Bartra (2001) salienta que a melancolia era muito conhecida nos conventos, onde, com muita frequência entristecia as almas dos que faziam esforços para chegar à luz divina. Na consciência religiosa europeia, a antiga ideia hipocrática de melancolia se aproxima da perigosa e mortal acedia que costumava ameaçar os monges solitários. As freiras que sofriam de melancolia eram repreendidas com castigos, pois nos conventos se considerava melancolia
como sinônimo de culpa: “[...] no se trata de locura sino de uma actitud irracional que vuelve a las monjas ansiosas por ejercer sin freno su voluntad y su libertad [...]” (BARTRA, 2001, p.
77). Santa Teresa de Ávila, que havia conhecido os sintomas da melancolia, recomendava, decididamente, que não fossem admitidas mulheres melancólicas nos conventos:
No debemos extrañarnos de que los místicos les preocupase mucho que la intensa experiencia interior del religioso fuese confundida con los síntomas de la melancolía, pues se daban cuenta que el mismo camino que los comunicaba con Dios los podía también llevar al delirio morboso. Santa Teresa de Ávila temía que su éxtasis, que era un deseo que ardía como fuego interior, se pudiese confundir con la melancolía o con un engaño del demonio. Tan fuerte era su inflamación deleitosa, que la define con metáforas que pueden hacer pensar en la enfermedad:
dolor deleitoso, tempestad sabrosa, que junta quietud con pena; pero „ser melancolía‟, escribió la santa, nenguno; porque la melancolía no hace y fabrica sus
antojos sino en la imaginación; estroto procede del interior del alma (BARTRA, 2001, p. 75).
Mesmo com a recomendação de Santa Teresa de Avila, frequentemente a melancolia aparecia entre as freiras, o que ocasionava grande transtorno. Santa Teresa afirmava que o delírio de uma só freira podia inquietar todo o convento, por isso deviam ser repreendidas:
“[...] Sí no bastaren palabras, sean castigos: sí no bastaren pequeños, sean grandes; sí no
bastare un mes de ternerlas encarceradas, sean cuatro, que no pueden hacer mayor bien a sus
almas” (BARTRA, 2001, p. 77).
De acordo com Bartra (2001), a terrível paralisia anímica que ameaçava o acedioso não provinha do esquecimento do fim divino de sua contemplação, mas do fato de não conseguir alcançar o objeto de seu desejo. Giorgio Agamben, citado por Bartra (2001), escreveu um ensaio em que mostra que a contradição da vontade que se experimenta com a acedia ou com a melancolia não provém de uma insuficiência ou debilidade do desejo; pelo contrário, nasce de uma exacerbação tão viva de amor pela divindade que o objeto se torna inacessível.
A melancolia era um motivo de preocupação nos conventos espanhóis. Melquíades Andrés, citado por Bartra (2001), em Historia de mística de la Edad de Oro en España y
América apresenta um texto irônico de Fray Melano Cerruno, Constituciones del Cerro
amargos de corazón, airaos, inquietos, escrupuloso, coléricos, insufribles y desasosegados”
(BARTRA, 2001, p. 77). Também se ocuparam da melancolia Jeronimo de Segorbe, em Navegación segura para el cielo (1611); María de San José, discípula de Santa Teresa e Alonso de Ledesma, que escreveu em Conceptos espirituales y morales (1600): “[...] Con su mal de corazón está la melancolia, dando mil golpes al alma, que es mal que hasta el alma
tira”30.
A relação entre o êxtase místico e a melancolia, segundo Bartra (2001), foi algo mais que um poderoso recurso barroco dos poetas. Foi uma ameaça real que acometeu homens e mulheres que buscaram mais intensamente um caminho pessoal e direto para chegar a Deus. Cita a inquietude de Jacob Boheme, que em Aurora expressa sua angústia em relação à melancolia:
Al fin caí en una profunda melancolía y tristeza al contemplar el gran abismo de este mundo; al ver el sol y las estrellas, asi como las nubes, la lluvia y la nieve; al considerar en mi espíritu la entera creación de este mundo. Ya que en todas las cosas halle mal y bien, ira y amor, tanto en las criaturas inanimadas, como la madera, las piedras, la tierra y los elementos, como en el hombre y las bestias (BOHME apud BARTRA, 2001, p. 83).
A relação que propomos entre melancolia e religiosidade da Espanha do Século de Ouro com o texto de Elisa, vida mía, filme (1977) e romance (2004), está centrada na forma crítica como Saura trata qualquer tema relacionado à religião. Não fala diretamente de melancolia quando, por exemplo, fala dos anacoretas ou das freiras do colégio religioso, mas a forma como narra demonstra que ainda existe um mal-estar relacionado à religião católica.
Este mal-estar relacionado à religião se articula com a imposição franquista da religião católica à população espanhola durante a ditadura. Nesse período, o ensino da religião católica era obrigatório em todas as escolas e os sacerdotes se constituíram nos guardiões da moral pública:
30 Essas referências são do livro Historia de la mística de la Edad de Oro en España y América, de Melquiades Andrés, que é citado por Bartra (2001).
[…] Franco estuvo dispuesto a ir hasta donde la Iglesia pretendía, siempre que la
Iglesia no vacilara en su identificación con el régimen, y restauró a la Iglesia en una plenitud de poder impensable en los mejores momentos de la monarquía: el Ministerio de Educación fue entregado a católicos, toda la legislación laica de la República quedó derogada, los tribunales eclesiásticos recuperaron su jurisdicción, los salarios del clero fueron restituidos, las jerarquías eclesiásticas pasaron a ser presencias inevitables en cualquier ceremonia oficial, las autoridades políticas ocuparon un lugar destacado en las ceremonias religiosas. Todos los espacios públicos y privados resplandecían de símbolos religiosos; la enseñanza de la religión en sus variantes de historia sagrada, dogma y moral católica se convirtió en tarea obligada de las escuelas, los sacerdotes se constituyeron en guardianes de la moral pública (JULIÁ, 2000, p. 310).
Saura cita os monges anacoretas mais de uma vez em Elisa, vida mía (filme e romance). Quando Luis foi morar em Melque, mudou totalmente de vida, deixou o conforto
de Madri para viver com o mínimo imprescindível na casa de campo de Melque: “[...] había
dejado que le hicieran companía los objetos imprescindibles, aquellos que necesitaba de verdad, sea para estudiar, para traducciones, para sus clases o simplemente para poder
escuchar música: lo imprescindible [...]” (SAURA, 2004, p. 31). Luis dizia que tinha
justamente o que necessitava e que quando aparecia alguma tentação, algum presente, alguma revista, qualquer coisa que lhe parecesse inútil, atirava ao fogo para eliminá-la definitivamente da sua vida. Apesar de viver com o estritamente necessário, Luis não se define como um anacoreta: “[...] No era un anacoreta, ni por supuesto un Simón en el desierto
[...]”(SAURA, 2004, p. 31).
Em outra passagem do romance, em um dos momentos em que o personagem Luis mostrava preocupação com a morte próxima por causa da sua grave doença, ele pensa que
havia chegado a um lugar digno de um anacoreta: “[...] una vida de largo recorrido y de
variable intensidad que le había permitido llegar hasta aquí, un lugar digno de un anacoreta o de alguien que ha dejado atrás algunos placeres de la vida en busca de soledad y recogimento (SAURA, 2004, p. 42).
Citamos, também, a cena de um diálogo entre Elisa e Luis na qual ele novamente comenta sobre coisas que podem fazer bem à vida, como escutar música, ler, ir ao teatro, ver
filmes interessantes e, sobretudo, procurar um tempo para pensar um pouco em si próprio e nas outras pessoas. Elisa responde que sabe que se pode viver com o imprescindível: alguma roupa para o frio, uma cama para dormir, uma mesa e uma cadeira para ler e escrever e um trabalho para poder se sustentar e que isso já faziam os anacoretas: “[...] – Eso ya lo hacían los anacoretas y los místicos, y encima se flagelaban... – argumenta Elisa” (SAURA, 2004, p. 114).
Nesta passagem do romance, Luis conta para Elisa que sobrevivia com o dinheiro das aulas, que dava na escola de freiras, e das traduções. Nessa cena, Luis pedia que a filha não pensasse que ele era um místico, que apesar de viver isolado e com pouco conforto como eles,
não comungava com suas crenças: “[...] Elisa, no piense que soy un místico. No, no comungo
con ellos. Mi aspiracion no es estar más cerca del todopoderoso, sino que trato de que mi vida sea mi vida, que me pertenezca por entero […]” (SAURA, 2004, p. 132).
Saura faz algumas referências aos conventos e às freiras em Elisa, vida mía (filme e romance). Sempre que se refere à religião, o faz de forma crítica. Na primeira passagem, Saura não faz necessariamente uma articulação direta a respeito dos conventos, freiras e melancolia. Pelo contrario descreve a freira, tia de Elisa, como uma figura autoritária, que poderíamos associar ao autoritarismo de Santa Teresa de Ávila, que proibia a admissão de mulheres melancólicas no convento. Nesta passagem do romance, Elisa pergunta ao pai porque ele a havia colocado para estudar em um colégio de freiras. Ele responde que a idéia havia sido da mãe de Elisa, porque Teresa, tia de Elisa, era uma das freiras do convento e ela gostaria que Elisa fosse controlada pela tia. Luis comenta que nunca pode suportar Teresa, irmã de sua esposa, porque ele a considerava hipócrita e falsa:
[…] – La hermana Teresa, tu tia, a la que nunca pude aguantar, tan hipócrita y falsa, con una sonrisa de hiena…
[…] – Nunca he podido soportarla, hija mía. Tan rebuscada y tan convencida de
Na passagem que segue, extraída do romance, Elisa reflete sobre sua educação no colégio de freiras. Recorda-se que, quando dormia no colégio, era obrigada a cruzar os braços e colocar as mãos sobre o ombro para evitar as tentações. Apesar de não haver explicitamente uma articulação entre esta atitude de cruzar os braços, para evitar tentações, com a melancolia, aproximamos essa idéia com a atitude severa de Santa Teresa com as freiras melancólicas, pois, segundo Bartra (2001): “[...] el humor negro de las monjas es visto como una libre fruición de las consecuencias del pecado y como goce complaciente de pasiones e
imaginaciones ilícitas y repugnantes” (BARTRA, 2001, p. 135). É possível que essa atitude
adotada para as freiras também valesse para as alunas dos colégios de freiras. Devemos considerar a distância entre os séculos XVI e XVII e os séculos XX e XXI, e presumir que o tratamento não era o mesmo nem para as freiras nem para as alunas do colégio. Mas, por outro lado, também devemos considerar as reflexões da personagem Elisa, que se considerava em uma prisão no colégio de freiras, e, quando os pais decidiram transferi-la para um instituto, teve que aprender rapidamente tudo o que haviam ocultado antes no colégio religioso:
[…] Aprendió que los chicos querían acostarse con ella, y ella, que al principio era
reticente y tenía miedo de las consecuencias, poco a poco fue aceptando que ese era un paso necesario que algún día había que dar. Con respeto a sus compañeras, ella pertenecía al grupo de las que no hacían las cosas a la ligera. Tuvo un novio,
Manuel se llamaba, que tendría sus años, quizá un poco mayor, diecisiete…, y los
dos descubrieron sus cuerpos y aquello que más les diferenciaba […]
[…] Comprendió que el sexo era algo tan poderoso, que podía llegar a borrar de la
mente cualquier prejuicio, pero decidió no dejarse llevar alegremente por él, sólo sí
las circunstancias lo requerían […] (SAURA, 2004, p. 122).
Em outra passagem do romance, Elisa reflete sobre as duas freiras que havia visto no colégio religioso, onde o pai dava aula de literatura para crianças. Uma, era uma anciã que olhava fixamente para o chão e Elisa a compara a um morto-vivo: “[...] La calvicie le había dejado un craneo en el que podía percibirse la estrucutura de la calavera. Como un muerto
viviente, la anciana arrastraba sus últimos días por las losas del pasillo […]”(SAURA, 2004,
com a beleza da jovem: olhos azuis intensos, lábios bem delineados e uma pele muito branca. Elisa se perguntou como uma moça tão bonita podia perder sua juventude e sua beleza
naquele lugar: “[...] Le hubiera gustado decirle: sal de aquí lo antes que puedas, tu lugar no
está aquí, vete, por que con tu hermosura siempre hallarás quien te ayude (SAURA, 2004, p. 122). A foto que segue, extraída do filme, mostra as duas freiras, e podemos perceber um ar de tristeza na freira mais velha, talvez pela saúde debilitada. A freira mais jovem, por outro lado, possui um olhar melancólico:
31
Fig. 39. (Cena 12).
Soror Trindad, que acompanhava Luis e Elisa referia-se à freira mais velha usando o passado, como se ela já estivesse morta. Como morte e velhice eram temas que incomodavam Luis, ele levou a conversa para assuntosmais frívolos:
– Lo que nunca entenderé es por que una mujer tan atractiva como usted se metió a
monja...
Sor Trindad sonrió complacida.
– No empiece, don Luis, no empiece…
Luis estaba provocador. Le divertía el juego que hacía con la hermana.
– Y esa muchacha tan guapa, tan joven, sor…
– Sor María de Jesús. Lo sabe usted muy bien. Y nos es tan joven, aunque los
parece.
– cuantos anos tiene
Pero sor Trindad no se quería comprometer.
– Tiene los suficientes para decidir lo que quiere hacer en esta vida (SAURA, 2004,
p. 123).
Algumas reflexões de Luis sobre religião, igreja, e as normas por ela impostas apresentam ideias que podemos associar à melancolia. Para o personagem Luis, o cristianismo, como a maior das religiões, era uma religião de morte e de pesadelo: “[...] Ningún resquicio para disfrutar la vida salvo el estricto cumplimiento de las normas, y hasta ellas nos recordaban de continuo que su incumplimiento entrañaba el pecado y la condena eterna. El placer se postergaba para más tarde, para más allá” (SAURA, 2004, p.202).
Destacamos que no filme La noche oscura (1989) Saura também faz referência à melancolia religiosa ao retratar a vida de San Juan de la Cruz, poeta místico e religioso carmelita do séc. XVI. Neste filme, Saura retrata os nove meses entre 1577 e 1578 que o
monge “carmelita descalço”, Juan de Yepes, passou no calabouço de um convento, preso pela facção rival dos “carmelitas calçados”. Sobre esse personagem, Saura declara:
San Juan de la Cruz es un personaje que siempre he admirado. Un poeta excepcional, extraordinario. La historia, no obstante, está al margen del bien y del
mal. La parte mística no me interesa nada, pero soy respetuoso con él. […] Escogí
la época de su vida que a mí me parece más maravillosa. Allí en Toledo, castigado
por sus hermanos “calzados”. En realidad lo encerraron para matarlo, pero al fin y
al cabo eran religiosos y no podían matarlo y que desaparezca, pero lo fustigan, lo castigan, no le dan de comer. Entonces se supone que allí, encerrado en aquella celda mínima, espantosa, fría y horrenda, recurrió a un segundo estado anímico estableciendo la comunicación mística con Dios, comenzando a elucubrar y a escribir sus poemas y a esperar el momento de la iluminación. Y cuando llega el momento lo escribe. Es una maravilla de historia. La idea de tratar este personaje
en el cine comenzó hace mucho tiempo, cuando comencé a leer su obra. No fue en las limitadas lecturas colegiales, sino más tarde, cuando lo leí y lo digerí (SAURA apud RUIZ VEGA, 1999, p. 77).
O motivo de citarmos Noche oscura (1989) nesta parte do trabalho se dá ao fato de Saura tomar como fonte de inspiração um religioso que apresenta e descreve nessa obra a melancolia que ele mesmo padeceu durante a vida. Ruiz Vega (1999) esclarece que verificou no seu estudo sobre San Juan de la Cruz que ele possuía uma personalidade obsessiva, característica que constitui um terreno propicio para a melancolia: “[...] el nuevo retrato mostraba un San Juan lleno de sufrimientos y limitaciones que lo hacían más humano, sino que nos permitía además comprender aspectos de sua vida y de su obra que hasta entonces habían permanecido velados (RUIZ VEGA, 1999, p. 9).
Os estudiosos da vida de San Juan de la Cruz citam três períodos na vida do místico como origem do seu sofrimento: a pobreza sofrida durante a infância, os nove meses de prisão no convento e, finalmente, as perseguições que sofreu por parte dos seus superiores poucos meses antes de morrer. Como vimos, Saura escolheu os nove meses de prisão em Toledo para retratar San Juan de la Cruz no filme La noche oscura (1988). Como Saura costuma fazer duras críticas à religião e às autoridades religiosas/eclesiáticas nos seus filmes e romances, acreditamos que essa escolha se deve ao fato de tratar-se de um período em que San Juan esteve subordinado aos carmelitas calçados. Ele permanecia preso dentro de um convento, faminto e recebendo castigos. A história de San Juan permitiu a Saura exercitar sua visão crítica do catolicismo ao mesmo tempo em que permitiu mostrar a melancolia dos religiosos, assunto que tratamos nesta parte do trabalho e que Ruiz Vega (1999) aponta no seu estudo sobre San Juan de la Cruz:
Sabíamos que en la Biblia se encuentran las que pobablemente sean las más bellas descripciones de la depresión melancólica, pero desconocíamos que esas mismas descripciones se van a ir repitiendo, incansablemente, obstinadamente, en los místicos cristianos de todos los siglos: Casiano, san Gregorio Magno, san Juan Clímaco, santa Gertrudis, la beata Ángela Foligno, Jean LeeuwEn, Juan Tauler, el beato Suso, santa Catalina de Génova, san Ignacio de Loyola, Santa Teresa de Jesús,
San Juan de la Cruz, María de la encarnación, Juan José Surin, Madame Guyon… (RUIZ VEGA, 1999, p. 10).
San Juan de la Cruz foi discípulo de Santa Teresa de Ávila, freira que conheceu a melancolia, como já citamos neste capítulo. De acordo com Bartra (2001), Santa Teresa de Ávila viveu uma dramática luta interior até conseguir uma conversão mística, quando tinha
quarenta anos, que a libertou do prolongado martírio que foi sua vida: “[...] Deseaba vivir –
que bien entendía que no vivía, sino que peleaba con una sombra de muerte y que no había quien me diese vida, y no la podía yo tomar [...]” (ÁVILA, apud BARTRA, 2001, p. 76). Santa Teresa buscava Deus através do seu mundo interior e tentava entender o que acontecia
dentro da sua cabeça: “[...] escuchaba la „baraunda del pensamiento‟, que venía – creía ella – de la imaginación y no del entendimiento; el hecho de no comprender ´que hay un mundo
interior acá dentro‟ producía conflitos internos y melancolías” (ÁVILA, apud BARTRA, p.
76). Essa viagem pelo mundo interior, destaca Bartra (2001), implicava grandes conflitos espirituais próprios da melancolia.
San Juan de la Cruz, assim como Santa Teresa de Ávila conhecia esses conflitos interiores, ou seja, também sofria de melancolia e explicou o caminho da alma através da
noite escura em busca da luz divina: “[...] es un „camino de oscura contemplación y sequedad‟
en que el alma se cree perdida ante los trabajos, aprietos y tentaciones, sobre todo cuando le dicen ´que es melancolía, o desconsuelo, o condición, [....]” (CRUZ, apud BARTRA, 2001, p. 77).
Para exemplificar rasgosde melancoliana obra de San Juan de la Cruz, destacamos o poema La noche oscura (1577), cujo título já remete a uma idéia de melancolia, por causa
dos símbolos “noite” e “escuro”:
La noche oscura (1577)
Canciones del alma que se goza de haber llegado al alto estado de la perfección, que es la unión con Dios, por el camino de la negación espiritual.
con ansias en amores inflamada, (¡oh dichosa ventura!)
salí sin ser notada,
estando ya mi casa sosegada.
A oscuras y segura,
por la secreta escala disfrazada, (¡oh dichosa ventura!)
a oscuras y en celada, estando ya mi casa sosegada.