5. RECURS DIDÀCTIC
5.5. Desenvolupament de les sessions
Na madrugada da terça-feira de Carnaval do ano 2005, o mar revoltou-se no Porto Formoso enquanto a aldeia dormia. Ninguém sabe ao certo o que é que aconteceu, mas quando o mestre Eugénio chegou ao porto, por volta das três da manhã, para sair com o seu barco, o panorama que encontrou era constrangedor: o barco do mestre Ricardo, o “Ave Maria”, e o barco do mestre Américo, o “Carmélia” , apareceram destruídos, a alguns metros de distância de onde foram varados no dia anterior. O barco do mestre Eugénio, o “São Gabriel” também tinha alguns danos, mas menos avultados. A notícia espalhou-se rapidamente pela aldeia, e as conjecturas sobre o sucedido multiplicaram-se. Com o recente e mortífero caso do Tsunami no Oceano Índico90 ainda na memória, falava-se de uma onda gigante que tinha destruído os barcos. Outros, mais moderados, falavam de uma vaga de ondas e de uma rajada de vento. O acontecimento foi tão marcante para toda a aldeia que nesse verão, quando eu retomei o trabalho de campo, ainda se falava no assunto.
Nessa altura, já os novos barcos estavam a ser construídos na oficina do mestre João, em Rabo de Peixe. No caso do mestre Américo, a indeminização do seguro não era suficiente para investir num novo barco. Estando ele reformado também não podia candidatar-se aos apoios da União Europeia, pelo que pediu ao seu filho Paulo Jorge, que aquando do incidente trabalhava no “São Gabriel”, para formalizar o pedido em seu nome. Foi por esta razão que pai e filho se associaram neste novo projecto e investiram num barco um bocado mais pequeno do que o
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Tsunami com epicentro na costa oeste de Sumatra (Indonésia) que teve lugar no 26 de Dezembro de 2004 (2 meses antes do incidente de Porto Formoso) e que resultou em mais de 230.000 vítimas em 14 países diferentes.
anterior (de 8,50 metros para 7 metros) mas mais alto. O novo barco teria o nome da filha do Paulo Jorge, “Mariana”. A ideia era fazer uma pesca de palangre ou de linha de mão, para a qual são suficientes 2 ou 3 pescadores. Para a construção do barco o filho e herdeiro do dono da Fábrica de Chá, o Sr. Galiano, deu toda a madeira necessária.
Pelo seu lado, o mestre Ricardo tinha recebido uma boa indemnização do seguro. Querendo ele tornar o infortúnio em oportunidade, acho que era o momento para apostar num barco de maior envergadura. Quando questionado sobre a decisão de investir num barco maior, o mestre Ricardo foi claro: Porque tem mais espaço, mais possibilidades de trabalho. Estás a ver? Este já está a ficar pequeno. O outro levava quarenta, este leva sessenta e já quero mais. Isto vai tudo evoluindo. O mestre Ricardo, cuja arte principal era a de palangre, queria um barco com maior capacidade de carga e maior autonomia. Por isso, pediu também uma ajuda financeira da União Europeia, que lhe foi concedida. O seu barco, com um comprimento de 9,50 metros, teria o nome de “Praia de Porto Formoso”91, aludindo assim ao característico porto de areia da aldeia.
Ambos os barcos demoraram 8 meses a serem construídos. Chegaram juntos, pelo mar, desde Rabo de Peixe, no dia 1 de Outubro de 2005. Mas ainda precisaram de mais três meses para passar as vistorias e arranjar as licenças correspondentes, e durante este tempo permaneceram varados na areia da baía de Porto Formoso, saindo apenas pontualmente e arriscando uma multa. Foram um total de 11 meses sem trabalhar. O Ricardo optou por acompanhar de perto e ajudar na construção do barco, “para ter a embarcação quanto mais cedo melhor, para um gajo poder trabalhar. E também para mim ver a qualidade do trabalho”. Durante estes meses foi vivendo de algumas saídas que fazia no barco do seu primo Eugénio, de algum dinheiro do subsídio e do apoio de amigos e familiares, pois “primos e irmãos, sempre dão qualquer coisa, ou batata, ou ervilha, legumes, coisas de comer”. Pelo seu lado, o Américo foi-se entretendo aqui e acolá com um barquinho de pesca desportiva que lhe emprestavam para ir apanhando um peixinho, mas ia bastante menos vezes ao mar.
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A primeira intenção do mestre Ricardo era pôr o nome de Maurício (filho), mas por já existir um barco registado com esse nome e outro com o nome da mulher optou por um nome que se referisse ao lugar.
Para o seu filho Paulo Jorge, que tinha deixado de trabalhar no “São Gabriel”, foi mais complicado:
(O trabalho no São Gabriel) Acabou de um momento para o outro e eu estava
acostumado a receber aquele ordenado. Quando houve o problema eu tive de ir trabalhar de pedreiro, estive três meses, e de pintor, seis meses a trabalhar de pintor. Tive que ir. Não tinha barco, o meu pai não tinha, não tinha dinheiro, eu precisava de dinheiro todos os meses para pagar a prestação da casa . A mulher trabalha, eu também trabalho. Teve de ser assim. Mas todos os dias sonhava, todos os dias passava aí, vinha todos os dias aqui ao jardim , a olhar para o mar, pelo menos.
2005 foi um ano difícil para este homens. Sentiram a falta de dinheiro e a falta do mar, mas ao mesmo tempo, sentia-se no ar uma qualquer ebulição, um entusiasmo pelo futuro. As deslocações entre Rabo de Peixe e Porto Formoso eram frequentes, e nos entretantos, no miradouro ou no jardim sobre o porto os homens da aldeia iam comentando as novidades sobre os barcos. O mestre Eugénio, que continuava a pescar no “São Gabriel” decidiu aproveitar este impulso para se lançar, também ele, na construção de um barco maior, mais do que por necessidade, por evolução. Como ele reconheceu anos mais tarde, “ O governo estava cheio de dinheiro nessa altura e a gente aproveitou”. O “Bom barqueiro”, com 10,50 metro, chegou ao Porto Formoso três meses depois dos outros barcos, em Janeiro de 2006. Para ultrapassar a cada vez mais alarmante falta de peixe os mestres de Porto Formoso precisavam de ir cada vez mais longe: um barco maior proporcionava-lhes maior capacidade de armazenamento e maior autonomia. Também lhes permitia levar mais quantidade de aparelhos, de forma a ter mais possibilidades de apanhar peixe num mar que de ano para ano fica mais desgastado. Não há um pescador em Porto Formoso, velho ou jovem, que não fale dum passado rico em peixe e lamente a falta dele no presente.
Isto é uma diferença do dia para noite , é muita diferença, há 20 anos atrás, quando eu comecei a fazer vida disto a gente levava 20 ou 30 gamelas e apanhava 300 ou 400 quilos de peixe e agora hoje em dia levo 100 gamelas e apanho 100 quilos. Mestre Eugénio
(Agora) há muito menos quantidade de peixe. Eu quando era miúdo, quando ia com o meu pai ao Sábado, chegava a apanhar às vezes duas garoupas grandes, um bodião, tudo com um aparelho só, mas é peixe grande. Agora a gente apanha peixe grande, garupa e tudo, mas já não é como antigamente. Antigamente chegava o meu pai, eu vi, entre dois ou três apanhavam 60 -70 quilos de garupa. Tudo garupa grande, de um quilo e mais. E não levava muito para apanhar aquilo, era só de manhã. Até a uma hora ou duas, 60, 70 quilos. Agora já não se vê isso, a gente apanha 30 ou 40 quilos mas a gente tem de ter muita experiência e
tem que ter muita paciência para apanhar mais de 30 quilos. Tem de trabalhar 100 % para apanhar isso. Paulo Jorge
(Agora) Há sondas, GPS, há uns anos atrás não havia sondas, não tinha
hidráulico92, não tinha alador93, isso é que rebentou connosco, rebentou com o peixe. A gente levantava todo o peixe à mão. Havia muita mais quantidade de peixe. Era menos pescado também . E eram menos embarcações, agora eu penso que tem mais embarcações. Há muita mais quantidade de aparelhos, um leva 50, o outro leva 60, o outro leva 80. Eu vou pescar aí, amanhã vai outro a pescar ao mesmo sítio, está a compreender?. No futuro não vai haver peixe. Embora é verdade que se houver pouco peixe, sempre vai subir o valor. É arranjar a melhor maneira de um gajo se desenrascar. Mestre Ricardo.
Se tivermos em conta que, na actualidade os barcos dedicados à arte das gaiolas levam em média 70-80 gamelas/barco, e cada gamela leva no máximo 120 anzóis, dá uns 9000 ou 10000 anzóis por barco. Nas costas de Porto Formoso trabalham nesta arte dois barcos, fora os de Rabo de Peixe, que se concentram na mesma área. Além disso, muitos desses anzóis ficam presos no fundo. A falta de peixe leva ao excesso de aparelhos (e de anzóis), o que agudiza ainda mais a crise dos recursos marinhos, que desta forma se tem acelerado nos últimos anos, criando-se assim um círculo vicioso do qual ainda não se saiu. Diogo Moreira põe esta questão da seguinte maneira:
Como já se observou, os pescadores estão cada vez mais dependentes das complexas variáveis da economia de mercado global. Assim, por exemplo, para conseguirem melhores capturas necessitam de melhores embarcações; para financiarem tais barcos necessitam de meios financeiros provenientes de poupança, ou, mais provavelmente, de empréstimos; para garantir um melhor aproveitamento económico do empréstimo, precisam de um equipamento mais sofisticado; e para pagar têm de obter mais capturas, o que é problemático, dada a natureza, o conhecimento e a situação dos recursos. (1987:35-36)
Não se pode esquecer que o decréscimo no peixe pescado fez aumentar consideravelmente o seu valor. Como corresponde aos mecanismos capitalistas, o desfasamento entre demanda e procura provocou uma subida extraordinária nos preços. Ainda em Março de 2006, o mestre Eugénio afirmava o seguinte:
Mas vamos ver duas coisas, há pouco peixe mas o preço está compensando o haver menos peixe. A gente quer queira quer não, aqui há uns anos atrás
92 Sistema hidráulico para puxar as redes
apanhava-se 400 quilos de peixe de fundo e hoje apanha-se 200 mas a gente ganha muito mais dinheiro, a pesar de tudo do que há uns anos atrás.
Porém esta tendência quebrou-se a partir de 200794, ano a partir do qual o decréscimo do peixe nas lotas deixou de ser acompanhado por uma subida nos preços do mesmo, em grande parte devido a crise internacional e a consequente redução do poder de compra dos consumidores.
Neste contexto de mercado, em Porto Formoso a frota modernizou-se, mas não houve uma modernização do ponto de vista estrutural: os barcos continuam a ser de boca aberta. A modernização deu-se através do aumento da potencia de motor e da instalação de equipamentos electrónicos (GPS), mas não do ponto de vista da estrutura da embarcação. Aumentou a dimensão dos barcos mas não deu melhores condições de trabalho, nem de refrigeração do pescado a bordo. A frota continua a não ter autonomia para passar da pesca local a pesca costeira, (tinha que ter capacidade para pescar até às 100 milhas ou mais), mas devido as novas dimensões é obrigada a aumentar a potência motora (barco mais pesado), fazendo com que os custos de consumo sejam mais elevados. Porém, a sua actividade continua a incidir sempre sobre a mesma área de pesca, até 6 milhas da costa. Como resultado desta política apoiada pela União Europeia, pelo Ministério das pescas, e pela Secretaria Regional, este tipo de modificações nos barcos de pesca local, contribui segundo palavras do dirigente sindical Liberato Fernandes para “um aumento do esforço de pesca numa reduzida cintura a volta das ilhas, com a consequente lapidação dos recursos”. Mas apesar das condições desfavoráveis, os pescadores continuam a apostar na sua evolução e a acreditar no seu futuro, tentando sempre procurar novas estratégias para contornar os problemas que vão surgindo e mostrando assim a sua capacidade de se adaptar às adversidades.