Proposal for a European Parliament and Council Directive on Settlement Finality and Collateral Security
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Enquanto Cox situou a bases de estruturação da atual ordem mundial no contexto do iluminismo, Dussel (170) analisou a formação do “Sistema-Mundo” a partir da colonização das Américas, quando a Europa começou a obter a “vantagem comparativa” que lhe permitiria controlar todo o sistema “planetário” de ordenação política, econômica e cultural até ser superada no século XX pelos Estados Unidos da América, cujo mecanismo de gestão colonial, longe de ser modificado, foi apenas atualizado e fortalecido sob a forma de uma nova ‘colonialidade’.
Ao contrário da historiografia hegemônica, Dussel finca as raízes do sistema- mundo no século XV, quando a Europa ocidental era apenas uma área periférica do planeta frente a um longo momento marcado por descobertas, construções e desenvolvimento das bases epistêmicas e técnicas que, mais tarde, viriam a ser apropriadas pela própria Europa como parte de seu projeto de expansão e dominação colonial.
Para melhor compreender este processo é necessário retornar até o continente asiático-africano-mediterrâneo, região que em 4.000 a.C era o centro de um sistema inter-regional de comércio composto pelas “altas culturas” daquele período. Dussel argumenta, novamente ao contrário da leitura eurocêntrica, que a ‘origem’ da atual ‘cultura civilizatória’ não ocorreu na Grécia clássica, mas está forjada como produto tardio de um processo iniciado há mais de 6.000a.C na África negra, quando os plantadores bantus emigraram para o Nilo e influenciaram o que viria a ser constituída no milênio seguinte como a “alta cultura egípcia”, um dos polos do primeiro sistema inter-regional de comércio (171).
A outra ponta deste primeiro sistema inter-regional estava localizada na Mesopotâmia, cuja cultura foi paulatinamente formada desde o oitavo milênio a.C pelos povos sumérios, mesopotâmicos e semitas que viviam na região dos rios Tigres e Eufrates. A relação geográfica entre dois polos regionais (egípcia- mesopotâmica) estava ligada por uma região intermediária em que viviam os fenícios, hebreus e outros povos que formariam a síntese cultural das duas grandes “civilizações” daquele período.
Dussel destaca que naquele mesmo período pós-revolução neolítica floresciam em outras partes do planeta outras culturas e civilizações que não estavam diretamente vinculadas ao sistema inter-regional de comércio, especificamente as surgidas entre os rios Indo e Pendjab, na Índia, nas margens do rio Amarelo, na China e em diversas regiões do planeta, incluindo no que veio a ser chamado de continente americano.
O segundo estágio do sistema inter-regional foi constituído pelos polos indo- europeus com a conquista das estepes euroasiáticas pelos povos que dominavam a tecnologia do ferro, momento de germinação dos primeiros “grandes impérios” que reproduziram as primeiras “visões de mundo”, denominadas por Dussel como “ontologias da ‘Totalidade, do absoluto, do Um”, como os Hindus, na Índia, os persas, no Irã, os gregos e romanos no mediterrâneo, os budistas no Nepal e os taoístas/confucianista na China (172).
O terceiro estágio do sistema inter-regional continuou no continente asiático- afro-mediterrâneo a partir dos anos 300 d.C. com a constituição da “rota comercial da seda”, quando a Índia e China consolidaram-se como centros produtores e a região persa fixou-se como eixo comercial de ligação entre o extremo oriente, o
mundo bizantino e os impérios greco-romano-germânicos. Segundo Dussel, após o século sétimo d.C., o “centro” do sistema inter-regional foi dominado pelos semitas que constituiriam o mundo mulçumano, detentores da então “alta cultura” do período e responsáveis pelo desenvolvimento de importantes sistemas científicos, econômicos e filosóficos que seriam séculos mais tardes apropriados pela Europa (173).
Esta breve leitura revela que durante muito tempo o continente europeu (em sua parte ocidental) era apenas uma periferia do sistema inter-regional, inclusive com momentos de total exclusão frente aos principais centros de comércio do mundo. Dussel destaca que este é o período chamado “Idade das Trevas” ou “Idade Média” na perspectiva eurocêntrica da história, mas que foi de grande efervescência cultural, filosófica e científica naquelas outras regiões do planeta. De fato, a religação da Europa com o sistema inter-regional iniciou-se apenas com as Cruzadas a partir do primeiro milênio d.C, mas ainda assim mantendo-a numa relação periférica que só veio a ser alterada no final do século XV com evento transformador de toda a “geopolítica” planetária: a conquista das américas.
É nesta perspectiva contrária ao mito eurocêntrico que explica o desenvolvimento do pensamento moderno como resultado “interno” de um processo autopoiético com raízes helênicas, tal como entendiam diferentes pensadores daquele continente, incluindo Weber, Hegel, Nietzsche e Habermas, que a modernidade explica-se como resultado de um processo para a localização da Europa como novo “centro” para gestão do primeiro “Sistema-Mundo” (isto é, planetário) formado a partir da conquista do ‘último continente’. Ou seja, tanto a conquista das Américas pela Europa quanto o do pensamento moderno não foram causados por uma suposta superioridade cultural intrínseca baseada em vantagens biológicas da ‘raça branca’ ou das graças religiosas concedidas pela ‘fé cristã’, mas como resultado de um processo de gestão do continente Americano que foi apenas ocasionalmente liderado pelas nações europeias.
A esse respeito, Dussel destaca que o parâmetro determinante para a liderança do processo de colonização da América pela Europa não esteve relacionado à possibilidade tecnológica, pois, de fato, outras culturas, como a chinesa, já haviam desenvolvido tecnologias de navegação mais avançadas do que as que os portugueses desenvolveram no século XV. O principal fator da conquista
foi geopolítico, pois, embora haja registros de que a China tenha visitado repetidas vezes o leste do continente americano entre os anos 1405 e 1433, nunca houve por parte de seus governantes qualquer interesse em ocupar aquele espaço que até então era considerado como mais uma ‘península oriental’. Tampouco havia o interesse de avançar até Europa, uma vez que o “centro” do sistema inter-regional sempre esteve no continente asiático-afro-mediterrâneo, ou seja, ao “ocidente” da China e ao “oriente” da Europa.
Já para a Europa, ao contrário, a conquista do continente Americano resultou justamente da tentativa de reconexão do continente com o centro do sistema inter- regional quebrado após o fracasso das Cruzadas em 1291. De fato, foi por esta necessidade geopolítica que Portugal iniciou o processo de expansão mercantil atlântica e que levou anos depois a Espanha a “encontrar” a América em 1492. Dussel recorda que a existência do que veio a ser a América já estava documentada em cartografias antes da ”descoberta”, no entanto, não como um continente, mas como uma península asiática. Foi por esse motivo, inclusive, que Cristóvão Colombo convenceu os reis católicos da Espanha a investir em sua proposta de chegar às ‘Índias Ocidentais’ pelo oceano atlântico.
Também foi assim que ao conquistar a América a Europa iniciou o lento processo de constituição do “sistema-mundo” que interligaria todo o planeta, concedendo-lhe uma “vantagem comparativa” em relação às outras culturas. Este processo, ainda contínuo, foi liderado ao longo dos últimos 500 anos por diferentes ‘centros’: primeiro pela Espanha, depois Holanda e em seguida pela Inglaterra, cuja hegemonia permaneceu absoluta até a primeira grande guerra mundial no século XX, quando o poder de “gestão” do sistema-mundo foi apropriado pelos Estados Unidos da América.
Abrindo outra importante clivagem em relação à Escola de Frankfurt, Dussel assevera que foi necessidade da simplificação da “gestão” de um sistema-mundo de escala planetária que levou à constituição da modernidade e de suas revoluções científicas após o século XVII. Ou seja não foi a ‘razão’ que permitiu a colonização as américas, mas foi o processo de gestão das colônias que levou ao desenvolvimento da racionalidade eurocêntrica que colonizou desde a subjetividade (com a institucionalização de um “Eu” individualizado e separado da comunidade e
do corpo) até a política e a economia (com a institucionalização dos Estados-Nação e do capitalismo). Segundo Dussel:
Se observamos as datas de formulação do novo paradigma científico moderno, podemos concluir que acontece na primeira metade do século XVII. Pois bem, este novo paradigma, de acordo com as exigências de eficácia, factibilidade tecnológica de rendimento econômico, de gestão de um sistema-mundo enorme e em expansão, é a expressão de um necessário processo de simplificação por racionalização do mundo da vida [...] A racionalização indicada por Werner Sombart, Ernst Troeltsch ou Max Weber é efeito e não causa (174).
Em síntese, o pensamento racional (técnico, científico e filosófico) da modernidade foi paulatinamente desenvolvido como um processo histórico que respondeu a necessidade geopolítica da Europa para aplicar um ponto de vista “universal”, “neutro” e “objetivo” capaz de homogeneizar, e mesmo de legitimar, a gestão do sistema-mundo desde um espaço geográfico muito particular daquele continente. Dussel destaca que todo esse processo epistêmico-político foi continuadamente aprofundando e radicalizado até encontrar sua expressão maior no pragmatismo científico e político dos EUA, o que lhe permitiu firmar-se como novo centro de poder global.