6. The Analysis of the Theses
6.2. Blocks of Assemblage
6.2.2. Block 2: The Process. Research Methods
Como foi dito, a produção impressa laboratorial na UFC teve início após a Resolução 3/78 do Conselho Federal de Educação (que aconselhava os cursos a criarem um órgão laboratorial de produção jornalística como ferramenta de ensino prático). Paralelamente, na UFC, começava o movimento que culminou no lançamento do primeiro jornal-laboratório do curso de Comunicação Social, que, de acordo com o jornalista Nilton Almeida, vinha dentro de um contexto e um discurso políticos.
Vale ressaltar o que lembra José Marques de Melo, citado por Dirceu Lopes (1989, p. 34), ao dizer que os laboratórios devem ser entendidos como espaços de aprendizagem e de pesquisa e não como complementos da estrutura burocrática que em muitos casos os têm administrado de forma distorcida, em núcleos de produção industrial de noticiais. De certa forma, a procura é por uma estrutura própria, um organismo independente, quase um ser vivo dentro da própria cadeia de faculdade. Como a própria faculdade não oferecia um espaço “vivo”, os estudantes tomaram a iniciativa, que começou de forma bem mais livre e política do que muitos, que nascem dentro da estrutura burocrática ventilada por Marques de Melo.
Com um grupo formado exclusivamente por estudantes do curso, o grupo Calo foi responsável por tornar possível a produção do primeiro jornal-laboratório da UFC, mesmo que não sendo ligado a professores-orientadores ou disciplinas. À época, não havia uma publicação regular no curso, que servisse de modelo prático de exercício jornalístico. Diante da situação, o grupo se reuniu e formou „O Calo‟, o projeto pioneiro do curso. A situação de relativo descaso (pela falta de um jornal-laboratório) serviu de estímulo para os estudantes, que, segundo Nilton, não tinham nem tempo para frustração. Nascendo de uma vontade de “dizer que existíamos, contribuir de alguma
forma para melhoria do curso”, „O Calo‟ se configurou como símbolo da luta pela criação do jornal-laboratório – o verdadeiro objetivo do grupo de estudantes.
Tendo participado de jornais-laboratório quase completamente produzidos por alunos, Nilton Almeida destaca que os professores tinham um envolvimento mínimo no material. De acordo com o jornalista, os únicos momentos em que os professores orientavam, diretamente, os estudantes era em caso de “alguma matéria mais forte, que mexia na mentalidade conservadora dos dirigentes da universidade”. Além de transparecer um descaso do curso, a fala de Nilton transparece a relação com a direção da universidade (reitoria), que, apesar de não trazer – à época – um apoio às publicações, influenciava no material impresso, o que resultava nessa “negociação” que envolvia professores.
Nilton Almeida esclarece que as insatisfações com a reitoria, embora não fossem expostas claramente, eram classificadas como uma “censura”. O que havia de concreto, de acordo com o jornalista, eram os atrasos na impressão do jornal – responsabilidade da própria universidade –, sempre justificadas por problemas técnicos. Os atrasos, até hoje recorrentes na impressão dos jornais, afetam num dos pontos centrais da experiência jornalística: a novidade. Uma matéria produzida em, digamos, novembro e impressa imediatamente pode perder grande parte do seu impacto ao chegar ao público somente um mês (ou até vários meses) depois. O caráter chamado em jornalismo de “quente” é perdido, com a matéria se esfriando e sendo prejudicada no interesse do público.
Antes de produzir um material próprio, o contato direto com algo físico, algo produzido em jornalismo, era restrito a gráficas e oficinas nos jornais, o que, de acordo com Nilton Almeida, só acontecia em virtude da amizade de alguns estudantes com profissionais de jornais como O Povo e Tribuna do Ceará.
A ideia encabeçada pelos estudantes vislumbrava dar vazão às ideias e impulsos criativos dos mesmos, numa cobaia para as experiências profissionais – conceito básico aplicado aos jornais-laboratórios. Diante da inércia apontada por Nilton, coube aos alunos tomarem a iniciativa (adotada posteriormente como parte integrante do curso através do jornal Comunicação).
Os conceitos que permeavam a prática em O Calo eram muito políticos – com a reivindicação do que deveria ser oferecido aos alunos, apoiado num discurso de “atuação política”, segundo Nilton Almeida –, o que era reflexo no próprio engajamento dos estudantes numa luta que era, acima de tudo, política. O jornalista aponta também o
objetivo de elevar o jornal-laboratório a uma “responsabilidade pedagógica da universidade”, lembrando que o disciplina em si veio apenas depois da criação de seu protótipo de produto.
A iniciativa trouxe frutos, que se refletem em alguns aspectos da universidade que sofreram certa evolução, segundo conta o jornalista Nilton Almeida:
os alunos passaram a ser mais respeitados em suas reivindicações, a mobilização do curso avançou e o diálogo professor-aluno deixou de ser travado apenas na “aula”, mas também na tarefa de se obter um resultado ou produto concreto das atividades pedagógicas;
A partir do reconhecimento, de acordo com Nilton, se seguiu uma evolução gradual através da “adoção” de O Calo pelo curso. O processo começou com o envolvimento do professor Geraldo Jesuíno – que se responsabilizou pela programação visual e montagem do jornal –, pela instituição da Imprensa Universitária como órgão responsável pela impressão do jornal e da criação de um conselho universitário, encabeçado pelo chamado “grupo do Calo” e com representantes de todas as turmas do curso.
No total, O Calo durou cinco edições, entre 1978 e 1979, tendo seu projeto abandonado após a institucionalização de um jornal-laboratório no curso (o Comunicação), o que, segundo Nilton Almeida, acabou encerrando o ciclo com uma vitória para a parte majoritária do “grupo do Calo”, já que, de certa forma, a criação da disciplina era uma das principais reivindicações dos envolvidos.
Numa comparação direta, Nilton Almeida aponta diversas semelhanças entre os dois projetos (O Calo e Comunicação) – em especial no conteúdo, segundo destaca Nilton. Apesar de uma acentuada mudança gráfica (“O Comunicação tinha um projeto mais bem delineado, tamanho maior (29 x 42,5), mais páginas (oito) e design mais bonito. O Calo era um pequeno jornal, tamanho 23 x 33,5, um pouco maior que o tamanho ofício (A3), quatro páginas”, ressalta Nilton), e o fato da impressão ser uma na Imprensa Universitária (Comunicação) e a outra de favor na Indústria Gráfica Ramos Pouchain (O Calo) – se valendo da amizade do dono da empresa com o professor Luís Sérgio Santos, um dos responsáveis por O Calo e atual professor do curso de Comunicação Social da UFC –, as mudanças eram quase que totalmente fruto das diferentes medidas gráficas. “por conta da ampliação do espaço, o Comunicação incorporou mais temáticas, mas sempre em torno dos temas educação, universidade,
movimento estudantil (...), como enfatizou o editorial da primeira edição”, compara Nilton.