• No results found

2.8 Definitions of collocation

2.8.1 Differences between several types of MWEs

1) Você considera o trabalho de Denise Namura e Michael Bugdahn (Cie. <<à fleur de peau>>) diferente?

TON

Acho! É diferente. É uma linguagem diferente. Eles têm um estudo há muito tempo relacionado com a mímica, então é bem diferente do trabalho que a gente tem com a Cia. de Danças de Diadema. A Cia. trabalha bastante com o movimento partindo do gestual e do gestual partimos para a “dancificação” dele e o contrário também – da dança partimos para o gestual – e assim por diante, mas eles utilizam o gestual de uma maneira diferente, que é consequência dessa técnica da mímica e que transpuseram para a dança. Até a Denise fala que coçar a cabeça, por exemplo, seria só coçar a cabeça se não fosse colocada na música. Então, esse “item” de colocar todos os gestos na música eu acho que seja uma particularidade bem grande deles e que assume um caráter bem semelhante ao trabalhado na Cia., mas é direcionado de uma maneira bem específica que eu conheça somente partindo deles. Identifica com o trabalho da Cia., mas não é semelhante. Está em um lugar parecido, mas não tem nada de semelhante.

DAYANA

Sem dúvida! É completamente diferente, porque esse trabalho deles veio da mímica, eles têm uma pesquisa muito mais teatral, muito mais para o lado da mímica – na verdade esse é o foco do trabalho deles – e trazer isso para a Cia. de Danças de Diadema é completamente diferente do que estamos acostumados a fazer, porque por mais que todos os espetáculos sejam concebidos por meio de processos e pesquisas, nunca foram para esse lado do teatro ou da mímica. Tanto que eles traziam alguns exercícios que eram muito específicos, alguns “toques”, como “Olha, isso é da mímica” ou “Isso é do clown”, então era bem diferente e acrescentou demais.

ZÉZINHO

Diferente em todos os sentidos! No sentido de respeito com o corpo que se empresta para o trabalho; na humildade e simplicidade em que se é explorado o corpo para a realização do trabalho; na direção artística que enquanto trabalha a criação, educa o artista para a obra deles.

2) Considerando o termo “apropriação” como temporário, relacionado com a apresentação da obra e o termo “incorporação”, permanente, relacionado à reverberação independente da apresentação da obra, você acredita ter se apropriado ou se incorporado da linguagem artística desenvolvida por Denise e Michael? Fale sobre sua escolha.

TON

Difícil essa questão, porque são duas vertentes bem complexas. Eu acredito que tenha havido uma apropriação para fins da apresentação da obra, principalmente dentro de uma Cia. que temos um trabalho de repertório, então eu diria que a gente se apropria desse trabalho, da movimentação deles para o trabalho específico, mas não teria uma incorporação, por conta dessa pesquisa deles e acredito que seria raso da minha parte dizer que a gente incorporou a linguagem, tendo em vista o pouco período de tempo que tivemos com a presença de Denise e Michael aqui; que já incorporamos essa técnica e que estamos aptos a reverberá- la. Não, penso que seja uma apropriação e a apropriação acontece sem muita dificuldade por conta dessa identificação com o trabalho da Cia., que também trabalha, dentro da dança contemporânea, com alguns conceitos do teatro e isso ajuda para que a gente se aprimore ainda mais nesse trabalho, desenvolvendo exercícios ou até mesmo reproduzindo exercícios que foram trabalhados com a gente enquanto os coreógrafos estiveram aqui. Mas seria somente apropriação.

DAYANA

Eu acho que é um misto das duas coisas, porém digamos que 75% de apropriação e o restante de incorporação. Você acaba levando, de todo trabalho, coisas para sua vida. Não tem como dizer que só fez aquilo para aquele trabalho e não se deixar envolver. Tudo fica: do Paranoia fica alguma coisa, do Crendices fica alguma coisa, do A Mão do Meio [...] De repente uma forma de olhar para as pessoas, de ver os gestos das pessoas e isso muda no seu dia a dia. Até mesmo algumas reações você se pega raciocinando sobre elas. Enfim, acredito que seja maior parcela de apropriação – introjetar essa linguagem e coloca- la em cena – porém todo resquício fica.

ZÉZINHO

Acho que o trabalho deles não se apropria e depois de incorpora. Eles nos preparam tão bem para a temática do trabalho coreográfico que nos sentimos a vontade para realizar a obra, apropriando, incorporando e preenchido de sentimentos que nos são solicitados.

3) Você enxerga se houve no resultado final da obra A Mão do Meio uma estética que traduzisse a narrativa proposta pelos coreógrafos? Explique.

TON

Por ter trabalhado com eles no La Vie, eu já sabia que a Denise e o Michael tinham esse trabalho nesse sentido do literal. Eles querem contar que a pessoa vai atravessar a rua e sofrer uma queda, eles vão contar literalmente isso, eles vão colocar dança nessa situação, mas vão contar de maneira literal. Eu não os vejo abrindo espaço para uma possível abstração, não existe muito esse lugar. Então, dentro de A Mão do Meio, eu penso que, às vezes, não era tão necessária a narração, porque nós bailarinos contamos bastante a história com os nossos corpos sem a narração. Por considerar a história muito lúdica e criativa, talvez se não houvesse dança a história também fosse interessante somente contada. Talvez se um contador de histórias a contasse, ela fosse assimilada da mesma maneira. Mas, dentro do espetáculo, creio que a narração acrescente em algumas cenas, mas em outras seja redundante, ou seja, esteja dizendo a mesma coisa que nós. Penso que entre um pouco nesse lugar. Existem cenas que abrem um pouco para o lírico/abstrato, mas que muitas vezes o texto bloqueie a “viagem” do espectador enquanto frui a obra, como por exemplo a Cena do Braço sem Fim. E ainda se tratando de um espetáculo infantil, se tivesse um pouquinho mais de abertura, pudesse ser mais interessante.

DAYANA

Sim, é possível enxergar, tanto pelo fato de já ter sido público e bailarina dessa mesma obra, porque antes de dançar eu assisti várias vezes, assisti os ensaios e tudo mais. Depois, quando eu precisei assumir o papel de bailarina, ficou mais claro ainda. Eu tenho a visão de que essa estética fica mais clara, porque quando você sai do papel de público e assume o de bailarina, você executa o trabalho já imbuída do que viu. Então, aquela estética que você viu enquanto público, se mostra com mais força quando dançada. É mais fácil de ser feito quando já se esteve nesse papel de público, pois você acaba gravando aquilo que foi mais interessante e entendendo aonde os coreógrafos querem chegar. Acredito que todos devessem passar uma vez por essa experiência de se sentar e ver e depois refletir a maneira com a qual está se colocando dentro desse processo ou dessa obra.

ZÉZINHO

Sim. Apesar de ainda haver alguns ajustes a serem feitos, essa proposta dos coreógrafos, como de praxe, traduziu a narrativa e a estética. Digo isso pelos “bate-papos” realizados após a apresentação do trabalho, nos quais o público, extasiado, fala muito sobre a narrativa e a estética.