2.11 Criteria for collocability
2.11.5 Adjacency vs. span of words between node and collocate 54
Após a feliz união estabelecida, em 2009, entre a Companhia de Danças de Diadema e a Cie. <<à fleur de peau>>, em 2013, um novo convite foi feito à companhia francesa, entretanto de maneira mais fechada quando comparados os dois processos de criação. Ana Bottosso havia decidido-se por um espetáculo infantil, influenciada pelo livro O Colecionador de Palavras, de Roberto Bicelli (1998). Entretanto, para que essa história pudesse transformar-se em inspiração para um espetáculo de dança, o termo “colecionador de palavras” foi adaptado para “colecionador de gestos”. Foi sob esse título que Bottosso desenvolveu um projeto, enviando-o ao ProAc87 objetivando captação de verba para a
87 Programa de ação cultural que tem o objetivo de promover a ampliação e a diversificação da produção artística, criar novos espaços, preservar o patrimônio histórico e aumentar as formas de circulação de bens culturais em todo o Estado de São Paulo. Apresenta duas modalidades: o ICMS
produção do espetáculo. A Cia. conseguiu a aprovação do edital e assim pôde iniciar o trabalho com Namura e Bugdahn.
Apesar de um espetáculo infantil ser novidade para <<à fleur de peau>>, Denise e Michael entregaram-se ao desafio. Em depoimento, Namura afirma que, quando trabalham na criação de obras para crianças, costumam adaptar seus espetáculos ao universo infantil, uma vez que a ludicidade presente na linguagem desenvolvida permite que isso seja feito, porém nunca haviam concebido nada, cujos tema e essência fossem voltados às crianças. Mesmo assim, tanto a concepção quanto execução mantiveram-se intactas, com o mesmo rigor e a precisão de um espetáculo para adultos.
Quando fazemos espetáculos para crianças nas cidades aonde vamos, costumamos fazer uma versão mais curta, adaptada a elas. Pensamos que para A Mão do Meio, apesar de termos nos preparado para fazer um infantil, procedemos como sempre e por isto consideramos que é um espetáculo infantil para crianças de 6 a 106 anos. Para nós, um espetáculo é troca, poesia, fala do ser humano, então, tem humor, e assim vai (NAMURA, 2014)88.
O convite, feito quando Denise e Michael retornaram à Cia. de Danças para um refresh89 do espetáculo La Vie en Rose??? em 2013, foi aceito e, ao voltar para França, os diretores da Cie. elaboraram algumas cenas e selecionaram parte da trilha sonora.
Segundo Namura, em entrevista90, a primeira coisa que ela e Bugdahn fazem quando
partem para um processo de criação é a escolha do tema. Escolhido esse tema, o que implica saber sobre o que se quer tratar, fazem uma lista de tudo o que acham que pode ter relação: desde cores até movimentos e gestos. A partir disso, concepções de cenário e situações postas em cena começam a surgir, sendo tudo isso registrado pelos dois diretores.
e Editais. Informação encontrada no site <http://www.cultura.sp.gov.br>, acessado em 8 de janeiro de 2015.
88 Excertos de uma conversa realizada por e-mail em 11 de setembro de 2014 com Denise Namura após a pré-estreia do espetáculo.
89 Expressão empregada por Ana Bottosso para referir-se a um reencontro entre o corpo de bailarinos e o coreógrafo, a fim de relembrarem e corrigirem uma coreografia já elaborada.
As ideias todas estão escritas em cadernos. O Micha gosta muito de colocar no computador. Ele até fazia, no começo [da Cie.], desenhos de cada cena, o deslocamento de cada bailarino. Depois a gente falou “Ah não, melhor vídeo”, mas eram lindos os desenhos dele, porque não tem igual (NAMURA, 2014, p. 92)91.
No processo de A Mão do Meio – Sinfonia Lúdica, uma lista também foi elaborada, pois, segundo a diretora, é praxe. Porém, dessa vez, Michael partiu do texto escrito da história, para que a construção do enredo possibilitasse a criação das coreografias. Pela primeira vez, isso foi feito dessa forma, tendo, inclusive, a escrita feita diretamente em língua portuguesa.
O Micha começou a ver se ele não conseguia escrever uma historiazinha e logo veio essa ideia da mão, porque a gente pensou “Colecionar gestos... Para fazer gestos precisa da mão em princípio”, porque a maioria dos gestos é feita com a mão. Como a gente poderia inventar a história de uma mão que passeia e que vai encontrando gestos pelo caminho? [...] O Micha teve essa ideia: “E se fosse uma mão com 6 dedos? Que fosse diferente de outras mãos?” – Porque se fosse uma mão do meio, ela teria 6 dedos. A gente partiu disso. (NAMURA, 2014, p. 96).92
Em seguida, iniciaram o trabalho de improvisações e elaboração de algumas cenas. A despeito do processo dos coreógrafos envolver criação e fixação da coreografia no corpo deles, primeiramente, para depois ensinarem os bailarinos, a maioria das cenas dessa obra foram escritas no papel e mostradas as dinâmicas específicas, tendo sido apenas algumas testadas e fixadas nos corpos de Denise e Michael, por não possuírem tempo hábil para essa apropriação.
A partir das criações iniciais, ficou nítido que, para o tema do infantil, o trabalho com as articulações seria essencial: todas elas formam um corpo que coleciona e faz gestos. Além da lista e de algumas cenas rascunhadas, parte da trilha sonora havia sido selecionada. Segundo Denise, em entrevista concedida às pesquisadoras no dia 9 de dezembro de 2014, essa é a parte mais complicada, pois, se não tem trilha sonora, nada acontece.
91 Entrevista realizada em 1 de junho de 2014 na cidade de São Paulo, SP, Brasil. 92 Entrevista realizada em 9 de dezembro de 2014 na cidade de São Paulo – SP, Brasil.
Começou com a coreografia do pé - o Micha imaginou que os pés têm dedos – e foi indo: o braço sem fim; a cabeça que se perdeu; a garganta que não sabe rir; o pé que não quer andar, até chegar no sopro, que é uma coisa que sem o sopro nada disso existe. Se você não respira [...] A gente foi até esse ponto. Poderia ter um segundo ato esse espetáculo para falar das outras partes do corpo. Por enquanto a gente chegou até aí e naquela ideia da luz que você vê as partes separadas. (NAMURA, 2014, p. 97)93.