Chapter 4: Defining factual circumstances of Nagorno-Karabakh conflict in
4.2 Determinations in respect of 1992-1994
Entre as figuras femininas, destacam-se as amigas e as mulheres simples, como as empregadas domésticas.
Em “Encontro perfeito”, na crónica de 18 de Novembro de 1967, Maria Bononi Antunes, sua amiga e comadre, é caracterizada como um “misto de lucidez e instinto, o que a torna um ser completo” (Ib.: 45). Seu encontro com ela foi tão perfeito que, “na hora da despedida, Maria disse «até amanhã». Eu me renovei em Maria, espero que ela se tenha renovado em mim, embora não precise” (Ib.). Entre as empregadas, Aninha, “uma mineira calada”, espécie de “aparição muda”, faxineira, teve a ousadia de pedir um livro da autora para ler, declarando: “Gosto de coisas complicadas. Não gosto de água com açúcar” (crónica de 25 de Novembro, in Ib.: 48). A loucura de Aninha, na crónica de 16 de Dezembro, é interpretada como uma “doçura de Deus”, embora muito triste: “Ela não gostava de “água com açúcar”, e nem o era. O mundo não é. [. . . ] Deus faz doçuras muito tristes. Será que deve ser bom ser doce assim?” (Ib.: 55).
Jandira, a cozinheira, mulher “tão forte que é vidente”, pressagia o período feliz que a irmã da cronista atravessava. Espantada com o presságio, aquela comentou: “Bom. Cada um tem a empregada que merece” (Ib.: 48).
Ivone, a outra cozinheira, que “não era de brincadeira”, não respondia ao ser interpelada, mas, ao fim de três interpelações, “dava um verdadeiro berro: «Chega!!!»” (Ib.). Ao ser despedida, respondeu “com voz bem fininha, a mais
melosa, humilde e enjoativa que se possa imaginar: «Sim, senhora»” (Ib.: 49). No entanto, telefonou várias vezes e visitou pessoalmente a antiga patroa.
A peça As Criadas, de Jean Genet, transforma a maneira de encarar as em- pregadas, sentindo-se “culpada e exploradora”: “Fiquei toda alterada. Vi como as empregadas se sentem por dentro, vi como a devoção que às vezes recebemos delas é cheia de um ódio mortal” (crónica de 2 de Dezembro, Ib.: 50). No en- tanto, nem sempre esse ódio é declarado, como o da argentina, sob a forma de “uma devoção e de uma humildade especiais” (Ib.).
O caso de uma empregada que fazia psicanálise, também é objecto de apre- ciação, pelas suas atitudes angustiadas, revolta e “trinado histérico” (Ib.: 51) da sua voz. Acabou sendo despedida.
Interpretando simbolicamente o nome da empregada Eremita, de 19 anos, para além da sua presença física e “doçura próxima a lágrimas”, a crónica “Como uma corça”, de 27 de Janeiro de 1968, caracteriza-a como uma pessoa misteriosa, com a profundidade bebida na floresta, apesar da sua ignorância elementar:
Ah, então devia ser o seu mistério: ela descobrira um atalho para a floresta. Decerto nas suas ausências era para lá que ia. Regressando com os olhos cheios de brandura e ignorância, olhos completos. Ignorância tão vasta que nela caberia e se perderia toda a sabedoria do mundo (Ib.: 72).
Assim, as funções menores que desempenhava como criada não impediam a “inteireza de espírito que trouxera da floresta”, ela que escondia essa profun- didade: “Que se subisse à tona com tudo o que encontrara na floresta seria queimada em fogueira” (Ib.).
Outra empregada, objecto da crónica de 23 de Março do mesmo ano, é “Outra Maria, essa ingênua, e Carlota”. A sua ingenuidade é perspectivada a partir de uma breve conversa, na qual a apresentação da cronista em trajes menores, de acordo com a natural intimidade doméstica, serve para Carlota evocar outras patroas, a quem chama “madames”, incluindo uma prostituta: “Todas as madame usa assim mesmo. Trabalhei na casa de uma madame que até recebia visitas de homens de camisola” (Ib.: 88).
Na crónica “O arranjo”, de 20 de Julho, contrapõem-se duas espécies de em- pregadas: uma escrava, “mulher perfeita para cuidar das roupas e das crianças” (Ib.: 117); outra, livre, mulher de todos, injuriada pelos patrões, “realmente can- sados de distribuir por famílias os seus filhos” (Ib.): “Mas ela não era escrava: vivia independente deles e dava à luz os seus próprios filhos, distribuídos depois como gatos, amarelados como a mãe” (Ib.: 118).
A “cantilena extremamente harmoniosa” de uma cozinheira, sem ter consciên- cia da sua criatividade, serve de objecto de reflexão na crónica de 16 de Maio
de 1970, em “Conversa puxa conversa”. O eu criativo e a evolução do mundo conferem uma espécie de vertigem à cronista:
Ao pensar em “milhares de anos à nossa frente”, deu-me quase uma vertigem pois não consigo contar sequer com a cor que a terra terá. A posteridade existe e esmagará o nosso presente. E se o mundo se cria por ciclos, digamos, é possível que voltemos às cavernas e que tudo se repita de novo? Dói-me até o corpo ao pensar que não saberei jamais como o mundo será daqui a milhares de anos. [. . . ] E a toada que a moça cantava vai dominar esse mundo novo: vai-se criar sem saber. [. . . ]
A empregada é magra e morena, e nela se aloja um “eu”. [. . . ] É estranho ter um corpo onde se alojar, um corpo onde sangue molhado corre sem parar, onde a boca sabe cantar, e os olhos tantas vezes devem ter chorado. Ela é um “eu” (Ib.: 289).
A jovem Cristina, entrevistadora de Clarice e também entrevistada por ela, para a série Livro de Cabeceira da Mulher, da Editora Civilização Brasileira, simboliza, segundo a crónica de 30 de Dezembro de 1967, a juventude brasileira e as suas capacidades: “Muitos rapazes e moças como você, e o Brasil iria para a frente” (Ib.: 60). A condição andrógina da escritora, independentemente da sua nacionalidade, é a perspectiva na qual se coloca a cronista:
Perguntou-me se eu me considerava uma escritora brasileira ou simples- mente uma escritora. Respondi que, em primeiro lugar, por mais feminina que fosse a mulher, esta não era uma escritora, e sim um escritor. Escritor não tem sexo, ou melhor, tem os dois, em dosagem bem diversa, é claro. Que eu me considerava apenas escritor e não tipicamente brasileiro (Ib.: 59).
Interrogada sobre a preferência pela maternidade ou pela literatura, a escri- tora opta pela primeira: “como mãe sou mais importante do que como escritora” (Ib.). Sobre a delineação das personagens femininas, protesta em parte quanto ao seu protagonismo: “Tenho um personagem masculino que ocupa o livro inteiro, e que não podia ser mais homem do que era” (Ib.). Surpreendeu a entrevistadora a resposta sobre o fracasso de escrever: “perguntou-me então por que eu escre- via. E eu não soube responder” (Ib.). Sobre a “literatura engajada”, o ponto de vista da entrevistada foi positivo: “Na verdade sinto-me engajada. Tudo o que escrevo está ligado, pelo menos dentro de mim, à realidade em que vivemos. É possível que este meu lado ainda se fortifique mais algum dia” (Ib.: 61). Quanto à literatura popular, a cronista minimizou a sua relevância no contexto nacio- nal, em face da tirania imperante e da fome generalizada (na mesma entrevista, Clarice, indagada se “era de esquerda”, respondeu “que desejaria para o Brasil um regime socialista. Não copiado da Inglaterra, mas um adaptado a nossos moldes” (Ib.: 59):
Perguntou-me o que eu achava da cultura popular. Eu disse que ainda não existe propriamente. Quis saber se eu a considerava importante. Eu disse que sim, mas que havia algo muito mais importante ainda: oferecer oportunidade de ter comida a quem tem fome. A menos que a cultura popular leve o povo a tomar consciência de que a fome dá o direito de reivindicar comida. Vide a nova encíclica que fala no recurso extremo à rebelião em caso de tirania (Ib.: 61).
A espera angustiada da chuva estival, na seca Índia, baralha a mãe de 15 filhos, na crónica “Calor humano”, de 13 de Janeiro de 1968: dois dias de falta de água, a ausência de dor, “nenhum sinal de lágrima e nenhum suor” (Ib.: 67). Só o anúncio de “um rolar de trovão seco”, ao longe, na esperança de que “agora alguma coisa vai mudar, que choverá ou que cairá a noite” (Ib.: 68) faz brotar as lágrimas: “Mas não suporta a espera de uma passagem, e antes da chuva cair, o diamante dos olhos se liquefaz em duas lágrimas. E enfim o céu se abranda” (Ib.: 68).
Duas mulheres são sinalizadas na crónica de 23 de Março do mesmo ano a partir de suas ofertas a Clarice Lispector. Ana Luísa, sua vizinha, que assistiu ao incêndio que a vitimou e é testemunha das suas insónias, mãe de Luciana, de sete ou nove anos, e de um menino de três anos, resolve presenteá-la com um polvo, porque se sentiu representada nas palavras da cronista: “Sou tímida mas tenho direito de ter meus impulsos; o que você escreveu hoje no jornal foi exatamente como eu sinto” (Ib.: 86). A ginecologista Dra. Maria B. oferece à escritora “as rosas mais lindas do mundo” (Ib.: 88), depois de chorar ao telefone, lamentando que ela desistisse de escrever romances.
Calúnias e intrigas são a resposta da escritora em “Estritamente feminino”, na crónica de 25 de Maio de 1968, à crítica de uma das assessoras à sua ausência do festival As Escritoras se Reúnem Hoje no Rio em Festival, contrapondo que só lhe “telefonaram uma vez, e não duas como relataram” (Ib.: 105) e que a sua resposta literal tinha sido que “lamentava não poder comparecer porque estaria nessa data fora do Rio” (Ib.). Acrescenta que a sua grande amiga e poeta Marly de Oliveira foi citada como presente, quando já se encontrava quinze dias antes em Buenos Aires, onde pretendia “morar alguns anos”.
A crónica de 8 de Junho do mesmo ano apresenta duas secções sobre a mu- lher: “Mulher demais” e “Ideal burguês”. A primeira desmonta os estereótipos da beleza fugaz e da segregação feminina (“desconfio de que a coluna ia era descambar para assuntos estritamente femininos, na extensão em que feminino é geralmente tomado pelos homens e mesmo pelas próprias humildes mulheres: como se mulher fizesse parte de uma comunidade fechada, à parte, e de certo modo segregada” – Ib.: 108), enquanto a segunda exprime a capacidade de or- denar o que é caótico, particularmente desempenhada pela função de secretária,
que, no entanto, para a cronista, não substitui as responsabilidades maternais (cf. Ib.: 108-110).
O drama da timidez feminina é desenvolvido na crónica “A Bravata”, de 26 de Outubro, a propósito de uma professora primária, confrontada com a dificul- dade de se apresentar com autenticidade, sem subterfúgios mascarados com a cosmética feminina (“Toda vestida, com uma máscara de pintura no rosto – ah persona, como não usar e enfim ser! -, sem coragem, sentou-se na poltrona de sua sala tão conhecida e seu coração pedia para ela não ir” – Ib.: 147), negando convites. O reencontro com um antigo amante não impediu o seu sofrimento naquele coquetel de colegas e só o sonho daquela noite pôde apaziguar a sua inquietação:
E no escuro daquela noite primaveril ela era uma mulher infeliz. Sim, era diferente. Mas sim, era tímida. Sim, era supersensível. Sim, vira um amor passado. O escuro e o perfume da primavera. O coração do mundo batia- -lhe no peito. [. . . ] Foi para casa como uma foragida do mundo. Era inútil esconder: a verdade é que não sabia viver. Em casa estava agasalhante, ela se olhou ao espelho quando estava lavando as mãos e viu a persona afivelada no seu rosto: a persona tinha um sorriso de palhaço. Então lavou o rosto e com alívio estava de novo com a alma nua. [. . . ] A pílula de dormir começava a apaziguá-la. E a noite incomensurável dos sonhos começou (Ib.: 148).
“O ritual” do adorno feminino volta a ser objecto de reflexão na crónica de 23 de Novembro, agora a propósito de si própria, na hesitação entre o parecer e o ser:
Enfeitar-se é um ritual tão grave. A fazenda não é um mero tecido, é matéria de coisa. É a esse estofo que com meu corpo eu dou corpo. Ah, como pode um simples pano ganhar tanta vida? [. . . ] Bonita, nem um pouco, mas mulher. Meu segredo ignorado por todos e até pelo espelho: mulher. Brincos? Hesito. Não. Quero a orelha apenas delicada e simples – alguma coisa modestamente nua. [. . . ] E fica de um feio hierático como o de uma rainha egípcia, com o pescoço alongado e as orelhas incongruentes. Rainha egípcia? Não, sou eu, eu toda ornada como as mulheres bíblicas (Ib.: 154).
A alma feminina de uma dona de casa brota da secção “O terremoto”, na mesma crónica, quando, depois das compras, dos telefonemas e do almoço dos filhos, sentiu um choro, sem lágrimas, vindo do mais profundo de si mesma, abalando-a como um terremoto:
Então – então do ventre mesmo, como de um longínquo estremecer de terra [. . . ] – vem afinal o grande choro, um choro quase mudo, [. . . ] aquele que ela
não quis nem previu – sacudida como uma árvore que é sempre mais sacudida que a fraca – e afinal rebentados canos e veias e tendões pela grossura da água salgada do choro. Só depois que passa percebe que nenhuma lágrima a molhou. Foi o seco terremoto de um choro (Ib.: 154-155).
Maria, mãe de Jesus, é o arquétipo superior feminino, explicitado na crónica de 21 de Dezembro. Em “Anunciação”, a partir do quadro do italiano Savelli, Maria, grávida, “aperta a garganta com a mão, em surpresa e angústia” (Ib.: 158) perante a missão, anunciada “como destino seu e destino para a humanidade através dela”, arquétipo da missão individual perante o mundo inteiro (Ib.):
É a mais bela e cruciante verdade do mundo.
Cada ser humano recebe a anunciação: e, grávido de alma, leva a mão à garganta em susto e angústia. Como se houvesse para cada um, em algum momento da vida, a anunciação de que há uma missão a cumprir.
A missão não é leve: cada homem é responsável pelo mundo inteiro (Ib.).
Em “A Virgem em todas as mulheres”, ela figura o arquétipo feminino uni- versal: na gravidez, cada mulher “sabe que dará à luz um ser que seguirá for- çosamente o caminho de Cristo, caindo na sua vida muitas vezes sob o peso da cruz” (Ib.). Em complementaridade, no diálogo masculino/feminino, surge Cristo e São José. “Cristo seria alegre se não precisasse mostrar ao mundo a dor do mundo: como homem era um ser perfeito e por isso teria alegrias perfeitas” (Ib.). S. José é o “símbolo da humildade” e da “bondade”: “Ele sabia que não era o pai da Criança e cuidava da virgem grávida como se ele a tivesse germinado [. . . ]. É o autoapagamento no grande momento histórico. Ele é o que vela pela humanidade” (Ib.: 158-159).
Em “Dia das mães”, a crónica de 13 de Maio de 1972 explana a história de uma bailarina do corpo de baile do Municipal, “muito frágil, quase sem peso, com busto de menina-moça” (Ib.: 416) que não desistia de ter um filho, ela que tinha “um aparelho genital infantil” e, embora “fértil”, não podia conceber. A cronista olha-a “quase no escuro”, reconhecendo a sua luta corajosa: “Sofrida, machucada, corajosa. Sim, ela era uma mãe, a dançarina de Degas” (Ib.: 417).
A dignidade de ser mãe, no entanto, não pode negar o direito à liberdade individual, como o caso dessa mãe da crónica de 15 de Dezembro de 1973 que, como um “cavalo bravio”, “dava uma fugida”: “Como convencê-los de que além de mãe era ela. E essa pessoa que exigia a liberdade de comer pipocas na rua” (Ib.: 475).