progresso. Os seus estatutos equivalem para a nossa embrionária indústria, o que para o renascimento das artes na Itália equivaleu a fórmula da nomeação de Arnolpho di Lapo para arquiteto restaurador da bela catedral de Florença.
Ao instituir-se a Sociedade Propagadora, com a inscrição de 99 sócios, no dia 23 de Novembro de 1856, apresentou o fundador os estatutos que foram subseqüentemente aprovados, e ainda vigentes, nos quais em um dos seus artigos estabeleceu este programa:
1º Fundar e conservar um Liceu de Artes e Ofícios, em que proporcionasse a todos os indivíduos, nacionais e estrangeiros, o estudo das belas artes, não só como especialidade, mas também como aplicação necessária aos ofícios e indústrias, explicando-se os princípios científicos em que elas se embasam.
2º Publicar regularmente uma revista artística, a que adicionassem estampas originais ou cópias dos melhores trabalhos dos artistas neste império.
3º Criar uma biblioteca, especialmente artística, à disposição de quem quisesse consultar, pela forma que fosse determinada em regulamento interno.
4º Fazer sessões públicas, em que se lessem escritos sobre artes e indústrias e que se expusessem trabalhos dos alunos do Liceu e outros quaisquer artefatos artísticos e industriais.
5º Organizar exposições de belas artes e de artes industriais, com o fim de excitar o gosto público.
Não faltou, é verdade, então, como não faltaria hoje, apesar de mais de um quarto de século de adiantamento, quem duvidasse da permanência de uma associação de tal ordem e muito mais da realização do seu programa, grande não foi é certo o número dos que abraçaram a idéia com profunda fé, mas em compensação os poucos valiam muito pela dedicação e entusiasmo, e muito mais ainda o prestígio que lhes deu o eminente estadista Euzébio de Queiroz, aceitando a presidência da sociedade que por unanimidade lhe fora oferecida.
Quem conhece o valor moral e a consideração que gozava aquele ilustre brasileiro, pode bem avaliar a importância que desde logo adquiriu a Sociedade Propagadora das Belas Artes, pois não aceitariam a sua presidência espírito tão adiantado, não a colocaria sob a égide de seu grande prestígio paraninfo tão egrégio, se a nascente instituição não fosse uma idéia nobre e digna.
A inauguração solene da sociedade, a 20 de Janeiro de 1857, foi uma festa esplêndida, um jogo floral de poetas, artistas e amadores, em que se casaram os devaneios da poesia e os reptos de eloqüência à doçura do canto e as harmonias da música. Extraordinário concurso das pessoas mais distintas encheu de brilho o festival, que da imprensa mereceu os maiores elogios.
A 25 de Março do mesmo ano de 1857, saiu à luz da publicidade o primeiro número do Brazil Artístico, jornal da Sociedade Propagadora, que pouco tempo durou já pela carência de escritores especialistas, já pelo atraso das artes gráficas que no tocante à impressão deixava ainda muito a desejar.
A 9 de Janeiro de 1858 a Sociedade Propagadora das Belas Artes inaugurou, nas salas inacabadas do consistório da matriz do Sacramento, o Liceu de Artes e Ofícios; mas que regularmente só começaram regularmente dois meses depois.
De um livro que há quatorze anos foi publicado reunindo os artigos esparsos que escrevi a respeito do ensino profissional do Liceu, em 1869, seja-lhe permitido aqui repetir o seguinte:
O aparecimento de uma escola noturna de belas artes, com professores gratuitos, pareceu a muitos tão fora de propósito, que não só puseram em dúvida a eficácia de tal meio de ensino, como a duração da sua existência. E na verdade, em um país onde as idéias mais úteis não se realizam por falta de perseverança, e cujo povo prima pela inconstância, a criação
de uma escola desta natureza não era para melhores agouros; felizmente, falhando desta vez o horóscopo fatídico, o Liceu conseguiu não só vingar como até ir adiante incitando em outros novos cometimentos.
O Liceu de Artes e Ofícios não foi naquela época, compreendido por muitas pessoas, já não diremos ignorantes, mas até mesmo ilustradas. Uns julgavam ver em tão benemérito estabelecimento um inofensivo grêmio destinado a proporcionar algumas horas de mero passatempo aos curiosos, e outros pensavam ser aquela escola um simples êmulo, arremedo da Academia das Belas Artes.
O Liceu de Artes e Ofícios não é um estabelecimento de passatempo ou de artes meramente recreativas, nem tão pouco uma cópia da Academia das Belas Artes. Há entre uma e outra instituição grande diferença que cumpre estabelecer, para que se possa, discriminando esta daquela, aquilatar o valor intrínseco ao Liceu, de cujo progresso depende mesmo, mesmo em grande parte, do florescimento da Academia.
A Academia das Belas Artes é a escola superior do estudo da arte levada ao seu maior grau de perfeição, à supremacia das faculdades do entendimento como essência e como fim.
A pintura, a arquitetura e a estatuária ali, são ensinadas, desde os seus mais simples rudimentos até as mais prescindíveis regras da filosofia do belo, desde o mais insignificante traço até o mais aprimorado lavor.
O aprendizado da arte não é ali feito tão somente para exercício de uma profissão honesta e asseada, mas especialmente para o desempenho de um sacerdócio augusto e grandioso. Não basta, por isso, àqueles que se dedicam ao seu cultivo, habitualidade e boa vontade, é necessário ter talento, espírito elevado e sobre tudo vocação decidida.
O Liceu de Artes e Ofícios, ao contrário, é uma escola rudimentar das artes aplicadas às diferentes ramificações da industria fabril e manufatureira, ao trabalho indispensável à existência da sociedade civilizada.
A aritmética, a álgebra, a geometria, a química, a física, o desenho da figura, o de ornatos e o de maquinas, são ali ensinados com aplicação aos ofícios e às profissões industriais.
A aprendizagem das belas artes não ali feita para o exercício da mesma arte propriamente dita, mas para o aperfeiçoamento dos ofícios de carpinteiro, pedreiro, canteiro,
torneiro, ourives, estucador, marceneiro, etc., e das indústrias fabris de tapeçaria, louça, armas, papéis pintados etc.
Da Academia de Belas Artes saem os arquitetos dos edifícios monumentais, os pintores de painéis e os estatuários. Do Liceu de Artes e Ofícios saem os construtores navais e urbanos, os mestre carpinteiros e pedreiros, os desenhistas de fábricas, pintores de louça, gravadores em madeira, os fundidores e os modeladores em gesso, bronze e ferro.
A Academia das Belas Artes é a alta escola da aristocracia do talento; o Liceu de Artes e Ofícios é a útil oficina das inteligências modestas.
Discípulos da Academia foram: Ingres, o pintor; Christovão Wren, o arquiteto; Patrick, o estatuário, o estatuário; aprendizes do Liceu foram: Fromen Maurice, o cinzelador; Fourdinois, o marceneiro; Hekert, ceramista.
Em conseqüência de ter, em 27 de Novembro de 1858, a irmandade do SS. Sacramento requisitado da Sociedade a entrega das salas do consistório, onde funcionavam as aulas do Liceu e a abandonada Igreja de S. Joaquim.
Em 1 de Fevereiro de 1859, e na presença do ministro do Império, o conselheiro Sérgio Teixeira de Macedo, e de muitas pessoas gradas, instalou-se a escola em seu novo domicílio, onde começou a funcionar com grande número de alunos.
Em 1860, 61,62 e 63 que constituem os 3, 4, 5 e 6 anos do Liceu, trabalharam as suas aulas com toda a regularidade; não havendo, porém, como nos anos anteriores, exposição nem distribuição de prêmios, por falta de recursos pecuniários, que gradualmente escasseavam; a ponto de ser necessário para as mais pequenas despesas contribuírem do seu bolsinho particular o Diretor, Tesoureiro e até alguns Professores.
O Liceu de Artes e Ofícios que havia atravessado 6 anos com os mais limitados recursos, repartindo, em todo esse tempo,o pão da inteligência pelas classes operárias sem que para isso recebesse o menor auxílio do Estado, deixou em 1864 de abrir as aulas; não por faltar à sociedade precisa coragem para continuar na luta que sustentará contra as dificuldades,não por ir também escasseando os dignos professores o amor à artes nem a dedicação ao ensino, mas porque o então ministro do Império inesperadamente recusou algumas centenas de mil réis para contribuir as obras que ele mesmo autorizara a fazer-se no edifício da escola.
A interrupção das aulas do Liceu e as peripécias por que passou a Sociedade Propagadora de Belas Artes, de 1864 até conseguir reabrir a sua escola, é uma história curiosa e triste que aqui cumpre registrar.
Por vezes havia a imprensa a diária e os mais interessados na prosperidade do Liceu, chamado a atenção do governo para este estabelecimento de instrução popular, sem que nada tivesse conseguido, até que em 1863 o Marquez de Olinda, presidente do conselho de ministros e encarregado da pasta do Império, visitando afinal esta escola ficou tão satisfeito, que autorizou o conselheiro Pacheco, então reitor do Colégio D. Pedro II, a mandar fazer as obras precisas para a aquisição de maior espaço.
Contratou-se com efeito por pouco mais que três contos a construção de um segundo pavimento no corpo da igreja; mas como para isso fosse preciso arrancar as divisões de madeira que existiam feitas, para separação das aulas, o encerramento e os lampiões de gás, mandados colocar gratuitamente pelo benemérito Visconde de Maúa, não tendo-se determinado no contrato a reposição desses acessórios em seus respectivos lugares, o empreiteiro como era de razão não o fez; assim pois, ganhando a escola mais um andar ficou sem luz e sem as necessárias divisões.
Recorreu-se então o Diretor do Liceu ao ministro para mandar concluir as obras, mas teve em resposta que a verba – eventuais – estava esgotada.
Ao Ministro Olinda sucedeu o do conselheiro Zacarias, encarregando-se então da pasta do Império o conselheiro José Bonifácio, que posto escrevesse em seu relatório algumas palavras com respeito ao Liceu, não menos honrosas que as do seu antecessor, não adiantou mais do que este.
Em agosto de 1864 substituindo, porém o conselheiro Liberato Barroso a José Bonifácio, de novo pediu a Sociedade Propagadora de Belas Artes às câmaras uma subvenção de 3000$ anuais que afinal foi concedida para o exercício de 1865-1866.
Mas fadada porém, andava a popular escola. Ao ministério Furtado, sucedeu novamente o do marquês de Olinda, que se encarregando ainda da pasta do império, negou-se a fazer efetivo o subsídio autorizado pelas câmaras, a pretexto de que o país estava a braços com a guerra.
Diante de tão formal recusa, não restava à Sociedade Propagadora senão esperar por tempos mais propícios, ou antes por ministro menos econômico , de que esse que não queria
exaurir o Tesouro com o pagamento de 3000$ por ano, correndo assim o risco de não poder fazer face às despesas da guerra !
Cansado de uma luta estéril, a diretoria da Sociedade resolveu consultar a opinião da Assembléia Geral , que , convocada a 22 de Fevereiro de 1867, reuni-se em número de 20 sócios apenas.
Exposta a causa da reunião pelo vice-presidente o Sr. Dr. Jacy Monteiro, depois de um prolongado debate, quem que se chegou a aventar a idéia de dissolver a Sociedade, resolveu- se finalmente recorrer ainda mais uma vez ao governo a ver se conseguiam o pagamento do autorizado subsídio.
Ao ministério Olinda sucedera novamente o do conselheiro Zacarias, do qual fazia parte como ministro do Império o conselheiro Fernandes Torres; de quem a Sociedade solicitando a efetividade do subsídio pôde obtê-lo.
De posse afinal dos primeiros 3000$ tratou-se logo de concluir as obras e comprar os modelos, duzentos e mais objetos necessários; reabrindo-se, em Setembro desse mesmo ano, as aulas de aritmética, álgebra, música, desenho de figura, de máquinas, de arquitetura e geométrico.
Com o pagamento do subsídio parecia ter-se enfim consolidado a permanência do Liceu, quando, ao tempo que se ultimavam as obras de um acontecimento imprevisto esteve a ponto de aniquilá-lo e desta vez, para sempre.
A irmandade de N.S. da Batalha, que tem o seu culto na matriz de Sant`Anna, dirigiu uma petição ao governo imperial, pedindo a posso da antiga igreja de S. Joaquim que,
segundo uma informação do vigário Capitular “estava servindo de oficina de pintura e carpintaria”.
O Conselheiro Fernandes Torres, que ignorava em parte o valor real do Liceu, para o qual aliás acabava de fazer uma grande favor, mostrava-se inclinado a ceder às pretensões daquela Irmandade, quando o Sr. Dr. Jacy Monteiro, então empregado da secretaria do Império, obteve do ministro que antes de resolver uma questão de tanta magnitude mandasse ouvir a Sociedade Propagadora das Belas Artes.
Enquanto porém andavam os papéis da Irmandade na longa peregrinação dos – informe-se – a que são condenadas pelo nosso sistema burocrático os mais insignificantes
questiúnculas, o Liceu abrindo suas aulas, como já disse, a 21 de Setembro de 1867, deu causa a que a ilustrada redação do Jornal do Comércio escrevesse por essa ocasião:
“ ... os serviços que o Liceu tem prestado, e pode prestar ainda, e a dedicação com que
os professores se prestam a lecionar gratuitamente, tornam este instituição digna da proteção do governo, que o menos que por ela pode fazer e continuar a dar-lhe o edifício acomodado aos trabalhos, mesmo porque já agora recusá-los seria converter em pura perda algum
dinheiro da nação com que por vezes o tem auxiliado.”
Estas palavras despertando-se a atenção pública, chamou também a de S. M. o Imperador que nessa mesma noite apresentou-se ao Liceu, visitando com grande interesse as aulas, louvando seus professores, e garantindo-lhes, na pessoa do então 1° secretário Quirino Antonio Vieira, que a posse da casa seria mantida à Sociedade enquanto para ela não houvesse um edifício próprio e convenientemente adaptado ao ensino noturno; e assim se cumpriu.
Depois de alguns anos de exercício, sempre como crescente e admirável prosperidade, resolveu o Governo Imperial amparar essa benemérita escola, propondo em 1865 à Assembléia um subsídio, o qual só veio a realizar-se em 1866, e ainda assim, com a diminuta quantia de 3000$000.
Não obstante a insuficiência da soma, com que o Estado auxiliava os recursos da associação, o influxo do seu emprego manifestou-se imediatamente por melhoramentos que aumentaram bastante o número da matricula dos alunos. A escola firmou-se e desde então foi prosperando.
A partir de 1868 a vida do Liceu foi mais desassombrada; a munificência imperial distinguiu por vezes alguns de seus professores e benfeitores, o Sr. Conselheiro Paulino José Soares de Souza, ministro do império no Gabinete Itaboraí, conseguiu das câmaras duplicar a subvenção anual, à quantia de 6000$000; outros auxílios prestou ainda o ilustre estadista a este estabelecimento e de tão boa vontade, que ao sair do ministério recebeu a primeira manifestação pública que fez o respectivo professorado, levando-lhe o retrato belamente litografado e o diploma de benemérito.
Digno sucessor do Sr. Conselheiro Paulino de Souza, o Sr. Conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira não se mostrou menos apreciador da instituição, obtendo dos poderes legislativo o aumento de subvenção a 10 000$, e autorizando, por meio de donativos que
promoveu e pela verba eventuais do ministério, a aquisição de um gabinete de física e um laboratório de química com os quais se completou o ensino científico do estabelecimento, já