Optei por desenvolver uma metodologia de projeto com as crianças, devido ao interesse manifestado por estas pela temática “Mar”, trabalhada do decorrer 7ª Semana da Leitura, uma semana antes da minha chegada ao jardim de infância. Através das conversas com as crianças logo nas primeiras semanas de prática pedagógica percebi que o tema lhes tinha agradado bastante e que estavam interessadas em saber mais sobre o mar. Assim tornava-se interessante desenvolver uma metodologia de trabalho por projeto, levando-as a satisfazer a sua curiosidade. Foi uma experiência ótima, pois nunca tinha contactado com este tipo de trabalho. As crianças permaneceram interessadas e motivadas, pois é um trabalho que parte da curiosidade e vontade de querer saber delas, tornando-se assim mais significativo. Tendo em conta que no ensino das ciências às crianças deve-se “desenvolver atitudes positivas e
abordagens à aprendizagem, e ajudar os alunos a aprender a aprender” (Siraj-Blatchford e
Vasconcelos, 2004, p. 71), considero que este tipo de metodologia facilitadora da
aprendizagem das crianças, pois permite-lhes descobrirem e perceberem por elas próprias o funcionamento do mundo que as rodeia. Numa fase em que a curiosidade não tem limites, torna-se fundamental apresentar-lhes este mundo e a forma como deve ser tratado, de modo a “aumentar a compreensão que possuem acerca dos ambientes físico e biológico que as rodeiam e do seu lugar neles” (Siraj-Blatchford e Vasconcelos, 2004, p. 71), sendo este também um dos objetivos do ensino das ciências no pré-escolar.
Inicialmente senti muita dificuldade em conseguir orientar o projeto, pois era necessário que as crianças achassem que tudo o que se concretizava partia de ideias delas. Ora, se era eu que tomava a maioria das decisões e se tinha que planificar, como é que conseguia que as crianças achassem mesmo que a ideia estava a partir delas? Tendo em conta que “as relações e interações são o meio central de concretização de uma pedagogia participativa” (Oliveira-Formosinho et al., 2011, p. 30) sabia o quanto era necessário conseguir orientar os diálogos, mas não sabia como o fazer.
Logo que as comecei a conhecer melhor o grupo, consegui perceber que estratégias solucionariam a minha dificuldade. Percebi a forma de organizar certos momentos, e que questões colocar, de modo a orientar as crianças para o ponto ou para a ideia principal, cumprindo a ideia de que “desenvolver as interações, refleti-las, pensá-las e reconstruí-las é um habitus que as profissionais que desenvolvem a Pedagogia-em-Participação necessitam de promover” (Oliveira-Formosinho et al., 2011, p. 30).
Sem dúvida que o conhecimento mais aprofundado das crianças e da sua maneira de ser ajudou a que conseguisse fazê-lo espontaneamente, sem que fosse necessária uma preparação exaustiva como o era inicialmente. Passei assim a planificar com elas e não para elas, permitindo ao grupo de crianças terem influência na tomada de decisões (Oliveira- Formosinho et al., 2011). Foi uma aprendizagem bastante significativa para mim, pois ouvia há vários anos a ideia de que tudo deve partir das crianças, mas nunca tinha tido oportunidade de a colocar em prática.
Claro que muitas vezes precisei de intervir, porém também sei que um educador tem objetivos que tem que cumprir e que tem mesmo que intervir, porque por vezes só as ideias das crianças não são suficientes para desenvolver e concretizar o projeto. Temos é que saber dar a volta às suas intervenções, orientando o seu discurso com questões colocadas por nós, conseguindo assim o encaminhamento da conversa, sem que estas sintam que está a ser uma imposição. Desta forma, “a criança demonstra ser capaz de gerir o seu próprio
processo de aprendizagem com o apoio do adulto” (Vasconcelos et al., 2012, p. 18), pois é encarada como “um/a pequeno/a investigador/a que quer descobrir o mundo, que sabe que pode e deve resolver problemas” (Vasconcelos et al., 2012, p. 18).
Nas semanas em que era eu a dar seguimento ao projeto tentei sempre fazê-lo de forma mais lúdica possível, Queria evitar que as crianças estivessem sentadas o dia todo a adquirir novos conhecimentos, sem espaço para serem crianças física e mentalmente ativas.
Levo uma experiência bastante positiva em relação aos jogos dramáticos por exemplo. O lado imaginativo e criativo das crianças é algo que me fascina bastante e que penso que deve estar sempre presente no seu dia a dia. Através dos jogos dramáticos, as crianças expressam-se utilizando a criatividade, podendo explorar um pouco mais o seu próprio corpo. As representações feitas pelas crianças também ajudam os educadores a perceberem qual o seu ponto de vista em relação a determinados assuntos, pois fazem-no espontaneamente e mostram o que estão a sentir. A situação que transcrevo de seguida foca as ideias que apresentei anteriormente.
As crianças estiveram muito entusiasmadas durante toda a atividade. Quando pedi para serem elas a dar a sugestão do animal marinho que poderíamos imitar várias participaram. Para além de pedir o animal, perguntava também como é que ela achava que poderíamos imitar esse animal, levando-a a pensar e conseguir uma solução, fazendo-as relembrar características dos animais. Foram trabalhados vários conteúdos enquanto as crianças se divertiam e estimulavam a capacidade de imaginar, tão necessária nestas idades (Anexo I: Reflexão dos dias 6 e 8 de maio, em contexto de jardim de infância).
Considero importante este tipo de atividades, em que as crianças se libertam e mostram muito de si. Estes jogos podem facilitar a que no futuro sejam adultos criativos e capazes de solucionar problemas.
Tendo em conta que “todas as crianças têm criatividade” (Cordeiro, 2010, p. 330), cabe aos educadores conseguirem que a criança liberte essa capacidade, tornando-se “facilitadores destes processos, seja estimulando-as, seja dando os materiais e condições” (Cordeiro, 2010, p. 330), conforme as necessidades de cada uma.
Existe muito potencial em cada criança, só precisamos de planear de um modo adequado para que elas se libertem e mostrem o que lhes vai na mente, sem pressionar, nunca esquecendo que “criatividade não deve ser confundida com talento, inteligência ou capacidades cognitivas” (Cordeiro, 2010, p. 330).
Também as atividades em que as crianças tinham oportunidade de tocar e sentir algo concreto e real estiveram presentes, pois considero bastante importante que exista este tipo de interação. A aprendizagem é facilitada quando é feita através a ação. As crianças
“precisam ter oportunidade de tocar, examinar e brincar com as coisas, para saber como funcionam” (Williams et al., 2003, p. 31). Criei oportunidades e promovi experiências educativas que lhes permitiram explorar e sentir, de modo a construírem os seus conhecimentos. É exemplo disso a exploração de animais marinhos reais que transportei para a sala, para que as crianças pudessem explorá-los livremente. Estas sentiram e exploraram o que era real e descobriram por elas próprias algumas características desses animais, como é visível na seguinte transcrição:
As crianças estavam bastante entusiasmadas com o facto de terem ali à frente delas os animais reais. Inicialmente permiti que tocassem, não pedindo qualquer tipo de informação. As crianças enumeravam características, à medida que iam tocando e explorando. Quando percebi que alguns pormenores lhes estavam a escapar intervim, fazendo questões, de modo a que chegassem a essa conclusão. Questionei também acerca das diferenças entre eles, para levar as crianças a realizarem comparações, percebendo a diversidade entre estes animais (Anexo I: Reflexão dos dias 22, 23 e 24 abril, em contexto de jardim de infância).
Num outro momento, um pescador visitou as crianças e falou sobre a técnica de pesca à linha e da sua experiência pessoal como pescador. Foi bastante importante para as crianças a quebra da rotina, em que foi uma pessoa fora do ambiente da escola que orientou o momento. As crianças entenderam que aquela pessoa sabia bastante acerca da pesca à linha e estava disponível para as elucidar sobre isso. Foi das atividades que mais referiram ter gostado e da qual retiraram inúmeras aprendizagens pois, como tive oportunidade de observar, as crianças mostraram possuir informações preciosas acerca da pesca ao longo dos dias posteriores à visita do pescador. Penso que é importante que as crianças entendam que todas as pessoas à sua volta lhes podem proporcionar momentos de aprendizagem. Por várias vezes recorri a representações pictográficas elaboradas pelas crianças, para entender o que lhes ia na mente. Penso que era uma boa estratégia, se for acompanhada da descrição oral feita pela criança. Percebi que as crianças desenham o que pensam, mas que acrescentam imensa informação quando descrevem, quando não conseguem representar. A sua ideia estava lá e não seria possível compreendê-la se não existisse a descrição oral. O desenvolvimento do projeto “Descobrir os Tesouros do Mar” foi algo que acompanhou as crianças durante um longo período de tempo e, como tal, esteve presente na festa final. Aprender a preparar uma festa agradou-me bastante, pois não tinha noção de como fazê-lo. Ao ensaiar com as crianças uma parte da canção “Gente do mar” traduzida do original “Gente di mare” (Umberto Tozi e Raff, 1987), que foi apresentada na festa, tentei sempre mostrar-lhes que a festa era algo sério, mas também era um momento para elas se
divertirem, pois considero que demasiada pressão nestas idades não faz qualquer sentido e apenas as iria oprimir.
Foi no seguimento desta ideia que os momentos protagonizados pelas crianças na festa final resultaram de reproduções de atividades realizadas por elas numa das minhas semanas de atuação, em que manifestaram interesse em repeti-las. Algo que aprendi ao longo das aulas que tive e das conversas com a educadora cooperante é que só assim faz sentido, pois este tipo de festa deve representar aquilo que as crianças fazem na escola e que gostam de fazer, não deve ser uma mera apresentação preparada para agradar aos pais, sem qualquer significado para as crianças.
Foi muito agradável ver o resultado de algo proporcionado por mim ser apresentado com tanto orgulho pelas crianças às suas famílias e perceber que estavam felizes porque estavam a gostar realmente do que estavam a fazer. Nunca vou esquecer os seus olhares de glória e o orgulho que senti nesse momento. Estava feliz porque as crianças estavam felizes e orgulhosas pelo seu trabalho.
Como aspeto menos positivo desta experiência com metodologia de projeto, penso que perdi um pouco de tempo a tratar alguns temas um pouco complexos, que não foram tão significativos para as crianças. Esse tempo acabou por fazer falta para outros assuntos que teriam sido mais interessantes de aprofundar, bem como algumas questões realizadas pelas crianças, que acabaram por ficar sem resposta. Penso que também o facto de iniciar um projeto desta dimensão com um tempo tão reduzido para conhecer as crianças e criar uma relação com elas influenciou a que isto acontecesse, pois numa fase inicial sem conhecer bem as crianças é complicado conseguir seguir apenas os seus interesses.