• No results found

Chapter 5: Rules pertaining to and the status of protected persons upon the

5.2 Legal gaps and transitional challenges?

5.2.3 The factual circumstances of the conflict and rules pertaining to the protection of the

Brasília ocupa duas das crónicas de Clarice Lispector (20 de Junho de 1970 e 7 de Outubro de 1972). A artificialidade, inerente à sua projecção de raiz, é comparada à criação do mundo:

Brasília é construída na linha do horizonte. – Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar, e depois o mundo deformado às nossas necessidades. Brasília ainda não tem o homem de Brasília (Ib.: 292-293).

Como nos mitos de fundação, Clarice entronca as origens de Brasília na escavação das suas ruínas, no século IV a. C., olhando para ela como para Roma, no esplendor espantoso da sua criação arquitectónica, tendo-se extinguido a sua raça devido à limitação da natalidade:

Olho Brasília como olho para Roma: Brasília começou com uma simplificação final de ruínas. [. . . ] Brasília é de um passado esplendoroso que já não existe mais. Há milênios desapareceu esse tipo de civilização. No século IV a.C. era habitada por homens e mulheres louros e altíssimos, que não eram americanos nem suecos, e que faiscavam ao sol. Eram todos cegos. É por isso que em Brasília não há onde esbarrar. Os brasiliários vestiam-se de ouro branco. A raça se extinguiu porque nasciam poucos filhos. [. . . ] Milênios depois depois foi descoberta por um bando de foragidos de que em nenhum outro lugar seriam recebidos; eles nada tinham a perder. Ali

acenderam fogo, armaram tendas, pouco a pouco foram escavando as areias que soterravam a cidade. Esses eram homens e mulheres menores e morenos, de olhos esquivos e inquietos [. . . ]. Eles habitaram as casas em ruínas, multiplicaram-se, constituindo uma raça humana muito contemplativa (Ib.: 293).

Como Roma, Brasília é o “retrato de uma cidade eterna”, mas também a “pai- sagem da insônia”, “assexuada”, “mal-assombrada”: “Aqui morre minha paixão. E ganho uma lucidez que me deixa grandiosa à toa. Sou fabulosa e inútil, sou de ouro puro. E quase mediúnica” (Ib.: 295). Lugar do deserto, “onde não há lugar para as tentações”, “uma praia sem mar”, “uma prisão ao ar livre”, a cidade é de uma “beleza assustadora”: “Sou atraída aqui pelo que me assusta em mim. [. . . ] Mas reconheço esta cidade no mais fundo de meu sonho. O mais fundo do meu sonho é uma lucidez” (Ib.: 294).

“As pontes de Londres”, na crónica de 20 de Novembro de 1971, servem de ex-libris à terra, à cidade e ao seu povo. Com “saudade”, Londres é recuperada “na memória” (Ib.: 390), como “terra estranha e viva, cinzenta – tudo o que é cinzento misteriosamente vibra para mim, como se fosse a reunião de todas as cores amansadas” (Ib.: 388). A estranha combinação do feio e do belo, como em oximoro, caracteriza o povo inglês, como as suas roupas: “Estive em contacto com a feiura dos ingleses, que é uma das coisas que mais atrai na Inglaterra. É uma feiura tão peculiar, tão bela – e isso não são meras palavras. [. . . ] Nas ruas o povo usa roupas tão malfeitas que terminaram se tornando um estilo belo. E agasalham mesmo” (Ib.: 388, 389). As vozes inglesas são “interrogativas e orgulhosas” (Ib.: 389). O vento de Londres faz “os olhos lacrimejar de raiva e gritar de irritação” (Ib.). O teatro, onde “uma coisa essencial se passa”, faz “tremer de frio e emoção: O ator inglês é o homem mais sério de Inglaterra” (Ib.). Se a comida tipicamente inglesa é “péssima”, a dos estrangeiros é “alegre”. O povo é “lutador”, a rainha “suave”, “os jornais têm um jeito provinciano” e há “a saudade dos escritores mortos”. “Tenho muita saudade de Lawrence” (Ib.).

O silêncio aterrador da cidade de Berna, em “Lembrança de uma fonte, de uma cidade”, da crónica de 14 de Fevereiro de 1970, é a imagem que a cronista retém dessa cidade, capital da Suíça. O que a salvou dessa monotonia “foi viver na Idade Média, foi esperar que a neve parasse e os gerânios vermelhos de novo se refletissem na água, foi ter um filho que lá nasceu, foi ter escrito [. . . ] A Cidade Sitiada” (Ib.: 270). A imagem de uma mendiga que nem sabe o que pedir, “sozinha na cidade medieval”, à hora do crepúsculo, sintetiza a sensação de viver aprisionada, numa “cidade livre”, mostrando como a frieza cultural, mais do que a meteorológica, cava fossos e distâncias entre as pessoas.

A crónica “Cosmonauta na Terra”, de 19 de Agosto de 1967, reflecte sobre a viagem de Gagarin ao espaço, mostrando uma Terra “azul para quem a olha do céu”: “Azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul” (Ib.: 25). A cor azul, simbólica de felicidade, provoca na cronista a necessidade de rever as designações de “mundo” e “Mapa mundial”: “quando eu disser «o meu mundo», me lembrarei com um susto de alegria que também meu mapa precisa ser refundido, e que ninguém me garante que, visto de fora, o meu mundo não seja azul” (Ib.). O significado simbólico da cor azul é aplicado ao “grande favor do acaso: estarmos ainda vivos quando o grande mundo começou” (Ib.), favor que deverá ser responsavelmente preservado: “precisamos fumar menos, cuidar mais de nós, para termos mais tempo e viver e ver um pouco mais; além de pedirmos pressa aos cientistas – pois nosso tempo pessoal urge” (Ib.).

É esse contraste entre a pequenez individual face à grandeza cósmica que, em “Condição humana”, se esboça na crónica de 4 de Janeiro de 1969. É um contraste que constrange, a ponto de fazer parecer inútil “ter mais liberdade”, mas também faz espantar, provocando o “riso amargo”, próprio da condição humana:

Minha condição é muito pequena. Sinto-me constrangida. A ponto de que seria inútil ter mais liberdade: minha condição pequena não me deixaria fazer uso da liberdade. Enquanto que a condição do universo é tão grande que não se chama de condição. O meu descompasso com o mundo chega a ser cômico de tão grande. [. . . ] Mas se me torno séria e quero andar certo com o mundo, então me estraçalho e me espanto. Mesmo então, de repente, rio de um riso amargo que só não é um mal porque é de minha condição. A condição não se cura, mas o medo da condição é curável (Ib.: 165).

A cidade de Deus, patente na observação de “milhares de estrelas”, “como cristais”, em “descampado” nocturno, ressalta na crónica “Mistério: céu”, de 7 de Agosto de 1971. A comparação entre o planetário natural e o tecnológico provoca o espanto na cronista: “Olhando para o céu fiquei tonta de mim mesma. Como?! Como o ser humano é genial. Como é que foram inventar o planetário?” (Ib.: 367). A observação de Júpiter e de Marte permite expressar o espanto de viver: “Somos uns privilegiados” (Ib.). E estabelece a ponte entre as relações humanas e Deus: “Juro que nós devíamos ser mais unidos: porque o Universo é tão grande que ultrapassa qualquer linha de horizonte. Se nós não nos amarmos estamos perdidos. É melhor nós nos encontrarmos em Deus” (Ib.).

A contemplação do mar, das amendoeiras e do céu nocturno pela cronista fá-la reconhecer, em “Eu tomo conta do Mundo”, na crónica de 4 de Março de 1970, a presença divina no cosmo: “O cosmo me dá muito trabalho, sobretudo porque vejo que Deus é o cosmo. Disso eu tomo conta com alguma relutância”

(Ib.: 276). Essa incumbência por vocação leva-a a dar conta da vida natural (“mil plantas e árvores”, no Jardim Botânico, as “mudanças de estação”, uma “fileira de formigas”, o voo e a actividade das abelhas), mas também das carências dos seres humanos e, até, das suas guerras e seus “crimes de leso-corpo e lesa-alma”. As cidades dos homens contrastam com a cidade de Deus:

Observo o menino de uns dez anos, vestido de trapos e magérrimo. Terá futura tuberculose, se é que já não a tem. [. . . ] Se tomar conta do mundo dá trabalho? Sim. E lembro-me de um rosto terrivelmente inexpressível de uma mulher que vi na rua. Tomo conta dos milhares de favelados pelas encostas acima. [. . . ] Hão de me perguntar por que tomo conta do mundo: é que nasci assim, incumbida. E sou responsável por tudo o que existe, inclusive pelas guerras e pelos crimes de leso-corpo e lesa-alma. Sou inclusive responsável pelo Deus que está em constante cósmica evolução para melhor (Ib.: 276).

A desconcertante incumbência cósmica da cronista é, porém, ironicamente desmontada: “Só não encontrei ainda a quem prestar contas” (Ib.).

1.10. A Palavra aos outros – Entrevistas