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A cidade é um sistema complexo no qual o Homem encontra atractivos e oportunidades, mas também caos e confusão. Esta dualidade compõe a estrutura da cidade com os mais diversos acontecimentos e acções, os quais Richard Rogers (1933) descreve como “organismos” que “[…] absorvem recursos e emitem resíduos. Quanto maiores e mais complexas forem as cidades, maior também será sua dependência das áreas circundantes, e maior sua vulnerabilidade em relação às mudanças em seu entorno” 24. Rogers destaca a dependência que as grandes cidades exercem nos seus territórios, como se de uma rede se tratasse ou até mesmo de um complexo sistema de interligações que comprometem as classes intervenientes do urbano.

Lewis Thomas (1913- 1993),de igual forma, refere as formigas como desenvolvedoras de um sistema cooperativo, no qual a organização e ordenação do habitar é a garantia da sua estrutura. O mesmo acontece no habitat humano quando não é respeitado, atacam e defendem a sua posição. O autor refere ainda: “Elas são tão parecidas com os seres humanos que nos constrangem. Elas cultivam cogumelos, criam pulgões como rebanho, lançam exércitos em guerras, utilizam sprays químicos para dar o alarme e confundir seus inimigos, capturam escravos… E trocam informações sem parar…Fazem de tudo, excepto ver televisão.”25. Neste discurso, utilizado por Rogers, é ainda evidente uma afronte aos comportamentos do Homem. A personificação do Homem com a formiga afirma a exiguidade do Homem entre as suas estruturas urbanas no confronto da globalização. Lewis Mumford (1895- 1990) já se mostrara apreensivo quando refere que“[…] As origens da cidade são obscuras, enterrada ou irrecuperavelmente apagada uma parte de seu passado, e são difíceis de pesar as suas perspectivas futuras.

Desaparecerá a cidade ou - o que seria outro modo de desaparecimento - Transformar-se-á todo o planeta numa enorme colmeia urbana?” 26 A imagem humana das formigas e das abelhas representa a posição dos autores face à globalização. Preocupa-os a questão do crescimento

das cidades se começar a interpor ao ritmo, ao declínio ambiental, cultural e social das cidades. O modelo urbano oferece às cidades a ideia de uma metrópole consolidada e madura,

expectante da ideia do progresso, num espírito contemporâneo face às suas mais variadas épocas. Nos seus fragmentos que caracterizam uma cidade que hoje tem se visto de uma

24Richard Rogers in Cidades para um pequeno planeta, Barcelona, 2001, p. II

25Lewis Thomas apud Richard Rogers, in Cidades para um pequeno planeta, Barcelona, 2001,p. II. 26Lewis Mumford apud Richard Rogers, in Cidades para um pequeno planeta, Barcelona, 2001, p. II

estrutura compósita27 emaranhada, unificando o território numa só rede.

Rede esta que numa sociedade necessariamente unificada e dependente, tal como as abelhas e formigas, a estrutura citadina só subsiste do conjunto de trabalho, tal como acontece na estrutura da cidade. A qualidade individual dos seus fragmentos influenciam o conjunto urbano no seu todo, e consequentemente, a qualidade de vida dos seus habitantes.

O que nos conduz ao modelo citadino, influenciado pela forma como Henry Ford (1863-1947)28 expôs o sistema de produção em série.

A diferença que existe entre um sistema formado pela rede e pelas abelhas e formigas, é a sua condição dinâmica. A rede é um ser não vivo e as abelhas e formigas, são seres vivos. O sistema pode assim ser visto como uma hierarquia no qual, quanto mais elevada é a posição de um indivíduo nessa mesma hierarquia, maior é o seu domínio sobre os outros intervenientes. Neste caso, no sistema principal, a hierarquia tem como topo o Homem, todavia, com o tempo, a máquina tem vindo a tomar o lugar do Homem no topo da hierarquia.

O exemplo do corpo humano é o topo da constituição de todo o sistema do corpo humano, a seguir seguem-se os órgãos, os tecidos e as células. Estes subsistemas enumerados anteriormente formam um só sistema. Quanto mais subsistemas um sistema abranger, mais complexo este será. O mesmo acontece com o sistema citadino, onde se podem determinar como subsistemas: a sociedade, a estrutura urbana, os lugares, os edifícios, entre outros. Qualquer interferência neste conjunto de subsistemas, representará a decadência de qualquer uma das suas partes integrantes.

No caso do Homem, os problemas do seu sistema crescem de forma exponencial quando a sua dimensão não garante a viabilidade do sistema. Exemplo disso são os tumores, que quando atingem os órgãos, as células fazem proliferar o problema, fazendo com que estes se apropriem do corpo, levando-o à exaustão e muitas das vezes havendo a necessidade de extrair algum órgão para que se possa eliminar o problema do sistema. O mesmo ocorre com as cidades, que quando algum ou alguns dos seus múltiplos fragmentos estão infectados, caso não se proceda à sua cura ou à sua contenção, a infecção propaga-se aos tecidos e às células da cidade, apoderando-se de todo o seu sistema.

Os sistemas organizam-se entre si segundo uma forte relação dependência e, é nesta relação que se geram dinâmicas mútuas entre os diferentes sistemas. Compreendendo a importância que os elementos não-vivos representam sobre os vivos. Estes têm uma relação de dependência

27Nuno Portas et al. in Políticas Urbanas. Tendências, estratégias e oportunidades, lisboa, 2003, p. 16

28Henry Ford nasceu em Detroit, no ano de 1863, nos Estados Unidos. Fundou a Ford Motor Company é conhecido

mundialmente pelo facto da Ford ter sido uma empresa de extrema importância para a história da indústria. Ford foi o inventor do chamado Fordismo – montagem em série de produção de automóveis. O modelo, implementado por Ford trouxe grandes modificações do comportamento social da época. A questão da produção em massa e a mecanização do trabalho representou na história do homem e da indústria uma revolução importante para a ideia do mundo contemporâneo.

um para com o outro. Os elementos não-vivos são como uma máquina urbana sistematizada que o Homem manipula de forma a melhor satisfazer os seus caprichos. É por isto que os autores evidenciam o Homem, as abelhas e as formigas como organismos vivos no qual as cidades, o formigueiro e a colmeia representam as suas máquinas e os seus ecossistemas.

As cidades nunca acomodaram tanta população como actualmente. Hoje em dia perto de 3,2 bilhões de pessoas habitam o mundo, onde três terços dessa população representam o consumo energético das cidades. Sobre este ponto de vista, a cidade terá que repensar o modo como gere os seus recursos, uma vez que tudo aponta rumo a uma cidade mais próxima do virtual, dirigida para um sistema de cidade em rede, ameaçada pela tecnologia que pode representar a perda de identidade e perspectivas futuras de consequentes acções de abandono do passado.