4. Valuation Setup
4.4 The Discount Rate
Conforme foi anteriormente mencionado, nesta oportunidade, são apresentados os modelos dos valores que têm sido identificados como adotando uma perspectiva cultural, isto é, são modelos que têm como referência as pontuações médias das culturas nacionais, geralmente países, procurando conhecer ou testar determinada estrutura teórica ou dimensões valorativas. Como não poderia deixar de ser, inicia-se este tópico com o modelo de Geert Hofstede, que é, seguramente, um marco obrigatório, representando a maioria daqueles que têm assumido esta perspectiva.
2.1.1. Valores Culturais de Hofstede
Nesta perspectiva, os valores são considerados representações de necessidades construídas socialmente na realidade, e são estabelecidas sob o reflexo de normas sociais e institucionais vigentes (Mangabeira, 2002).
Hofstede (1984) analisa as prioridades valorativas, levando em consideração a cultura em que as pessoas estão inseridas. Em termos amplos, este autor define a cultura como sendo o “programa mental” que guia os indivíduos nas suas interações cotidianas. Portanto, sua proposição aponta para a cultura como um fenômeno coletivo, determinando padrões ou “programas mentais” para as pessoas, instruindo-as acerca de pensamentos, sentimentos e ações que, parcialmente, determinam os comportamentos socializados (Hofstede, 1984, 1991).
Em meados da década de 1980, Hofstede (1984) reconhece uma estrutura unidimensional que expressaria a (in)dependência emocional de grupos, organizações e outras coletividades. Gouveia, Andrade, Jesus, Meira, e Soares (2002) apontam que, no
56 seu estudo original, Hofstede considerou 100.000 empregados de uma grande multinacional estadunidense, os quais responderam a um questionário que incluía quatorze metas do trabalho. Neste sentido, Hofstede identificou quatro dimensões de valores culturais: (1) Distância de poder: medida do quanto os subordinados replicam frente ao poder e a autoridade; é uma medida de aceitação ou não da hierarquia; (2) Coletivismo vs. Individualismo: Dimensão que gerou maior quantidade de pesquisas. Esta medida indica o quanto as pessoas de uma sociedade se sentem responsáveis pelos outros ou independentes das outras pessoas; (3) Masculinidade vs. Feminilidade: indicando, no caso de masculinidade, se é materialista, dando ênfase a benefícios próprios, ou, no caso de feminilidade, se é mais centrada nas relações, ou seja, nas interações com outras pessoas; e (4) Evitação da incerteza: medindo o grau de ansiedade e preocupação das pessoas frente a situações inesperadas ou incertas.
Apesar do grande sucesso inicial, o modelo acima apresentado recebeu algumas críticas. Gouveia (2006) afirma que dois foram os motivos pelos quais o modelo em questão se revelou inadequado: por um lado, Hofstede dava a entender que com o desenvolvimento econômico as sociedades passariam a ser individualistas, portanto, abandonando o estilo de vida coletivista. Fato que é contestado, tendo-se em conta que as sociedades contemporâneas misturam elementos coletivistas e individualistas. Por outro lado, o modelo não levava em conta dados que consideravam o coletivismo e o individualismo como fatores legítimos e independentes.
Outro modelo, que será apresentado no próximo tópico, de cunho cultural e de grande repercussão, é o de Inglehart. Este autor parte da concepção de hierarquia de necessidades de Maslow (1954), desenvolvendo a teoria dos valores políticos, que pressupõe uma dimensão bipolar ou dois fatores: materialismo e pós-materialismo, cuja
57 emergência estará ligada à satisfação das necessidades de bem-estar econômico seguida das de autorealização.
2.1.2. Valores materialistas e pós-materialistas de Inglehart
Inglehart, nas ciências sociais e políticas, é o grande destaque no estudo dos valores (Gouveia, 1998). Este autor, partindo da teoria da hierarquia das necessidades de Maslow, numa tentativa de definir a origem dos valores, elabora um modelo teórico que se propõe a considerar os aspectos sociais e culturais dos valores. Neste modelo, Inglehart (1977) define duas dimensões por meio das quais tenta identificar as mudanças geracionais e comparar culturas nacionais: materialismo e pós-materialismo. A primeira diz respeito a valores materiais (satisfação de necessidades mais básicas e de segurança), enquanto a segunda dimensão versa acerca dos valores espirituais (que se originam a partir da satisfação materialista).
Segundo Inglehart (1991), o materialismo é o padrão valorativo que prevalece nas sociedades em que não são satisfeitas as necessidades de segurança (física e econômica). Enquanto que, nas sociedades mais industrializadas e com mais recursos financeiros, o padrão mais dominante é o pós-materialista. Portanto, somente nas sociedades com elevado grau de desenvolvimento cultural e social-econômico, é possível o surgimento de um novo conjunto de valores. Não obstante, estes padrões nem sempre condizem com a realidade; não é raro pessoas ou países com boas condições financeiras permanecerem priorizando valores materialistas.
A explicação desse fato é, para Inglehart (1991), baseada em duas premissas: a primeira é o fato de que as prioridades valorativas básicas são delimitadas pela hipótese da escassez, ou seja, as pessoas valorizam o que mais necessitam; enquanto que a segunda se deve ao processo de socialização pelo qual passam as pessoas, sendo
58 necessária atenção para o contexto em que as pessoas foram socializadas no início de sua vida (infância e adolescência). Por exemplo, algumas pessoas que cresceram num contexto de escassez, por exemplo, durante uma grande seca ou enchente, podem seguir dando grande importância à segurança física e/ou econômica, mesmo já resguardado o suprimento dessas necessidades.
Ainda de acordo com este autor, depois de empregar a análise dos componentes principais, chegou-se à conclusão de que os valores agrupavam-se numa estrutura bipolar, em que os valores materialistas estariam no pólo positivo, enquanto os pós- materialistas estariam no pólo contrário. De acordo com Gouveia (1998), esta estrutura transcultural de valores existe; não obstante, ele pondera que o que não se sustenta é a hipótese de que as orientações materialistas e pós-materialistas sejam, estruturalmente, sequenciadas em pólos opostos. Segundo este autor, em vários países, estas dimensões se confundem e se combinam, e não seria adequado tratar os valores num modelo dicotômico.
Resumidamente, foram expostos os dois modelos teóricos dos valores humanos em nível cultural, que não serão considerados para a presente dissertação. A seguir, apresentam-se os modelos valorativos a nível individual, iniciando a exposição por aquele que propõe Rokeach, seguido pelo de Schwartz e, finalmente, o de Gouveia.