4 Teaching project
4.3 Didactic implementation
Bakhtin (2003b) define o enunciado concreto como unidade da comunicação discursiva, porque o discurso só existe, de fato, na forma de enunciações concretas de determinados falantes, sujeitos do discurso. O enunciado concreto é constituído por três elementos, a saber:
a) a alternância dos sujeitos do discurso;
b) o acabamento (ou conclusibilidade) do enunciado:
b.1. o tratamento exaustivo do sentido do objeto (tema); b.2. o intuito, o querer-dizer discursivo;
b.3. as formas típicas de estruturação de gênero do acabamento;
c) a relação do enunciado com o locutor (autor) e com os parceiros da comunicação discursiva.
Os elementos que constituem o enunciado concreto apresentam-se como indissociáveis e interdependentes. Assim sendo, a alternância dos sujeitos compõe o contexto do enunciado, podendo ser compreendida como a troca de turnos entre interlocutores. Essa troca se dá no momento em que a conclusibilidade do discurso do falante pode ser percebida, mesmo que relativamente – quando o enunciador deixa pistas indicativas desse relativo acabamento do discurso – abrindo caminho ao outro (seu interlocutor) para proferir ativamente sua réplica em relação ao enunciado anterior.
O acabamento ou a conclusibilidade do enunciado engloba o tratamento exaustivo do objeto, que pode ser assim explicado: o objeto é inesgotável; entretanto, quando se torna tema de um enunciado, recebe um acabamento relativo, em função de uma finalidade, de uma intenção, do material, circunscrevendo-se dentro dos limites de um intuito discursivo definido pelo autor (falante ou escritor). Esse intuito discursivo (querer-dizer) se realiza por meio da escolha de um gênero discursivo, dependendo de suas finalidades (por exemplo, uma tira, um ofício, uma pintura etc.).
A escolha do gênero é determinada em função de uma dada esfera, das intenções da temática (do seu sentido), do seu destinatário, parceiro do discurso; sob essas circunstâncias, o enunciado ajusta-se a um tipo específico de gênero e nele compõe-se e se materializa. Assim,
para os membros do Círculo, a relação presente no enunciado se efetiva entre sujeitos; dialoga, portanto, com os parceiros da comunicação e com a vida.
Nessa perspectiva, o gênero se orienta em duas direções: a) ao ouvinte e às condições de seu projeto discursivo;
b) à vida, pelos conteúdos temáticos (acontecimentos, problemas etc.) que mobiliza em seu interior.
Para Bakhtin (2003b), cada enunciado específico é individual, porque depende da esfera. Esta, por consequência, elabora tipos especiais, mais ou menos estáveis, que o autor denomina gêneros do discurso. Tais gêneros do discurso são constituídos por três elementos, interdependentes, no todo do enunciado: conteúdo temático, estilo e construção composicional, elementos determinados pela especificidade de cada campo da comunicação, ou seja, moldados pelas condições concretas da situação enunciativa.
A construção composicional é determinada, segundo Bakhtin (2003b), pelo projeto enunciativo do autor e não deve ser confundida com um artefato ou forma rígida, tendo em vista que se altera de acordo com os projetos enunciativos. Trata-se, portanto, da maneira como o gênero mobiliza um texto, a forma de composição de um gênero, a articulação arquitetônica entre os elementos constituintes do todo do enunciado.
O estilo refere-se às escolhas de recursos linguísticos (lexicais, morfológicos, sintáticos etc.) que podem manifestar-se de maneira mais ou menos flexível, em função das situações de enunciação, dos grupos sociais e da maleabilidade permitida pelo gênero do discurso escolhido na situação de enunciação.
No entanto, o estilo não deve ser confundido com uma operação mecânica de escolhas lexicais e linguísticas. Sobre isso, Bakhtin (2003e), no texto “O autor e a personagem na atividade estética”, esclarece que o desígnio artístico puramente material é uma experiência meramente técnica. Assim, o procedimento artístico não pode ser apenas um procedimento de elaboração do material verbal (o dado linguístico das palavras); deve ser, antes de tudo, um procedimento de elaboração de determinado conteúdo com o auxílio de determinado material (por exemplo, o linguístico). Segundo o autor, o artista trabalha a língua como meio de expressão artística: o poeta não cria a língua, não a analisa; ele a utiliza para criar artisticamente. Nessa perspectiva, o material é superado pelo ato e pela criação. A consciência criadora do
autor-artista nunca coincide com a consciência linguística, pois esta é apenas um elemento/material a ser superado,totalmente guiado pelo projeto artístico.
Ao buscarmos uma definição para o conceito de conteúdo temático, não podemos deixar de refletir sobre os vários usos do termo tema. Por esse motivo, achamos pertinente adotar as acepções desenvolvidas por Bakhtin/Volochinov (2006) para distinguir quatro termos ligados a um mesmo campo semântico: tema, significação, conteúdo temático e assunto:
O tema deve ser único. [...] O tema da enunciação é, na verdade, assim como a própria enunciação, individual e não reiterável. Ele se apresenta como a expressão de uma situação histórica concreta que deu origem à enunciação (p. 133).
[...] Conclui-se que o tema da enunciação é determinado não só pelas formas lingüísticas que entram na composição (as palavras, as formas morfológicas ou sintáticas, os sons, as entonações), mas igualmente pelos elementos não verbais da situação. [...] O tema da enunciação é concreto, tão concreto como o instante histórico ao qual ela pertence. Somente a enunciação tomada em sua amplitude concreta, como fenômeno histórico, possui tema. Isto é o que se entende por tema da enunciação (p. 133-134).
[...] Por significação, entendemos os elementos da enunciação que são reiteráveis e
idênticos cada vez que são repetidos. Naturalmente, esses elementos são abstratos:
fundados sobre uma convenção, eles não têm existência concreta independente, o que não os impede de formar uma parte inalienável, indispensável, da enunciação (p. 134, grifo do autor).
A significação é um aparato técnico para a realização do tema (p. 134, grifo do autor).
Em nota de rodapé, na obra Marxismo e Filosofia da linguagem (2006), os autores destacam que o termo tema está sujeito a dúvidas; asseveram, ainda, que, para eles, o termo refere-se a sua realização e que não deve ser confundido com o assunto de uma obra de arte, por exemplo. Assim, quando alguém pergunta sobre o assunto de um livro, provavelmente, terá como resposta: “o livro conta a história de uma mulher que após uma separação difícil [...]”. Todas as vezes que alguém perguntar a outra pessoa sobre o assunto do mesmo livro, terá a mesma resposta; muito embora a subjetividade e a individualidade do sujeito que fala possam ser percebidas de maneira diferente, o assunto será o mesmo.
Por outro lado, o tema ainda pode ser confundido com o termo significação. Com relação ao primeiro, podemos dizer que ele é individual, único, concreto, irredutível à análise e determinado pelos elementos verbais e extraverbais (fios dialógicos)da enunciação. Em outras palavras, o tema poderá ser compreendido apenas pelos participantes da enunciação. Ao contrário, na significação, seus elementos podem ser utilizados em diferentes enunciações com
as mesmas indicações de sentido, sendo reiteráveis e idênticos cada vez que são repetidos, e passíveis de análise.
Desse modo, chamamos de tema o sentido do enunciado completo. Como tal, é único e irrepetível, posto que sua realização depende não só dos elementos verbais, como também do extraverbal, como um fenômeno histórico. Já o conteúdo temático está ligado às formas de produção, àquilo que é realizável, dizível em determinado gênero. Podemos exemplificar com o gênero ofício. Aquilo que é dizível no gênero ofício pode ser um pedido, uma solicitação, uma comunicação; eis seu conteúdo temático. O tema é o sentido que tal conteúdo temático produzirá entre os seus interlocutores, participantes desse ato de enunciação.