6.3 Echocardiographic acquisition and analysis
6.3.4 Direct echocardiographic quantification of infarct size
Em consonância com a análise da obra de João do Rio, para exemplificar o objeto de estudo proposto, em vez de elaborar um roteiro turístico-literário mercantilizado e padronizado, propõe-se um convite aos leitores-turistas-residentes, a flanarem pelas ruas do Centro Histórico do Rio de Janeiro. Com a hipótese de assim, colocando o sujeito de ação da flanerie e do turismo em primeiro plano, redescobrir o espaço complexificando o olhar sobre o lugar visitado e ressignificando o ato de se fazer turismo.
Seguindo a proposta de um convite a flanar, não convém aqui traçar um itinerário fixo a ser percorrido pelo turista/leitor/visitante/flâneur, pois a prática do flanar, como já
imaginários construídos, ou mesmo conhecimentos objetivos de leituras de guias de viagens ou consultas a sites especializados em roteiros, informações turísticas, etc. O prévio conhecimento e o interesse em visitar/conhecer lugares e atrativos específicos, traçando assim um “roteiro do imperdível”, não exclui a possibilidade de se praticar o ato de flanar em sua essência associada a diversas outras manifestações do fazer turismo contemporâneo.
Portanto, o Roteiro enquanto objeto autônomo depende do Sujeito que o concretiza a partir da capacidade de organizar sua mobilidade no tempo e no espaço, valendo-se de conhecimentos prévios proporcionados pela tecnologia, que por sua vez, facilitou para a criação de imaginários e deu ao Sujeito condições para “tematizar” seus Roteiros a partir de seus interesses subjetivos desenvolvidos por suas próprias idéias. (Cisne, 2011, p. 364)
Logo, com base no que foi tratado nas seções anteriores, corrobora-se do ponto de vista teórico-prático, exemplos de atrativos que podem ser inseridos na elaboração de Roteiros e/ou Itinerários literários para fins turísticos, estão: eventos literários; locais de atrativo turístico-cultural relacionados com a vida de um escritor e/ou com a literatura de forma geral; locais temáticos relacionados com um autor e o mundo ficcional criado em sua obra; e locais representados na literatura. Além de uma abrangência específica aos lugares atrativos que podem ser inseridos em um roteiro e/ou itinerário turístico literário, também é possível considerar o comportamento de viagem inspirado na vivência dos personagens literários. A subseção a seguir apresenta os resultados da análise das representações da obra A alma encantadora das ruas na cidade do Rio de Janeiro, com a subsequente apresentação de uma proposta de apropriação da cidade enquanto espaço de flanerie para o leitor-turista e/ou leitor- residente.
3.1. Resultados e discussões
Em consonância com a análise da obra de João do Rio, para exemplificar o objeto de estudo proposto, em vez de elaborar um roteiro turístico-literário mercantilizado e padronizado, propõe-se um convite aos leitores-turistas-residentes, a flanarem pelas ruas do Centro Histórico do Rio de Janeiro. Com a hipótese de assim, colocando o sujeito de ação da flanerie e do turismo em primeiro plano, redescobrir o espaço complexificando o olhar sobre o lugar visitado e ressignificando o ato de se fazer turismo.
Seguindo a proposta de um convite a flanar, não convém aqui traçar um itinerário fixo a ser percorrido pelo turista/leitor/visitante/flâneur, pois a prática do flanar, como já
trabalhada nas seções anteriores, corresponde ao caminhar despretensioso, disposto a explorar as redondezas da área visitada a seu próprio modo e ritmo, descobrindo e redescobrindo os espaços com novos olhares de atento observador. Assim, a partir de organização de dados secundários envolvendo a relação entre a obra literária em questão e a cidade do Rio de Janeiro, foi possível construir um “mapa de leitura” das representações contidas nas crônicas do autor, tendo como suporte a ferramenta Google Maps. As Figuras 1 e 2 representam, respectivamente, frente e verso do folheto intitulado "Roteiro Flâneur no Centro Histórico do Rio de Janeiro":
Figura 1: Roteiro Flâneur no Centro Histórico do Rio de Janeiro (frente).
Figura 1: Roteiro Flâneur no Centro Histórico do Rio de Janeiro (frente).
Fonte: Elaboração própria.
Figura 2: Roteiro Flâneur no Centro Histórico do Rio de Janeiro (verso)
Fonte: Elaboração própria.
A seguir, com base nas Figuras 1 e 2, evidencia-se a relação entre turismo e literatura a partir do mapeamento das representações da literatura espacializadas no urbano. (a) Praça XV e Corredor Cultural: A partir da praça XV e do entorno do Paço Imperial é possível visitar e conhecer os principais museus e espaços culturais do centro histórico
do Rio de Janeiro. Assim como servir de ponto de partida para flanar pelas ruas das outras áreas destacadas, principalmente através da Rua do Ouvidor. Este Corredor Cultural corresponde também a uma área de forte atrativo turístico e preservação de seu patrimônio cultural através de seu conjunto arquitetônico de construções seculares. Com a revitalização da zona portuária através do Porto Maravilha7, e a
demolição do elevado da perimetral, esta área tende a elevar cada vez mais sua atratividade, redescobrindo, com novos olhares, paisagens antes escondidas nas sombras do elevado. E, talvez, até fazendo ressurgir velhos territórios com novas territorialidades que atendem aos interesses sociais e culturais, como nos desativados Cais da Alfândega e dos Mineiros. Como no trecho:
Às cinco da manhã ouvia-se um grito de máquina rasgando o ar. Já o cais, na claridade pálida da madrugada, regurgitava num vai-e-vem de carregadores, catraieiros, homens de bote e vagabundos maldormidos à beira dos quiosques. Abriam-se devagar os botequins ainda com os bicos de gás acesos; no interior os caixeiros, preguiçosos, erguiam os braços com bocejos largos. Das ruas que vazavam na calçada rebentada do cais, afluía gente, sem cessar, gente que surgia do nevoeiro, com as mãos nos bolsos, tremendo, gente que se metia pelas bodegas e parava à beira do quiosque numa grande azáfama. Para o cais da alfândega, ao lado, um grupo de ociosos olhava através das frinchas de um tapume, rindo a perder; um carregador, encostado aos umbrais de uma porta, lia, de óculos, o jornal, e todos gritavam, falavam, riam, agitavam-se na frialdade daquele acordar, enquanto dos botes policrômicos homens de camisa de meia ofereciam, aos berros, um passeiozinho pela baía. Na curva do horizonte o sol de maio punha manchas sangrentas e a luz da manhã abria, como desabrocha um lírio, no céu pálido. (RIO, 2007/1908, p. 143)
E/ou, mudar velhos hábitos com novas tradições que venham a enriquecer as tradicionais identidades.
A alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias. Há trechos em que a gente passa como se fosse empurrada, perseguida, corrida – são as ruas em que os passos reboam, repercutem, parecem crescer, clamam, ecoam e, em breve, são mistérios logo que as sombras descem – o Largo do Paço. Foi esse largo o primeiro esplendor da cidade. Por ali passaram, na pompa dos pálios e dos baldaquins d’ouro e púrpura, as procissões do Enterro, do Triunfo, do Senhor dos Passos; por ali, ao lado da Praia do
do Rio de Janeiro. Assim como servir de ponto de partida para flanar pelas ruas das outras áreas destacadas, principalmente através da Rua do Ouvidor. Este Corredor Cultural corresponde também a uma área de forte atrativo turístico e preservação de seu patrimônio cultural através de seu conjunto arquitetônico de construções seculares. Com a revitalização da zona portuária através do Porto Maravilha7, e a
demolição do elevado da perimetral, esta área tende a elevar cada vez mais sua atratividade, redescobrindo, com novos olhares, paisagens antes escondidas nas sombras do elevado. E, talvez, até fazendo ressurgir velhos territórios com novas territorialidades que atendem aos interesses sociais e culturais, como nos desativados Cais da Alfândega e dos Mineiros. Como no trecho:
Às cinco da manhã ouvia-se um grito de máquina rasgando o ar. Já o cais, na claridade pálida da madrugada, regurgitava num vai-e-vem de carregadores, catraieiros, homens de bote e vagabundos maldormidos à beira dos quiosques. Abriam-se devagar os botequins ainda com os bicos de gás acesos; no interior os caixeiros, preguiçosos, erguiam os braços com bocejos largos. Das ruas que vazavam na calçada rebentada do cais, afluía gente, sem cessar, gente que surgia do nevoeiro, com as mãos nos bolsos, tremendo, gente que se metia pelas bodegas e parava à beira do quiosque numa grande azáfama. Para o cais da alfândega, ao lado, um grupo de ociosos olhava através das frinchas de um tapume, rindo a perder; um carregador, encostado aos umbrais de uma porta, lia, de óculos, o jornal, e todos gritavam, falavam, riam, agitavam-se na frialdade daquele acordar, enquanto dos botes policrômicos homens de camisa de meia ofereciam, aos berros, um passeiozinho pela baía. Na curva do horizonte o sol de maio punha manchas sangrentas e a luz da manhã abria, como desabrocha um lírio, no céu pálido. (RIO, 2007/1908, p. 143)
E/ou, mudar velhos hábitos com novas tradições que venham a enriquecer as tradicionais identidades.
A alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias. Há trechos em que a gente passa como se fosse empurrada, perseguida, corrida – são as ruas em que os passos reboam, repercutem, parecem crescer, clamam, ecoam e, em breve, são mistérios logo que as sombras descem – o Largo do Paço. Foi esse largo o primeiro esplendor da cidade. Por ali passaram, na pompa dos pálios e dos baldaquins d’ouro e púrpura, as procissões do Enterro, do Triunfo, do Senhor dos Passos; por ali, ao lado da Praia do
7 Ver projeto em: http://www.portomaravilha.com.br/
Peixe, simples vegetação de palhoças, o comércio agitava as suas primeiras elegâncias e as suas ambições mais fortes. O largo, apesar das reformas, parece guardar a tradição de dormir cedo. À noite, nada o reanima, nada o levanta, Uma grande revolução morre no seu bojo como um suspiro; a luz leva a lutar com a treva; os próprios revérberos parecem dormitarem, e as sombras que por ali deslizam são trapos da existência almejando o fim próximo, ladrões sem pousada, imigrantes esfaimados... (RIO, 2007/1908, p. 33)
(b) Rua do Ouvidor e arredores do Castelo e Carioca: Encontro de três áreas que representam a alma de tempos antigos com o progresso idealizado da atualidade. Essa área propõe ao flâneur descobrir e desbravar ruas antigas como as do Ouvidor, “a fanfarronada em pessoa” (RIO, 2007/1908, p. 30); a da Quitanda, pouco honesta no passado que acabou tomando vergonha (RIO, 2007/1908, p. 31); ou “ruas que mudam de lugar, cortam morros, vão acabar em certos pontos que ninguém dantes imaginara" (RIO, 2007/1908, p. 31), como a antiga Rua dos Ourives atual extensão das ruas Miguel Couto e Rodrigo Silva. Assim como, também, passear por boa parte da extensa Avenida Rio Branco, antiga Avenida Central, e deixar-se deslumbrar ao perceber as mudanças urbanas ocorridas no tempo destes arredores do Castelo e da Carioca. Seriam os prédios de hoje tão altos quanto o morro do Castelo de outrora? João do Rio narrou seu deslumbramento ao admirar uma pintura que representava essas mudanças que o Rio de Janeiro sofria no início do século XX e viria a sofrer nos anos seguintes.
Eu estava diante de uma grande pintura mural comemorativa. O pintor, naturalmente agitado pelo orgulho que se apossou de todos nós ao vermos a Avenida Central, resolveu pintá-la, torná-la imorredoura, da Rua do Ouvidor à Prainha. A concepção era grandiosa, o assunto era vasto - o advento do nosso progresso estatelava-se ali para todo o sempre [...]. Reparei que a Casa Colombo e o Primeiro Barateiro eram de uma nitidez de primeiro plano e que aos poucos, em tal arejamento, os prédios iam fugindo numa confusão precipitada. (RIO, 2007/1908, pp. 82-83)
(c) Praça Tiradentes e Rio Antigo: Ao atravessar os limites da Rua Uruguaiana,
“embarca-se” em uma viagem pelo Rio Antigo. Se a região dos arredores da Praça XV,
no Corredor Cultural e da Rua do Ouvidor apresentam um pouco da história e alma do Rio de Janeiro de outros tempos através de seus prédios históricos, ruas estreitas e uma memória poética de boêmia, a região que aqui denominar-se-á “Rio Antigo” é a representação mais aproximada percebida dos velhos tempos. Com grande parte da arquitetura mantida, muitas vezes não preservada e/ou restaurada, deteriorando-se
com as ações do homem e da natureza, esta área concentra o centro comercial popular do Saara, onde “nas casas da Rua da Alfândega, Núncio e Senhor dos Passos, existem, sob o soalho, feitiçarias estranhas, e a tatuagem forra a pele dos homens como amuletos” (RIO, 2007/1908, p. 58). Além de algumas preciosidades históricas, como igrejas, casas comerciais centenárias, o Real Gabinete Português de Leitura e uma grande concentração de comércios de usados e antiguidades nos sebos e outras portas, por vezes, sem identificação.
Há ruas que têm as blandícias de Goriot e de Shylock para vos emprestar a juro, para esconder quem pede e paga o explorador com ar humilde. Não vos lembrais da Rua do Sacramento8, da rua dos penhores? Uma aragem
fina e suave encanta sempre o ar. Defronte à igreja, casas velhas guardavam pessoas tradicionais. No Tesouro, por entre as grades de ferro, uma ou outra cara desocupada. E era ali que se empenhavam as joias, que pobres entes angustiados iam levar os derradeiros valores com a alma estrangulada de soluços; era ali que refluíam todas as paixões e todas as tristezas, cujo lenitivo dependesse de dinheiro... (RIO, 2007/1908, pp. 32- 33)
O fato de esta região apresentar-se como o aspecto mais antigo, deteriorado e nostálgico do centro do Rio, faz com que certas ruas sejam pouco convidativas a caminhabilidade por parte do flâneur não acostumado ao espírito desbravador que lhe apetece a expressão do flanar. Ainda que alguns processos de revitalização e sinalização sejam observados, a acessibilidade apresenta-se bastante deficiente.
(d) Cinelândia e arredores: Até os anos 1930, esta área seria conhecida como palco da diversão e entretenimento carioca devido a sua aglomeração de teatros, cinemas, bares, cassinos etc. A Cinelândia, antes de seu esplendor com a novidade dos cinematógrafos que viriam a lhe popular na Belle Époque carioca junto com a abertura da Avenida Central, caracterizava-se como um lugar mais singelo e menos luxuoso, sendo endereço do Convento da Ajuda (demolido em 1911), por exemplo, que deu lugar ao atual conjunto arquitetônico tão atrativo no centro do Rio de Janeiro, com o Theatro Municipal, o Museu Nacional de Belas Artes, a Biblioteca Nacional, o Palácio Pedro Ernesto etc.
Um cavalheiro notável, ao entrar comigo certa vez na Rua Senador Dantas, não se conteve: - É impossível passar por aqui sem lembrar que a velhice começa a chegar. Quando vim da província esta rua tinha apenas duas
com as ações do homem e da natureza, esta área concentra o centro comercial popular do Saara, onde “nas casas da Rua da Alfândega, Núncio e Senhor dos Passos, existem, sob o soalho, feitiçarias estranhas, e a tatuagem forra a pele dos homens como amuletos” (RIO, 2007/1908, p. 58). Além de algumas preciosidades históricas, como igrejas, casas comerciais centenárias, o Real Gabinete Português de Leitura e uma grande concentração de comércios de usados e antiguidades nos sebos e outras portas, por vezes, sem identificação.
Há ruas que têm as blandícias de Goriot e de Shylock para vos emprestar a juro, para esconder quem pede e paga o explorador com ar humilde. Não vos lembrais da Rua do Sacramento8, da rua dos penhores? Uma aragem
fina e suave encanta sempre o ar. Defronte à igreja, casas velhas guardavam pessoas tradicionais. No Tesouro, por entre as grades de ferro, uma ou outra cara desocupada. E era ali que se empenhavam as joias, que pobres entes angustiados iam levar os derradeiros valores com a alma estrangulada de soluços; era ali que refluíam todas as paixões e todas as tristezas, cujo lenitivo dependesse de dinheiro... (RIO, 2007/1908, pp. 32- 33)
O fato de esta região apresentar-se como o aspecto mais antigo, deteriorado e nostálgico do centro do Rio, faz com que certas ruas sejam pouco convidativas a caminhabilidade por parte do flâneur não acostumado ao espírito desbravador que lhe apetece a expressão do flanar. Ainda que alguns processos de revitalização e sinalização sejam observados, a acessibilidade apresenta-se bastante deficiente.
(d) Cinelândia e arredores: Até os anos 1930, esta área seria conhecida como palco da diversão e entretenimento carioca devido a sua aglomeração de teatros, cinemas, bares, cassinos etc. A Cinelândia, antes de seu esplendor com a novidade dos cinematógrafos que viriam a lhe popular na Belle Époque carioca junto com a abertura da Avenida Central, caracterizava-se como um lugar mais singelo e menos luxuoso, sendo endereço do Convento da Ajuda (demolido em 1911), por exemplo, que deu lugar ao atual conjunto arquitetônico tão atrativo no centro do Rio de Janeiro, com o Theatro Municipal, o Museu Nacional de Belas Artes, a Biblioteca Nacional, o Palácio Pedro Ernesto etc.
Um cavalheiro notável, ao entrar comigo certa vez na Rua Senador Dantas, não se conteve: - É impossível passar por aqui sem lembrar que a velhice começa a chegar. Quando vim da província esta rua tinha apenas duas