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Castells (1991) define o espaço de fluxos como “a organização material das práticas sociais de tempo compartilhado que funcionam por meio de fluxos”. Os fluxos são “seqüências intencionais, repetidas e programáveis de intercâmbio e interação entre posições fisicamente desarticuladas mantidas por atores sociais nas estruturas econômica, política e simbólica da sociedade.”24 (p. 501).

A narrativa ficcional digital no ciberespaço é composta por esstes fluxos, onde seqüências de comportamento de agentes sociais elaboram esse material sócio-cultural.

Representando tais estruturas de fluxo, assim retratando mimeticamente a dinâmica da realidade ordinária e integrando-a ao espaço virtualizado ficcional e o ambiente eletrônico onde se manifesta a representação, o espaço ficcional funciona de forma parecida, criando uma dimensão diegética.

O espaço da ficção literária sempre foi composto por fluxos psíquicos que conduziam o leitor ao espaço projetado e descrito pelo autor para o desenvolvimento da narrativa. O tempo intemporal, definido pelo autor, seria “a forma dominante emergente do tempo social na sociedade em rede porque o espaço de fluxos não anula a existência de lugares”.

Estes dois aspectos, espaço e tempo, indicados pelo teórico, foram já citados por David Harvey (1997), no livro Condição pós-moderna, como transformações atuais do capitalismo, baseando-se na compreensão temporal e espacial.

Assim, chegamos ao tempo virtual, que Castells define pelo fato da intemporalidade ser um aspecto fundamental do hipertexto de multimídia que influencia a cultura atual “modelando as mentes e memórias das crianças educadas no novo contexto cultural”. Outro momento seria o de uma “cultura do eterno e do efêmero”. Hibridização de linguagens, de mídias disponibilizadas em um mesmo canal, tudo se baseia na velocidade do consumo de informações.

24 Castells define estruturas sociais dominantes como os procedimentos de organizações e instituições cuja lógica interna desempenha papel estratégico na formulação das práticas sociais e da consciência social para a sociedade em geral.

92 O tempo biológico natural, o tempo cronológico, o psicológico em suas vertentes irão compartilhar a existência com esse tempo virtual intemporal modelado pelo espaço de fluxo, o espaço irá condicionar o tempo, criando paradigmas dentro e fora da rede.

O espaço virtual é um espaço de fragmentações, multilineariedades, polifonias e discursos ideológicos multifacetados que convergem interconectados à rede informativa. É um novo contexto que gera novos aspectos técnicos de escritura e dinâmicas de leitura diferenciadas em suas metodologias, já que origina uma movimentação contínua de recentramento ou de movimentação multidirecional nos nós do hipertexto.

O tempo se manifestará em suas versões cronológicas e psicológicas em feixos de fluxos contínuos nas narrativas construídas ora tendendo a atemporalidade e a um congelamento espacial ou transitando em várias versões de tempo e em várias dimensões espaciais que podem ou não propor acesso simultâneo pelo leitor/usuário. As dimensões sociais serão marcadas pelo tempo e pela cadência e desenvolvimento da lógica composicional de uma narrativa ficcional, como também pelo desdobramento do enredo e dos personagens.

A cibernarratologia seria a busca de identificar uma lógica da poiesis da narrativa ficcional que demonstre padrões estáveis e reconhecíveis desde a era da evolução da técnica oral narrativa para a escrita até os dias da revolução digital. Uma poiesis que abarcaria a obra literária e a narrativa ficcional em sua funcionalidade de sistema comunicativo avançado que produz uma rede de referências e correferências, inferências, intertextualidades entre outros. Uma poiesis da estrutura e da recepção, da dimensão do escritor e do leitor, do leitor-jogador, do escritor-leitor, do leitor e escritor coletivo.

Kate Hamburger (1986) afirma:

A lógica da Arte Literária tem por objeto a relação da obra com a linguagem [...]. Não considerada a linguagem em sua função descritiva e expressiva nem, por conseguinte o fato mais ou menos trivial de que a Literatura é a arte da linguagem no sentido de arte verbal. É antes desenvolvida a partir da circunstância de que a linguagem como material configurativo da criação literária é ao mesmo tempo o veículo através do qual se realiza a vida humana propriamente dita. Essa descoberta não é nova. Wilhelm Schlegel a formulou quando disse que o “meio da poesia é o mesmo através do qual o espírito humano chega à consciência de si e organiza seus devaneios, ou seja, é a língua. (Introdução, p. VIII).

A lógica da criação é um aspecto de suma importância para todo o levantamento de evolução histórica da técnica da narrativa. Contadores de histórias, escritores, dramaturgos fizeram o repasse desses aspectos lógicos de constituição textual e de composição de

93 leituras. O código lógico da narrativa ficcional é compartilhado por escritores e leitores, assim com o boom das mídias, esquecemos que a principal mídia foi a escrita e por sua vez o próprio texto literário.

Segundo Lisa Gitelmann (2006), o modelo de mídia pode ser entendido em dois níveis: no primeiro, como uma tecnologia que permite a comunicação, e, no segundo, como um meio. O modelo de mídia é um conjunto de protocolos associados ou práticas sociais e culturais que cresceram em torno dessa tecnologia. A autora afirma que “protocolos expressam uma grande variedade de relações sociais, econômicas e materiais”.

O sistema comunicacional literário requer uma rede intrincada de significados e significações; é uma prática social e cultural legítima e que acompanha a humanidade desde os primórdios do desenvolvimento da linguagem humana. As narrativas ficcionais acompanharam o homem tribal e continuam a manter seu poder na era do homem tribal digital criando e recriando, expandindo e retraindo, hibridizando formas de narrativa ficcional e outros textos de gêneros diversos.

Portanto, fundamentados nesse conceito de mídia, podemos considerar a literatura como uma das mídias mais antigas por constituir uma tecnologia avançada na elaboração da linguagem de um código básico para um policódigo e uma rede de significados e significações além do poder da intertextualidade.

A literatura atinge também o segundo nível, pois sua construção como sistema comunicativo-estético-cultural faz com que se desenvolvam protocolos de comunicação avançados que requerem um prévio arcabouço informativo e de modelos textuais de diversas áreas para um completo acesso à rede de sentidos e significações.