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De acordo com os itens de avaliação desse instrumento, no quesito capacidade mastigatória, verifica-se que esta baseou-se apenas na quantidade de dentes na cavidade oral. A simples contagem do número de dentes presentes na boca oferece uma posição em relação ao edentulismo (ausência total de dentes) e à necessidade de prótese (SAINTRAIN, 2007). Cabe ressaltar que o grau da capacidade mastigatória pode ser fundamentalmente condicionado pela perda dentária, pelos níveis de edentulismo, uso de próteses dentárias e prevalências de cárie e de doenças periodontais (COSTA et al., 2010a). Pode-se dizer que a perda dental é tida como temática de relevância avaliada pela saúde pública, haja vista que é considerada como uma decorrência das doenças bucais mais prevalentes e também em razão da alta ocorrência (RODRIGUES JUNIOR et al., 2012). Além disso, ter saúde bucal implica ainda na possibilidade de uma pessoa exercer plenamente funções como mastigação, deglutição e fonação, exercitar a autoestima e relacionar-se socialmente sem inibição ou constrangimento, estando diretamente vinculada à qualidade de vida (NARVAI; FRAZÃO, 2008).

Nesse sentindo, no estudo, conforme divisão definida anteriormente pela autora durante o estudo para melhor análise e discussão dos dados, na amostra de PcD examinadas, identificou-se um grupo de edêndulos/edentados/desdentados, pessoas com perda total dos dentes, equivalente a 28,6%, consideradas com capacidade dentária funcional insuficiente para mastigação, deglutição e fonação. Os outros participantes (71,35%), considerados o grupo dos dentados, apresentavam ao menos um elemento dentário, porém, houve pouca diferença entre o percentual dos que possuía de 1 a 19 dentes (36,4%) e os que possuíam 20 ou

mais dentes na cavidade oral (35%), sendo que este último subgrupo foi considerado com capacidade dentária funcional suficiente.

A elevada ocorrência de perda de elementos dentais foi também demonstrada pelos resultados obtidos no levantamento epidemiológico SB Brasil 2010, segundo o qual o componente de dentes perdidos na faixa etária dos adultos foi de 44,7%, aumentando nos idosos para 92% (BRASIL, 2011b). Supostamente, a maior ocorrência de perda dental na atual população de PcD estudada pode estar associada à idade média da população (48,7 anos) e ao maior percentual de PcD adultas e idosas, perfazendo um total de 86%, como já relatada anteriormente no estudo, uma vez que a prática odontológica predominantemente curativa e mutiladora no passado constituiu-se, provavelmente, da vivência concreta dos sujeitos deste estudo (MALLMANN et al., 2012). Esta situação pode ser vista também em outros estudos realizados anteriormente, como de Manhães e Costa (2008), em que verificaram, nas prevalências de doenças bucais, que as exodontias, aumentavam principalmente nos níveis populacionais com piores condições socioeconômicas e de idade mais elevada.

Constatou-se ainda neste estudo e em outras investigações que uma parcela significativa de PcD encontra-se nas camadas de baixa renda da população, constituindo-se de pessoas com menor acesso aos serviços de saúde bucal. Estes pacientes, quando conseguem ter acesso aos serviços públicos, o grande acúmulo de necessidades e a falta de profissionais habilitados condena-os a tratamentos mutilantes como forma de resolução rápida e definitiva (FREIRE et al., 2011).

Dependendo do tipo e do grau da deficiência, o tratamento odontológico em pacientes deficientes é considerado por muitos cirurgiões-dentistas um desafio, por este motivo poucos são os dentistas capacitados a atendê-los, tanto em rede pública quanto particular. Sendo esse, apenas um dos motivos que acarreta no acesso tardio desses pacientes ao atendimento odontológico. Há poucos centros especializados na assistência desses pacientes; poucos e raros são os dentistas que se habilitam a fazer esse tipo de tratamento em seus consultórios particulares; o tratamento odontológico, às vezes, por ser uma intervenção curativa/restauradora ou cirúrgica, é bastante oneroso; e, muitas vezes, ocorre a falta de educação, motivação e interesse da família em relação à SB desses indivíduos (AGUIAR et al., 2000). Em relação ao atendimento da PcD, a Rede de Cuidados à PcD oferece incentivo financeiro aos CEO que aderirem à rede para o atendimento das PcD na

atenção especializada, nos casos que não forem possíveis de serem resolvidos na atenção AB (BRASIL, 2012b).

A higiene bucal deficitária proporciona também alta prevalência de dentes perdidos, ocorrendo com frequência, avulsão “natural e espontânea” (TANAKA et al., 2009). Comumente, PcD apresentam problemas bucais que afetam severamente os elementos dentários, provocando muitas vezes grandes perdas dentárias. Dependendo do tipo e do grau da deficiência, são pessoas que geralmente têm dificuldade para a realização de higienização bucal satisfatória, devido a própria limitação da deficiência e sua dependência.

A ocorrência da perda dental nas PcD em estudo não se comportou de maneira igualitária entre os tipos de deficiência. Percebeu-se que as PcD auditiva (42,9%) estavam mais associadas ao edentulismo. Supõe-se que tal fato possa ser explicado em virtude de problemas auditivos e de edentulismo serem comuns em pessoas com idade avançada, principalmente em idosos, haja vista que, 53,3% das PcD auditivas desse estudo concentram-se na faixa etária acima de 60 anos. O edentulismo, que no processo de envelhecimento é aceita como uma causa natural, provoca além de problemas funcionais, dificuldades na mastigação, deglutição e fonação, sendo um fator que pode levar ao aparecimento de anemias, desnutrição e problemas digestivos, e também problemas estéticos e biopsicossociais (BATISTA, 2005).

Ainda em relação à perda dental por deficiência, identificou-se na população em estudo que as PcD motora (41,7%) estavam mais associadas ao grupo dos dentados de 1 a 19 dentes, ao passo que, as PcD intelectual ao grupo dos dentados com mais de 20 dentes (53,1%). As PcD neuropsicomotoras muitas vezes apresentam doenças bucais que comprometem seriamente os dentes levando a sua perda. São pessoas que geralmente não têm habilidade para promoverem uma higiene oral satisfatória e muitas vezes não permitem que outras a façam, ou a façam de maneira inadequada por possuírem comportamento agressivo ou mesmo por apresentarem movimentos involuntários que dificultam a higienização (RESENDE et al., 2005).

Em relação especificamente às PcD intelectual, cabe ressalvar na presente pesquisa, quanto a perda dentária, que essas pessoas por estarem mais associadas ao grupo de dentados acima de 20 dentes, consequentemente,

as outras categorias. É possível que esse resultado tenha sido condicionado pelo fato das PcD intelectual em estudo estarem mais concentradas nas faixas etárias até 50 anos, como já estudado anteriormente no perfil sociodemográfico, e geralmente, os índices de perdas dentária são menores em jovens e adultos, quando comparados com os idosos. Também, pode-se levar em conta a coincidência de que as PcD intelectual desta pesquisa formam o grupo das que mais realizaram o último atendimento odontológico no período entre 6 meses e 1 ano (18,8%), conforme revelaram os resultados deste estudo.