e Social
Devido à rotina alucinante e o ritmo acelerado, deste mundo hiperconectado, parece que estamos assistindo ao esfacelamento dos hábitos cotidianos tradicionais, como por exemplo, uma leitura calma e tranquila do seu jornal impresso durante o café da manhã à mesa com a família reunida. Ou, quem sabe, “jogar conversa fora” na calçada ou no portão de casa com os vizinhos? É, tudo isto ecoa estranho aos nossos ouvidos porque são sons quase impronunciáveis, considerados até mesmo arcaicos, mas, ainda, com um delicioso gosto de saudade e afeto. Por isso, consideramos necessário alertar que
Nossa civilização está doente da velocidade. A tomada de consciência da corrida louca, do risco de arrebatamento é urgente. É preciso frear, diminuir a marcha, a fim de fazer chegar um outro devir. Doravante é necessário considerar a regulação internacional do crescimento e da competição econômicos, e promulgar normas de vida que comportem os direitos do tempo humano. (MORIN, 1995, p.155)
Na verdade, não queremos mostrar a nova sociedade de forma fatalista, mas chamar a atenção para o ritmo veloz dessa sociedade e que isso gera o isolamento. Afinal, não queremos retroceder, mas precisamos algumas vezes "desligar a tomada", tirar o pé do acelerador da vida diária e olhar para o lado, para cima, em todas as direções, para recarregar nossas forças e voltarmos bem mais revigorados para nossa rotina.
O sentido da vida e a reconstrução do homem passam pela informação, num processo contínuo de aprendizagem, hoje, favorecido pelas novas tecnologias de informação. Informar e ser informado para não só reconstruir um novo homem, mas também contribuir na construção de um mundo melhor.
A nova sociedade da informação aponta significativas mudanças em todo o cenário mundial. Assistimos à integração econômica e política entre os continentes e à formação de um mundo dito sem fronteiras. Mas, contraditoriamente, as desigualdades e a exclusão social são visíveis. Percebemos, ainda, uma força
dominante no sistema capitalista, que vem dos países ricos, detentores de poder, comandantes das vias do sistema mundial;
A conexão da humanidade consigo mesma, cujos tremores e sobressaltos dolorosos experimentamos atualmente, não acarreta, portanto, automaticamente, mais igualdade entre os homens. Mas, de preferência, a opor-se a um movimento tecno-social irreversível, de longa duração e provavelmente inscrito no destino da espécie, convém acompanhá-lo para orientá-lo, no sentido mais favorável aos grandes princípios humanistas de liberdade, de igualdade e de fraternidade. (LÉVY, 2000, p.204)
Devido às evoluções científicas e tecnológicas, a sociedade capitalista induz novas formas de comportamento dos indivíduos. Como afirma Lévy (2000), quanto mais um regime político, uma cultura, uma forma econômica ou um estilo de organização tem afinidades com a intensificação das interconexões, melhor ele sobreviverá e resplandecerá no ambiente contemporâneo, porque o importante é o poder da comunicabilidade e não a resistência a culturas diferentes.
Evidentemente, com isso o que afirmamos
[...] Não é que todos seres humanos devam, sem condições, “abrir- se” e dissolver as suas fronteiras para sobreviver. Pretendo apenas indicar que a melhor forma de manter e desenvolver uma coletividade não é mais construir, manter ou ampliar fronteiras, mas alimentar a abundância e melhorar a qualidade das relações em seu próprio seio, bem como com outras coletividades. O poder e a identidade de um grupo dependem mais da qualidade e da intensidade da sua conexão consigo mesmo do que da sua resistência em comunicar-se com o meio. Para empregar uma metáfora zoológica, a interconexão dos neurônios sendo mais importante do que a espessura da pele, o homem domina o rinoceronte. (LÉVY, 2000, p.202)
Concordando com o autor, acreditamos que “o fenômeno de interconexão em curso reforça naturalmente a centralidade ─ logo, o poder ─, um dos centros intelectuais, econômicos e políticos já estabelecidos” (LÉVY, 2000, p.205). Por outro lado, não é só exclusão a marca da nova sociedade.
Ora, a internet é um fenômeno comercial e, na sociedade hodierna, apresenta-se como fenômeno social e político; por isso exige uma complexidade na
análise da sua atividade, que vá além dos atributos positivos e negativos para atingir uma compreensão maior deste fenômeno, no que se refere ao desenvolvimento participativo e à melhor qualidade de vida para toda a sociedade. Além disso, convém lembrar que a internet é uma atividade intrinsecamente ligada aos processos comunicacionais e informacionais.
Para Rosnay (2000, p. 219), as características do novo espaço econômico, social e cultural imaterial chamado “ciberespaço” não se enquadram nas análises racionalizadoras do antigo modelo de sociedade industrializada, pois esta se caracteriza pela centralização dos meios de produção, pela distribuição em massa de objetos padronizados, pela especialização das tarefas e pelo controle hierárquico destas.
A sociedade informacional, por seu lado, “organiza-se antes em redes do que em pirâmides de poder; em células independentes mais do que em engrenagens hierárquicas; mais num ‘ecossistema informacional’ do que em fileiras industriais lineares.” (ROSNAY, 2000, p. 217).
Logo adiante, afirma que
O século XXI será da complexidade. Doravante, duas culturas existem portanto entre as autoridades. Assim, uma nova divisão cultural surge, com freqüência mais definida do que as tradicionais separações políticas. E não se trata somente de um fosso entre gerações, mas de uma nova abordagem da complexidade e do meio imaterial. Estamos atualmente num ecossistema “informacional”, no qual os Estados, as grandes instituições e as empresas cooperam ou concorrem (cooperação-- competição). Diferença cultural exemplificada pelo desenvolvimento da nova economia de redes. (ROSNAY, 2000, p.219)
Vê-se que Rosnay (2000) defende a transição entre as sociedades industrial e “informacional”, encontrando-se esta totalmente voltada à alternativa de prosseguir o exercício (por vezes solitário) da inteligência eletiva ou de favorecer a prática solidária da inteligência coletiva.
Além disso, acredita que o desenvolvimento das novas tecnologias de informação, principalmente com o crescimento acelerado da internet, passará por fluxos elevados, estimulando a interatividade nos campos da educação, da informação ou do lazer. “O salto do milênio está apenas começando. Compreender o
universo imaterial e a emergência da pessoa consiste numa dimensão profunda e significativa do ‘informacional’” (Rosnay, 2000, p.218). (Grifo nosso).