2. The Research Field
2.1 Traditions of the European University
2.1.2. Disciplines, Doctorates, and the Academic Community
A integralidade, mencionada pela Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa e pelo Relatório de Gestão Municipal de Fortaleza de 2005, é um dos princípios doutrinários do SUS, juntamente com a universalidade e a equidade, que norteiam a organização e a gestão dos sistemas de saúde, sendo entendida como o conjunto articulado e contínuo das ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema (BRASIL, 1990a).
De acordo com Cecílio e Merhy (2003), o cuidado integral em saúde ocorre em uma combinação generosa e flexível de tecnologias duras, leve-duras e leves; “tecnologia” e “humanização” combinadas, no desafio de adotar o lugar do paciente e suas necessidades singulares como ponto de partida para qualquer intervenção. A integralidade do cuidado que cada pessoa necessita frequentemente transversaliza todo o sistema. Não haveria integralidade sem esta possibilidade de transversalidade. A integralidade do cuidado só poderia, ainda, ser obtida em rede.
A linha de cuidado é definida pela Agência Nacional de Saúde (ANS) como o conjunto de saberes, tecnologias e recursos necessários ao enfrentamento de determinados riscos, agravos ou condições específicas do ciclo de vida, a serem ofertados de forma oportuna, articulada e contínua pelo sistema de saúde, entendendo a sua implementação como estratégia central da organização e qualificação das redes de atenção à saúde, com vistas à integralidade da atenção (BRAGA, 2006).
Sobre a linha de cuidado é referido ainda, o fato de:
Implica um redirecionamento do processo de trabalho, no qual o bom funcionamento da equipe de trabalho é um de seus fundamentos mais importantes. Constituída assim, em sintonia com o universo dos usuários, esta linha tem como pressuposto o princípio constitucional da intersetorialidade e, por seu potencial de resolutividade, possibilita o surgimento de laços de confiança e vínculo, indispensáveis para melhorar a qualidade dos serviços de saúde e aprofundar a humanização das práticas (PUCCA Jr., 2006, p. 243).
Andrade (2008) traz a concepção de linha de cuidado como o percurso do cuidado que transversaliza as redes assistenciais de saúde e as redes de serviços, no modelo do Sistema de Saúde-Escola, operacionalizando a integralidade, com o objetivo de garantir a continuidade do cuidado em saúde. Na figura 3, Andrade (2006) nos mostra como a linha de cuidado costura as RAs do Município.
Figura 3 - Espiral da complexidade da linha de cuidado do idoso e matriciamento nas redes assistenciais
Fonte: ANDRADE; BARRETO; BEZERRA, 2006.
Observamos o surgimento de duas concepções de linha de cuidado, uma com dimensão mais estática, que descreve os seus princípios, características e finalidades, e outra dimensão, dinâmica, a qual delineia o movimento que o usuário faz ao receber os cuidados, de forma linear e contínua nos serviços de saúde de Fortaleza, sem contraposições, mas complementaridades. Logo, entendemos linha de cuidado como o cuidado, este com o seu saber científico e tecnológico, destinado ao indivíduo direcionado ao momento em que ele se encontra no ciclo de vida, portando um agravo à saúde ou não, de forma contínua e articulada entre as diferentes redes assistenciais de saúde e rede de serviços e seus respectivos níveis de atenção.
Observamos ainda autores que acreditam numa visão de cuidado transpondo a cura, ou seja, uma concepção ampliada de cuidado. Leonardo Boff (1999) trata de uma dimensão ontológica do cuidado, de ser, além de um ato, uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro; e que o cuidado deve ser entendido na linha da essência humana, devendo estar presente em tudo, ou seja, é um fenômeno que é a base possibilitadora da existência humana.
De acordo com Malta et al.(2004), para aprofundar questões que envolvem a linha de cuidado, mecanismo adequado para a análise do usuário no seu percurso assistencial, devemos abordar inicialmente o trabalho em saúde, a relação que ocorre no cotidiano envolvendo usuários e produtores de serviços, as disputas colocadas, as tensões, e, dessa forma, buscar elementos que revelem com maior clareza a assistência prestada, as interações ocorridas entre o usuário, o prestador e a operadora. Neste estudo, priorizamos a abordagem do profissional, em posição da gestão no serviço de saúde, construtor, no seu dia-a-dia de trabalho, do cuidado destinado à população idosa de Fortaleza, nas cinco redes assistenciais de saúde e redes de serviços de Fortaleza.
Ao caracterizar as linhas de cuidado da pessoa idosa nas redes assistenciais de saúde em Fortaleza, teremos informações essenciais para a produção de inteligência epidemiológica (IE) e, posteriormente, inteligência da gestão (IG) para a tomada de decisão, passos indispensáveis para uma gestão voltada para a integralidade da atenção à saúde. As informações apreendidas por meio do estudo em questão constituir-se-ão em instrumento da gestão a ser utilizado por outros municípios do Estado do Ceará, trazendo qualidade organizacional e administrativa para estes, além de um modelo assistencial focado na atenção integral à saúde.
A apresentação da linha de cuidado do idoso nas redes assistenciais de Fortaleza clarificará o processo de cuidado destinado ao idoso no Município, com suas peculiaridades e desnivelamentos, auxiliando nas tomadas de decisões nas rotinas diárias dos serviços de saúde, direcionando a atenção ao idoso nestes espaços. As suas características serão instrumento essencial para o aprimoramento da linha de cuidado do idoso no contexto local, contribuindo para uma atenção integral à população idosa, reduzindo os fatores associados às morbidades que acometem esta população.
A compreensão da linha de cuidado do idoso nos permite ainda avaliar o desempenho das redes assistenciais e do sistema de saúde no que diz respeito ao cuidado prestado aos idosos de Fortaleza, uma vez que nos revela informações sobre o funcionamento
dos serviços de saúde para os usuários idosos, bem como seus pontos positivos, deficitários, e o que ainda está em elaboração.