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5.2 Discussion of the specific results

5.2.1 Dietary behaviors in the period from age 15 to age 18

Portugal será considerado, dentro desse curto prazo, o filme vivo da Europa, o seu melhor filme colorido, o único filme onde se poderá viajar dentro do écran, onde a vida de cada dia, meus senhores, será mais bela do que o sonho de cada noite. Ferro, 1949: 61

Não seria possível compreender o sentido de ser turista em Portugal, durante os primeiros anos do salazarismo, sem evocar o nome e a atividade do diretor do

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Secretariado de Propaganda Nacional e do Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo, António Joaquim Tavares Ferro. Na Parte III deste trabalho pormenorizaremos iniciativas e eventos turísticos dos quais Ferro foi o principal encenador, mas por ora gostaríamos de lembrar algumas das declarações em que ele mais claramente explicou o papel atribuído ao setor turístico durante o início do Estado Novo português. Iremos socorrer-nos, para o efeito, de duas publicações que reúnem textos bem explícitos acerca do significado da indústria do lazer para Ferro, e naturalmente para o regime. Referimo-nos a Dez Anos de Política do Espírito, de 1943, e a Turismo, Fonte de Riqueza e de Poesia, de 1949, ambos com a chancela SPN/SNI.

A publicação de 1943 contém o discurso proferido por António Ferro na homenagem de que foi alvo por ocasião do décimo aniversário do Secretariado de Propaganda Nacional, e nele o orador reiterou de forma dramática, como aliás era seu apanágio, quer as suas motivações para o cargo que ocupava, quer a admiração sentida pela figura do Presidente do Conselho. Como era hábito, a dissertação resultou num claro momento de apoio ao regime, quando referiu a  sua  veia  “nacionalista”  (vd.  Ferro,   1943: 3), e na evocação de conceitos-chave dessa ideologia, com a alusão, por exemplo, ao   “Brasil,   obra-prima   da   nossa   raça”   (ibidem: 11). Nesse discurso Ferro assumia claramente o compromisso entre propaganda ideológica e turismo quando relatou que

realizámos muitas viagens, convidámos muitos estrangeiros a vir a Portugal sem os forçar a olhar para isto ou para aquilo, fizemos o possível por esclarecer a opinião pública internacional sôbre o caso português.

ibidem: 14-15

Além das referências explícitas à atividade turística, encontramos neste discurso outros argumentos que consubstanciam a nossa tese de que o setor era tido pelo regime salazarista como mais um veículo privilegiado para se legitimar e divulgar a sua ideologia. Desta forma entendemos a profunda preocupação com o restauro patrimonial (vd. ibidem: 16, 26), bem como as alusões a um conjunto de iniciativas de animação e de lazer, como a participação em feiras internacionais, a organização da Exposição do Mundo  Português  e  “dos  nossos  bailados”  (ibidem: 26), todos eles tidos como mostras de  “nacionalismo”  (ibidem: 17-18).

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Todas estas iniciativas foram apresentadas por Ferro enquanto instrumentos utilizados para prestigiar Portugal, fora e dentro do país, e ainda como estratégias para a “ressurreição esplêndida do nosso folclore como fonte vivificadora do carácter nacional”  (ibidem: 22). O discurso proferido na sede do SPN louvou a criação de uma “consciência   turística”   (ibidem: 22), tendo igualmente elogiado um conjunto de iniciativas relacionadas com o mesmo setor, como

o comêço da resolução do problema hoteleiro através das nossas brigadas de hóteis, das Pousadas e da assistência técnica que prestamos aos estabelecimentos que no-la pedem; abertura de agências de turismo e de postos fronteiriços; concursos de monografias, estações floridas, montras, etc., etc.; estudos para a criação do Museu do Povo Português que será, em breve, uma realidade; infinitas informações dadas, verbalmente e por escrito, sôbre a obra do Estado Novo e sôbre tôdas as coisas portuguesas, a nacionais e estrangeiros. ibidem: 22

Este discurso foi incluído cinco anos mais tarde no catálogo Catorze Anos de

Política do Espírito. Apontamentos para uma exposição apresentados no S.N.I. (Palácio Foz) em Janeiro de 1948, editado por ocasião de uma exposição realizada pelo

Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo.

Turismo, Fonte de Riqueza e de Poesia foi publicado em 1949, o ano em que

António Ferro se afastou do SNI e enveredou por uma curta carreira diplomática. Esta edição do SNI inclui alguns dos discursos pronunciados por Ferro entre 1939 e 1947, e que são claros em emitir o entendimento que o regime fazia do setor turístico, e de como o utilizava para a prossecução de objetivos que iam muito além de meros benefícios económicos.

As alocuções proferidas por Ferro na inauguração de postos de turismo fronteiriços, bem como em hotéis ou em estalagens, tinham como destinatários membros dirigentes das juntas e comissões de turismo. O  turismo,  “essa  caixa  de  lápis- de-cores”   (Ferro,   1949:   10), foi o mote para que, ao longo de todos os textos que compõem esta coletânea, António Ferro repetisse as condições naturais existentes em Portugal para o desenvolvimento do setor, a necessidade de legislação e regulamentação adequadas às atividades turística e hoteleira, e ainda a falta de conforto e de higiene (vd. ibidem: 7, 10, 14, 16, 33, 36, 39, 40, 82). Surgia como prioritária a criação de uma

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consciência turística (vd. ibidem: 97), assim como a melhoria da propaganda turística

em território nacional e estrangeiro (vd. ibidem: 17, 36-37, 58-59, 82), pois Portugal tinha todo o interesse em ser visitado por outros povos (vd. ibidem: 15).

Estas preleções também evocavam ainda o cariz “pitoresco” e o património cultural de cada povo como sendo o principal motor que desencadeava os movimentos turísticos, valorizando-se os locais em que esse pitoresco e típico eram apresentados, designadamente os museus ou os monumentos (vd. ibidem: 16, 35, 36, 84). De forma mais ou menos ostensiva, todos os textos se orientavam no sentido de mostrar a legitimidade   e   os   “bons   atos”   do   regime   do   Estado   Novo,   replicados nos espaços visitados por turistas (vd. ibidem: 20).

É incontornável para o nosso estudo a   referência   ao   discurso   intitulado   “Boas   Vindas”   que   António Ferro proferiu no Posto de Turismo de Vilar Formoso, em novembro de 1939, ano que datou o início da Segunda Guerra Mundial. Nele encontramos de forma pouco velada e (aparentemente) inocente um despudorado elogio ao setor turístico, bem como a constatação da existência de um vínculo inato entre a atividade turística e os regimes políticos dos respetivos países onde ela se desenvolvia. Ousamos, por essa razão, transcrever um passo um tudo-nada extenso, mas que se nos afigura de extrema pertinência não só para o nosso argumento, mas também enquanto trecho justificativo do título da coletânea que o inclui, i.e. Turismo, Fonte de Riqueza e

de Poesia:

O sorriso! Eis qual deveria ser a palavra de ordem para as fronteiras dos países amáveis,

calmos, dos países que são refúgios. (...) O que falta ainda para chegar à capital, ou a

qualquer outra cidade, é conveniente passar-se já numa atmosfera de sonho, de encantamento, na capa tentadora, sugestiva do país visitado...

(…)  Mas  nós  atravessamos  uma  hora  de  ressurgimento  em  que  se deve fazer sempre mais e

melhor. Se Portugal, nobremente, não tenta sequer fazer negócios com esta nova grande

guerra, não deve porém repelir algumas vantagens que a sua neutralidade lhe oferece. Entre estas avulta, como primeira, a de estarmos sendo olhados, por toda a parte, como uma zona

de refúgio, de paz, como o verdadeiro oásis da Europa atormentada, devastada... Se consolidarmos essa impressão, se soubermos receber bem, logo no vestíbulo, os que nos baterem à porta, teremos realizado, aproveitando esta rara oportunidade, uma obra séria de turismo e uma obra indiscutível de boa propaganda nacional.

(…)  [Os  postos  fronteiriços] deverão materializar e espiritualizar as boas-vindas aos turistas estrangeiros, aos próprios portugueses que regressam ao seu país, através duma pequena

lembrança, da visão dum trajo regional, do simples desabrochar dum sorriso feminino... Coisa pouca, sem dúvida, mas bastante para olhos que vêm sedentos, esfomeados de beleza. O comboio pára; uma forma gentil, embrulhada na própria terra portuguesa,

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aproxima-se, sobe às carruagens, enche de graça e de perfume rústico os corredores monótonos do comboio de luxo.

ibidem: 26-28; itálicos nossos

Nestas palavras de propaganda turística encontramos alguns dos mais recorrentes chavões do regime do Estado Novo português. Por um lado, estamos perante uma  “Nação”  diferente   que  soube  escapar   ao  flagelo   bélico  mundial   e  que  é, por isso mesmo, admirada pelo resto do mundo pela singularidade essencial que representa num território de sonho. Por outro lado, é sugerido, sem qualquer escrúpulo, que este encontro entre o luxo estrangeiro e a humildade rural nacional servirão de eficaz estratégia propagandística no exterior. Numa outra ocasião, Ferro desenvolveria esta ideia, afirmando que o  “turismo, é portanto, além dum indiscutível factor de riqueza e de civilização, um meio seguríssimo não só de lata propaganda nacional como de simples propaganda política”  (ibidem: 35; itálicos nossos).

Em fevereiro de 1940, o diretor do Secretariado de Propaganda Nacional discorria sobre  “A  Palavra  Turismo”, título do discurso apresentado numa reunião com membros das comissões municipais de turismo, afirmando   que   o   “nacionalismo   essencial,   inevitável, dessa indústria, justifica, só por si, o seu excepcional interesse. É uma indústria   que,   na   sua   evolução,   só   pode   favorecer   Portugal   e   os   Portugueses”   (ibidem 35). Ferro acabaria por concluir que o

turismo perde assim o seu carácter de pequena e frívola indústria para desempenhar o

altíssimo papel de encenador e decorador da própria Nação. É que todas as obras públicas

resultarão apagadas, frias, inexpressivas, se não forem animadas pelo turismo, pela graça feminina do turismo.

ibidem: 35; itálicos nossos

A mesma ocasião permitiu-lhe também insistir nas referências ao restabelecimento da ordem nacional e nas melhorias feitas no setor, enquanto recordava que

em matéria de turismo, sem que talvez os próprios interessados se tenham apercebido, os homens novos que nos governam têm vindo a realizar lentamente, sem espalhafatos, uma obra notável, monumental.

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Depois de ter resolvido o problema da ordem pública (não se faz turismo sobre vulcões), depois de ter acabado com o espantalho das revoluções que afastava de nós todos os estrangeiros, o Governo do Estado Novo empreendeu uma extraordinária obra de fomento que foi, pouco a pouco, desbravando o terreno das nossas possibilidades turísticas.

ibidem: 37-38

Outro  dos  discursos  de  Ferro  presentes  nesta  antologia,  “A  Primeira  Pousada”,   evocava mais um tema preferido da retórica turística salazarista, i.e., o interesse em atrair visitantes externos que serviriam para fazer propaganda do regime, quando voltassem aos seus países. Em abril de 1942, Ferro afirmava que se deveria começar “desde   já   a   montar   a   peça   a   ser   representada,   mais   tarde,   diante   dos   turistas   estrangeiros”  (ibidem: 66), que acabariam por recorrer a este espaço de paz e diferença:

Quase todas as construções, na hora presente, são construções de guerra... As nossas, porém, continuam a ser, teimosamente, fortalezas de paz, parêntesis de graça e de sossego. Teremos razão? Não teremos? É possível que não tenhamos razão, mas temos, com certeza, alguma poesia, reservas de poesia... E muito mais depressa do que se julga, senhoras e senhores, o mundo há-de recorrer a nós, porque lhe será difícil continuar a viver, por muito mais tempo, sem poesia e sem amor!

ibidem: 66

Das inúmeras vezes em que Ferro referiu a paz nacional, destacamos a alusão feita em 1943 quando enunciou que

entre as vantagens que devemos à paz (em si própria o maior benefício) podemos e devemos contar, como uma das maiores, a propaganda natural que obtivemos a nosso favor através da passagem forçada pela nossa terra, que constituiu, para muitos, autêntica revelação, de estrangeiros de todas as qualidades e de todos os países.

ibidem: 76

Recordemos ainda que, na altura das conversas com Salazar, e a propósito das obras realizadas pelo regime no âmbito da Política do Espírito, António Ferro enumerou uma série de feitos claramente direcionados para o lazer e turismo. Nessa conversa ocorrida em 1938, o diretor do SPN referiu as atividades do Teatro do Povo, o renascimento do folclore nacional, o concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal e as participações em feiras nacionais e estrangeiras (vd. Ferro, 2007 [1935]: 155-156, 175), que constituíam momentos de forte divulgação propagandística do regime como iremos demonstrar na Parte III desta dissertação.

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