5 Results and discussion
5.3 Thermal annealing of tail end samples
5.3.8 Discussion across seed and tail end sample sets
O discurso gerencial vem travestido de uma emocionalidade que pretenderia atingir e sacudir os “corações das pessoas”. Os recursos utilizados serviriam para acionar a emoção e cada vez os estímulos precisariam ser mais fortes para poderem dar resultado.
Percebeu-se em uma das empresas pesquisadas a adoção do tema do filme brasileiro “Tropa de Elite”, dirigido por José Padilha, cujo enredo baseia-se na atuação do BOPE (Batalhão de Operações da Polícia Especial) nas favelas do Rio de Janeiro para controlar e combater o tráfico, serviria para colocar as emoções à flor da pele dos vendedores reunidos para a convenção anual de vendas. O lema “missão dada é missão cumprida” do BOPE seria adotado por todos os funcionários e aclamado com um grito de guerra a cada intervalo ao longo do dia. Todos receberiam camisetas com o “logo” do BOPE e o diretor comercial representaria o personagem Roberto Nascimento, que no filme é encenado pelo ator Wagner Moura. Segundo um informante, “no final do dia os caras estavam a mil”. A empresa mostraria o que esperava da equipe: cumprir a única missão que é a de vender.
Em outra empresa pesquisada a “estratégia emocional” foi convidar a esposa e os três filhos do vendedor campeão anual de vendas de 2007 para entregar-lhe o
prêmio, que era uma passagem para duas pessoas com 10 dias de hospedagem em Cancun, no México. A empresa patrocinou a ida da família de Porto Alegre para São Paulo, além de colocar à disposição da esposa uma manicura e um cabeleireiro no hotel. A família nunca havia viajado de avião. Como era uma surpresa para o funcionário, mantiveram-se escondidos durante o dia para à noite serem chamados a entregar o “Oscar de vendas” para o marido e pai. A emoção tomou conta da família e dos participantes. A filmagem do evento incluiu cenas de pessoas chorando, emocionadas.
Essas estratégias empresariais serviriam para criar um tipo especial de pertencimento à empresa, que passaria a ser “adorada” por todos os membros da família do funcionário. O valor “intangível” de ações dessa natureza poderia servir para motivar, também, aqueles vendedores que ainda não venceram e poderiam vislumbrar para si uma situação semelhante.
Essa possibilidade de sonhar com um prêmio seria uma maneira de a empresa estimular nos seus vendedores a competência “resiliência”, estimulando-o a suportar frustrações sem perder a força, prosseguindo na busca do “seu” objetivo.
Nota-se que as empresas estariam aumentando a dose de recursos diários para acionar a emoção das suas equipes. Conforme relato de alguns informantes:
Nosso gerente fala sempre com a equipe antes do grito de guerra. Às vezes ele dá uma “mijada” em todo mundo. Aí a gente se reúne, dá um grito bem forte e depois sentimos muita união na equipe (Vendedor).
Quando atingimos uma meta a gente toca o sino e toda a empresa fica sabendo que estamos ganhando. O pessoal das outras áreas fica com ciúmes, pois apenas o comercial que comemora. Nós carregamos a empresa nas costas (Vendedor).
Às vezes só de dar uma olhadinha rápida para o mural da sala e ver a foto do meu filho no jornalzinho, já me sinto melhor. [referindo-se a um jornal interno onde são publicadas as fotos dos aniversariantes filhos dos funcionários] (Assistente Comercial).
Por outro lado, observa-se que alguns funcionários não demonstram aderir às estratégias. Costumam ser desqualificados pelo discurso gerencial como pessoas que “só reclamam, mas que não fazem nada para melhorar”. Esse seria o discurso hegemônico dos gerentes. Referem-se a um estilo de funcionário que “ousaria” não concordar com o que a empresa adota como estratégia de gestão. Uma gerente de
loja argumenta que os funcionários “não precisam de ‘lembrancinha’ na páscoa. A gente precisa de estímulo, de ajuda para pagar a faculdade”.
Constata-se que essas estratégias que envolvem o estímulo à emoção do funcionário necessitariam ser cada vez mais criativas. As datas comemorativas como aniversários teriam um significado diferenciado. Um informante ao receber um “kit aniversário” composto por balão, uma “língua de sogra” [tipo de chocolate] e uma camiseta com a frase: “Parabéns. Comemore esse dia’”, comentou: “Achei ridículo e não vesti a camiseta.” O funcionário deveria passar o dia do seu aniversário com a camiseta vestida e ao ser identificado pelos colegas seria cumprimentado. Assim como a “inexorabilidade da mudança”, não aderir a essas ações seria fatal.
Em outra empresa pesquisada, a área de Recursos Humanos entregaria uma “raspadinha” para o aniversariante. Um informante do setor relata: “o pessoal adora e se diverte”. Por outro lado um informante que teria sido beneficiado com o presente comenta: “Tem ‘raspadinha’ para o aniversariante, você pode ganhar um ingresso de cinema. Por acaso eu vou para o cinema sozinho sem a minha mulher?” Outro informante relata: “Eles acham que enganam a gente. Só tem ‘kit guloseima’ na ‘raspadinha’”.
Nota-se que ao serem considerados pelas empresas como pessoas que precisariam estar constantemente sendo presenteadas para trabalharem felizes, os funcionários poderiam lidar com as suas atividades cotidianas de forma previsível.
As demandas vindas do gerente que representariam as demandas da diretoria seriam o elo que liga e dá suporte à corrente do estresse e do trabalho repetitivo que exige aderência, conforme observado em uma visita de campo: a “dinâmica de grupo” é realizada, semanalmente, para integrar a equipe de 25 gerentes de loja. Uma psicóloga solicita a cada um que traga um objeto de valor estimativo para o próximo encontro, quando cada um deve explicar o porquê da escolha. Os objetos são fotos, bichos de pelúcia, CD, lápis, chaveiro, porta-retrato, trecho de poesia, entre outros. O segundo momento do trabalho é escolher um membro do grupo e entregar-lhe o objeto, que deve permanecer sob seus cuidados por uma semana. Uma participante não aderiu à prática, recusando-se a participar. A decisão da psicóloga foi cancelar a atividade. Uma informante analisa a atitude da sua colega considerando que “parece que ela está se separando e está cheia de problemas em casa. Além do que ela é bem chata mesmo, sempre do contra”.
Verifica-se que a aderência seria obrigatória e faria parte dos valores da empresa. A necessidade de aceitar as proposições da área de Recursos Humanos, no que se refere ao desenvolvimento e capacitação dos funcionários, estaria subentendida. “Aderir”, mesmo que aparentemente indicaria, também, ser aceito.