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Chapter 5: Rules pertaining to and the status of protected persons upon the

5.1 Developments of IHL pertaining to the protection of civilians

5.1.2 Definition of the concept “civilian” and rules pertaining to the protection of civilians…

Sensível à Natureza, a obra de Clarice Lispector assenta, em grande parte, na fonte inspiradora, tanto referencial como metafórica, do mundo vegetal e animal, como interacção harmoniosa com a figuração humana.

A cronística não é excepção a essa abordagem, já que contempla várias his- tórias e reflexões que têm como fulcro esse mundo.

“Rosas silvestres”, na crónica de 25 de Maio de 1968, é a expressão metafó- rica do mundo: “Só esta expressão rosas silvestres já me faz aspirar o ar como se o mundo fosse uma rosa crua” (Ib.: 105). E explica: “o perfume delas, meu Deus, me dá ânimo para respirar e viver” (Ib.). O segredo de tal ânimo provém da sua capacidade progressivamente exalante: “à medida que vão envelhecendo vão perfumando mais” (Ib.). O auge desse perfume é atingido no momento termi- nal: “Quando finalmente morrem, quando estão mortas, mortas – aí então, como uma flor renascida no berço “paradoxo parece simbolizar a coroação de uma mis- são cumprida até à exaustão: “Mas como jogá-las fora se, mortas, elas têm a alma viva?” (Ib.: 106). O aproveitamento desse perfume vital a partir das suas pétalas, na “gaveta de roupa”, desperta o desejo de imitação: “Era assim que eu queria morrer: perfumando de amor. Morta e exalando a alma viva” (Ib.). As rosas silvestres, em ramos de trepadeira, simbolizam, deste modo, a utopia de um mundo belo e harmonioso, profundamente amado e buscado até à morte: “Rosas silvestres, eu vos amo. Diariamente morro por vosso perfume” (Ib.).

Esta exaltação do perfume, bem simbólica do mundo feminino e do cosmo em geral, concretiza-se também na flor do jasmim, no “cheiro do mar” e da terra, em “Os perfumes da terra”, da crónica de 7 de Setembro. A arte de se perfumar, como função auto-identificadora, provém, afinal, de “uma sabedoria instintiva”: “E eu me perfumo para intensificar o que sou. Por isso não posso usar perfumes que me contrariem. [. . . ] E como toda a arte, exige algum conhecimento de si própria. Uso um perfume cujo nome não digo: é meu, sou eu” (Ib.: 132-133). Daqui a relação perfume e segredo: “é bom perfumar-se em segredo” (Ib.: 133). O perfume das flores atinge o seu máximo esplendor natural na estação primaveril, como se destaca na crónica de 5 de Outubro, “Eu sei o que é a primavera”. Mais uma vez, o mundo vegetal, agora no seu estádio renovador, simboliza o próprio eu, integrado na Natureza, em diálogo humilde e aberto com a pluralidade dos outros e plenitude do “grande Outro”:

Sei o que é a primavera porque sinto um perfume de pólen no ar, que talvez seja o meu próprio pólen, sinto estremecimento à toa quando um passarinho canta, e sinto que sem saber eu estou reformulando a vida. Porque estou viva. A primavera torturante, límpida e mortal que o diga, ela que me encontra

cada ano tão pronta para recebê-la. [. . . ] Aceito esta minha cabeça à chuva tremeluzente da primavera, aceito que eu existo, aceito que os outros existam porque é direito deles e porque sem eles eu morreria, aceito a possibilidade do grande Outro existir apesar de eu ter rezado pelo mínimo e não me ter sido dado” (Ib.: 141).

Desafio de viver, mesmo sangrando, e aceitação da morte, “de amor pungente e coração enfraquecido”, é a grande lição da Primavera: “Ser às vezes sangra. Mas não há como sangrar pois é no sangue que sinto a primavera. Dói. [. . . ] E sinto que um dia na primavera é que vou morrer” (Ib.).

Em “Primavera se abrindo”, da crónica de 4 de Outubro de 1969, a oferta de uma “planta, prímula” remete para a complexidade cósmica: “tão misteriosa que no seu mistério está contida a explicação inexplicável de uma presença divina: o segredo do cosmos” (Ib.: 237). Como uma máquina programada, as suas flores abrem-se, anunciando a Primavera:

Quando se aproxima a primavera, suas folhas morrem e em lugar delas nas- cem várias flores fechadas. A cor é roxo-violeta e branco, e mesmo fechadas têm um perfume feminino e masculino que é extremamente estonteador. O segredo destas flores fechadas é que exatamente no primeiro dia da pri- mavera elas se abrem e se dão ao mundo. Como? Mas como sabe essa modesta planta que a primavera acaba de se iniciar? E as flores se abrem de repente. A gente está sentada perto, olhando distraída, e eis que elas vagamente vão se abrindo e se entregando à nova estação, sob os nossos olhos espantados (Ib.: 237-238).

A citação do Livro do Eclesiástico (24: 33) consagra esta crónica primaveril, num apontamento espiritual digno de registo: “Cresci como a vinha de frutas de agradável odor e minhas flores são frutos de glória e abundância” (Ib.: 238).

“O milagre das folhas”, caindo delicadamente no cabelo e nos cílios da cro- nista, é objecto da crónica de 4 de Janeiro de 1969, ao significar a relação entre os outros e o eu, nem sempre pacífica e racional, mas também a escolha de Deus:

O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhões de folhas trans- formadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modesta- mente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.

Um dia uma folha me bateu nos olhos. Achei Deus de uma grande delicadeza (Ib.: 165-166).

Em “Brain Storm”, da crónica de 22 de Novembro do mesmo ano, as flores do campo são evocadas como símbolo de beleza simples e natural, não cultivada, como é preconizado na espiritualidade franciscana:

Vejo as flores na jarra: são flores-do-campo, nascidas sem se plantar, são lindas e amarelas. Mas minha cozinheira disse: mas que flores feias. Só porque é difícil compreender e amar o que é espontâneo e franciscano. En- tender o difícil não é vantagem, mas amar o que é fácil de se amar é uma grande subida na escala humana (Ib.: 245).

A metáfora da “rosa da semana” é, na crónica de 11 de Julho de 1970, aplicada ao sábado e ao domingo de manhã: “e ao vento sábado era a rosa de nossa insípida semana” (Ib.: 297).

No Dia da Árvore, a crónica de 21 de Setembro contempla “Um reino cheio de mistério”. Reivindicando o dia da plantação, a cronista faz considerações sobre o acto de plantar e da espera paciente da colheita, tal como na criação artística, partilhando a experiência nas culturas do milho e do tomate: “Esperar que algo amadureça é uma experiência sem par: como na criação artística em que se conta com o vagaroso trabalho do inconsciente. Só que as plantas são a própria inconsciência” (Ib.: 317). A contemplação do reino vegetal, no Jardim Botânico, é um transporte “para um novo reino”:

Entrar no Jardim Botânico é como se fôssemos trasladados para um novo reino. Aquele amontoado de seres livres. O ar que se respira é verde. E úmido. É a seiva que nos embriaga de leve: milhares de plantas cheias de vital seiva. Ao vento as vozes translúcidas das folhas de plantas nos envolvem num suavíssimo emaranhado de sons irreconhecíveis. Sentada ali num banco, a gente não faz nada: fica apenas sentada deixando o mundo ser. O reino vegetal não tem inteligência e só tem um instinto, o de viver. Talvez essa falta de inteligência e de instintos seja o que nos deixa ficar tanto tempo sentada dentro do reino vegetal (Ib.: 318).

Em “Dicionário”, a crónica de 3 de Abril de 1971 regista, sem ordem alfabé- tica, várias entradas de verbetes do reino vegetal: néctar, pistilo, pólen, estame, fecundação, rosa, cravo, girassol, violeta, sempre-viva, margarida, palma, orquí- dea, tulipa, florzinha dos trigais, angélica, jasmim, estrelícia, “azaleia”, dama-da- -noite, flor de cactos, “edelvais”, gerânio, vitória-régia. Mais do que definições ou caracterizações botânicas, os verbetes expressam o olhar particular da cronista, como o da “rosa”:

Rosa – É a flor feminina, dá-se toda e tanto que para ela própria só resta a alegria de se ter dado. Seu perfume é de um mistério feminino, se profunda- mente aspirada, toca no fundo do coração e deixa o corpo todo perfumado.

O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo. Suas pétalas têm um gosto bom na boca, é só experimentar. As vermelhas ou as príncipe negro são de grande sensualidade. As amarelas dão um alarme alegre. As brancas são a paz. As cor-de-rosa são em geral mais carnudas e têm a cor por excelência. As alaranjadas são sexualmente atraentes (Ib.: 338).

O apelo à partida eterna é expresso na alegoria “Flor mal-assombrada e viva demais”, na crónica de 6 de Maio de 1972, descodificada como o “encontro temerário” da abelha (a cronista) com a flor, a rosa:

[. . . ] era como se eu nunca tivesse visto uma flor – era alguma coisa perfeita e cheia de graça que parece sobre-humana mas é vida – e com medo inventei que aquela flor era a alma de alguém que acabara de morrer [. . . ] e a flor estava tão vibrante como se houvesse uma abelha perigosa rondando-a [. . . ] melhor dizer que a abelha e a flor emocionadas se encontravam, vida contra vida, vida a favor da vida – [. . . ] a abelha era eu – e a flor tremia diante da doçura perigosa da abelha – [. . . ] não entendo que se possa ter medo de uma rosa – pois a flor era uma rosa – [. . . ] e as flores e as abelhas já me chamam – [. . . ] e na verdade profundamente eu quero ir – é o encontro meu com meu destino esse encontro temerário com a flor (Ib.: 415).

“A rosa branca”, na crónica de 23 de Setembro, fecha a série do mundo vegetal. A flor é caracterizada com duas metáforas em sinestesia, a da “catedral de vidro” e a do coral infantil, a duas vozes, ambas figurativas da espiritualidade:

Corola alta: que extrema superfície. Catedral de vidro superfície da super- fície, inatingível. Pelo teu talo duas vozes à terceira e à quinta e à nona se unem em coral – crianças sábias abrem bocas de manhã e entoam espírito, leve superfície de espírito, superfície intocável de uma rosa (Ib.: 424).

Na invocação que lhe dirige, confronta-se a dilacerante contradição entre o delicado desejo da sua alegre harmonia e o pudor verbal de um “coração grosseiro”:

Não abaixo minha cabeça rosnante: quero ao menos sofrer tua vitória com o sofrimento angélico de tua harmonia, de tua alegria. Mas dói-me o coração grosseiro como em amor por um homem. E das mãos tão grandes saem as palavras envergonhadas (Ib.).

Recorrente na obra clariciana, o bestiário confere à escrita uma “carga em- blemática”, na expressão de Carlos Mendes de Sousa (SOUSA, 2000: 235), com a “presença obsessiva” de várias figuras:

O animal começa por ser entrevisto como um dos mais óbvios e indispensáveis signos numa caracterização da escrita de Clarice Lispector, cuja fundamen- tação pudemos encontrar algo no ovo, figura fundadora. Falar em Clarice Lispector é falar da barata ou da galinha ou do cavalo e poder-se-ia, se- guidamente, continuar com um extenso rol: o cão, um búfalo, um mico, uma esperança, etc. No entanto, os três primeiros constituem uma tríade obses- siva [. . . ] um funcionamento singular (SOUSA, 2000: 235).

Em “Uma história de tanto amor”, da crónica de 10 de Agosto de 1968, correspondente a um conto homónimo de Felicidade Clandestina (1971), “Era uma vez uma menina que observava tanto as galinhas que lhes conhecia a alma e os anseios íntimos” (LISPECTOR, 1999: 123). A pretensa doença de fígado que ela diagnosticara numa das suas galinhas (Pedrina e Petronilha) mais não era do que uma característica galinácea, pois “o cheiro debaixo das asas era aquela morrinha mesmo” (Ib.: 123):

A menina ainda não tinha entendido que os homens não podem ser curados de serem homens e as galinhas de serem galinhas: tanto o homem como a galinha têm misérias e grandeza (a da galinha é a de pôr um ovo branco de forma perfeita) inerentes à própria espécie (Ib.: 123-124).

A decepção da menina, ao deparar com o abate da galinha Petronilha, quando regressa a casa, depois de um dia fora, corresponde a um amor gratuito que foi contrariado pela família: “A menina era criatura de grande capacidade de amar: uma galinha não corresponde ao amor que se lhe dá e no entanto a menina continuava a amá-la sem esperar reciprocidade” (Ib.: 124). Por isso, “passou a odiar todo o mundo da casa, menos sua mãe que não gostava de comer galinha e os empregados que comeram carne de vaca ou de boi” (Ib.). Comportamento diferente foi verificado quando, “um pouco maiorzinha”, o seu amor por outra galinha, a Eponina, era “mais realista e não romântico: era o amor de quem já sofreu por amor” (Ib.). Por isso, ao chegar “a vez de Eponina ser comida, a menina não apenas soube como achou que era o destino fatal de quem nascia galinha” (Ib.: 124-125). O amadurecimento racional e afectivo da menina fê- -la compreender o drama da solidão dos animais: “As galinhas pareciam ter a presciência do próprio destino e não aprendiam a amar os donos nem o galo. Uma galinha é sozinha no mundo” (Ib.: 125). Em compensação, recordou as palavras da mãe no momento do primeiro desgosto: “comeu Eponina mais do que todo o resto da família, comeu sem fome, mas com um prazer quase físico porque sabia agora que assim Eponina se incorporaria nela e se tornaria mais sua do que em vida” (Ib.). O pormenor do “ritual pagão” do “molho pardo” com o qual Eponina foi cozinhada reforça essa nova relação de posse entre a menina e

a sua favorita: “De modo que a menina, num ritual pagão que lhe foi transmitido de corpo a corpo através dos séculos, comeu-lhe a carne e bebeu-lhe o sangue” (Ib.). No entanto, tal não impediu a normal evolução afectiva da menina, apesar dos “ciúmes” que, nessa refeição tinha “de quem também comia Eponina”: “A menina era um ser feito para amar até que se tornou moça e havia os homens” (Ib.).

Em “Nossa Truculência”, de 13 de Dezembro de 1969, a cronista como que retoma o desfecho da história anterior, repensando a nossa tendência canibal, a partir do prato de galinha ao molho pardo:

Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência. Eu, que seria incapaz de matar uma ga- linha, tanto gosto delas vivas mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Deveríamos não comê-la e ao seu sangue? Nunca. Nós somos canibais, é preciso não esquecer. É respeitar a violência que temos. E, quem sabe, se não comêssemos a galinha ao molho pardo, comeríamos gente com seu sangue. [. . . ] A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical. E quantos morrem com sangue. É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida. A truculência. É amor também (Ib.: 252).

Em A Vida Íntima de Laura (1974), a autora descreve o modo de comer a “galinha ao molho pardo”, acrescentando que “as pessoas são uma gente meio esquisitona”, perguntando “há quanto tempo existe galinha na terra” e respon- dendo que não sabe. Carlos Mendes de Sousa, citando DELEUZE e GUATTARI (1989: 23), sobre o “sub-humano de um devir-animal” no universo de Kafka (cf. SOUSA, 2000: 241), declara:

Matar a galinha acolhida e amada e depois comê-la é um modo de parti- cipar dela, devindo-se animal, e de um modo de, ao mesmo tempo, activar um movimento desterritorializador que instaura o gesto literário, Para isso contribui, sem dúvida, a paródia face os ritos sacrais (SOUSA, 2000: 242).

Mas é a “Atualidade do ovo e da galinha”, em três crónicas (5, 12 e 19 de Julho de 1969) que ocupa a parte fulcral das fábulas relativas ao reino animal. Símbolo da génese da vida animal, o ovo atrai a cronista, convidando-a a meditar no mistério dessa energia celular, imagem do Deus criador, mas também metáfora da vida humana:

– Você é perfeito, ovo. [. . . ] A você dedico o começo. [. . . ] O ovo é uma exteriorização: ter uma casca é dar-se. [. . . ] O ovo é a alma da galinha. [. . . ] Eu te amo, ovo. [. . . ] O ovo nunca lutou para ser um ovo. O ovo é um dom.

[. . . ] De ovo a ovo chega-se a Deus, que é invisível a olho nu. [. . . ] O ovo é o grande sacrifício da galinha. [. . . ] O ovo é o sonho atingível pela galinha. [. . . ] Viver leva à morte. [. . . ] Sobreviver chama-se manter a luta contra a vida que é mortal. Ser uma galinha é isso. [. . . ] A nossa visão de sua vida interior é o que chamamos de galinha. [. . . ] A galinha olha o horizonte (Ib.: 207-209).

Efectivamente, o ovo considerado pela cronista ultrapassa o significado ime- diato e literal para metaforizar o próprio amor humano, sobretudo o amor verda- deiro:

Comecei a falar da galinha e de há muito já não estou falando da galinha. Mas ainda estou falando do ovo. [. . . ] A um certo modo de olhar, a um jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. [. . . ] Amor, sobretudo entre homem e mulher, é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor verdadeiro, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. [. . . ] Há os que se voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: o amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter (Ib.: 211).

A reflexão sobre a vida continua até a cronista se lembrar de que esqueceu o ovo, esperando um dia que “ele se locomova do espaço” até à sua janela, que desde sempre deixou aberta, a janela da comunicação com o mundo: “E talvez de madrugada baixe no nosso edifício o ovo. Sereno até a cozinha. Iluminando-a com minha palidez” (Ib.: 214).

“Cinco relatos e um tema”, na crónica de 26 de Julho do mesmo ano, apresenta a história alegórica da morte das baratas: “Esta história poderia chamar-se As estátuas. Outro nome possível é O assassinato. E também Como matar baratas” (Ib.: 214). De três “histórias verdadeiras, porque nenhuma delas mente a outra” forma uma única, podendo ser, como os contos de Xerazade, das Mil e Uma Noites, “mil e uma, se mil e uma noites me dessem” (Ib.). De comum às cinco histórias estão a ameaça da invasão das baratas e a busca de uma receita da sua exterminação. Na terceira história, As estátuas, impõe-se o espectáculo visual das múmias exterminadas, como em Pompeia, após a sua derrocada pela erupção vulcânica do Vesúvio, no ano 79 d.C. Na quarta, ressurgem em fila as baratas. Na quinta, a história é apenas esboçada a partir de um optimismo filosófico leibniziano, indiciando uma mudança de atitude em face das anteriores vítimas, nem que seja num espaço longínquo, como a Polinésia: “A quinta história chama- -se Leibnitz e a transcendência do amor na Polinésia” (Ib.: 216). De qualquer modo, interessa assinalar o tormento psicológico da cronista perante as vítimas, numa defesa indirecta e irónica da Vida e de todos os seres vivos, ainda que

pareçam ameaçadores e asquerosos. Afinal, por mais que se ameacem os seres vivos, eles conseguem ressurgir das cinzas, como a mítica ave da fénix:

Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. [. . . ] Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.

Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompeia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro.

A quarta narrativa inaugura nova era no lar. [. . . ] Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva, em fila indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? Como quem já não dorme sem a avidez de um rito. [. . . ] Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. [. . . ] Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: “Esta casa foi detetizada” (Ib.: 214-216).

A “Morte de uma baleia”, na crónica de 17 de Agosto de 1968, reforça este sentido de repúdio da morte e da consciência da vida, não só em relação aos animais mas também aos seres humanos, ao mesmo tempo que a morte surge como um motivo de reflexão sobre a grandeza e os limites da condição humana:

Não, não fui vê-la: detesto a morte. Deus, o que nos prometeis em troca de morrer? [. . . ]

Fora das vezes em que quase morri para sempre, quantas vezes num silêncio humano – que é o mais grave de todos do reino animal –, quantas vezes num silêncio humano minha alma agonizando esperava por uma morte que não