3. MARC TEÒRIC
3.3. Diferències entre adults i infants
“Tem aqui potenciais, quando as pessoas descobrirem os potenciais que estão aqui nesta água, quando eles descobrirem, o Porto Formoso leva um boom muito grande, muita grande.” Sr. Adolfo66
Numa freguesia onde as profissões históricas (a pesca, a agricultura e a lavoura) estão em claro declínio e que parece caminhar para o mesmo destino que muitas outras freguesias similares, isto é, a sua limitação a aldeia-dormitório, as suas
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Nas próximas eleições, em Outubro de 2013, O Sr. Emanuel Faria não se poderá recandidatar, por ter cumprido já os três mandados permitidos por lei, sem que até à data haja nenhum possível candidato conhecido.
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Pescador com 65 anos natural de Porto Formoso que está emigrado na Califórnia, onde tem os filhos e netos. Ali comprou um pequeno barco e dedica-se à pesca do “bodião” espécie que se exporta ao Japão e que se pesca entre Maio e Setembro. Nos meses em que não trabalha volta para o Porto Formoso, sendo comum encontrá-lo no porto em conversa com os pescadores.
possibilidades turísticas são encaradas com enorme expectativa pela generalidade da população. Para estes, o turismo dará um novo fôlego à freguesia, não só criando postos de trabalho directos e possibilidades de empreender empresas viradas para o turismo, como revitalizando profissões que doutra maneira parecem estar condenadas à extinção, como a pesca: enquanto há 25 ou 30 anos atrás as actividades que pudessem gerar rendimentos do mar estavam circunscritas à pesca ou a actividade extractiva (retirar areia ou algas) hoje existe a vertente marítimo-turística, prática considerada de valor essencial nos planos e estratégias de desenvolvimento turístico regional67. Na actualidade, com a escassez de recursos e os custos de exploração das embarcações a aumentar, muitos são os que acreditam que a rentabilidade da pesca artesanal passa por desenvolver actividades económicas que complementem a pesca profissional, como levar turistas nos barcos para ver a costa ou a forma de pescar.
As expectativas colocadas no turismo não são infundadas, pois a potencialidade turística da freguesia de Porto Formoso é inegável: as verdes paisagens, os miradouros e falésias, o mar, com a sua vertente lúdica (praia) e cultural (pesca artesanal), os trilhos, o exotismo da sua fábrica de chá, a boa disposição e abertura dos seus habitantes fazem desta aldeia um lugar único na costa norte de São Miguel para desenvolver práticas turísticas. As condições naturais e humanas do Porto Formoso fazem deste lugar um óptimo candidato para se alinhar na política de desenvolvimento turístico desenhado pelo poder central, que tem como pedra basilar o turismo da natureza e o turismo náutico68. Quando se trata de fazer publicidade turística de São Miguel, é recorrente aparecerem imagens da Fábrica de chá, da praia dos Moinhos e da baía natural69, os três pontos de maior interesse turístico e que representam três categorias de turismo diferente: o turismo industrial, o turismo natural/artesanal e o turismo de praia e sol. Das fotos que aparecem nos outdoors electrónicos de Ribeira Grande, a maioria pertencem a Porto Formoso: além das imagens acima referidas, aparecem outras, como a igreja da Nossa senhora da Graça (sobre a baía) ou a vista do Miradouro de Santa Iria. Aparecem também iniciativas privadas, algumas delas grande envergadura, mas de momento só no papel. Veja-se como exemplo o projecto
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Ver capítulo 1.4
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Idem
69 Por exemplo, nos stands montados para a Feria Internacional de Turismo de Lisboa -BTL- aparecem
apresentado para um campo de golfe e aldeamento turístico em Porto Formoso, cuja memória descritiva começa da seguinte maneira:
Este projecto ambiciona construir no Porto Formoso um complexo turístico centrado no golfe. O Porto Formoso, destino de Verão para muitos residentes na ilha de São Miguel, oferece excelentes condições para o desenvolvimento de um projecto de alta qualidade, cujo conceito básico está, desde já, salvaguardado pelo PDM (Plano Director Municipal) para esta zona. O conceito é centrado na transformação da Ponta Formosa e de algumas zonas do lado esquerdo da estrada que conduz ao centro da freguesia num campo de golfe de alta qualidade70.
Fig. 2-18. Detalhe do projecto turístico (cedida pelo Regedor)
Mas apesar desta especulação, deste “uso” da imagem da freguesia, e da inclusão das potencialidades turísticas de Porto Formoso no PDM da Câmara de Ribeira Grande, o processo de turistificação71 é ainda, mais do que nada, um projecto em discussão que ainda não passou à acção: como se verá mais a frente, questões identitárias, ambientais, ideológicas, políticas, sociais e económicas têm feito desta discussão um quebra-cabeças. Longe do consenso que autores como Peralta e Prats (2006) atribuem aos processos de activação patrimonial, na aldeia de Porto Formoso verifica-se um confronto de forças e de agentes, que se traduz na oposição entre apoio/contestação a qualquer intervenção, sem que estas avancem, ou o façam muito lentamente e sempre criando polémica. Como assinala Illich (apud Bordonaro, 2007:234) “development, long before being a set of economic and social indicators, is a system of values, and as such, it is true only as far as it is shared, believed and embodied”. E assim o Porto Formoso encontra-se num impasse, mais complicado ainda pela situação de crise regional, nacional e internacional que se verifica desde
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Traduzido do texto original em inglês pelo Regedor, para a sua publicação no blog.
71 Entendido aqui como o processo de implantação, implementação e/ou suplementação da actividade
2008, no desenho do seu futuro e na definição das apostas a fazer. É elucidativo este hipotético roteiro turístico que um blogger publica na “Casa da Mosca”:
Um dia de verão. Encontro-me na R.Grande, e ando á procura do posto de turismo. Eis que encontro, e pergunte a uma das meninas do OTL, os possíveis locais a visitar na costa norte da lha. Muito gentilmente a menina explica, de entre os muitos locais, poderei ver as únicas plantações de chá na Europa, Gorreana e Porto Formoso. Ao sair do posto de turismo, deparo-me com um placar electrónico, junto ao jardim. Explica-me um senhor de certa idade, que a maioria das imagens, do placar são da freguesia do Porto Formoso. Aquilo é a praia dos moinhos, o porto de pescas, a igreja de Nossa Senhora da Graça, o chá, o miradouro de Santa Iria. Todo entusiasmado com a beleza das imagens parto á procura do local. Encontro um dos miradouros mais bonitos da ilha, onde é possível observar a costa norte da ilha. São doze horas. Em direcção à praia encontro um marco (pedra pontiaguda). Curioso, pergunte ao taxista, a que se refere. Diz-me, que foi para assinalar uma batalha, que ficou celebrizada como a batalha da Ladeira da Velha. Lastimável. Está ao abandono! Estou na praia dos moinhos. Após o banho nas águas refrescantes da praia decido tomar duche. Onde? Nos duches improvisados? Satisfeito com a beleza da praia, insatisfeito com as infra-estruturas existentes, parto em direcção à igreja. Decido entrar, porta fechada! Dizem-me que é por causa dos roubos. Desço até ao jardim para tirar uma foto ao porto de pescas. Fico com a impressão de ser um porto”primitivo”. Castelo em ruínas! São catorze horas e a fome aperta. Pergunte a um senhor a onde comer. No Amaral ou no Jorge. Após o almoço (garoupa grelhada com batatas escoadas), parto á procura do chá. Diz o guia que é diurético, ajuda na digestão. Vem mesmo a “calhar”. Encontro um produto típico do local onde me encontro! Como gosto de andar a pé, pergunte ao guia, se tem conhecimento de algum percurso pedestre federado existente. Diz-me que já ouviu falar, mas que por enquanto não existe nenhum. Regresso à R. Grande com a certeza de estar num dos locais mais bonitos do concelho, mas onde falta investimento, que catapulte o Porto Formoso como destino obrigatório. sono1 |
2/2/07 13:0172
Os elementos com valor turístico desta freguesia existem per se, isto é, não foram criados, pensados ou activados para o turista, existem apenas porque a natureza ou a história os criou. Não existe em Porto Formoso nenhum local onde pernoitar, além de umas poucas casas privadas junto à praia dos Moinhos que se alugam durante o verão. Os locais de interesse estão mal sinalizados, e alguns até pouco visíveis. Não há promoção dos produtos locais, e à excepção da fábrica de chá, transformada em património industrial em 1998, locais com potencial para ser patrimonializados, como o “castelo” ou a própria baía natural não foram ainda activados, isto é, “seleccionados, expostos, difundidos, interpretados, e, fundamentalmente consensualizados” (Peralta, 2008:75), embora estejam a ser constantemente
72 Natural de Porto Formoso, onde reside, estou até ao 12º ano e actualmente é Tea-maker da fábrica de
discutidos no seio da comunidade, nomeadamente desde 200573. Na entrevista realizada ao Presidente da Junta nesse ano, dizia:
O Porto Formoso tem tudo e mais alguma coisa para ter todas as condições para receber o turismo derivado as belezas naturais que temos, temos uma antiga estância termal que está desactivada neste momento, temos vários nascentes de água mineral, temos não só a Praia dos Moinhos , mas outras pequenas praias que podem ser exploradas, temos uma fábrica de chá, temos tanta coisa, temos um castelo, mas é preciso informação para que o turismo quando chegue cá encima, tenha onde visitar alguma coisa porque neste momento existe mas não há nada que os informe neste sentido
O presidente da Junta é consciente de que “ to compete for tourists, a location must become a destination, and heritage is one of the ways locations do this” (Kirshenblatt-Gimblett, 1995:373). Ele está empenhado em que tal aconteça, pois é esta a forma que aponta para lutar contra a desertificação da freguesia.
As politicas de desenvolvimento local assumem e promovem a multifuncionalidade dos campos e encaram o turismo como uma instância capaz de dinamizar a economia, gerar emprego e contribuir decisivamente para a fixação das populações rurais. L. Silva (2007a: 853)
Esta aspiração é comum a muitas outras freguesias em similar situação, sendo que umas, como o Porto Formoso, têm mais possibilidades reais e objectivas para que isto aconteça do que outras, pelo seu enquadramento e coerência com a política desenhada regionalmente, pelo valor objectivo das suas potencialidades turísticas, pela multiplicidade e diversidade das mesmas e pela abertura da população. Mas a actuação da Junta de Freguesia é limitada pela falta de orçamento próprio, pelo que a sua margem de acção fica restringida a apresentar as questões à Câmara da Ribeira Grande e pressionar para que estas sejam ouvidas, sem que, como aponta o Presidente da Junta, tenham sido obtidos resultados:
(O Porto Formoso) É das freguesias, estou a falar da costa norte, é ainda vou apertar mais o cerco, digamos do Concelho de Ribeira Grande, que é o que nos interessa, que tem mais condições turísticas, e que todas elas estão subaproveitadas. Temos montes de coisas, só que as entidades até este momento, nomeadamente a nível Regional e Câmara Municipal , nunca se interessaram em investir no Porto Formoso. o Concelho de Ribeira Grande acaba na Ribeirinha, todas as freguesias para lá do nascente são esquecidas por todas as entidades, quer a nível Regional quer a Câmara Municipal, portanto a Ribeira Grande acaba na Ribeirinha. Tem-se feito coisas noutras freguesias , no Concelho de Ribeira Grande, para o lado de poente, e tem-se esquecido muito o lado nascente.
Esta crítica não é apenas da Junta de Freguesia: a voz dos habitantes é cada vez mais crítica com o ostracismo dos poderes públicos. Os discursos do poder (globais, nacionais, regionais e locais) alimentam a ideia de que tornar-se um destino turístico é sinónimo de crescimento, progresso, enriquecimento e emprego, e os habitantes depositam cada vez mais expectativas neste sector, pois como foi notado no trabalho de campo, a maioria vislumbra um futuro promissor com estradas circulares, aldeamentos turísticos, auditórios culturais, etc. Não pôr em prática estes discursos causa frustração entre a maioria dos habitantes, que reclamam a atenção que “merecem” como destino de natureza.
Mas apesar da falta de investimentos turísticos em Porto Formoso, o turismo está a desenvolver-se informalmente, e valores como a hospitalidade e a dádiva são constantemente observados. Tendo em conta o modelo de desenvolvimento dos lugares turísticos desenhado por Butler em 1980, e salvaguardando a rigidez da divisão das fases que apresenta, podemos situar a freguesia de Porto Formoso nesta primeira década do século XXI na transição entre dois estádios: o estádio de exploração e o estádio de envolvimento. Segundo Sharpley,
“o estádio de exploração é aquele em que um número reduzido de turistas descobre um lugar fora dos circuitos turísticos, desenvolvendo uma relação estreita, mais de hospedagem do que comercial, com os residentes. O estádio de envolvimento acontece quando os residentes descobrem as potencialidades para o desenvolvimento do turismo, começam a promovê-lo para aumentar a procura e a providenciar acomodação e outros serviços a um crescente número de turistas, com os quais mantêm uma relação um pouco mais comercial, mas ainda harmoniosa” (1999, apud L. Silva, 2007a: 868)
Este primeiro turismo está a contribuir para uma “nova consciência de si mesmo que se consubstancia numa nova valorização da paisagem e do ambiente partilhado” (Mendes 2008: 205). O amor dos porto formosenses pela sua terra, anteriormente apontado como uma das características desta comunidade, tem vindo a crescer tanto com os comentários que muitos turistas deixam à sua passagem pela aldeia como pela atenção recebida por parte dos poderes regionais, criando um sentimento colectivo de orgulho que estimula os seus habitantes a adoptar um papel mais activo no processo de turistificação.
A nossa freguesia é dotada de um potencial enorme, bastando para tal olharmos o PDM da Câmara da Ribeira Grande e outros relatórios feitos sobre a nossa localidade:
- Condições para ter uma marina de recreio; - Um resort;
- Um campo de golfe; - Um polidesportivo etc. etc.
Este facto é um um pronúncio de que o Porto Formoso, num futuro muito próximo, será a "JÓIA DA COROA" do concelho da Ribeira Grande. Nada se faz sem as pessoas e o Porto Formoso já tem muita gente capaz a residir na freguesia.
JASRAPOSO | 11/5/06 21:39 (pág. 49-n54)
A promessa do turismo que está por vir faz crescer entre as gentes de Porto Formoso o orgulho pelo seu património cultural, gerando à sua volta um sentimento de coesão e integridade entre os locais e fomentando o potencial social. Neste contexto, o povo de Porto Formoso começa a perceber a importância do seu papel nesta “performance turística” como agente representativo da sua terra: ele é o intermediário entre o turista e a freguesia. Os porto formosenses são historicamente um povo aberto ao exterior, e esta característica transparece já nos contactos informais com os turistas, bem-vindos nos serões ao pé das lojas, nas tardes passadas no jardim do miradouro ou nos afazeres do porto de pescas, o que é muito apreciado por estes. Mas para alguns esta predisposição não é suficiente: além de conviverem com os turistas e criarem empatias, devem pôr-se à altura da situação, e comportar-se “de forma exemplar”, como de resto se costuma pedir aos trabalhadores na relação com a empresa onde trabalha e com os seus clientes:
Para se desenvolver o turismo é preciso limpeza e boa educação, o que infelizmente não abunda no Porto Formoso. Quem desce pelo caminho da Ladeira da Velha vê um grande depositário de lixo perto da entrada do caminho que dá para os banhos e o porto dos barcos é o depósito do lixo dos pescadores. Quanto à falta de educação é difícil de enumerar por serem tantos os casos e saltarem à vista desarmada principalmente junto do pessoal que frequente o ensino básico. AGUIA | 13/11/06 21:33 (S/I)
Convém ainda referir que o desenvolvimento do turismo é uma responsabilidade de todos e não só da autarquia. Há ainda que mudar muitos comportamentos o mais depressa possível de modo a reduzir a incerteza na aposta que o Governo Regional fez nesta área. JASRAPOSO | 2/2/07 00:50 (pág.49-n54)
O turismo é um comboio que não se pode perder, porque o turismo não é só dinheiro, trabalho, e reconhecimento. O turismo é a porta simbólica do mundo: é através dele que o Porto Formoso tem a oportunidade de integrar o mapa do mundo, e para os seus habitantes constitui a base da sua estratégia de globalização, isto é, “the
local aspirations to the ‘global’, how people crave for and dream of it, however they might locally configure it. In other terms, I am talking about the efforts to be ‘connected’, to become ‘modern’ and ‘cosmopolitan’ “(Bordonaro, 2007:232).
Mas, tornar-se moderno tem o mesmo significado para todos os porto formosenses? Será que todos aspiram ao global? E aspiram eles da mesma forma? Os exemplos práticos e a literatura científica mostram tanto os impactos negativos do turismo (ambientais e sociais) como os positivos: recuperação de identidade, revitalização do património cultural e da natureza, melhoria da economia, integração nos fluxos da globalização. Durante o trabalho de campo identificaram-se múltiplas e diferentes posturas na discussão do fenómeno de turistificação. Dos habitantes entrevistados, observa-se uma tendência entre as pessoas mais velhas e com menos contacto com o exterior a defender a aposta no desenvolvimento e melhorias das condições das ocupações tradicionais da freguesia (a pesca e a lavoura): pensa-se que esta tendência se deva ao facto destas pessoas mais idosas e isoladas não terem tido contacto com o fenómeno, suficientemente recente na ilha, do “turismo”. Estando afastadas dos poderes regionais e das suas estratégias, e dos exemplos que vão aparecendo na ilha, não percebem o turismo com uma actividade económica capaz de revitalizar e modernizar a freguesia. Para eles o “turista” é um indivíduo alheio que pouco ou nada tem a ver com a sua comunidade: passam de vez em quando e gostam mais ou menos, mas partem logo a seguir, enquanto eles ficam. Esta tendência também se verifica entre os indivíduos directamente empregados na pesca e na lavoura. Os lavradores, por se encontrarem a maior parte do tempo isolados nos campos, centram as discussão nas suas próprias preocupações. Os pescadores têm mais contacto com o turista pela situação central do porto onde trabalham e pela atracção visual que a sua actividade causa sobre estes 74, mas embora reconheçam que não se importavam de levar um turista no barco de vez em quando, não dão ao turismo mais importância . Entre o resto da população da freguesia, isto é, as pessoas mais novas, pessoas com contactos com o exterior, e pessoas ligadas aos serviços, parece haver um consenso quanto ao facto de que o futuro da freguesia passa pelo “Turismo amigo do ambiente”. O facto de existir este consenso não significa, porem, que este futuro seja percebido por todos como um facto positivo. Para alguns, apesar de reconhecerem que é inevitável a transformação de Porto Formoso num destino
turístico, esta “evolução” trará mais coisas negativas do que positivas. No decorrer do trabalho de campo, ouviram-se vozes a alertarem para um outro futuro que pode chegar com o turismo: além de algumas preocupações ambientais75, alguns residentes questionam “os poucos que irão beneficiar do turismo”, outros apontam para o perigo do Porto Formoso se tornar “um local de luxo apenas para os ricos”, uns advertem da tentação de projectar infraestruturas dispendiosas “que vão funcionar apenas um mês por ano” e outros ainda alertam para o perigo de se desviar a atenção dos assuntos “verdadeiramente importantes” como o saneamento básico ou a falta de uma creche e outros serviços sociais.
Apesar destas vozes serem uma minoria, a verdade é que a planificação do futuro em Porto Formoso está a dar lugar a uma discussão acesa sobre o conceito de “ambiente” que se torna conflituoso quando posto em discussão pública. De uma forma mais abrangente, as noções de “modernidade”, “progresso” e “desenvolvimento” são continuamente postas em causa. O acompanhamento destas discussões no seio da comunidade permite estabelecer as diferenças na forma de perceber estas noções entre os agentes envolvidos (pescadores, lavradores, jovens, velhos, emigrantes, poderes locais e regionais). A percepção deste conceitos exibe os diferentes sistemas de valores, pois ‘development is much more than just a socioeconomic endeavor; it is a perception which models reality, a myth which comforts societies, and a fantasy which unleashes passions […] it is a cast of mind’ (Sachs apud Bordonaro 2007:234).