• No results found

5.2 Discussion of the specific results

5.2.3 Dietary behaviors at age 15 and BMI at age 18

O historiador Paulo Pina destaca o papel decisivo da publicidade na indústria turística e, particularizando o panorama específico do turismo na época salazarista,

89

refere o  tardio  aparecimento  da  “propaganda  turística”  que  também era usada por alguns grupos para alertar contra os malefícios aliados ao turismo. Pina cita um médico e conferencista portuense, Arnaldo Veiga Pires, que, no ano de 1930, advogava que o setor

era uma ideia, que satisfazia totalmente a preguiça nacional: - viver à custa alheia na degradação de lazzaroni sem vergonha, mas também sem maçadas, e isto é o que importa. (…)

Como podemos acreditar que alguém se interesse por nós, que temos dois terços da população analfabeta, e, do outro terço, a enorme maioria limita a sua cultura a soletrar dificilmente o periódico da terra?

Desejamos o turismo. Mas qual? O da curiosidade desdenhosa e impertinente do visitador da Palestina ou Marrocos; ou do interesse atento e administrativo com que se viaja na França e na Alemanha?

Pina, 1988: 65-66

Rui Estrela diz-nos que, na maioria da década de Trinta, a atividade publicitária em Portugal se caraterizou pelo   “reduzido   volume   de   negócio;;   o   seu   carácter   pouco   organizado, predominando a relação directa entre o anunciante e o meio; débil grau de profissionalização da actividade” (Estrela, 2005: 138). Contudo, apesar disso, o cartaz ia beneficiando dos investimentos estatais, tornando-se um poderoso veículo de divulgação ideológica e turística.

Relembremos a este propósito a pertinência de alguns estudos que se ocupam precisamente da problemática dos cartazes produzidos em Portugal à época, a saber, o trabalho de Maria José Aurindo intitulado O Cartaz Turístico em Portugal, o artigo “The   Poster   of   the   New   State”   de   Theresa   Beco   de   Lobo, e o catálogo Cartazes de

Propaganda Política do Estado Novo (1933-1949) de Helena Pinto Janeiro e Isabel

Alarcão e Silva.

Nesta fase do nosso estudo gostaríamos de mencionar que um descomprometido folhear dos jornais de maior tiragem em Portugal nas décadas de Trinta e Quarenta do século XX nos mostra inúmeras referências, mais ou menos pormenorizadas, que visavam difundir e publicitar produtos e serviços turísticos. Os jornais iam, assim, dando conta do fenómeno turístico, divulgando atividades, e discutindo aquilo que o regime parecia pretender ao fomentar o setor. Se considerarmos, por exemplo, os jornais

90

vasta a alusão a  atividades  de  lazer,  hotéis  e  pensões,  e  também  a  excursões  e  “passeios   mistério”,  notando-se já a preferência que começa a ser atribuída a determinadas zonas que se vão vocacionando cada vez mais para o setor, como a Costa do Sol, o Algarve e a Serra da Estrela.

Em 1933, o ano de todos os começos para o regime, podia ler-se, na primeira página do Diario de Lisbôa, o seguinte texto, assinado por Irene Vasconcelos, que resumia as preocupações e prioridades de então relativas a mais um “setor antigo” na sociedade portuguesa e a todas as lacunas de que padecia. O turismo nacional surgia aqui definido como o espaço de repouso de que António Ferro falaria alguns anos depois (vd. Ferro, 1949: 26), sendo igualmente referido que a animação era um fator inerente ao turismo praticado pelos nacionais e pelos visitantes estrangeiros:

[O turismo] não é um fenómeno moderno. (...) Parece que foi Petrarca quem primeiro se decidiu a viajar, a subir a montanha sem intuitos religiosos ou utilitarios. Apenas para descansar e contemplar a Natureza. Alguns seculos mais tarde, Jean Jacques Rosseau (...) descobre o prazer da viagem e os beneficios do ar da montanha sobre os espiritos fatigados e doentes. Pode dizer-se que ele foi o precursor do turismo moderno, deste turismo que tem por fim o divertimento, a cura de repouso e o desejo de descobrir novas terras e novas civilizações. E se o espírito religioso que conduzia os turistas de tempos idos fazia esquecer as necessidades de conforto e de elegancia, já o mesmo não sucede nos nossos dias, até pelas próprias condições da vida moderna. (...) Mas a economia não exclui a limpeza, o conforto, a elegancia. E exigem-se divertimentos, distracções, musica, alegria.

Diário de Lisbôa, 4 de janeiro de 1933: 1

Estes mesmos temas são retomados com alguma recorrência em diversos artigos jornalísticos, que repetem o caráter nacional(izante) da indústria, em comentários como “[r]eputamos optimo aproveitar a lição dos estranhos, mas sem os copiarmos servilmente. O turismo em Portugal ha de ser condicionado por exigencias que são nossas e não de outros”  (Diario de Lisbôa, 14 de janeiro de 1933: 1), ou em menções que parecem pretender transpor para as deslocações turísticas da época a essência das viagens dos descobrimentos:

Viajar dentro do país, descobrir nas suas paisagens, nos seus monumentos, no labor humilde dos seus filhos ou nas criações anonimas da musa popular as pulsações da Patria tem a vantagem de nos habilitar a maiores roteiros – áquem e além mar.

91

Quase sempre estas alusões a atividades turísticas empregavam a palavra “propaganda”1 em detrimento de expressões mais comummente usadas à época, em contextos semelhantes, como “reclame”   ou   “reclamo”2, ou   até   “publicidade”, quando divulgavam iniciativas do setor do lazer ou comentavam a   desadequada   “propaganda   turística”.   Também no I Congresso Nacional de Turismo de 1936 foram vários os delegados que nomearam a urgência de uma nova e eficaz publicidade turística, a qual era quase sempre designada por “propaganda”. Entendemos a fusão destes conceitos, propaganda e reclame/reclamo/publicidade, que na altura já eram usados com sentidos distintos, como uma forma de ilustrar a omnipresença do aparelho propagandístico do

Estado Novo e como uma evidência da intenção do regime em usar a indústria turística como instrumento de divulgação ideológica.

1 Vd. por exemplo Diario de Lisbôa, Ano 13º, Nº 3911, 1 de outubro de 1933:. 3; Diario de Lisbôa, Ano

13º, Nº 3943, 3 de Novembro de 1933: 4; Diário de Notícias, Ano 71º, Nº 25014, 23 de setembro de 1935; Diário de Notícias, Ano 71º, Nº 25119, 10 de Janeiro de 1936: 4.

2 Vd., por exemplo; Diário de Notícias, Ano 72.º, N.º 23126, 17 de janeiro de 1926: 1; Diario de Lisbôa,

Ano 13.º, N.º 3828, 10 de julho de 1933: 5; Diário de Notícias, Ano 72.º, N.º 23126, 17 de janeiro de 1926.

93

Parte II

A institucionalização do turismo